

A festa de Todos os Santos, neste dia 1 de novembro, marcará o início do ano litúrgico. Todos os Santos é a festa de todos os santos que não figuram no calendário da Igreja. Ao lado dos santos oficialmente canonizados, celebram-se, portanto, nesse dia, aqueles que rezam e que só Deus conhece: sacerdotes, monges e monjas, mães de família, funcionários bancários, militares, porteiros, zeladores, bibliotecários, avós ou jovens da Igreja… pedras inabaláveis, bem encaixadas na grande muralha de defesa da cidade santa libanesa.
Para sustentar a confiança com que enfrenta as incertezas dos tempos e a sua fé na poderosa ação dos santos na história, um amigo historiador cita dois fatos históricos notáveis: a compra de um campo pelo profeta Jeremias quando Jerusalém estava prestes a cair nas mãos dos caldeus (587 antes de Cristo) e o nascimento de Jesus numa pequena aldeia insignificante do Império Romano.
O relato da compra de um campo pelo profeta Jeremias, uma das grandes figuras proféticas da Bíblia, é comovente (capítulo 32). Antecipando-se a quase um século de exílio, Deus ordena ao profeta que compre um campo que o seu primo lhe oferece, embora Jerusalém, cercada pelos exércitos do rei da Babilônia, esteja prestes a cair.
A súplica do profeta Jeremias continua a ser um dos apelos mais comoventes da Bíblia: «Ah! Senhor, meu Deus, diz Jeremias no capítulo 32 do seu Livro (…), eis que se erguem obras de cerco e rampas para tomar a cidade; pela espada, pela fome e pela peste, a cidade é entregue nas mãos dos caldeus que lhe fazem guerra. O que disseste está se cumprindo: tu mesmo o vês. E és tu, Senhor, meu Deus, que me dizes, quando a cidade está sendo entregue nas mãos dos caldeus: “Compra esse campo com dinheiro e chama testemunhas!”».
E o historiador citado se pergunta qual seria a reação de um libanês de hoje se lhe oferecessem um terreno à venda quando ele acabasse de comprar a sua passagem de avião.
No entanto, ressalta ele, foi mais ou menos isso que aconteceu neste verão em Rayaq, no vale do Bekaa, quando clarissas italianas compraram uma casa para fundar um mosteiro, justamente num momento em que inúmeros libaneses, jovens e menos jovens, desanimados com a estagnação política e a instabilidade, pensam em emigrar.
Além disso, esse amigo lembra que, na mesma década em que os historiadores situam a anunciação a Maria, o futuro parecia depender da rivalidade entre os impérios Romano e Parta.
Em vez disso, observa ele, uma nova era despontava no mundo com o anúncio feito pelo arcanjo Gabriel, numa pequena aldeia da Galileia absolutamente insignificante.
Leão XIV: Os santos fazem a história
Nos seus ensinamentos, e mais recentemente por ocasião da sua viagem à França, o papa Leão XIV recorda que «os santos fazem a história» e que «sem eles, a história do mundo seria infinitamente mais pobre e menos humana».
O que ele quis dizer? Todos sabemos que, salvo exceções — e elas existem —, os santos não transformam o mundo por meio de conquistas políticas ou militares, mas, antes de tudo, por uma comunhão interior e espiritual com Cristo, em circunstâncias adversas que muitas vezes exigem heroísmo.
Fazem isso transformando primeiro o próprio coração à luz do Evangelho e, num segundo momento, dando respostas concretas aos apelos do seu tempo.
Isso fica evidente na figura de São Charbel Makhlouf, que não foi abalada nem pelas grandes convulsões do seu século, nem pela guerra e pelas crises que se sucederam no Líbano e no Oriente Médio ao longo dos últimos 50 anos.
Mas todos sabemos também que as suas austeridades lhe deram tamanha influência sobre o coração de Deus que lhe foi concedido «mover montanhas».
Durante sua visita histórica a Annaya, o papa destacou precisamente como, ao escolher a pobreza radical, o silêncio e a oração constante, São Charbel se tornou a âncora espiritual de todos os libaneses, leigos e religiosos. Hoje, vale ressaltar, o mosteiro de Annaya atrai mais de 3 milhões de peregrinos por ano. Assim, um eremita de extrema humildade transformou uma pequena aldeia nas montanhas em um ponto de encontro mundial da fé.
Elo de união para a convivência
Por outro lado, além do carisma de cura que já começara a manifestar em vida e que hoje exerce com imensa generosidade, São Charbel se tornou um elo de união para a convivência no Líbano. Superando as divisões internas, ele uniu um país cuja história contemporânea foi marcada por uma sucessão de tensões religiosas sangrentas e crises políticas intermináveis.
Ainda assim, cristãos, muçulmanos e drusos de todas as classes sociais se reúnem junto ao seu túmulo para pedir graças. Ao realizar milagres sem distinção de religião, Charbel escreve hoje — ou melhor, reescreve incansavelmente — uma história de paz e unidade onde a política e a guerra semearam e continuam semeando a divisão.
Para todos aqueles que buscaram e obtiveram graças por sua intercessão, São Charbel deixou de ser uma figura do século XIX para se tornar um farol na tempestade, uma âncora de esperança. Diante da instabilidade das instituições, da precariedade da assistência social ou do colapso bancário, seu legado oferece às pessoas e às famílias uma força moral e espiritual que as protege da dor, do desânimo e do desespero.
Por fim, embora o Líbano seja um país de pequena extensão territorial e, em determinado momento, tenha sido sinônimo de fragmentação e balcanização, São Charbel, por meio dos milagres que lhe são atribuídos em todo o planeta, levou ao mundo a face espiritual e mística do Líbano. Ele transformou a percepção cultural do país, fazendo do Líbano uma «terra de santidade» e um lugar de peregrinação.
Em suma, enquanto os líderes políticos da época de Charbel viram suas estruturas desmoronar com o fim do Império Otomano, um monge que vivia no recolhimento construiu um legado que continua a amparar, curar e unir o Líbano, mais de um século após sua morte.
É exatamente isso que o papa quer dizer com «os santos fazem a história».



















