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"Byblos" no IMA, uma resistência cultural face à guerra

Reportagem realizada por Fabienne Touma
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Par Fabienne Touma - Publié jul 9, 2026 - 14:12
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Num momento em que os conflitos fragilizam os equilíbrios culturais e ameaçam diretamente os tesouros do passado, certas exposições ultrapassam o simples âmbito artístico para se tornarem verdadeiros atos de resistência cultural. É precisamente o caso da exposição “Biblos, cidade milenar do Líbano”, apresentada até 23 de agosto de 2026 no Instituto do Mundo Árabe (IMA) de Paris. Através de cerca de 400 objetos, ela reconstitui a história antiga de Biblos, um dos portos mais antigos do mundo, ao mesmo tempo que se ancora concretamente na atualidade e no conflito que afeta hoje o Líbano e o Médio Oriente. Pois a exposição é também, apesar de si mesma, moldada pela guerra. Qual foi o impacto da guerra neste projeto, tanto na sua organização como na sua cenografia? Esta última incluía um elemento particularmente marcante: a inscrição “Obra bloqueada pela guerra”. Por que essa escolha? Trata-se de uma vontade deliberada de suscitar emoção no público? De um ato de resistência face à atualidade? Ou de outra coisa? Além disso, o que descobrimos de novo sobre a cidade milenar? Essas descobertas puseram em questão algumas hipóteses históricas sobre a cidade antiga? O que resta ainda por descobrir nesse contexto? São questões que abordámos com Agnès Carayon, responsável por exposições no Instituto do Mundo Árabe(ver a entrevista no vídeo em anexo). Assumir a ausência de certas obras bloqueadas Inicialmente prevista para 2024, a exposição “Biblos, cidade milenar do Líbano” teve de ser adiada devido ao conflito na região do Levante, que impediu o transporte de numerosas obras provenientes do Líbano. Dois anos depois, apesar de uma situação ainda instável, ela é relançada, mas algumas peças continuam bloqueadas no local. Esta realidade não é dissimulada pelos promotores da exposição: eles assumem-na plenamente. As obras ausentes são assim assinaladas no percurso com a menção “obras bloqueadas pela guerra”, tornando visíveis os efeitos diretos do conflito na circulação do património e conferindo um valor inestimável tanto às obras expostas como às ausentes. Ao assumir essas ausências, a exposição adquire uma dimensão completamente diferente e apresenta uma narrativa dupla: a de uma memória milenar e a de um património fragilizado e bloqueado pelas realidades contemporâneas. Manter uma tal exposição nestas condições ultrapassa o âmbito próprio do museu. Trata-se de afirmar que a cultura pode subsistir apesar da guerra, continuar a circular e a transmitir conhecimento. “Biblos, cidade milenar do Líbano” assume assim a forma de um gesto de resistência cultural, lembrando que preservar o património é hoje, mais do que nunca, um desafio essencial. Uma imersão em 9 000 anos de história A exposição mergulha o visitante numa cidade habitada há cerca de 9000 anos, cruzamento maior das civilizações mediterrânicas e primeiro grande porto marítimo internacional. Biblos manteve laços estreitos com o Egito, a Mesopotâmia e o mundo egeu, desempenhando um papel fundamental na difusão do alfabeto fenício. Tesouros reais, adornos em ouro, objetos de aparato e descobertas arqueológicas recentes testemunham a riqueza e o esplendor desta civilização. Esta exploração é prolongada por uma programação cultural que inclui conferências, projeções e encontros, permitindo aprofundar os desafios históricos e contemporâneos ligados ao Líbano e ao seu património. Em eco da exposição, a ARTE transmite nomeadamente o documentário Líbano, os segredos do reino de Biblos de Philippe Aractingi, disponível até 9 de outubro de 2026 em arte.tv, prolongando assim a descoberta para além das salas do museu. A exposição pode ser visitada até 23 de agosto de 2026. Para mais informações, aceda a: https://www.imarabe.org/fr/agenda/expositions-musee/byblos-cite-millenaire-du-liban
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Reportagem
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Par Maxime Pluvinet - Publié jun 2, 2026 - 14:46
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Figura emblemática do Santo Vale de Qadisha, no norte do Líbano, nas altas montanhas de Bsharri, o Padre Dario Escobar faleceu há alguns dias, aos 92 anos. Nascido em Medellín, na Colômbia, em 1934, ele decidiu renunciar ao conforto e aos privilégios de sua abastada família para vir ao Líbano no início dos anos 2000, unir-se à Igreja Maronita e viver como eremita no Santuário de Nossa Senhora de Hawqa, em Qannoubine. Antes de se tornar eremita, recebeu uma sólida formação universitária em teologia, psicologia e grego bíblico na Colômbia. Em seguida, escolheu dedicar-se à contemplação e à vida religiosa na solidão das montanhas de Qadisha, que preservarão viva a memória do eremita Escobar, vindo das distantes terras da Colômbia. Reportagem de Maxime Pluvinet.
