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O Novo Mundo

Síria sob tutela turca… até nos livros didáticos!

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A Praça dos Omíadas, em Damasco, iluminada com as cores da bandeira turca, projetada em telões, para celebrar o 103º aniversário da República da Turquia, em 29 de outubro de 2026. IZZ ALDIEN ALQASEM / ANADOLU / ANADOLU VIA AFP
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Publicado out 30, 2026 - 03:50

Acontecimentos de grande alcance se desenrolam nos bastidores da Síria. Seu desfecho determinará a identidade de um país que, há menos de dois anos, saiu de um longo período de sofrimento iniciado com a tomada do poder pelo Partido Baath, em 8 de março de 1963, e que culminou no domínio minoritário do regime da família Assad. O golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1966, liderado por oficiais alauítas, preparou o terreno para essa transformação. Foi um momento decisivo no processo pelo qual esses oficiais assumiram o controle do «Exército Árabe Sírio» e dos serviços de segurança, que acabaram se tornando os verdadeiros governantes do país.

Durante mais de meio século, entre 1970 e 2024, Hafez al-Assad e seu filho Bashar governaram a Síria. Ao longo desse período, Israel representou uma garantia para o regime sírio, que nunca demonstrou a menor disposição para recuperar as Colinas de Golã, ocupadas desde 1967. Quem será agora o garantidor do novo regime sírio, que parece estar, pelo menos no futuro previsível, sob tutela turca?

Terá a Síria, enquanto regime, passado das garantias israelenses para uma forma de tutela turca? É importante lembrar que o Irã também foi, ao lado de Israel, um dos responsáveis por assegurar a continuidade do regime alauíta sírio. Na realidade, havia uma aceitação tácita, por parte de Israel, da presença iraniana na Síria, desde que Hafez al-Assad e seu filho Bashar se mostrassem dispostos, de um lado, a garantir a segurança nas Colinas de Golã e, de outro, a manter o sul do Líbano como um «palco» para a troca de mensagens.

Uma demonstração reveladora da tutela turca sobre a Síria surgiu nas redes sociais nos últimos dias. Uma onda de críticas atingiu o Ministério da Educação sírio em razão das alterações introduzidas nas edições mais recentes dos livros didáticos. Entre as mudanças estava a retirada de fotografias e ilustrações de mulheres e meninas, incluindo meninas pequenas e mulheres que não usavam véu. Aparentemente, já não há lugar nos livros escolares para uma mulher sem véu, em um país onde cidadãos de diferentes religiões conviveram durante séculos, antes que Hafez al-Assad semeasse a discórdia entre alauítas e sunitas, ao mesmo tempo que marginalizava cristãos, drusos e até mesmo ismaelitas.

As alterações, realizadas sob o pretexto de eliminar os símbolos do «antigo regime», também incluíram a retirada de imagens de estátuas e esculturas parcialmente nuas. Chega a ser ridículo colocar uma camisa na imagem de uma estátua faraônica simplesmente para esconder seu peito descoberto. Agora, uma antiga estátua egípcia com o torso nu passou a ofender a moral pública, violar a lei e contrariar as tradições e a cultura da Síria. Mais surpreendente ainda, a reprodução da célebre Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, foi retirada de um livro didático porque a mulher retratada não usa véu. A explicação sobre a importância da obra foi mantida, mas a imagem daquela que é considerada a pintura mais famosa do mundo desapareceu…

Nos campos político e histórico, as críticas que circularam pelas redes sociais também se voltaram contra as alterações no conteúdo dos programas de ensino. Entre elas, destaca-se a retirada do sanjaco de Alexandreta, anexado pela Turquia em 1939, dos mapas da Síria presentes nos diferentes livros escolares. O território antes conhecido como o «sanjaco usurpado» passou a ser apresentado como uma região de «estatuto especial», segundo a nova interpretação do Ministério da Educação sírio ou, mais precisamente, do novo regime sírio!

Outra questão que provocou intensa controvérsia foram as notícias sobre o fim das comemorações do Dia dos Mártires, que homenageia os patriotas sírios executados pelas autoridades otomanas em 1916. Essas figuras históricas, consideradas heróis nacionais na Síria, teriam sido apresentadas como espiões a serviço do Ocidente, que colaboraram com não muçulmanos para combater o «califado otomano». Quanto a Jamal Pasha, o governador militar turco responsável pelas execuções, ele já não seria descrito como um «carniceiro», mas simplesmente mencionado como um administrador comum da Síria, então parte do Império Otomano.

Tudo isso permite chegar a algumas conclusões.

  • Por meio da revisão dos programas escolares, o novo regime sírio procura islamizar a sociedade desde a infância, proibindo a representação de meninas e mulheres sem véu até mesmo nas fotografias e ilustrações destinadas às crianças.

  • O regime pretende apagar da memória das novas gerações qualquer acontecimento histórico que lembre que a Turquia otomana foi uma potência ocupante na Síria. Segundo a nova interpretação da história promovida pelo regime, existia um «Estado do califado» islâmico do qual a Síria fazia parte. Em outras palavras, o Império Otomano.

  • Mais importante que tudo isso, porém, é que o novo regime sírio, liderado pelo presidente de transição Ahmed al-Sharaa, parece ter perdido o rumo. O regime dá sinais de estar dividido entre diferentes correntes que travam uma disputa acirrada nos bastidores. Cada uma tenta impor sua própria visão da sociedade e da identidade sírias, dentro de uma nova ordem política distante dos verdadeiros valores do islã. A principal divergência entre essas facções rivais, no entanto, está no ritmo das mudanças. Ahmed al-Sharaa pretende islamizar a Síria seguindo o modelo da Irmandade Muçulmana, mas procura fazê-lo gradualmente. Quer dispor de tempo suficiente para consolidar seu poder. Em contrapartida, outras correntes dentro do regime desejam islamizar o país o mais rapidamente possível, sem levar em consideração as reações externas nem as consequências dessa transformação para a situação interna e a coesão da sociedade síria.

Em última análise, a Turquia procura ditar o ritmo da islamização da Síria, segundo uma concepção inspirada na Irmandade Muçulmana. Aparece, assim, como a nova potência tutelar do país… Como se Israel tivesse deixado de existir, como se tivesse renunciado a influenciar o futuro da Síria e sua única preocupação fosse tornar eterna a ocupação das Colinas de Golã… independentemente das ambições turcas em território sírio.

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