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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 5, 2026 - 00:55
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
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Por Jad Akhawi - Publicado em set 4, 2026 - 15:00
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A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.
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Hassan Rifaï, o sábio rebelde
Por
Michel Hajji Georgiou
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado- zaamat e do Estado- jamaat , que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?

Ali al-Taher: por que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército?

A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.

Israel reivindica o controlo de Ali al-Taher
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LevantTime .
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O exército israelense anunciou na quinta-feira ter «concluído a limpeza de duas infraestruturas subterrâneas do Hezbollah na crista de Ali al-Taher», no sul do Líbano, informando que «suas forças estão agora empenhadas em neutralizá-las». Citado pelo Jerusalem Post e em sua conta no X, o exército israelense esclareceu que «as forças da 36ª divisão operaram na região nas últimas semanas e assumiram o controle operacional da crista, tanto na superfície quanto no subsolo. Durante a operação, a área foi desocupada dos combatentes do Hezbollah que lá estavam posicionados, alguns dos quais foram mortos enquanto outros fugiram». As fontes indicaram ainda que não havia nenhum pessoal iraniano nos túneis, enquanto especialistas afirmavam que pelo menos uma dúzia de membros do Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica estaria entrincheirada no local ao lado de combatentes do Hezbollah. O Post afirma que, segundo o exército, essas infraestruturas foram construídas ao longo de aproximadamente vinte anos e foram planejadas e financiadas pelo Irã. Ilustração gerada a partir do relevo da região de Ali al-Taher. Além disso, de acordo com informações reveladas pela Reuters, os iranianos teriam alertado os Estados Unidos sobre um possível ataque israelense ao local de Ali al-Taher. Isso demonstra o quanto Teerã continua envolvida na frente aberta pelo Hezbollah, seu aliado, contra Israel desde 2 de março. Israel libera cinco libaneses e mantém três outros detidos A quinta-feira começou com uma operação israelense pouco comum, realizada relativamente longe da zona ocupada, na aldeia de Houla, em Hasbaya, no sul do país. As tropas israelenses se infiltraram nessa aldeia e detiveram três de seus moradores, após cercarem várias casas e impedirem seus ocupantes de evacuá-las, segundo a Agência Nacional de Informação. Os detidos foram levados para o território israelense, de acordo com testemunhas citadas pela agência. Essa nova violação israelense, somada às múltiplas explosões provocadas na quinta-feira pelo seu exército em diversos pontos do sul do país, não impediu a outra surpresa do dia: o anúncio, por parte de Israel, da libertação de cinco prisioneiros libaneses detidos em suas prisões, todos arrestados durante este conflito, desde 2 de março, ou durante o anterior, em 2023-2024. Um jovem foi de fato libertado na quinta-feira e entregue ao exército libanês na fronteira de Naqoura. Segundo o site local al-Modon , a libertação de outros quatro libaneses teria sido adiada para sexta-feira. «Eu não chamaria isso de guerra» Em relação ao conflito com o Irã, o vice-presidente americano JD Vance afirmou na quinta-feira que as hostilidades — que geram descontentamento em parte do eleitorado americano às vésperas de importantes eleições legislativas — não constituíam «uma guerra», ao mesmo tempo em que declarou que a passagem pelo estreito de Ormuz havia «praticamente» voltado ao normal. Enquanto, segundo o Wall Street Journal , o presidente Donald Trump estaria considerando declarar pura e simplesmente o fim do conflito, o vice-presidente tentou minimizar as hostilidades durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca. «Eu não chamaria isso de guerra. No momento, não há troca de tiros», afirmou, embora os Estados Unidos tenham atacado alvos iranianos por duas vezes nos últimos dias. Um desses ataques, que o Irã prometeu vingar, matou quatro pessoas durante um casamento. «A mídia estatal iraniana não tem relatado de forma muito confiável o que aconteceu neste conflito até agora, por isso sou extremamente cético a esse respeito», declarou JD Vance em resposta a uma pergunta sobre esse ataque, acrescentando que os Estados Unidos estavam conduzindo, ainda assim, «uma investigação aprofundada». «Temos um grande controle sobre o estreito de Ormuz. Fazemos passar de 30 a 40 navios por noite», garantiu Donald Trump em uma entrevista ao canal conservador britânico GB News, transmitida na quinta-feira. Por fim, o sinal mais claro de que a guerra está longe de terminar no Médio Oriente: segundo o Wall Street Journal , o Ministério da Defesa dos Estados Unidos prorrogou discretamente a presença de 50.000 soldados destacados na região. Ataques iranianos ao Kuwait e aos EAU No terreno, os Guardiões da Revolução Islâmica anunciaram ter realizado, na noite de quarta para quinta-feira, ataques contra «alvos americanos» no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos. Em comunicado, os Pasdaran afirmam ter visado «com mísseis e drones os sistemas de comunicação por satélite, os depósitos de equipamentos e os hangares de aviões de combate do exército americano na base aérea Ahmad al-Jaber, no Kuwait». Nos Emirados Árabes Unidos, foram visados os sistemas de radar americanos da base aérea de al-Minhad.

