


Benjamin Netanyahu já não é o único a deter as chaves do poder em Israel. A decisão do presidente israelense, Isaac Herzog, de encarregar Gadi Eisenkot de formar o novo governo, depois de ele obter a indicação de 67 parlamentares contra 46 para Netanyahu, abre caminho para uma nova fase política. Mas a pergunta que deveria preocupar os libaneses não é se Netanyahu deixará o poder, e sim se o Líbano está preparado para tirar proveito de qualquer mudança que possa ocorrer em Israel.
A história nos ensinou que uma mudança de governo israelense não significa necessariamente uma alteração de suas políticas em relação ao Líbano, e que um general que troca o uniforme militar por uma gravata não se transforma automaticamente em uma pomba da paz.
Eisenkot não é um desconhecido na política, tampouco um homem oriundo de um movimento pacifista. Ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses, ele conhece bem o Líbano e o Hezbollah. Fez parte da instituição militar que colocou o confronto com o grupo no centro de sua doutrina de segurança. Portanto, tratá-lo como uma versão moderada de Netanyahu seria um erro de avaliação da realidade.
Mas o erro oposto seria acreditar que todos os governos israelenses são tão semelhantes que qualquer mudança política se torna irrelevante. As diferenças talvez não estejam nos objetivos de segurança, mas nos meios utilizados para alcançá-los, na relação com Washington e na disposição de transformar conquistas militares em entendimentos políticos.
É precisamente aí que reside uma possível oportunidade para o Líbano.
Eisenkot obteve o apoio de 67 parlamentares para receber o mandato de formar governo, mas esse número esconde um dilema político. Os partidos judaicos que o apoiam não dispõem, sozinhos, da maioria necessária. Os votos dos partidos árabes foram decisivos para inclinar a balança a seu favor durante as consultas com o presidente.
O paradoxo é que o homem que se beneficiou das indicações dos parlamentares árabes continua se recusando a incluir seus partidos no governo nas condições atuais.
Portanto, o caminho entre receber o mandato e assumir o comando do governo está longe de ser simples. Eisenkot terá de conquistar o apoio de outros partidos, encontrar uma fórmula que permita a formação de um governo minoritário ou enfrentar a possibilidade de fracassar e retornar ao impasse político.
Quanto a Netanyahu, ele perdeu a maioria que lhe permitia governar, mas não saiu definitivamente do jogo político. Poderá se beneficiar das dificuldades de seus adversários, sobretudo se persistirem as divergências entre eles sobre a composição do próximo governo.
Isso significa que o Líbano poderá se deparar com uma transição política israelense relativamente prolongada, e não com uma mudança imediata no poder.
A pergunta pode parecer estranha, mas merece ser discutida.
Um militar que conhece os limites da força talvez compreenda melhor do que um político que a utiliza em suas disputas internas que as guerras nem sempre terminam em vitórias decisivas e que a estabilidade exige acordos políticos e de segurança.
Mas essa é uma hipótese política, não uma garantia no caso de Eisenkot.
O governo que ele pretende formar poderá demonstrar maior disposição para tratar as negociações como um instrumento de organização da segurança nas fronteiras e, talvez, maior capacidade de convencer a sociedade israelense e suas instituições de segurança a aceitar um acordo.
Por outro lado, Eisenkot poderá ser mais rigoroso na exigência de garantias de segurança claras e mais determinado a fazer do desarmamento do Hezbollah, ou da eliminação de sua capacidade militar independente, um elemento fundamental de qualquer entendimento de longo prazo.
Afinal, não se deve confundir disposição para negociar com disposição para fazer concessões.
Se Eisenkot conseguir formar um governo, poderá surgir uma oportunidade para retomar as questões pendentes: a retirada israelense dos territórios libaneses, o fim dos ataques, a consolidação do cessar-fogo, o retorno dos deslocados e o início da reconstrução.
Mas essas questões não avançarão simplesmente porque o primeiro-ministro israelense mudou de nome.
Elas exigem um Estado libanês que saiba o que quer, que tenha autonomia para tomar suas decisões e que seja capaz de cumprir seus compromissos.
E aqui chegamos ao cerne do problema libanês.
