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Religião

A centralidade da língua siríaca na tradição maronita 1/7

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«Mulheres Maronitas na fonte», pintura de Pierre-François Lehoux, 1849. (Wikimedia Commons)
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Por Amine Jules Iskandar
Publicado jul 26, 2026 - 13:01

À saída de um recital maronita em língua siríaca, os espectadores ficam admirados por terem sentido as palavras e a espiritualidade no mais fundo do seu ser. Experimentaram emoções de uma intensidade incomum, ainda mais intensa do que quando se trata de uma língua que compreendem. Perguntam-se então: como uma língua que se tornou amplamente incompreendida pode penetrá-los com mais força do que uma língua aprendida nos bancos da escola?

A língua da alma

O siríaco está na origem da espiritualidade maronita, assim como o foi para as demais Igrejas antioquenas. Mesmo marginalizada, essa língua permanece inscrita na essência da identidade maronita. Ela fala ao espírito, nutre a interioridade e sacia uma sede espiritual. Pela sua sonoridade, seu ritmo e a riqueza de suas imagens poéticas, o siríaco abre um espaço interior singular.

Mesmo quando os fiéis já não compreendem perfeitamente a língua, percebem-na como parte de si mesmos. Como destacou o liturgista jesuíta Robert Taft, a participação litúrgica não se reduz à compreensão intelectual do texto; ela envolve também uma memória simbólica, sensorial e afetiva que participa plenamente da experiência do rito.

Após uma abordagem histórica e, em seguida, linguística, esta série de sete artigos pretende mostrar como a perda de uma língua, sob o pretexto de abertura ao ambiente e ao mundo, conduz à ilusão de uma fé absoluta. A busca por uma religião puramente espiritual, desvinculada de qualquer herança, desenraizada e liberta das identidades, pode então transformar-se em ideologia.

Calcedônia

Do ponto de vista histórico, não se pode deixar de notar a íntima relação existencial entre a língua siríaca e os maronitas enquanto Igreja e enquanto povo. Nesse sentido, o Concílio de Calcedônia, convocado em 451 pelo imperador bizantino Marciano e sua esposa Pulquéria, revela-se determinante:

Este quarto concílio ecumênico afirmou claramente o diofisismo, ou seja, as duas naturezas, humana e divina, de Cristo, verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. “Um único Cristo reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação”, declara a profissão de fé conhecida como “Símbolo de Calcedônia”.

Os Siríacos, cuja abordagem teológica era mais antropológica do que filosófica, tinham dificuldade em apreender essas sutilezas, tanto mais que o seu vocabulário nem sempre permitia distinguir tais nuances. Para além da controvérsia teológica, esses cristãos temiam o risco de assimilação política e cultural pelo Império Bizantino de língua grega.

Colocados diante da escolha entre a unidade eclesiástica e a salvaguarda da sua identidade cultural, face à assimilação grega, os Siríacos ocidentais dividiram-se em três grupos:

1- Uma primeira componente optou pela unidade cristã, adotando o concílio com todas as suas implicações litúrgicas, culturais e até identitárias. Tendo-se integrado plenamente à Igreja imperial bizantina, essa comunidade é hoje conhecida como greco-ortodoxa, melquita ou rum (Romanos do Oriente).

2- O segundo grupo, fortemente apegado à sua identidade cultural, rejeitou o concílio em sua totalidade. Embora miafisita (reconhecendo as duas naturezas humana e divina de Cristo, mas fundidas em uma só), foi qualificado de monofisita. Conhecida na Idade Média como jacobita, designa-se hoje como Igreja Siríaca Ortodoxa.

3- A terceira componente recusou essas duas opções radicais para escolher uma via de compromisso e de síntese: a unidade cristã calcedônica, sem renunciar ao seu apego inabalável à língua siríaca. Este grupo tornou-se, no século VII, uma Igreja Antioquena Maronita autocéfala, tendo São João Maron como primeiro patriarca.

Sem esse apego inabalável à língua, à cultura, à identidade e à espiritualidade siríaca, a Igreja Maronita provavelmente jamais teria existido. Ela teria se dissolvido, como os demais calcedônios, na cultura imperial bizantina.

São João Maron

A própria ideia do Líbano tem sua origem na ação desse primeiro patriarca, São João Maron, que conferiu à sua nova Igreja uma dimensão nacional. Ao contrário das demais Igrejas siríacas, melquitas e coptas, a de São João Maron não se limitou ao âmbito espiritual; ela se dotou dos atributos de uma nação. Esse patriarca estabeleceu, assim, seus alicerces territoriais (o Monte Líbano), religiosos (o cristianismo calcedônio), militares (os mardaítas) e linguísticos (o siríaco).

Os mardaítas, um povo guerreiro provavelmente originário do Cáucaso, tinham por missão a defesa do Levante. Na sequência do tratado de paz celebrado em 667 entre o califa Muawiya e o imperador Constantino IV, este último ordenou a retirada de suas tropas mardaítas do Líbano. Uma segunda retirada de doze mil mardaítas ocorreu sob Justiniano II. Os mardaítas que permaneceram no local constituíram então a espinha dorsal militar dos maronitas.

Se a organização militar representa uma condição essencial para o surgimento de uma entidade política, a língua permanece a pedra angular de toda construção nacional. São João Maron colocou-a no centro de seu projeto espiritual, fazendo do siríaco a língua litúrgica, sagrada e simbólica.

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