Hezbollah em falência busca cobertura
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Khairallah Khairallah
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A busca do Hezbollah por uma cobertura cristã para suas armas e para sua rejeição às negociações diretas com Israel dá a medida da profundidade da crise enfrentada por um partido que, em essência, não passa de uma milícia confessional a serviço da Guarda Revolucionária iraniana. O Hezbollah que conhecemos, com todo o seu poder, seu arsenal e seus recursos financeiros, pertence agora ao passado. Na realidade, um partido que se julgava capaz de desempenhar papéis muito além do Líbano, na Síria, no Iêmen e, em determinado momento, no Bahrein, para citar apenas alguns exemplos, está falido. Nada ilustra melhor essa falência do que a reabertura de antigos livros de contas, a começar pelo de sua relação com a Corrente Aounista e com Michel Aoun, cuja única ambição era chegar à Presidência da República a qualquer preço. Só um comerciante falido volta a vasculhar antigos registros convencido de que ainda há dívidas a cobrar. O Hezbollah parece não perceber que a Corrente Aounista, atualmente liderada pelo deputado Gebran Bassil, está tão falida quanto ele. A Bassil e aos que se parecem com ele pouco resta além de tentar se reerguer tomando distância das armas do Hezbollah, tanto para satisfazer o que ainda resta de sua base cristã quanto para insistir em que o Exército libanês deve ser o único a deter o monopólio das armas. Desde quando a Corrente Aounista demonstra tamanha preocupação com o Exército libanês? Durante dez anos, a partir da assinatura do documento de Mar Mikhaël com Hassan Nasrallah, em fevereiro de 2006, Michel Aoun foi submetido a uma longa série de provas impostas pelo Hezbollah. Passou em todas elas. Entre essas provas esteve a justificativa da morte, pelas mãos de um membro do Hezbollah, do oficial piloto Samer Hanna, simplesmente porque ele havia voado de helicóptero para uma área do sul do Líbano controlada pelo partido. Aoun chegou ao ponto de justificar a morte de um oficial libanês que sobrevoava território libanês perguntando: «O que ele foi fazer lá?». Hoje, pede-se a uma força falida que dê cobertura a outra igualmente falida. Uma reunião entre uma delegação do Hezbollah e uma delegação aounista não mudará nada. Tampouco servirá de muito uma rodada de contatos de uma delegação do partido com outras forças políticas para justificar a manutenção de um arsenal que não passa de um instrumento a serviço do Irã e de seu projeto expansionista na região. Esse projeto desmoronou na Síria antes de começar a vacilar no próprio Irã, hoje envolvido em uma guerra na qual está em jogo o futuro de seu regime, o da República Islâmica. O regime iraniano parece ter perdido contato com as transformações que remodelaram o mundo e a região desde 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou a operação «Dilúvio de Al-Aqsa» contra localidades israelenses ao redor de Gaza. Depois de 7 de outubro, Israel mudou. A região mudou. O Irã se recusou a mudar. O surpreendente é que o Hezbollah continue buscando cobertura para suas armas enquanto o sul do Líbano vive uma verdadeira tragédia. Essa tragédia significou o retorno de uma ocupação que havia terminado em 2000, com a destruição, por Israel, de cerca de setenta vilarejos e o deslocamento de mais de um milhão de cidadãos. Nada disso parece importar ao partido. Sua principal preocupação é encontrar uma justificativa interna para manter suas armas. Um partido subordinado ao Irã considera que preservar seu arsenal é mais importante do que pôr fim à ocupação. Sabe que sua própria existência depende dessas armas, que nunca foram outra coisa senão um instrumento destinado a submeter o cidadão libanês e o Estado libanês e a colocar ambos sob tutela iraniana. Quem, no Líbano, ainda está disposto a dar cobertura a armas milicianas e confessionais cuja consequência mais imediata é a perpetuação da ocupação israelense? A Corrente Aounista já não é o interlocutor adequado para oferecer essa cobertura. Ela já obteve do Hezbollah e de suas armas o que buscava: a chegada de Michel Aoun ao Palácio de Baabda. Ao Hezbollah resta uma única carta: o presidente do Parlamento, Nabih Berri. Seria de esperar que ele recordasse de outra maneira o desaparecimento do imã Musa al-Sadr, em vez de fazer um discurso completamente desconectado das realidades políticas do Líbano e da região. Berri falou como se o país ainda estivesse vivendo nos anos 1980. Em 1983, o regime sírio de Hafez al-Assad desempenhou um papel decisivo para fazer fracassar o Acordo de 17 de Maio. No entanto, diante da atual correlação de forças, dificilmente o Líbano conseguirá algo melhor. Ainda assim, não convém subestimar a posição de Nabih Berri. Ele parece ter suas próprias razões para se recusar a encarar a realidade libanesa, ignorar o que de fato acontece no terreno no sul do Líbano e contemporizar com o Irã até o limite. O líder do movimento Amal, que oferece ao Hezbollah uma cobertura política substancial, compreende as consequências do que está fazendo, quando poderia enfrentar a realidade do Líbano e a do sul do Líbano, em vez de fugir de ambas? Entre uma Corrente Aounista reduzida a uma cobertura já bastante desgastada e Nabih Berri, que tenta projetar a imagem de uma comunidade xiita coesa e mostrar que não existe diferença real entre Amal e Hezbollah, permanece uma pergunta fundamental: quem porá fim à ocupação israelense e a que preço? Uma coisa é certa: as armas do Hezbollah ameaçam agora o próprio sul do Líbano e talvez o Líbano inteiro, qualquer que seja a cobertura que o partido ainda consiga obter de forças que, por sua vez, também precisam de cobertura.