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Reportagem
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Par Maxime Pluvinet - Publié mar 28, 2026 - 15:00
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Na província argentina de Misiones, na remota tríplice fronteira entre Argentina, Paraguai e Brasil, os vestígios das missões jesuíticas contam uma história de mistura cultural, resistência e utopias sociais singulares. Das ruínas de San Ignacio às comunidades guaranis atuais, a Levant Time percorre o caminho deixado pelo padre Sélim Abou, ex-reitor da Universidade Saint Joseph, cujo trabalho de campo lança luz, muito além da América Latina, sobre questões contemporâneas de identidade e convivência, chegando até o Líbano. Neste 19 de março, dia de São José, padroeiro da USJ, a Levant Time apresenta a reportagem de Maxime Pluvinet y Miroslava Salazar na América Latina, seguindo os passos do padre Sélim Abou. No calor das antigas terras missioneiras, onde estradas de laterita vermelha se dissolvem na floresta e o rio Paraná traça fronteiras incertas entre Argentina, Paraguai e Brasil, fragmentos da história persistem, nunca totalmente apagados pelo tempo. São pedras, vozes, memórias. E, por vezes, trajetórias humanas que conectam mundos antes considerados irreconciliáveis. O padre Sélim Abou, S.J., falecido em Beirute em 2018, foi uma dessas figuras cujo percurso ultrapassou amplamente as fronteiras nacionais. Antropólogo de destaque, pensador central sobre pluralismo e identidade libanesa, e ex-reitor da Universidade Saint Joseph, manteve também, por mais de meio século, uma ligação profunda com um canto remoto da América do Sul: a província de Misiones, na Argentina. Nessas reduções, formou-se uma sociedade híbrida, nem totalmente europeia nem puramente indígena, baseada em organização coletiva, economia autônoma e no uso central da língua guarani. Quando o jovem jesuíta libanês Sélim Abou encontrou essas ruínas pela primeira vez, no Natal de 1961, aos 33 anos, o impacto foi imediato. Recém-chegado à Argentina para concluir sua formação, visitou San Ignacio Miní, hoje Patrimônio Mundial da UNESCO. Diante do que mais tarde chamaria de “testemunho silencioso da pedra”, experimentou uma espécie de reconhecimento íntimo: a percepção de um diálogo entre culturas tornado possível, frágil, mas real, que confirmava sua vocação jesuíta. O momento foi revelador. Herdeiro intelectual do antropólogo Roger Bastide e do padre Albert de Jerphanion, morto no início da guerra civil libanesa, Abou encontrou na experiência jesuíta-guarani a confirmação de sua vocação: compreender como identidades plurais podem coexistir sem se dissolverem. Uma utopia jesuíta? Mais de sessenta anos depois, em Posadas, capital da província às margens do rio Paraná, essa memória permanece em lugares inesperados. O Instituto Montoya, que leva o nome de um dos pioneiros da experiência jesuíta-guarani, tornou-se uma segunda casa para Sélim Abou. Foi ali que começou a lecionar nos anos 1960 e para onde retornou regularmente ao longo de três décadas. É também ali que parte significativa de seus arquivos está preservada. Em uma sala silenciosa no andar superior de sua residência em Apóstoles, entre fotografias e obras originais de Sélim Abou, a doutora Marisa Micolis manuseia com cuidado documentos acumulados ao longo de mais de cinquenta anos. Amiga, colega e ex-aluna do “padre Abou”, ela recorda um homem para quem a perspectiva de longo prazo era essencial. “Hoje”, afirma, refletindo