

Tendo discutido o nascimento da Igreja Maronita após o Concílio de Calcedônia, é agora apropriado examinar o papel da língua na construção da nação. É particularmente significativo notar o quanto a hierarquia eclesiástica maronita estava atenta a essa questão e como se esforçou para agir de acordo.
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Para os patriarcas maronitas, desde São João Maron, a língua constituía a expressão de sua cultura, sua espiritualidade, sua fé e sua identidade. Essa convicção foi formulada com grande clareza no século XVII pelo Patriarca Estêvão Douayhi. Ele chamou o siríaco de “la nostra lingua syriaca” (nossa língua siríaca) e atribuiu-lhe uma dimensão quase mística, comparável aos mistérios do cristianismo. Com isso, ele queria dizer que nenhuma tradução poderia substituir o siríaco original ou expressar o conceito em sua plenitude. As palavras, de fato, possuem uma memória secundária, e cada cultura estabelece uma relação única entre o significante e o significado.
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Quando o siríaco começou a ser seriamente ameaçado no século XVIII, o Concílio Maronita de 1736 em Louaizé foi forçado a proibir a tradução de livros litúrgicos para o árabe. Menos de dez anos depois, em 1744, o Patriarca Maronita Shemun Awad convocou um sínodo que especificou que era estritamente proibida a tradução de livros maronitas para o árabe sem a autorização explícita das autoridades eclesiásticas (1). Essa permissão foi concedida apenas sob duas condições: o texto árabe deveria ser impresso em escrita siríaca (comumente conhecida como Garshuni) e o texto original em siríaco deveria ser colocado ao lado do texto traduzido (2).
O Patriarca Shemun Awad reiterou essas disposições de 1744 em um novo concílio realizado em 1755. No ano seguinte, o Patriarca eleito Tobias Khazen reafirmou todas essas cláusulas em seu concílio de 1756. Mais especificamente, o Sínodo Maronita de 2005, em seu Artigo 10, determinou a preservação e o renascimento da língua e cultura siríacas em todas as escolas e universidades maronitas.
O patriarca que lutou com mais intensidade pela preservação da língua siríaca foi Antonios Pierre Arida. Diante dos desafios do jovem Estado do Grande Líbano, que acabara de adotar o árabe como língua nacional, ele exigiu o uso contínuo do siríaco em todas as escolas cristãs. Sua carta, datada de 25 de junho de 1946 e escrita pelo Padre Raphael Bar Armalet, expressa claramente sua visão do Líbano moderno.
A Cosmovisão
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A língua é um elemento fundamental na formação da identidade coletiva, como enfatizou Johann Fichte. Mas ela é também, e sobretudo, portadora de um projeto espiritual. Já no século XVIII, o filósofo Johann Gottfried von Herder afirmou que o espírito de um povo se expressa por meio de sua língua (3).
Uma cultura só pode se expressar plenamente em sua própria língua, cujo léxico foi moldado por sua experiência histórica e influenciado por suas crenças. A própria palavra "cultura" remete etimologicamente à adoração, em torno da qual se organizam os meios de expressão de uma civilização: língua, literatura, escrita, música, arte e arquitetura. "A natureza de uma civilização é o que se consolida em torno de uma religião", afirmou André Malraux (4). A língua, portanto, não é de modo algum um simples instrumento de comunicação, mas uma matriz que transmite os paradigmas socioculturais dos quais se origina.
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A hipótese de Sapir-Whorf sobre a relatividade linguística sustenta que a estrutura de uma língua influencia a cognição de seus falantes e sua relação com o mundo (5). Ludwig Wittgenstein expressa ainda mais esse conceito quando escreve: "Os limites da minha língua significam os limites do meu próprio mundo" (6). A língua, assim, molda, em uma relação recíproca, a visão de mundo e a forma como ela é expressa. Essa complementaridade sociolinguística se estabelece entre a ideia e sua expressão, entre o significado e o significante.
Dessa perspectiva, Wilhelm von Humboldt declarou em 1820 que “a diversidade das línguas não é uma diversidade de sons e signos, mas uma diversidade de visões de mundo”. Ele desenvolveu essa ideia afirmando que cada língua transmite uma Weltansicht (visão de mundo) específica (7). Substituir a língua de uma comunidade equivale, portanto, a transformar sua maneira de compreender o mundo, sua autopercepção e sua relação com a vida após a morte.
Desarraigamento por meio do linguicídio
“A língua é a morada do ser”, escreveu Martin Heidegger (8). Quando a fé abandona sua “morada”, torna-se estranha a si mesma.
A língua desempenha um papel central na transmissão do patrimônio cultural. Uma fé enraizada em uma língua conserva uma riqueza simbólica, uma profundidade histórica e uma polissemia fértil que a abre à interpretação, à ambiguidade frutífera e à profundidade hermenêutica.
O símbolo, também litúrgico em sua natureza, transcende em muito sua simples função de comunicação para se tornar encarnação e mistério. É essa dimensão que desaparece durante um linguicídio: o mistério se esvai junto com os símbolos e metáforas esquecidos.
Como demonstra Paul Ricoeur, o símbolo abre um espaço para a interpretação (9). Seu desaparecimento leva ao fechamento do significado. A eliminação da ambiguidade e da riqueza semântica exige uma leitura única. Esse processo é característico da ideologia, que privilegia a leitura literal, reduz a mensagem a um slogan, suprime a interpretação e impõe a certeza.
(1) – Ray Jabre Mouawad, Une approche différente de la langue arabe par les melkites et les maronites du Liban d'après un poème d'Ibn al-Qala'i (XV°S.), in PDO, 34, 2009, pp. 345-359.
(2) – Ibid.
(3) – Johann Gottfried von Herder, Treatise on the Origin of Language, 1772, e Traité sur l'origine des langues, Allia, 2010.
(4) – André Malraux, Note sur l'Islam, junho de 1956.
(5) – Benjamin Lee Whorf, Language, Thought and Reality, MIT Press, 1956.
(6) – Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, 1921; versão francesa, Paris, Gallimard, 2001.
(7) – Wilhelm von Humboldt, On the Diversity of Human Language Construction, 1836, e Anne-Marie Chabrolle-Cerretini, La vision du monde de Wilhelm von Humboldt, Lyon, ENS Éditions, 2007.
(8) – Martin Heidegger, Ser e Tempo, (1927), Paris, Gallimard, 1986 (trad. fr.), § 34.
(9) – Paul Ricoeur, La symbolique du mal, Paris, Aubier, 1960.
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