Pacto de Meca: uma resposta aos desafios regionais (1/4)

Este primeiro artigo de uma série de quatro dedicada ao Pacto de Meca explica como a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão percorreram um longo caminho e cruzaram um limiar estratégico decisivo ao assinar o Pacto de Meca, em 7 de agosto de 2026. Nascido do agravamento das tensões regionais e da erosão das garantias de segurança americanas, este acordo de defesa coletiva pode consolidar o surgimento de uma nova arquitetura autônoma no coração do mundo sunita. Meca é, sem dúvida, um lugar de grande valor simbólico para a assinatura de um pacto. Em 7 de agosto de 2026, o palácio de Al-Safa, em Meca, tornou-se palco de um acontecimento histórico cujo impacto está redesenhando a geopolítica regional e asiática. Sob os tetos dessa residência que se ergue sobre a Caaba, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MBS), o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif selaram uma aliança que ficou conhecida como o Pacto de Meca. A escolha deste santuário de profundo simbolismo vai além de uma simples encenação religiosa. Ao unir, em princípio, suas capacidades militares no coração do berço do Islã, Ancara, Riad e Islamabad enviam uma mensagem política clara: esta aliança transcende distâncias geográficas e divisões étnicas para se propor como nova guardiã da estabilidade do mundo sunita. Três semanas depois, este tratado de defesa mútua revela não ser uma mera declaração de intenção diplomática ou um acordo clássico de cooperação bilateral — especialmente à luz da recente reunião das três partes em Istambul e da criação de um secretariado. Trata-se, na verdade, de um mecanismo de defesa coletiva vinculante, moldado a partir do Artigo 5 da OTAN, estipulando que uma agressão armada contra um dos signatários constitui um ataque direto contra os três. Este compromisso nasceu da urgência absoluta de enfrentar as crises que continuam a abalar o ano de 2026. Desde fevereiro, a escalada militar global envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã mergulhou o Oriente Médio e suas rotas marítimas em uma vulnerabilidade crítica, obrigando as potências regionais a questionar suas doutrinas de segurança anteriores e a depender cada vez mais de si mesmas em um contexto mundial em plena transformação — especialmente com a proliferação de novas tecnologias militares que já não são privilégio exclusivo das grandes potências. Passando à ação: criação de um secretariado No dia 31 de agosto, uma cúpula tripartite foi realizada em Istambul, reunindo os ministros da Defesa, os ministros das Relações Exteriores e os chefes de estado-maior das Forças Armadas turca, paquistanesa e saudita — a primeira desde a assinatura do Pacto. Durante essa cúpula, os três países deram um passo decisivo rumo à operacionalização da aliança. Com o objetivo de institucionalizar o acordo e afirmar a vontade de torná-lo um pilar da estabilidade regional, os altos responsáveis dos três países oficializaram a criação de um secretariado permanente, com sede em Riad. O primeiro secretário-geral, de nacionalidade paquistanesa, será nomeado por um período de três anos. Será responsável por coordenar em tempo real as capacidades interoperáveis das forças armadas dos três países, enquanto protocolos diplomáticos serão ativados para reafirmar perante as potências internacionais o caráter estritamente defensivo da aliança. Entre as medidas concretas previstas, os ministros das Relações Exteriores, da Defesa e os chefes de estado-maior da aliança aprovaram mecanismos operacionais destinados a reforçar o combate ao terrorismo, desenvolver a produção conjunta de armamentos e promover a transferência de tecnologias militares e a dissuasão mútua coletiva. Primeira integração de meios militares O Paquistão confirmou o desdobramento operacional de um contingente militar convencional de 8.000 soldados na Arábia Saudita, sob a égide