sobre meio século dedicado à educação, “as pessoas acham que a excelência surge do nada. Mas os seres humanos são feitos para o longo prazo.” Em uma fotografia, o jovem jesuíta sorri ao lado do irmão Habib. Em outra, um ícone da Virgem diante do qual rezava diariamente. Próximo dali, um exemplar de sua obra de 1961 sobre o bilinguismo árabe-francês, sua primeira grande contribuição em Buenos Aires. Para compreender o que marcou tão profundamente Sélim Abou, é preciso atravessar a fronteira com o Paraguai. Em San Ignacio Guazú, o padre Daniel, curador do museu jesuíta, resume a experiência das reduções sem idealizá-la: “Não existe sociedade perfeita. Mas, em comparação com o mundo de sua época, a sociedade jesuíta-guarani realmente criou algo novo.” Ele relembra a figura de Roque González de Santa Cruz, jesuíta nascido em Assunção no século XVI e feroz opositor do sistema de encomienda. Ao lado de outros missionários, defendeu que as comunidades guaranis existissem como sociedades livres, protegidas das expedições escravistas que devastavam a região. Esse projeto não foi uma utopia abstrata, mas um compromisso histórico. Os guaranis conquistaram certo grau de autonomia; os jesuítas encontraram um terreno fértil para a evangelização. Entre ambos, emergiu uma cultura original. Ainda hoje, no Paraguai, o guarani é língua oficial, herança direta dessas comunidades, onde era não apenas falado, mas também escrito e ensinado ao lado do espanhol e do latim, como demonstram as numerosas obras impressas nas próprias reduções. Na igreja de Santa María de Fe, pequena cidade próxima a San Ignacio Guazú, um guia aponta uma escultura de São Jorge matando um dragão. Ali, porém, o dragão assume a forma do aña, figura do mal na cosmologia guarani. Em outro motivo, o maracujá, símbolo indígena de fertilidade, dialoga com a videira cristã. Por toda parte permanecem marcas de hibridismo cultural, uma experiência interrompida precocemente com a expulsão dos jesuítas do continente, resultado de acordos políticos entre coroas. O sacrifício de um ideal em favor de interesses bem terrenos, cujo desfecho é retratado de forma marcante no filme A Missão (1987), de Roland Joffé. 1978: o coração e o pedido A ligação de Sélim Abou com os guaranis, porém, não se limitou ao fascínio pelo passado. Ela ganhou forma concreta em 1978, durante um evento singular: a transferência para Posadas da relíquia do coração de Roque González, santo paraguaio martirizado em 1628 e fundador da cidade, em memória de seu sacrifício. Integrantes do povo Mbyá-Guarani vieram venerá-la. Para eles, o missionário era mais do que uma figura religiosa: era “um amigo de seus ancestrais”. Eles fizeram então um pedido inesperado. Na floresta, durante um encontro com o bispo Jorge Kemerer e professores do Instituto Montoya, o líder espiritual, o Pa’i Antonio Martínez, foi questionado sobre o que seu povo necessitava. Três vezes respondeu que não precisavam de nada. Mas, diante da insistência do bispo, esclareceu: “Quero uma escola para meus netos. Não quero que sejam como eu, sem documentos, sem uma língua em comum com vocês.” A declaração marcou um ponto de inflexão. Assim nasceu um projeto inédito: a criação de comunidades guaranis com escolas bilíngues em Fracrán e Perutí. Sélim Abou se envolveu profundamente. Durante doze anos, acompanhou e documentou a iniciativa, que descreveu como uma “revivência em escala microscópica” das antigas reduções. Sem nostalgia nem ilusões: o objetivo não era reproduzir o passado, mas