Acompanhamos as eleições americanas e israelenses, esperamos os resultados das negociações entre Washington e Teerã e observamos as mudanças na correlação de forças na região, como se o futuro do Líbano fosse determinado exclusivamente fora de suas fronteiras.
Mas onde está o poder de decisão libanês?
Temos uma visão clara do acordo que desejamos? Definimos as condições da retirada, as garantias de segurança e os mecanismos de verificação? Elaboramos um plano concreto para garantir que as armas estejam exclusivamente nas mãos do Estado? E o governo libanês é capaz de falar em nome de todos os libaneses, ou ainda existem aqueles que consideram as decisões de guerra e paz uma propriedade privada?
O Líbano não pode exigir que o mundo o trate como um Estado plenamente soberano enquanto persiste o debate interno sobre o direito exclusivo do Estado de possuir armas e tomar as decisões que determinam o destino do país.
Os acontecimentos em Israel adquirem importância ainda maior diante do debate libanês sobre as negociações: o Líbano deve participar diretamente delas ou deixar que outros negociem em seu nome?
Há quem acredite que teria sido melhor esperar os resultados das negociações entre os Estados Unidos e o Irã, como se o Líbano fosse apenas um detalhe em um grande acordo regional, como se Teerã estivesse em melhores condições do que Beirute para definir os interesses dos libaneses.
Mas por que a alternativa às negociações diretas conduzidas pelo Líbano deveria ser delegar ao Irã a tarefa de negociar em nosso nome?
Se uma mudança de governo em Israel puder abrir uma nova janela, seria lógico que o Líbano estivesse presente no momento em que ela se abrisse, em vez de esperar que outros lhe informassem o que foi decidido a seu respeito.
Isso não significa fazer concessões gratuitas, abrir mão dos direitos libaneses ou passar automaticamente das negociações de segurança à normalização política.
Significa simplesmente que o Estado libanês deve ser o responsável por suas próprias decisões e que as negociações devem servir como instrumento para recuperar direitos, não como uma recompensa concedida por Israel nem como um privilégio monopolizado por uma facção armada libanesa.
Eisenkot poderá conseguir formar um governo, ou poderá fracassar. Netanyahu poderá deixar o poder ou permanecer nele por meio de um novo acordo político ou de outras eleições.
Mas há algo que não deve mudar: a posição libanesa.
A retirada israelense é uma exigência que independe da identidade do primeiro-ministro em Tel Aviv. O fim dos ataques é um direito do Líbano, não um favor concedido por alguém. E o monopólio estatal das armas não constitui uma concessão a Israel, mas uma obrigação nacional libanesa cujo cumprimento foi adiado por tempo demais.
Seria um erro permitir que o futuro do sul do Líbano se tornasse refém das eleições israelenses, assim como já foi refém de cálculos regionais que nada têm a ver com os interesses de seus habitantes.
Os moradores do sul querem voltar a suas aldeias, reconstruir suas casas, recuperar suas terras e viver sem medo de uma nova guerra. Para eles, importa muito menos se o primeiro-ministro israelense é Netanyahu ou Eisenkot do que a existência de um Estado libanês capaz de protegê-los.
E essa proteção não significa slogans, nem o armazenamento de armas em meio às residências, nem a proclamação de vitórias que os proprietários das casas destruídas não conseguem enxergar. Significa um Exército presente no território, instituições eficientes, fronteiras seguras e garantias que possam ser efetivamente implementadas.
Não se pode permitir que a mudança política em Israel se transforme em mais um motivo para a espera, em vez de servir como incentivo para que o Líbano retome a iniciativa.
A indicação de Eisenkot poderá marcar o início de uma mudança em Israel, mas só se tornará uma oportunidade para o Líbano se os libaneses decidirem mudar a maneira como governam seu Estado.
Não se trata de esperar por um primeiro-ministro israelense menos intransigente, mas de construir um Estado libanês mais capaz de defender seus direitos.
E, se Netanyahu perdeu sua maioria, o Líbano não pode perder, mais uma vez, a oportunidade de recuperar sua soberania.
Porque o problema, em última análise, não é apenas quem governa Israel, mas quem governa o Líbano e quem detém, dentro dele, o poder de decidir sobre a guerra e a paz.