do novo quadro de segurança coletiva formalizado pelo Acordo de Defesa de Meca. A esses 8.000 homens somam-se vários milhares de outros soldados paquistaneses já estacionados no Reino há décadas, no âmbito de antigos protocolos bilaterais de assistência e treinamento. Os efetivos precisos dessa força histórica permanente são classificados como confidenciais pelos dois ministérios da Defesa. Este novo desdobramento representa uma evolução maior da postura de defesa do bloco, reforçando a dissuasão global face às ameaças regionais por meios estritamente convencionais. O Paquistão mantém o controle soberano exclusivo sobre seu arsenal nuclear, estando o acordo alheio a qualquer extensão de seu guarda-chuva estratégico ou integração de suas forças estratégicas em um comando conjunto. A força paquistanesa desdobrada inclui uma componente de defesa aérea e de apoio tático. É composta por um esquadrão de 16 aviões de caça supersônicos do tipo JF-17 Thunder, de fabricação chinesa, desdobrado na base aérea «King Abdulaziz», em Dhahran, no corredor energético mais vulnerável do Reino, a poucos minutos das infraestruturas da Saudi Aramco. Essas aeronaves cumprem missões de defesa aérea e vigilância face às ameaças iranianas ou de outra natureza, incluindo mísseis e drones. Além dessa força aérea, Islamabad também desdobrou na região de Dhahran dois esquadrões de drones de reconhecimento e ataque, bem como uma bateria de sistemas de mísseis superfície-ar de longo e médio alcance do tipo HQ-9, financiados por Riade e operados por pessoal paquistanês. Desde a primavera de 2026, o Paquistão estacionou em solo saudita esquadrões de drones de vigilância Shahpar-II e Shahpar-III, interligados às baterias de defesa antiaérea HQ-9, bem como drones kamikaze de longo alcance, como o D-248. O sistema HQ-9, ou «Bandeira Vermelha» – 9, desenvolvido pela China, inclui mísseis superfície-ar de longo e médio alcance, para alta e baixa altitude. Concebido para interceptar múltiplos alvos aéreos, é o equivalente chinês dos sistemas russos S-300/S-400 e utiliza as mesmas tecnologias de guiamento que os mísseis americanos Patriot. É dotado de vários tipos de radares, nomeadamente de vigilância a alta e baixa altitude, de aquisição de alvos e de guiamento de mísseis. Estas unidades paquistanesas operam em sinergia com as forças sauditas para monitorizar em tempo real o espaço aéreo saudita e neutralizar ameaças de mísseis e drones. A essas capacidades já partilhadas, muitas outras poderiam ser acrescentadas, fazendo do Pacto de Meca uma entidade militar integrada, capaz de responder instantaneamente a qualquer agressão contra os seus membros. Ao unir os capitais do Golfo, a expertise tecnológica turca, as indústrias militares dos três países e o poder de fogo paquistanês, esta coalizão redefine radicalmente o equilíbrio geopolítico regional, reduzindo drasticamente a dependência de potências extrarregionais e instaurando uma dissuasão credível face às tensões persistentes no Médio Oriente. Contudo, importa avançar duas observações: a primeira é que os três signatários são aliados dos Estados Unidos, que continuam indispensáveis para cada um deles separadamente; a segunda é que cada um enfrenta desafios específicos — o Paquistão, por exemplo, tem um contencioso bastante pesado com a Índia, e os dois países estiveram à beira de uma guerra total em várias ocasiões. O que faria, então, o Pacto de Meca caso um conflito opusesse Islamabad a Nova Deli? A Turquia, no contexto atual, está longe de ser atacada por qualquer país, mas o seu apoio ao Hamas — visto com grande desconfiança por Riade —, o seu envolvimento na Ásia Central, em Chipre e na Líbia, o seu conflito histórico com a Grécia e a sua presença naval militar no Qatar constituem fatores que poderiam, um dia, colocar em situação embaraçosa um dos outros dois membros da aliança. (continua)

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