inventar uma forma contemporânea de convivência. Javier Villalba, cacique de Perutí, recorda: “Ele construiu uma ponte entre si e nossos avós. Era como um conselheiro… e até como um pai.” Nos testemunhos reunidos, um traço aparece de forma constante: a humildade. Sélim Abou não veio impor um modelo. Aprendeu, observou, acompanhou. Respeitou estruturas sociais, crenças e língua. Viveu com as comunidades, compartilhando seu cotidiano. “Ele era como nós”, lembra Villalba. De Misiones a Beirute: “resistência cultural” Em Fracrán, hoje rebatizada em homenagem ao Pa’i Antônio Martínez, a escola ainda existe. As crianças aprendem guarani e espanhol. Catalino Martínez, neto do líder fundador, destaca a dimensão política da iniciativa: “Meu avô queria que nosso povo continuasse avançando, mesmo depois de sua morte.” A experiência contribuiu para lançar as bases de instituições locais, como um órgão dedicado aos assuntos guaranis. Também deixou uma marca mais sutil: uma forma de pensar o desenvolvimento sem apagar identidades. Para Sélim Abou, essa experiência dialogava diretamente com suas reflexões sobre o Líbano. Em entrevista à France Culture, em 2006, destacou o contraste entre um Líbano fragmentado em comunidades e uma Argentina que buscava construir uma nação unificada apesar da diversidade. Em ambos os casos, a mesma questão se impunha: como construir uma sociedade sem negar as diferenças? Como permitir que especificidades culturais vivam e prosperem sem se tornarem base de agendas políticas separadas? Aquilo que viveu nas florestas de Misiones era, ao mesmo tempo, o que pensava para o Líbano. Como antropólogo das identidades, dedicou sua obra a essa questão central. No Líbano, o problema ganhou dimensão dramática após a guerra civil e durante a ocupação síria. Entre 1995 e 2003, como reitor da Universidade Saint Joseph em Beirute, tornou-se uma voz central da resistência intelectual à tutela síria. Seus discursos anuais, aguardados com expectativa, tornaram-se cada vez mais políticos. Em 2002, denunciou uma “sirianização” do Líbano e um sistema que corrompia até mesmo a linguagem política. No mesmo ano, declarou: “A ocupação é a mãe das feridas de que o Líbano sofre.” Sua resposta, porém, não foi militar. Foi intelectual. Diante da repressão às manifestações, desenvolveu a ideia de “resistência cultural”. Incentivava os estudantes a escrever, a pensar e a expressar-se de outra forma, reconstruindo um espaço crítico capaz de resistir à dominação. Em um de seus discursos, por ocasião do dia de São José, citou editoriais e artigos de Issa Goraieb e Michel Hajji Georgiou, publicados no L’Orient-Le Jour, para sustentar seus argumentos. Em suas intervenções, alertava para um perigo mais profundo do que a coerção política: a destruição da capacidade de discernimento. Descrevia um sistema que “perverte a linguagem”, “rompe a coesão social” e “suspende o discurso racional”. Em outras palavras, uma ocupação que atua tanto nas mentes quanto no território e que promove a mediocridade. Essa perspectiva se apoiava em uma convicção mais ampla. Como afirmou um de seus contemporâneos, Sélim Abou buscava responder a uma pergunta fundamental: “Como viver juntos, iguais em direitos, mas diferentes em nossas pertenças?” Nas florestas de Misiones ou nas salas de aula de Beirute, perseguia a mesma intuição: identidades não são muros, mas passagens. E, às vezes, é nas margens do mundo, em uma escola perdida no meio da floresta, que se inventam as formas mais concretas do universal.
