


A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva contra Flávio Bolsonaro freia o avanço das direitas conservadoras na América Latina. Entre a defesa da soberania nacional, as pressões de Washington e a polarização política, a eleição brasileira revela as divisões de um continente dividido entre duas visões de futuro.
Aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva conquista um quarto mandato presidencial à frente da maior economia da América Latina. O gigante da política brasileira acabou vencendo — por uma margem estreita, é importante ressaltar — seu rival de extrema direita, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado contra Lula em 2022. Lula havia prometido uma “última dança” a seus apoiadores, um último mandato de quatro anos para encerrar sua trajetória política no comando do país. Ele venceu o desafio.
Com 51,79% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,21% de seu adversário, Lula conquista uma vitória apertada, mas de grande significado político. O resultado contraria a tendência de avanço das direitas conservadoras e nacionalistas no continente, em um contexto no qual vários governos latino-americanos estreitaram seus laços com Washington sob o impulso de Donald Trump. A vitória do presidente brasileiro, porém, não significa que a América Latina tenha dado uma guinada à esquerda: ela lembra, antes, que a região continua marcada por trajetórias políticas contrastantes, correlações de forças em constante mudança e sociedades profundamente polarizadas.
Desde a pandemia de Covid-19, sucessivas alternâncias de poder na região deram origem a projetos políticos por vezes opostos: da direita liberal de Javier Milei na Argentina às orientações conservadoras de Daniel Noboa no Equador, passando pela experiência de Nayib Bukele na área de segurança em El Salvador… Mais recentemente, essas mudanças também chegaram ao Chile, à Bolívia, ao Peru, ao Paraguai, à República Dominicana, à Colômbia, à Costa Rica e a Honduras. Essas transformações revelam uma América Latina onde os eleitores oscilam entre promessas de proteção social, demandas por segurança, anseios por mudança e rejeição às elites tradicionais.
Uma vitória diante da guinada à direita
As direitas latino-americanas não formam um bloco homogêneo. Algumas delas, no entanto, compartilham afinidades ideológicas com o governo Trump: defesa de políticas de segurança de linha dura, restrição à imigração, rejeição a determinadas políticas progressistas e disposição para fortalecer os laços com os Estados Unidos. Em vários casos, Washington manifestou apoio a líderes ou forças políticas alinhados às suas posições.
Seja por convicções ideológicas, seja por cálculos diplomáticos e econômicos, essas aproximações expressam uma disposição de se alinhar à estratégia dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental. Assim, o discurso de Donald Trump, que reivindica uma influência preponderante dos Estados Unidos sobre os países vizinhos, encontra eco entre alguns líderes da região.
A cooperação em segurança constitui um dos campos privilegiados dessa convergência. Esses países latino-americanos aderem de bom grado aos anúncios bombásticos do republicano, como a promessa de uma iniciativa militar e estratégica chamada Escudo das Américas. O combate aos narcotraficantes, apresentado por Washington como uma prioridade estratégica, tornou-se um argumento central em várias capitais latino-americanas. Mas essa abordagem também suscita questões: até onde se pode ir em nome da segurança? Que garantias existem quando operações têm como alvo pessoas suspeitas de tráfico sem que seu envolvimento tenha sido comprovado publicamente? Os ataques a embarcações apresentadas como ligadas ao narcotráfico ilustram os riscos de uma política em que a demonstração de força pode se sobrepor à exigência de provas e ao controle judicial.
A questão migratória constitui outro ponto de convergência, mas também de controvérsia. Em El Salvador, o CECOT, imenso complexo penitenciário construído no âmbito da campanha de repressão às gangues de Nayib Bukele, tornou-se um símbolo dessa política de segurança. Migrantes deportados dos Estados Unidos também foram detidos ali, no âmbito de acordos firmados com o governo Trump. Para os defensores dessas políticas, trata-se de uma resposta firme à insegurança e à imigração irregular. Para seus críticos, essas práticas suscitam sérios questionamentos quanto aos direitos fundamentais e às garantias judiciais.
Nesse cenário, a esquerda latino-americana parece fragmentada, por vezes contraditória e frequentemente enfraquecida por suas próprias crises. Cuba é um vestígio da Guerra Fria, asfixiada por uma elite nepotista de militares vaidosos, pelas sanções e pelo embargo americano. A Nicarágua também é uma ruína arcaica dos ideais revolucionários do passado, capturados pelo casal Ortega-Murillo. A Venezuela só tem de chavista o nome e pouco mais é do que um protetorado de novo tipo, submisso a Washington enquanto seu petróleo lhe for útil.
O México de Claudia Sheinbaum apresenta outra configuração: a de um governo oriundo da esquerda, obrigado a lidar com o poder econômico e geográfico de seu vizinho do Norte. A proximidade com os Estados Unidos, as trocas comerciais e as questões migratórias impõem ao governo mexicano um equilíbrio delicado entre afirmação política e pragmatismo diplomático.
Uma palavra-chave: soberania
Em meio a esse cenário político em transformação, Lula fez da soberania nacional um dos pilares de seu discurso internacional. Diante dos líderes que adotam o estilo de Donald Trump e defendem uma política de poder, o presidente brasileiro sustenta outra visão do lugar do continente no mundo.

