A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.