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Par Miroslava Salazar - Publié fev 26, 2026 - 13:49
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Morte de "El Mencho" no México, a calma antes da tempestade O exército mexicano matou Nemesio Oseguera "El Mencho", chefe do CJNG e o narcotraficante mais poderoso do México, procurado pelos Estados Unidos com uma recompensa de 15 milhões de dólares. Análise com o Dr. Edgar Guerra, o Lic. Emiliano Alba e os correspondentes do Levant Time, Maxime Pluvinet e Miroslava Salazar. Omar García Harfouch, Secretário de Segurança e Proteção Cidadã (de origem libanesa), acompanha Claudia Sheinbaum, Presidente do México, em uma coletiva de imprensa após a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo "El Mencho", chefe do cartel de Jalisco. (Gerardo Vieyra/NurPhoto via AFP) No domingo, 22 de março, Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), foi morto pelo Exército mexicano. A resposta do cartel foi quase imediata: bloqueios de estradas, incêndios de veículos e atos de violência em Jalisco e outros estados do país. Segundo um mapeamento realizado pela plataforma Dataint, eventos violentos foram registrados em pelo menos 22 estados, com impacto particularmente forte em Jalisco, Puebla, Michoacán, Tamaulipas e Baja California. A reação após a operação revelou o verdadeiro alcance do cartel em diversas regiões do país: seu controle territorial, seu envolvimento tanto na economia legal quanto na ilegal e, sobretudo, a força de sua estrutura organizacional e sua capacidade de mobilização imediata. Este evento pode ser comparado à captura de Joaquín “El Chapo” Guzmán, que ocorreu no mesmo dia, mas doze anos antes. “Sem dúvida, este é o golpe mais significativo contra o crime organizado durante o governo da presidente Claudia Sheinbaum”, afirma Edgar Guerra, especialista em crime organizado, violência e segurança, em entrevista à Levant Time. A Hidra de Cem Cabeças A operação que culminou na morte de “El Mencho” é uma faca de dois gumes. Como alerta Emiliano Alba, analista de segurança e crime organizado, a curto prazo, o governo de Claudia Sheinbaum pode capitalizar sobre isso como uma vitória política na luta contra o narcotráfico: uma mensagem tanto para a opinião pública nacional quanto para os Estados Unidos de que “algo está sendo feito”. No entanto, o impacto estrutural é diferente. “Na prática, o que veremos é uma nova reorganização dentro do cartel. Haverá conflitos internos muito fortes sobre a sucessão do poder”, destaca Alba. Nemesio Oseguera tinha uma presença onipresente no CJNG e nenhum sucessor claro. Para Alba, a queda do líder pode ser interpretada como uma vulnerabilidade temporária, mas não como um colapso estrutural. "É uma fragilidade operacional temporária, mas a estrutura permanece", enfatiza, destacando que o CJNG não depende exclusivamente de uma figura central, mas sim de uma organização consolidada com redes territoriais, financeiras e políticas que garantem sua continuidade operacional. O analista ressalta que a experiência histórica demonstra que a estratégia de decapitar líderes criminosos muitas vezes produz efeitos contraproducentes: "Cortar a cabeça da hidra acaba gerando mais cabeças". Fragmentação, disputas territoriais e a violência decorrente da sucessão já são padrões conhecidos no caso mexicano. Isso é ainda mais relevante porque, como explica Alba, a estratégia do Secretário de Segurança e Proteção Cidadã, Omar García Harfuch, havia mudado, passando de um foco exclusivo na eliminação de líderes para o desmantelamento de estruturas. “Não se tratava mais de decapitar os cartéis, mas de atacar suas redes, suas estruturas políticas, financeiras e territoriais”, explica ele, referindo-se a operações como a Operação Enxame, focada em alianças políticas e redes de proteção institucional. O cenário que se desenrola é previsível: ou o CJNG mantém suas operações sem seu líder, ou entra em uma guerra interna pelo controle da liderança. Neste último caso, o impacto seria direto na segurança pública. “Veríamos um aumento na violência homicida”, alerta o especialista em segurança David