“Não somos o quintal de ninguém”: a frase resume essa ambição. Ela remete a uma longa história de intervenções e pressões exercidas por Washington na América Latina, região que os Estados Unidos muitas vezes consideraram parte de sua esfera de influência. Uma influência que outras potências — europeias no passado, soviética durante a Guerra Fria, chinesa hoje — também buscaram disputar, cada uma segundo seus próprios interesses.
Essa soberania não significa necessariamente rejeitar toda cooperação com Washington. Na concepção defendida por Lula, ela pressupõe, antes, que o Brasil possa definir suas prioridades diplomáticas, comerciais e estratégicas sem se submeter às imposições de uma potência estrangeira.
As relações entre Lula e Donald Trump ilustraram essa tensão. As tarifas alfandegárias, as pressões diplomáticas e os posicionamentos dos Estados Unidos em favor do campo bolsonarista colocaram a questão da ingerência no centro da campanha brasileira. O presidente em exercício fez da defesa das instituições democráticas e da autonomia do país um argumento central contra seu adversário, cujas afinidades com a direita “trumpista” são assumidas. Isso é demonstrado, aliás, pelo fato de que, pouco depois de sua derrota, Flávio Bolsonaro se refugiou prontamente, a bordo de seu avião particular, nos Estados Unidos, em Miami, onde seu irmão mora há vários anos. Nesse contexto, o presidente Trump mencionou a possibilidade de conceder asilo político a Flávio.
A vitória de Lula, porém, não pode ser reduzida a um confronto entre dois campos ideológicos, nem interpretada como um cheque em branco para o conjunto de sua gestão. Ela também se deve a fatores nacionais: as preocupações com o poder de compra, a segurança, as desigualdades, a mobilização eleitoral e a memória ainda viva dos anos Bolsonaro. O resultado demonstra, antes de tudo, a capacidade de uma coalizão política de voltar a se mobilizar em um país profundamente dividido.
Lula representa, assim, menos uma vitória definitiva da esquerda do que uma possibilidade: a de preservar uma margem de manobra nacional em um cenário internacional marcado pela rivalidade entre potências, especialmente China e Estados Unidos.
Um voto libanês?
O Brasil costuma ser associado a um número impressionante: cerca de seis milhões de pessoas de origem libanesa viveriam no país. Esse número, frequentemente repetido em discursos públicos, deve ser tratado com cautela: as estatísticas oficiais brasileiras não permitem contabilizar com precisão toda essa população com base apenas nessa origem. Sobretudo, ele abrange realidades muito diferentes.
Há uma diferença entre os brasileiros de ascendência libanesa, por vezes distantes de suas raízes familiares há várias gerações, e aqueles que mantêm um vínculo direto com o país dos cedros, especialmente por serem fruto de uma imigração mais recente. Entre esses dois polos, há múltiplas trajetórias. A integração dessa população à sociedade brasileira é antiga e profunda, inclusive na vida econômica, cultural e política do país.
Portanto, não existe um “voto libanês” homogêneo e organizado no Brasil. Os cidadãos brasileiros de origem libanesa não constituem um bloco eleitoral à parte: suas preferências refletem a diversidade social, geracional e política do país. Assim como o restante da população, eles podem estar em campos opostos, entre o apoio a Lula, a adesão ao bolsonarismo ou a escolha de outras forças políticas.
Um episódio da campanha de 2022 ilustra essa realidade. Em Foz do Iguaçu, cidade situada na fronteira com o Paraguai e a Argentina, onde vive uma importante comunidade de origem árabe, parte dessa comunidade havia organizado um jantar com Lula. Mas, assim que o convite foi divulgado nas redes sociais, simpatizantes de Bolsonaro da mesma comunidade protestaram. O jantar acabou sendo cancelado.
Essa controvérsia já revelava as divisões que atravessam a sociedade brasileira. A origem familiar, os vínculos com o Líbano ou o pertencimento a uma comunidade não determinam automaticamente as escolhas eleitorais. As identidades se cruzam, se reconfiguram e, às vezes, ficam em segundo plano diante das preocupações do cotidiano, das convicções políticas ou dos interesses econômicos.
A comunidade de origem árabe, portanto, não escapa à polarização que atravessa o Brasil há vários anos. Ela é até, à sua maneira, um reflexo desse cenário: o de uma sociedade em que os vínculos históricos e culturais já não bastam para prever as escolhas políticas e em que a disputa eleitoral também ocorre dentro das famílias, nas redes sociais e nas próprias comunidades. No Líbano, porém, os cerca de 8 mil eleitores registrados votaram majoritariamente em Lula, que recebeu mais de 60% dos votos.
No dia seguinte à vitória de Lula, essa realidade reforça um ponto essencial: o Brasil não se resume às suas divisões ideológicas nem às suas heranças migratórias. Continua sendo um país plural, cujas divisões representam tanto um desafio democrático quanto uma questão central para seu futuro político.























