
Israel após as eleições de 2026: Eisenkot pode abrir caminho para a queda de Netanyahu?

As últimas eleições israelenses não puseram fim à disputa pelo poder. Apenas a transferiram das urnas para as negociações em torno da formação do governo. Os resultados não deram nem a Benjamin Netanyahu nem a seus principais adversários a maioria parlamentar necessária para governar. Israel se vê, assim, diante de um cenário político aberto a diferentes possibilidades, entre as quais uma das mais significativas poderia ser a chegada de Gadi Eisenkot ao cargo de primeiro-ministro. Uma mudança dessa natureza não se limitaria à substituição do chefe de governo: poderia também provocar uma reconfiguração das alianças políticas que governaram Israel nos últimos anos.
De acordo com os resultados definitivos anunciados pela Comissão Eleitoral Central em 30 de outubro de 2026, o bloco de Netanyahu conquistou 53 cadeiras, contra 48 do bloco de oposição articulado em torno de Gadi Eisenkot. As duas listas árabes, por sua vez, conquistaram 19 cadeiras, distribuídas entre a Lista Conjunta (11) e a Lista Árabe Unida (8). Portanto, nenhum dos dois blocos dispõe dos 61 parlamentares necessários para obter a confiança do Knesset e formar um governo.
Esses números colocam os partidos árabes em uma posição excepcional e conferem aos votos de seus representantes um papel decisivo nos cálculos para a formação do próximo governo. Entretanto, transformar esse peso numérico em uma verdadeira parceria política esbarra nas diferenças ideológicas e nos compromissos de aliança que dividem o próprio campo da oposição.
Em seu livro «Do campo de Tall el-Zaatar aos corredores das Nações Unidas», Nabil Maarouf, ex-embaixador palestino na Espanha, na Turquia e no Canadá, relata o êxodo de sua família da aldeia natal de Deir al-Qassi, no distrito de Acre, situada a apenas cerca de cinco quilômetros da localidade libanesa de Rmeich.
Segundo seu testemunho, a aldeia não havia sido atacada pelas milícias sionistas. Sua evacuação e o deslocamento de seus habitantes para Rmeich ocorreram, na verdade, a pedido do Exército Árabe de Libertação, comandado por Fawzi al-Qawuqji. Ele havia convocado os moradores a deixar suas aldeias e buscar refúgio no Líbano, enquanto aguardavam a entrada dos exércitos árabes na Palestina e sua vitória sobre as forças sionistas.
Maarouf acrescenta que os moradores das aldeias drusas e cristãs vizinhas tentaram convencer seu pai e seu tio a permanecer em suas casas, em vez de partir. Mas o receio de serem acusados de traição, e de que sua recusa em obedecer às orientações do Exército Árabe de Libertação fosse interpretada como uma ruptura com o consenso nacional, acabou levando-os a abandonar Deir al-Qassi e deixar sua aldeia para trás.
Naquela época, qualquer pessoa que questionasse a capacidade do Exército Árabe de Libertação de unir-se aos exércitos árabes na Palestina e derrotar as forças sionistas corria o risco de ser classificada como traidora. Assim, segundo o testemunho de Maarouf, seu pai e seus tios deixaram a aldeia por medo de serem considerados covardes ou colaboradores do inimigo.
Em contrapartida, aqueles que permaneceram em suas casas e aldeias, sem abandonar os territórios que posteriormente se tornariam parte do Estado de Israel, somavam aproximadamente 160 mil pessoas, segundo as estimativas históricas geralmente aceitas. Seus descendentes passaram a ser conhecidos como árabes de Israel ou palestinos do interior. Dessa comunidade surgiram importantes personalidades literárias, culturais e políticas, entre elas Mahmoud Darwish, Samih al-Qassem, Emile Habibi, Azmi Bishara, Ahmad Tibi, Youssef Jabareen e muitas outras.
O relato de Nabil Maarouf atribui a Yitzhak Rabin, durante as negociações que levaram aos Acordos de Oslo, o reconhecimento de que permitir a permanência dessa população palestina dentro do Estado judeu havia sido um erro estratégico cometido pelo movimento sionista em 1948. Seu significado político, porém, tal como apresentado por Maarouf, reside no paradoxo criado por aquele período.
De fato, aqueles que haviam sido considerados por alguns militantes da época como pessoas que abandonaram a luta pela libertação, ou sobre os quais recaíam suspeitas de deserção, tornaram-se parte da sociedade israelense. Ao longo do tempo, consolidaram uma presença demográfica, econômica, profissional, universitária e política cada vez mais expressiva.
Hoje, os cidadãos árabes representam mais de 25% da população de Israel, segundo as estatísticas oficiais publicadas em setembro de 2026, e sua participação na vida pública continua crescendo. Essa presença deixou de ser apenas uma questão demográfica ou social: tornou-se um fator político incontornável nos cálculos do poder e nas perspectivas de evolução do sistema político israelense.
Esse processo levanta questões que ultrapassam amplamente os resultados das eleições atuais. Elas dizem respeito à própria natureza do Estado israelense, à maneira como ele se define, ao futuro de suas relações com seus cidadãos árabes e também aos seus vínculos com os povos árabes, próximos ou distantes.