Saucedo, em declarações à AFP. Os Estados Unidos: O Vizinho Incômodo Para Edgar Guerra, o contexto internacional é fundamental para entender a operação. “Não podemos entender a política de segurança do governo da presidente Claudia Sheinbaum sem considerar a pressão dos Estados Unidos. O governo Donald Trump exerceu enorme pressão sobre o México: apreensões de fentanil, controle da imigração, maior capacidade operacional. Tudo isso faz parte do mesmo pacote de exigências”, afirma. O próprio governo mexicano confirmou que a operação contou com o apoio dos Estados Unidos no fluxo de informações. “Este não é apenas um problema do México ou de Jalisco. É um problema global”, enfatiza Guerra. Ele explica: “Os Estados Unidos são um dos principais consumidores de substâncias ilícitas e um dos principais produtores de armas. Isso gera incentivos econômicos e materiais para o narcotráfico. Por isso, não é apenas um problema mexicano: é um problema compartilhado, mas com uma responsabilidade estrutural muito clara por parte dos EUA.” A Guerra Que Nunca Termina A chamada “guerra contra as drogas” não é uma categoria nova no contexto mexicano. Basta observar o mandato de seis anos de Felipe Calderón e os governos que se seguiram para entender que a estratégia de confronto direto com o narcotráfico tem sido uma constante por quase duas décadas. No entanto, longe de produzir uma redução sustentada da violência, o país passou por ciclos recorrentes de fragmentação e reconfiguração do crime.Expansão territorial e crescimento das economias ilícitas. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI), foram registrados 33.241 homicídios em 2024, dos quais 71,8% foram cometidos com armas de fogo. Durante o mandato de seis anos de Felipe Calderón (dezembro de 2006 a dezembro de 2012), foram registrados 122.462 homicídios. Durante o mandato de seis anos de Enrique Peña Nieto (2012-2018), o número subiu para 157.158 homicídios. Enquanto isso, a presidência de Andrés Manuel López Obrador deixou um saldo de 202.336 homicídios entre dezembro de 2018 e setembro de 2024. Diante dessa situação, Alba alerta que reduzir a política de segurança a uma lógica de confronto é insuficiente. “As estratégias contra o crime organizado devem ser abrangentes. Não se trata apenas de combater as organizações, mas de restaurar a governança nesses territórios e criar condições de paz para a população. Isso vai muito além do uso da força”, destaca. Guerra concorda que o problema não é exclusivamente militar ou operacional, mas profundamente institucional. “Existem grupos políticos e funcionários municipais e estaduais que os protegem, que permitiram que essas organizações se consolidassem e se expandissem. Parte da tarefa que temos pela frente é desmantelar essas redes de proteção”, alerta. Soma-se a isso um fator estrutural ainda mais profundo: a impunidade. “O crime organizado no México é possível porque existe um profundo problema de impunidade. Sem impunidade, essas estruturas não poderiam se sustentar”, acrescenta. Nesse contexto, a morte de “El Mencho” não representa uma ruptura estrutural, mas sim uma nova fase dentro de um conflito prolongado. Mais do que o fim de uma organização, marca o início de um processo de reestruturação interna cujos efeitos geralmente se traduzem em maior violência, disputas territoriais e reorganização de alianças criminosas. Alba resume a situação com uma imagem clara: “O que vemos é uma espécie de calmaria, como a paz no olho do furacão, mas apenas no curto prazo. O que vem a seguir é a reorganização.” Assim, o que hoje é apresentado como uma vitória política pode se tornar o prelúdio para uma nova e violenta reconfiguração. A questão não é mais se haverá consequências, mas quais serão, onde ocorrerão e com que intensidade se manifestarão. Para milhões de mexicanos, a dúvida persiste: será esta a paz antes da tempestade? Enquanto isso, o governo mexicano capitaliza sobre o golpe simbólico. Mas a história recente mostra que, no México, a queda de um narcotraficante raramente significa o fim da violência; pelo contrário, costuma marcar o início de uma nova fase do conflito.
