


É possível se opor à política americana, questionar a capacidade de Washington de pressionar Israel e criticar qualquer caminho de negociação que não consiga proteger o Líbano. Esses são direitos políticos legítimos, e até deveres, quando estão em jogo o território, a população e a soberania. Mas afirmar que o Estado errou ao escolher o caminho proposto por Rubio e que deveria ter participado das negociações de Islamabad levanta uma pergunta mais simples do que todas as análises: que lugar o Líbano ocuparia nessa alternativa? E quem falaria em seu nome?
Se a proposta é deixar que o Irã negocie a questão libanesa no âmbito de suas próprias conversações, ela equivale a transferir o poder nacional de decisão a outro Estado. A divergência passa a se resumir à identidade de quem exerce a tutela, enquanto o Líbano permanece como um assunto colocado sobre a mesa, à espera de que outros decidam seu destino.
O que chama a atenção é que alguns dos mais fervorosos opositores às imposições americanas não veem problema algum em delegar autoridade a Teerã. Exigem que o Estado não dê ouvidos a Rubio e, em seguida, propõem que aceite o resultado de negociações das quais não participou. Como se a independência em relação a Washington pudesse ser conquistada por meio de uma procuração entregue ao Irã.
O Líbano precisa de um assento à mesa de negociações. E esse assento pressupõe uma delegação libanesa, investida de um mandato libanês, que apresente reivindicações claras e preste contas de seus resultados às instituições constitucionais. Colocar a questão libanesa na pasta de um negociador iraniano, por outro lado, significaria subordinar nossas prioridades às necessidades de sua própria negociação.
A questão, portanto, deixa de ser se o Irã é amigo ou adversário, ou se confiamos em suas intenções. Os Estados negociam para defender seus interesses. Os interesses de Teerã podem coincidir com os do Líbano em determinados assuntos e entrar em conflito com eles em outros. O Irã tem o direito de estabelecer suas prioridades, mas o Estado libanês tem o dever de impedir que outro país determine a prioridade que será atribuída aos direitos de seus cidadãos.
Se estão sobre a mesa questões como sanções, segurança regional, capacidades militares e relações com os Estados Unidos, quem pode garantir qual será o lugar do Líbano entre esses assuntos? O que impediria que a tranquilidade na frente libanesa se tornasse parte de uma barganha mais ampla? E quem teria o direito de se opor caso o negociador iraniano considerasse ter obtido uma vantagem que justificasse fazer uma concessão em uma questão cujo custo direto não recairia sobre seu próprio povo?
Nessas circunstâncias, o mandato incluiria o poder de estabelecer uma ordem de prioridades entre as reivindicações, adiar algumas delas e aceitar compromissos sobre outras. Nenhum ator libanês tem o direito de delegar semelhante autoridade ao exterior, pois ela envolve os direitos de todos os libaneses.
Dizem-nos que o caminho apoiado por Washington talvez não produza resultados. Essa é uma possibilidade que precisa ser levada a sério. Mas o fracasso ou o impasse de um processo de negociação exige uma revisão de seus instrumentos, condições e garantias. Não torna mais sensata a decisão de abrir mão do direito de negociar. O Estado pode solicitar apoio diplomático adicional, garantias mais claras ou uma atuação internacional mais eficaz. Pode apresentar objeções, rejeitar uma proposta injusta e reformular sua posição. Tudo isso faz parte do exercício da soberania.
Esperar para ver o que o Irã conseguirá obter, por outro lado, privaria o Líbano até mesmo do direito de escolher o momento de dizer sim ou não.
Da mesma forma, chamar qualquer opção libanesa de "caminho de Rubio" equivale a reduzir as decisões do Estado à vontade de um secretário de Estado estrangeiro, sugerindo que suas instituições não possuem vontade nem interesses próprios. Uma simplificação como essa precisa ser demonstrada. O critério para avaliar uma negociação deve ser seu conteúdo. Ela contribui para pôr fim às agressões? Exige a retirada das forças de ocupação e a recuperação do território? Garante o retorno dos moradores? Fortalece a autoridade do Estado e seu monopólio sobre as armas? Quais são as garantias e os mecanismos de implementação previstos?
Se esse caminho não atender a esses critérios, deve ser criticado com base neles. Se produzir avanços, deve ser avaliado pelos resultados alcançados. Rejeitá-lo apenas pela identidade do mediador não constitui uma política alternativa.
O mesmo vale para as negociações com Israel. É possível divergir sobre seu formato, seu momento e o nível de representação envolvido. Mas negociar é um meio de enfrentar um conflito que impõe um elevado custo humano e nacional. Um Estado que negocia reivindica seus direitos, avalia as possibilidades de garanti-los e assume a responsabilidade por sua posição perante seu povo. Isso não significa absolver a outra parte nem aceitar antecipadamente suas condições.
O paradoxo é que se rejeite a negociação do Líbano com Israel, mas se aceite que o Irã negocie o futuro do Líbano. Segundo essa lógica, o problema seria o fato de os libaneses quererem falar por si mesmos. Enquanto isso, o conteúdo das negociações e as concessões e os arranjos que elas possam envolver ficariam nas mãos de quem recebeu a autoridade para falar em seu nome.
Os habitantes do sul do Líbano, especialmente os xiitas que pagam o preço dos confrontos em suas casas, em seus meios de subsistência e no futuro de seus filhos, têm interesse direto em pôr fim a essa procuração. Têm o direito de saber quem exige seu retorno, quais condições estão sendo discutidas e o que é aceito ou rejeitado em seu nome. E têm o direito de exigir prestação de contas. Nenhum cidadão libanês pode cobrar explicações de um negociador iraniano, alterar suas prioridades ou exigir que revele o que aconteceu a portas fechadas.
Por isso, a recuperação, pelo Estado, do controle sobre as negociações faz parte da retomada de sua responsabilidade perante essas populações. Não se pode exigir que ele as proteja e, ao mesmo tempo, impedi-lo de dispor dos instrumentos políticos e diplomáticos necessários para essa proteção. Tampouco é coerente acusá-lo de incapacidade enquanto se insiste em manter as decisões sobre a guerra e as negociações fora de suas instituições.
Quem quiser contestar a escolha do Estado deve apresentar uma alternativa que especifique as reivindicações, os meios, as garantias e a autoridade que deverá responder perante os libaneses. Quanto à afirmação de que "deveríamos ter ido a Islamabad", ela continuará incompleta enquanto não responder à pergunta fundamental: iríamos como um Estado que negocia ou como uma questão cujo destino é negociado pelos iranianos?
Não se trata de confiar em Rubio nem de dar um cheque em branco a qualquer mediador. O que importa é reconhecer o direito do Líbano de conduzir sua própria causa e cobrar de seu Estado a maneira como a conduz. Quem rejeita que os americanos decidam por nós deve rejeitar com a mesma clareza que os iranianos o façam.
O Líbano não precisa trocar de procurador. É hora de recuperar sua assinatura.























