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O sul da Síria em primeiro plano

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Foto Palácio Real Hachemita da Jordânia/X
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Publicado nov 5, 2026 - 03:18

O sul da Síria volta ao centro das atenções sob uma perspectiva diferente, a da segurança hídrica da Jordânia, questão à qual o rei Abdullah II atribuiu enorme importância, com uma insistência quase dramática, no discurso que pronunciou há poucos dias diante da Assembleia Nacional, composta pelo Senado e pela Câmara dos Deputados. Na ausência de cooperação e coordenação entre a Jordânia e a Síria em todas as áreas, especialmente no combate ao terrorismo, Israel continuará realizando incursões periódicas no sul da Síria, em uma tentativa evidente de assumir o controle da região e de seus arredores, com especial interesse pela bacia do rio Yarmouk e pelos recursos hídricos.

Era natural que Abdullah II, no discurso do trono que abriu a terceira sessão ordinária da Assembleia Nacional, concentrasse sua atenção no massacre cometido contra pessoas reunidas para um funeral dentro de uma igreja na aldeia de Hammoud, na província de Karak. O monarca jordaniano não hesitou em afirmar que “temos uma dívida para com os mártires de Karak”. Também era natural que reafirmasse que “não haverá segurança nem estabilidade em nossa região sem que seja assegurado o direito do povo palestino à sua terra”. Essas declarações dão continuidade ao discurso particularmente contundente que Abdullah II pronunciou perante a Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro passado, quando condenou duramente Israel e suas ações na Cisjordânia e em Gaza.

O monarca jordaniano não abordou diretamente a situação no sul da Síria. No entanto, os ataques realizados pela aviação jordaniana contra um alvo específico nas proximidades de Daraa deixaram claro que a região havia se tornado motivo de preocupação para a Jordânia. Essa preocupação decorre do terrorismo que se enraizou no sul da Síria, onde estabeleceu bases permanentes, bem como da presença de elementos extremistas ligados ao Estado Islâmico (EI). O sul da Síria deixou de ser apenas um foco de contrabando de armas e drogas. A situação tornou-se ainda mais complexa em razão de dois acontecimentos diretamente relacionados à Jordânia. O primeiro diz respeito às ligações entre extremistas dos dois lados da fronteira, como ficou evidente no massacre ocorrido na igreja de Karak. O segundo está relacionado à segurança hídrica, que sempre foi, e continua sendo, uma das maiores prioridades do reino, um país que sofre com a escassez de água.

O que chamou particularmente a atenção no último discurso de Abdullah II, além de suas renovadas advertências sobre as ações israelenses, foi a ênfase dada à segurança hídrica da Jordânia. Depois de afirmar que “hoje avançamos no caminho da modernização econômica, e vários projetos importantes e ambiciosos já começaram a ser executados para impulsionar a economia nacional, fortalecer sua resiliência e consolidar o papel central da Jordânia na região”, o monarca subitamente elevou a voz e exclamou: “Água, água, água!”. Em seguida, acrescentou: “Nossa segurança hídrica é uma prioridade nacional. Não permitiremos que a sede dos jordanianos fique à mercê de qualquer circunstância. Não há espaço para concessões nem para contemporizações nessa questão. Por isso, oriento o governo a dar continuidade aos projetos de segurança hídrica e a elaborar planos preventivos para proteger os recursos do país, garantir sua sustentabilidade e preservar os direitos das futuras gerações”.

Segundo especialistas em assuntos jordanianos, essas palavras constituíam uma referência à bacia do Yarmouk, de grande importância para a Síria, a Jordânia e Israel, que está sempre em busca de novas fontes de água. Abdullah II sinalizava que a expansão israelense em direção àquela área havia se tornado uma das principais preocupações do reino hachemita, em um momento em que a segurança hídrica passou a se entrelaçar com os problemas do terrorismo e do contrabando de armas e drogas para a Jordânia. Torna-se, portanto, cada vez mais provável que essas considerações levem o reino a adotar medidas militares e de segurança preventivas em território sírio, a fim de proteger seus interesses e sua segurança nacional.

Não há dúvida de que isso estabelecerá uma nova realidade no sul da Síria. Em outras palavras, o ataque jordaniano contra islamistas extremistas nas proximidades de Daraa, imediatamente após o massacre na igreja de Karak, não será uma operação isolada. Ele faz parte de um conjunto de esforços destinados a impedir que o sul da Síria se transforme em uma ameaça à segurança da Jordânia, inclusive à segurança hídrica do reino. Já não é possível ignorar que essa situação exige das novas autoridades sírias que não subestimem as preocupações jordanianas nem a importância de encontrar soluções de longo prazo. Isso impõe uma mudança fundamental na maneira como a nova administração síria, liderada por Ahmad al-Sharaa, lida com a questão do sul do país. O primeiro passo consiste em rejeitar qualquer presença do Estado Islâmico e de organizações semelhantes na região, além de pôr fim à postura complacente diante de qualquer forma de pensamento terrorista surgido no seio da Irmandade Muçulmana.

Em última análise, a nova administração síria precisa abandonar a ideia de buscar maneiras de conviver com organizações que defendem o terrorismo, sob o pretexto de preservar a coesão entre os grupos que conseguiram derrubar o regime minoritário dos Assad, pai e filho. É necessário que a administração esteja à altura dos acontecimentos, começando por compreender que as denúncias das práticas e ambições israelenses não passarão de meros protestos enquanto não forem acompanhadas de medidas concretas no terreno. Medidas que demonstrem que Ahmad al-Sharaa realmente mudou e que agora compreende o significado de erradicar o terrorismo no sul da Síria, um terrorismo que foi praticado contra os drusos de Sweida e que atualmente se manifesta por meio da coordenação com elementos extremistas na Jordânia.

A eliminação do terrorismo, dos terroristas e de sua ideologia, juntamente com uma compreensão efetiva da importância da segurança hídrica destacada por Abdullah II, também contribuirá para criar um clima diferente nas relações com Israel, diante de sua determinação em ampliar a ocupação de territórios sírios para além das Colinas de Golã...

 

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