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Par Vanessa Kallas - Publié fev 10, 2026 - 14:44
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“Esperar é desafiar o futuro.” – Emil Cioran Essa frase, fotografada por Édouard Elias, foi escrita pelo jornalista Samir Kassir em um pedaço de papel duas semanas antes de seu assassinato, em 2005. Ela está entre os muitos objetos pessoais que Elias registrou para preservar a memória de vítimas de assassinatos políticos no Líbano desde então. Esses retratos e vestígios pessoais integram a exposição fotográfica “Remaining”, realizada por ocasião dos cinco anos do assassinato de Lokman Slim. A mostra acontece de 7 de fevereiro a 3 de março, no Union Marks, em Burj Hammoud, das 14h às 20h. A abertura reuniu um grande público e diversas figuras de destaque, entre elas os parlamentares Marwan Hamadé e Michel Moawad, além da ex-ministra May Chidiac. A exposição é uma colaboração entre o fotógrafo e fotojornalista Édouard Elias e a jornalista e cineasta Katia Jarjoura, curadora do projeto. A produção é da Fundação Lokman Slim, com apoio do Instituto Francês. Uma ponte entre passado e presente “Remaining” narra a história de 21 vítimas de assassinatos, incluindo lideranças políticas, agentes de segurança, escritores, jornalistas, testemunhas e sobreviventes. As imagens vão de retratos de familiares e objetos de valor afetivo aos locais e cenas dos crimes, criando uma atmosfera marcada por nostalgia e empatia. Inspiração e homenagem Katia Jarjoura destaca a motivação pessoal por trás do projeto. “Esta exposição é antes de tudo uma homenagem ao meu querido amigo Lokman Slim, tragicamente assassinado em 2021, mas também a outras vítimas de assassinatos políticos no Líbano que lutaram por um país livre e soberano e pagaram por isso com a própria vida.” O significado de “Remaining” Édouard Elias reflete sobre o título da exposição. “Após a morte de alguém, sempre existe um sentimento de ausência. Como a justiça não foi feita, essas pessoas ficam presas a um estado intermediário. Elas ainda estão presentes: não retiramos suas memórias, não tiramos o chapéu do cabide, nem guardamos o relógio da mesa de cabeceira.” “Em um país onde o sistema judiciário é frágil e a maioria dos crimes fica impune, a arte pode responder a esse vazio ou ajudar a preenchê-lo”, acrescenta Jarjoura. “Remaining é, em essência, uma forma de dizer ‘eles permanecem’ e ‘nós permanecemos com eles’.” Humanidade compartilhada e linguagem visual “Remaining” é narrada exclusivamente em preto e branco. Elias explica a escolha estética: “Optei pelo preto e branco porque as imagens tratam da ausência, da memória e do caráter atemporal daqueles que se foram. Quis um trabalho formal, sem efeitos de cor ou intervenções estilísticas, para que todas as pessoas fossem colocadas no mesmo nível.” Ao utilizar objetos cotidianos e cenários familiares, o fotógrafo convida o público a reconhecer a humanidade compartilhada dessas famílias e a refletir sobre o quanto suas histórias se assemelham às próprias experiências. Desde a independência, em 1943, o Líbano registrou mais de 200 assassinatos políticos, a maioria sem punição. A Guerra Civil Libanesa (1975–1990) enfraqueceu gravemente as instituições do Estado, enquanto a lei de anistia de 1991 consolidou uma cultura de impunidade que ainda influencia a vida política do país. O assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, em 2005, seguido pela criação do Tribunal Especial para o Líbano, marcou um ponto de inflexão, ao expor o assassinato político como instrumento de influência sírio-iraniana e ao enfraquecer tanto a soberania libanesa quanto o Estado de Direito. Quem foi Lokman Slim Lokman Slim foi um editor, cineasta e ativista político libanês, conhecido por sua defesa firme dos direitos humanos, das liberdades civis e do Estado de Direito. Ele cofundou o UMAM Documentation and Research com sua esposa, Monika Borgmann, com o objetivo de preservar a memória coletiva do Líbano e estimular o debate público. Crítico contundente do sectarismo e da violência política, Slim foi assassinado em 4 de fevereiro de 2021, em Addousiyeh, no sul do Líbano. “Remaining” é um chamado urgente à responsabilidade e à justiça, para que o futuro do Líbano não seja contido pelo medo, mas acolhido com esperança.
