

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, já havia levantado, algum tempo atrás, a possibilidade de Israel deixar de depender do apoio americano. Fez isso, inclusive, com certa fanfarronice, ao afirmar que seu país seria perfeitamente capaz de prescindir dessa ajuda ilimitada. Ainda assim, as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o fim desse apoio no final de 2026 causaram surpresa, tanto pelo momento em que foram feitas quanto pelo prazo anunciado. Suas palavras levantam inúmeras dúvidas sobre a capacidade real de Israel de «resistir» sem o apoio político, econômico e militar direto dos Estados Unidos.
Para compreender melhor a dimensão histórica desse apoio, basta lembrar que seu valor acumulado é estimado em cerca de 175 bilhões de dólares desde a Nakba e a proclamação do Estado de Israel, em 1948. Trata-se de uma quantia astronômica, sem equivalente na assistência prestada pelos Estados Unidos a qualquer outro país e, em termos absolutos, sem paralelo na ajuda concedida por um Estado a outro em qualquer parte do mundo. Um montante que supera todas as expectativas e ultrapassa os limites do razoável, mesmo entre países aliados, sobretudo quando a ajuda segue em uma única direção. Daí uma pergunta fundamental que deveria ser feita nos Estados Unidos: será que Washington realmente precisa destinar tantos recursos a um aliado que mancha sua reputação no mundo, particularmente na região árabe, e o arrasta para guerras intermináveis?
A ajuda anual americana a Israel chega a aproximadamente 3,8 bilhões de dólares. Durante o governo do ex-presidente Joe Biden, porém, esse valor alcançou cerca de 12,5 bilhões de dólares, após a operação «Dilúvio de Al-Aqsa», quando Tel Aviv mobilizou o apoio internacional no contexto de sua guerra contra a Faixa de Gaza. Uma guerra que provocou a morte de mais de 75 mil palestinos e a destruição completa do território, incluindo suas instalações de saúde e educação, além de sua infraestrutura social, cultural e esportiva. Israel também mantém sua política de asfixia de Gaza, impedindo a entrada de comboios humanitários em quantidades compatíveis com as necessidades reais da população. A fome e a ameaça de fome em massa continuam pairando sobre os habitantes do território.
Nenhum observador pode ignorar que o apoio ininterrupto de Washington a Tel Aviv garantiu a Israel proteção internacional durante décadas, permitindo que escapasse de punições, da obrigação de prestar contas e até mesmo de questionamentos, particularmente perante organizações e tribunais internacionais. Essa impunidade lhe permitiu dar continuidade às suas políticas agressivas, não apenas contra o povo palestino, mas também contra todos os seus vizinhos. Israel prossegue sua expansão e seus bombardeios incessantes no Líbano e na Síria, intensifica suas investidas contra a Cisjordânia e continua trabalhando ativamente para judaizar Jerusalém e desfigurar sua identidade árabe.
Estima-se que Washington tenha utilizado seu poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas cerca de 70 vezes desde meados da década de 1970 para proteger Israel. Repetidamente, essa prática impediu qualquer tentativa de responsabilizar Israel, política, jurídica ou mesmo moralmente, pela continuidade da ocupação dos territórios palestinos.
Até mesmo o conhecido refrão da «solução de dois Estados», repetido pelas sucessivas administrações americanas, embora nenhuma delas tenha exercido pressão suficiente sobre Israel para obter avanços concretos em sua implementação, desapareceu completamente sob Trump. O presidente prefere seguir outros caminhos. Ora os Acordos de Abraão, que não produziram nenhum avanço verdadeiro, além de uma normalização concedida sem contrapartidas. Ora a ideia de transformar Gaza em um imenso empreendimento imobiliário, aberto a investimentos. Ora, ainda, a afirmação de que o território israelense é pequeno demais e de que talvez fosse conveniente ampliá-lo!
Enquanto isso, Israel continua sua política de apropriação gradual de territórios na Cisjordânia e nos países vizinhos. Fragmenta a Cisjordânia, multiplica os postos de controle, classifica as áreas segundo diferentes regimes administrativos, realiza prisões e não respeita sequer as normas mais elementares do direito aplicável à ocupação. Isso sem falar na instalação de novos colonos e na expansão dos assentamentos existentes, nem na proteção aberta e explícita que seu exército oferece aos bandos de colonos que aterrorizam os moradores e as populações autóctones, cometem agressões, destroem suas casas e procuram expulsá-los à força de suas terras e privá-los de seus meios de subsistência. Esses mesmos colonos impedem os palestinos de colher suas azeitonas e recolher sua produção agrícola. Todas essas práticas têm como objetivo transformar a realidade no terreno e tornar impossível qualquer retorno à situação anterior a 1967.
No entanto, ainda será necessário muito tempo para que se assista a uma transformação profunda nas relações entre Estados Unidos e Israel, como alguns parecem esperar. É verdade que o clima da opinião pública americana começou a mudar. Mas esse fator, isoladamente, não é suficiente para alimentar expectativas de que Washington reveja sua política de alinhamento absoluto com Israel. O surgimento de figuras políticas como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador eleito Abdul El-Sayed pode representar, de certa maneira, o início das mudanças tão esperadas. Mas também pode oferecer à extrema direita uma oportunidade para atacar essas experiências políticas ainda incipientes e voltar a lançar advertências sobre o Islã e os muçulmanos, explorando a islamofobia disseminada nas sociedades ocidentais em geral, e não apenas na sociedade americana.
Não há dúvida de que a consciência política da população americana está crescendo, tanto em alcance quanto em profundidade. Mas essa conscientização, por si só, não será suficiente sem uma mobilização política e popular organizada, permanente e contínua, capaz de construir novas realidades, impor novas leituras da situação e alterar o rumo atual dos acontecimentos ou, pelo menos, modificá-lo gradualmente.



