O primeiro paradoxo é político e particularmente marcante: as forças políticas israelenses que, durante muito tempo, procuraram marginalizar os cidadãos árabes e reduzir seu papel político encontram-se agora diante da necessidade de buscar os votos de seus representantes parlamentares para superar o impasse criado pelas eleições.
O paradoxo mais profundo, entretanto, diz respeito à própria definição de Israel como Estado judeu e democrático. Como conciliar o caráter judeu do Estado com uma realidade demográfica na qual mais de um quarto da população é composto por árabes não judeus? Como um sistema político pode afirmar-se democrático quando forças fundamentais dentro dele consideram a participação dos representantes desses cidadãos no governo uma parceria ilegítima, ou até mesmo um ônus político que seria melhor evitar?
A democracia não se mede apenas pelo direito ao voto. Ela também se verifica por meio da igualdade política e civil, bem como da capacidade dos cidadãos de participar da condução do Estado sem discriminação baseada na religião ou no pertencimento nacional. Se os partidos judeus insistem em boicotar os blocos parlamentares árabes e mantê-los à margem, como podem afirmar que o sistema político representa todos os cidadãos do Estado?
Quando a identidade nacional e religiosa se torna um critério determinante na distribuição dos direitos políticos e no acesso a cargos de responsabilidade, abre-se caminho para um sistema de discriminação institucionalizada. O debate sobre o apartheid volta então ao primeiro plano, com todas as suas implicações jurídicas, políticas e relativas aos direitos humanos.
Surge ainda outra questão, igualmente importante: se as forças políticas judaicas em Israel são incapazes de estabelecer relações normais com partidos árabes que atuam dentro do próprio sistema político israelense, como podem esperar alcançar uma normalização natural e duradoura de suas relações com os demais povos árabes em seus respectivos países?
A atual correlação de forças mostra que Netanyahu perdeu a capacidade de formar um governo estável sustentado exclusivamente por seu próprio bloco. Mas isso tampouco oferece a Eisenkot um caminho fácil para o cargo de primeiro-ministro.
Eisenkot não dispõe de uma maioria parlamentar própria, e nem todos os seus aliados estão dispostos a aceitar um governo dependente do apoio dos partidos árabes, seja dentro da coalizão, seja de fora dela.
Seu bloco enfrenta um duplo dilema: precisa de votos adicionais para garantir a maioria, mas não pode ultrapassar facilmente as linhas vermelhas políticas e ideológicas que alguns de seus integrantes estabeleceram contra qualquer cooperação com os partidos árabes.
Por outro lado, as duas listas árabes, com suas 19 cadeiras, encontram-se diante de uma oportunidade sem precedentes de influenciar a composição do próximo governo, desde que consigam transformar seu peso parlamentar em uma posição política comum ou em acordos específicos que definam as condições de seu apoio e de sua eventual participação.
Isso não significa necessariamente que os partidos árabes integrarão um governo de Eisenkot. O apoio externo, uma abstenção que permita evitar a queda do governo ou um acordo em torno de um programa político determinado podem mostrar-se muito mais viáveis do que a participação ministerial direta.
Diante desse impasse, vários cenários circulam nos meios políticos israelenses como possibilidades de redesenhar as alianças e redistribuir as forças parlamentares.
O primeiro cenário consiste em promover a formação de um governo de unidade nacional. Essa opção desperta certo interesse em setores americanos próximos ao presidente Donald Trump, que veem nela uma possível saída para o bloqueio político e, eventualmente, um meio de afastar determinadas forças da extrema direita dos centros de decisão.
Entretanto, se esse governo de unidade fosse liderado por Netanyahu, encontraria a resistência claramente manifestada por Eisenkot, que se recusa a participar de um governo chefiado pelo atual primeiro-ministro. Assim, esse cenário poderia transformar-se em uma tentativa de salvar Netanyahu politicamente, em vez de constituir um verdadeiro projeto de mudança de liderança.
O segundo cenário se baseia na possibilidade de atrair os partidos ultraortodoxos asquenazes, especialmente a corrente Agudat Israel, e romper seu alinhamento automático com o bloco de Netanyahu.
Nesse contexto, o nome de Yitzhak Goldknopf, líder do Agudat Israel, passou a ser mencionado depois que veículos de comunicação israelenses noticiaram a possibilidade de que ele se abstivesse de votar contra um governo liderado por Eisenkot, caso determinadas condições políticas fossem atendidas.
A partir daí, pode-se imaginar uma manobra política mais ousada: a Lista Conjunta poderia tomar a iniciativa de abrir um canal de negociação com Goldknopf e até mesmo colocar seu nome sobre a mesa no âmbito de um acordo político relativo à sua posição no poder ou ao lugar de sua corrente no próximo governo.
Isso não significa, de modo algum, que sua eventual candidatura ao cargo de primeiro-ministro ou vice-primeiro-ministro tenha se tornado uma iniciativa anunciada oficialmente ou uma perspectiva concreta e garantida. Trata-se, antes, de um cenário hipotético que revela até onde alguns atores poderiam estar dispostos a ir na reconfiguração das alianças, caso os interesses políticos e parlamentares prevalecessem sobre as considerações tradicionais.
