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Opinião

Não queremos um Hashd al-Shaabi libanês

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Foto QASSEM AL-KAABI/AFP
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Por Jad Akhawi
Publicado set 27, 2026 - 18:55

À medida que o debate se aproxima do futuro das armas do Hezbollah, começam a surgir ideias que, à primeira vista, parecem «realistas»: o que fazer com milhares de combatentes? Devemos integrá-los ao Exército? Devemos criar para eles uma estrutura de segurança específica? Devemos absorver gradualmente a estrutura militar do partido dentro das instituições do Estado?

Minha resposta é clara: não.

Sou contra a integração dos combatentes do Hezbollah, como corpo ou bloco organizado, ao Exército libanês ou às forças de segurança. E sou contra a criação de qualquer nova formação, sob qualquer denominação, que permita que a estrutura militar do partido continue existindo dentro do Estado.

Porque, se fizermos isso, teremos transferido o problema de fora do Estado para dentro dele.

E temos diante de nós uma experiência sobre a qual devemos refletir com atenção: o Iraque.

O que o Hashd al-Shaabi nos ensinou?

O Hashd al-Shaabi surgiu em circunstâncias diferentes das do Líbano, em um momento de grave colapso da segurança, com a expansão do «Estado Islâmico» em 2014. Portanto, não se deve estabelecer uma equivalência simplista entre o Hashd e o Hezbollah.

Mas a experiência iraquiana oferece uma lição de enorme importância sobre a ideia de integrar organizações armadas ao Estado.

Em 2016, o Parlamento iraquiano reconheceu o Hashd como uma formação militar independente dentro das forças armadas e vinculada ao comandante-em-chefe. Em teoria, isso deveria colocar as forças armadas sob a autoridade e o comando do Estado. No entanto, estudos especializados constataram que muitas redes e facções mantiveram suas próprias lideranças, interesses e relações políticas e econômicas, e que o quadro oficial não foi suficiente para produzir uma cadeia unificada de comando e lealdade.

O que chama a atenção é que o problema continua em pauta até hoje. Em junho de 2026, uma análise recente da Chatham House descreveu o desafio persistente enfrentado por Bagdá como a necessidade de impor uma autoridade efetiva sobre grupos armados que atuam, em diferentes graus, fora do comando direto do governo, alguns deles ligados ao Irã. E chegou a um ponto de enorme importância para o Líbano: a integração formal não significa necessariamente que a lealdade e a autoridade reais sejam transferidas para o Estado.

E é exatamente isso que não devemos fazer no Líbano.

O Exército não é lugar para reciclar o Hezbollah

Se exigimos o monopólio das armas porque queremos um único Exército, uma única decisão militar e uma única referência constitucional, como poderemos chegar a isso introduzindo um corpo militar organizado dentro do Exército?

O que teríamos resolvido?

Não quero que um combatente do Hezbollah se torne soldado do Exército libanês por meio de uma decisão política coletiva enquanto permanecem por trás dele as mesmas redes, as mesmas antigas lideranças e a mesma doutrina militar.

Também não quero unidades especiais para os habitantes do sul do Líbano ou para combatentes da «resistência».

Não quero cotas no Exército em troca da entrega de mísseis.

Não quero que patentes partidárias se transformem em patentes militares legais.

E não quero que, daqui a alguns anos, descubramos que não acabamos com a dualidade das armas, mas apenas passamos a pagar seu salário com recursos do Tesouro público.

Isso não é recuperar o Estado.

É legalizar o problema.

Uma coisa é o combatente, outra é a organização

Mas rejeitar a integração não significa dizer a dezenas de milhares de pessoas: entreguem as armas e se virem.

Aqui, é preciso distinguir claramente entre pôr fim à organização militar e lidar com o ser humano que fazia parte dela.

O combatente libanês deve retornar à sociedade, e não passar de um exército partidário para o Exército libanês.

Isso exige um projeto amplo e sério de transição para a vida civil.

Há combatentes que passaram vinte ou trinta anos em atividades militares. Alguns não têm outra profissão. Por trás deles há famílias, filhos e compromissos financeiros. Ignorar essa realidade não constrói um Estado. Pode, ao contrário, criar uma nova crise social e de segurança.