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Par LevantTime . - Publié jan 26, 2026 - 07:41
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Enquanto os 47 membros do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas se alarmaram em uma resolução sobre "a escala sem precedentes da violenta repressão das manifestações pacíficas pelas forças de segurança" no Irã, o Alto Comissário Volker Türk condenou os tiros das forças de segurança com "munição real" contra os manifestantes, lamentando a morte de "milhares" de pessoas, incluindo crianças. No centro dessa repressão estão o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), braço ideológico do Líder Supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei. Os «Pasdaran» ("guardiões" em farsi) constituem uma força armada extremamente organizada, acusada pelos ocidentais de orquestrar e até mesmo participar da repressão do movimento de protesto. Quem são eles? Os "Pasdaran" foram criados em 1979 pelo Líder Supremo pouco depois da revolução islâmica "a fim de propagar os ideais da revolução islâmica", lembra Clément Therme, pesquisador associado ao Instituto Internacional de Estudos Iranianos, citado pela AFP. Uma fonte diplomática ocidental que pediu anonimato avançou um número próximo a 200.000 homens. Além da ideologia, "é uma força armada que funciona como um exército de elite com meios terrestres, marítimos, aeroespaciais, mas é mais bem treinada, mais bem equipada e mais bem paga do que o exército" regular, destaca essa fonte. O CGRI também é o elo de Teerã com seus aliados na região, como o Hezbollah libanês ou os grupos armados do Hachd al-Chaabi no Iraque. Constitucionalmente, todos os seus dirigentes são nomeados pelo Líder Supremo. Em junho passado, Ali Khamenei havia nomeado como novo chefe Mohammad Pakpour para suceder Hossein Salami, morto durante ataques aéreos israelenses. Ele é um antigo veterano da guerra Irã-Iraque. Quais são os seus meios? "É um império dentro de um império", destaca David Khalfa, notando que os "Pasdaran" detêm ou controlam empresas em todos os setores estratégicos da economia iraniana. "Eles têm uma posição quase monopolista", seja nas infraestruturas (portos, transportes, barragens, etc.), energia (gás e petróleo), tecnologias, telecomunicações, setores financeiro e bancário. Seu orçamento militar é estimado entre 6 e 9 bilhões de dólares por ano, ou seja, cerca de 40% do orçamento militar oficial iraniano, segundo os dados coletados pelo pesquisador. "Eles controlam de facto a economia iraniana". Como eles funcionam? Os Guardiões estabeleceram uma vasta rede de inteligência que é "a mais extensa e eficaz do regime iraniano", explica David Khalfa, pesquisador da fundação Jean-Jaurès, citado pela AFP. Eles são capazes de desmantelar cuidadosamente e em tempo recorde redes de protesto, identificando em poucos minutos os líderes de uma contestação. Eles se apoiam em uma milícia paramilitar (os Bassidj), recrutada essencialmente entre a juventude, que atua como uma organização ideológica inserida em todas as instituições e todas as camadas da sociedade. Eles seriam entre 600.000 e 900.000 pessoas, segundo David Khalfa, com base em dados cruzados de diversos centros de pesquisa americanos. Que papel desempenham na repressão atual? "Eles desempenham um papel central na repressão porque hoje, mais do que nunca, eles são o pilar do regime iraniano, o pilar de sua perenidade, de sua sobrevivência", analisa David Khalfa. "Eles estabeleceram uma linha política e operacional em relação às manifestações que é: tolerância zero", acrescenta. Daí um número considerável de pessoas mortas, pelo menos 700 em duas semanas, segundo as ONGs. Os especialistas estimam que, no início das manifestações, os guardiões estavam provavelmente em segundo plano, apoiando-se nas forças de segurança locais e nos Bassidj. Mas "desde o início, eles pilotam o aparelho repressivo", "eles coordenam o trabalho de repressão sistemática", destaca David Khalfa. A contestação não enfraquecendo, eles enviaram suas forças terrestres e suas unidades especiais, explica o pesquisador. E em "uma estratégia de negação" de sua responsabilidade, "eles agem à paisana", acrescenta Clément Therme, para não serem "atribuídos diretamente a uma responsabilidade em matéria de violação dos direitos humanos". Uma organização terrorista? Desde 2019, os Estados Unidos incluíram os Guardiões da Revolução na lista de organizações consideradas terroristas pelo Departamento de Estado. Autoridades europeias, incluindo eurodeputados, apelaram nos últimos dias à União Europeia para reforçar a pressão contra as autoridades iranianas, exigindo, entre outras coisas, que o CGRI seja também incluído na lista de organizações terroristas. A Alemanha, em particular, seria favorável, visto que a Força Quds, a unidade de elite dos Guardiões da Revolução que atua no estrangeiro, é suspeita de estar por trás de um ataque contra uma sinagoga em 2021 em solo alemão, segundo uma fonte diplomática.
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