Os partidos ultraortodoxos não constituem um bloco político perfeitamente homogêneo em seus cálculos, embora compartilhem interesses relacionados à isenção do serviço militar, ao financiamento público das instituições religiosas e à preservação da autonomia de seus sistemas educacional e social.
Esses interesses poderiam levá-los a reconsiderar suas alianças caso concluíssem que Netanyahu já não é capaz de atender às suas reivindicações nem de proteger suas posições no poder.
Entretanto, atrair o Agudat Israel não significa necessariamente conquistar o apoio de todos os integrantes do Judaísmo Unido da Torá, coalizão que também inclui a corrente Degel HaTorah, com seus próprios cálculos e referências políticas e religiosas.
Além disso, o próprio Eisenkot defende uma posição favorável à ampliação da obrigatoriedade do serviço militar e à eliminação dos privilégios excepcionais de que desfrutam os ultraortodoxos nessa área.
Qualquer aproximação entre Eisenkot e as forças ultraortodoxas asquenazes exigiria, portanto, um compromisso político e social particularmente difícil, sobretudo no que diz respeito ao futuro do recrutamento militar obrigatório e ao financiamento público das instituições religiosas.
É necessário, assim, não confundir a abstenção de determinados parlamentares ultraortodoxos durante a votação de uma moção de desconfiança com o apoio ao novo governo ou a participação nele. Existe uma diferença considerável entre permitir a formação de um governo e integrar sua coalizão.
Outra possibilidade poderia ter um impacto ainda maior nos cálculos para a formação do governo: a possível dissidência de parlamentares do Likud ou de forças pertencentes ao bloco de Netanyahu, caso passassem a considerar que vincular seu futuro político ao do atual primeiro-ministro se tornou um obstáculo eleitoral e pessoal.
A questão não se limita a divergências sobre políticas específicas. Ela envolve também o futuro da liderança da direita israelense e a possibilidade de reconstruí-la sem Netanyahu.
Essa perspectiva poderia tornar-se mais atraente para alguns parlamentares caso percebessem que a permanência de Netanyahu à frente do Likud levaria a novas eleições antecipadas ou a um enfraquecimento ainda maior da posição do partido e de sua capacidade de governar.
Se os interesses de determinados parlamentares convergissem com a vontade de Eisenkot de formar um novo governo, uma mudança de lado poderia tornar-se possível. Tal evolução reduziria a dependência do novo governo em relação aos votos árabes ou ultraortodoxos.
Essa hipótese, entretanto, continua condicionada a posicionamentos concretos e a dissidências anunciadas oficialmente. Não pode ser apresentada como um fato já consumado.
Os resultados das eleições de 2026 não revelam apenas uma crise passageira de coalizão. Eles expõem uma crise mais profunda na estrutura do sistema político israelense e na maneira como ele define as fontes de legitimidade, representação e participação.
Netanyahu, que durante muitos anos conseguiu construir alianças sólidas entre a direita e as forças religiosas, encontra-se hoje à frente de um bloco que perdeu uma parcela considerável de sua força parlamentar.
Eisenkot, que se apresentou como uma alternativa política, descobre, por sua vez, que derrubar Netanyahu não basta para garantir uma maioria governamental. Sua chegada ao cargo de primeiro-ministro passa necessariamente por acordos com forças cujos interesses e posições divergem em questões fundamentais.
Quanto aos partidos árabes, passaram de uma posição de representação política que as forças políticas judaicas procuravam neutralizar à condição de força parlamentar indispensável nos cálculos para a formação do governo.
Essa transformação os coloca diante de uma responsabilidade política histórica: irão contentar-se em desempenhar o papel de árbitros nas rivalidades entre os partidos judeus ou transformarão sua nova posição em uma oportunidade para colocar as questões da igualdade, da cidadania e dos direitos civis e políticos no centro da agenda do Estado?
O paradoxo histórico merece uma reflexão. Aqueles que deixaram suas aldeias em 1948 por medo de serem classificados como traidores caso se recusassem a obedecer às ordens do Exército Árabe de Libertação, e aqueles que permaneceram em sua terra para se tornarem cidadãos do Estado construído sobre as ruínas de sua sociedade, veem hoje seus descendentes constituírem uma força política de peso na definição de quem governará Israel.
Assim, a questão levantada pelas eleições de 2026 não se limita a saber se Gadi Eisenkot conseguirá derrubar Benjamin Netanyahu. Ela vai muito além e coloca uma interrogação mais fundamental: Israel é capaz de redefinir sua democracia de modo a reconhecer seus cidadãos árabes como parceiros em condições de igualdade na determinação de seu futuro ou continuará prisioneiro da contradição entre o caráter judeu do Estado e as exigências da democracia?
Pois a substituição de um primeiro-ministro pode tornar-se possível por meio de um acordo parlamentar. Mas transformar a natureza do Estado e o sistema de suas relações com os cidadãos constitui um desafio histórico e político muito mais complexo do que simplesmente reunir 61 votos no Knesset.



