Por isso, é preciso pensar em um fundo nacional, com apoio árabe e internacional, para reintegrar essas pessoas à economia civil: formação profissional, empréstimos facilitados, pequenos projetos, oportunidades na agricultura, na indústria e na tecnologia, além de educação para aqueles que desejarem prosseguir os estudos.

E, acima de tudo, existe uma enorme tarefa: a reconstrução do sul do Líbano.

Em vez de alguém do sul continuar sendo um combatente à espera da próxima guerra, por que não poderia participar da reconstrução de sua aldeia, de sua casa e da economia de sua região?

Estamos falando da reconstrução de casas, estradas, escolas, hospitais e redes de água, eletricidade e telecomunicações, da recuperação de terras, da revitalização da agricultura e da retomada das pequenas empresas.

Ou seja, a transição das armas para a vida civil também pode ser uma transição de uma economia de guerra para uma economia de reconstrução.

Sem privilégios militares

Quanto a quem quiser, no futuro, ingressar no Exército libanês, existe apenas um caminho.

Deve se apresentar como cidadão libanês.

Deve se submeter às mesmas condições, aos mesmos concursos e às mesmas verificações aplicadas a qualquer outro jovem libanês, com um grau de rigor ainda maior do que o habitual.

Como indivíduo, não como facção.

Como cidadão, não como representante de um partido.

E sem qualquer acordo prévio sobre números, patentes, unidades ou cotas.

Porque a instituição militar não é uma nova mesa de partilha.

E o Estado não «substitui o Hezbollah»

Até mesmo a expressão corrente segundo a qual o Estado deve «substituir o Hezbollah» precisa ser corrigida.

O Estado não substitui o Hezbollah.

O Estado recupera o seu lugar.

Quando constrói uma escola no sul do Líbano, ele não substitui uma instituição partidária; cumpre seu dever.

Quando trata um doente, não substitui uma instituição de saúde vinculada a um partido; desempenha uma função pública.

Quando paga uma indenização a alguém cuja casa foi destruída, isso não é o preço pela entrega das armas; é um direito do cidadão perante o seu Estado.

E quando o Exército se posiciona na fronteira, não substitui a «resistência»; exerce uma função soberana que deveria ter sido sua desde o início.

Essa é a diferença fundamental.

Não queremos um Estado que herde o Hezbollah.

Queremos um Estado que recupere aquilo que lhe pertence.

Não repitamos o Iraque

O problema do modelo iraquiano não foi simplesmente a presença de antigos combatentes dentro das instituições do Estado, mas o fato de redes armadas terem conseguido se tornar parte da estrutura estatal sem que sua autonomia política e organizacional necessariamente desaparecesse. A Chatham House documentou como redes ligadas ao Hashd, após a guerra contra o «Estado Islâmico», se transformaram em forças de segurança, políticas e econômicas influentes dentro do próprio Estado.

O Líbano não pode suportar uma experiência semelhante.

Temos um Exército.

Temos forças de segurança.

Temos uma Constituição.

O que se exige não é inventar uma fórmula genial para conciliar o Exército e o Hezbollah, mas chegar à regra mais simples sobre a qual se sustenta qualquer Estado normal:

Um único Exército. Um único comando. Um único monopólio das armas. E uma única decisão de guerra e paz.

Quanto ao Hezbollah, se continuar existindo, deve continuar como um partido político civil, como os demais partidos libaneses, sem braço militar nem aparato de segurança paralelo.

Quanto aos combatentes, não devemos jogá-los na rua nem transformá-los em um exército dentro do Exército.

Devemos reintegrá-los à sociedade.

Abrir-lhes as portas do trabalho, da produção e da educação.

Ajudá-los a passar do porte de armas à construção de seu futuro e do futuro de suas regiões.

Porque há uma diferença enorme entre reintegrar o ser humano à sociedade e integrar a organização ao Estado.

A primeira é uma necessidade nacional.

A segunda pode ser a maneira mais rápida de transformar o Líbano em outra versão da experiência iraquiana.

Não queremos um Hashd al-Shaabi libanês.

Queremos que a era da milícia termine, e não que a milícia entre no Estado e apenas troque de uniforme.

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