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Olhar pousado

Líbano: linhas de fogo dentro e fora

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Por Rami Rayess
Publicado ago 17, 2026 - 18:36

Enquanto os países da região buscam mecanismos e alianças que lhes permitam reduzir sua dependência total dos Estados Unidos em matéria de segurança, ou até mesmo se desvincular por completo de sua tutela, tendo a aliança turco-saudita-paquistanesa como um exemplo claro dessa tendência, o Líbano oficial segue na direção oposta, rumo a uma dependência cada vez maior de Washington na maioria das questões de sua política externa. Isso não se limita à questão das negociações diretas libanês-israelenses, iniciadas em Washington e que prosseguem em Roma, e não em Paris, por exemplo, o que não é por acaso.

Naturalmente, o Líbano não pode comparar sua posição, sua presença ou seu papel aos das três grandes potências regionais, nem adotar abordagens semelhantes às delas, dadas as capacidades políticas, econômicas e militares de que dispõem. Tampouco alguém pode afirmar com certeza se o Líbano é sequer capaz de se distanciar de Washington ou se possui outras opções que lhe permitam fazê-lo. Nada indica, além disso, que uma iniciativa desse tipo seja necessária, tendo em vista o importante papel que os Estados Unidos continuam desempenhando tanto no plano internacional quanto regional.

Se alguns consideram que foram, na prática, as negociações políticas diretas que puseram fim à guerra, algo que certamente contém uma parcela de verdade, o Líbano precisa, ainda assim, definir uma política externa mais ativa e eficaz, capaz de mobilizar apoio internacional em favor de sua justa causa e de exigir de maneira persistente a retirada militar israelense completa até as fronteiras internacionais reconhecidas. Essas fronteiras foram consagradas pelo Acordo de Armistício firmado entre o Líbano e Israel em 1949, mas foram completamente ignoradas nas últimas negociações.

É verdade que Washington não aceitará que ninguém concorra com o papel que recuperou no Líbano e que pretende conservar o monopólio da cena libanesa para utilizá-la como via de acesso a alguma conquista política em nível regional, sobretudo diante do impasse em torno do dossiê iraniano, oscilando entre bombardeios e negociações, sem que nenhuma das duas vias tenha conseguido produzir um desfecho decisivo. Mas também é verdade que apoiar-se exclusivamente em uma única potência internacional, por mais forte que seja, não necessariamente produz os resultados esperados. Talvez o exemplo mais evidente seja a marginalização do papel francês, reduzido à sua expressão mínima, algo pouco habitual no contexto das relações «históricas» entre o Líbano e a França.

Embora se reconheça o caráter incontornável do papel norte-americano diante das circunstâncias atuais e da correlação de forças produzida pelas guerras que assolaram a região nos últimos dois anos, resta naturalmente esperar que Washington exerça maior pressão sobre sua aliada privilegiada para obter a retirada e conter o apetite desenfreado de Israel pelo território do sul do Líbano, evidenciado, entre outras coisas, pela publicação de mapas suspeitos, pela abertura de estradas e pelo estabelecimento de posições militares nas áreas ocupadas.

Enquanto os Estados Unidos não se convencerem de que a construção do Estado no Líbano favorece a estabilidade interna e regional, e enquanto essa convicção não se traduzir em posições concretas que produzam resultados efetivos no sul do Líbano, a situação continuará girando no mesmo círculo vicioso: as armas antes da retirada ou a retirada antes das armas? A propósito, essa opção, a construção do Estado no Líbano, não necessariamente favorece os interesses de Israel. O mais provável é que não, pois a fraqueza do Estado lhe permite descarregar sua hostilidade histórica contra um Líbano plural, em contraste com sua identidade unívoca, cada vez mais radicalizada.

A construção do Estado no Líbano, cujo ponto de partida é assegurar ao Estado o monopólio das armas, e não promover o desarmamento, constitui o caminho correto e único para sair da realidade em que vivemos. Isso permitiria aos habitantes do Sul confiar na existência de um Estado capaz de protegê-los, acolhê-los e garantir-lhes as condições de uma vida digna, longe dos discursos sobre marginalização e abandono, reforçados por retóricas sectárias detestáveis, revestidas de slogans doentios e impregnadas de um ódio capaz de lançar as bases de conflitos civis que a maioria dos libaneses acreditava definitivamente superados.

Em uma sociedade plural e diversa como a libanesa, o Estado não pode ser construído com base no governo pela espada, embora um excesso de fraqueza também possa ser fatal para o projeto estatal. Ele deve ser construído a partir de espaços de interesse comum encarnados pelo Estado, que nenhuma parte, por mais poderosa que seja, pode substituir. Foi exatamente isso que os acontecimentos no Líbano demonstraram ao longo dos anos, depois que o excesso de poder passou sucessivamente de uma comunidade para outra.

Cabe, portanto, ao Estado libanês dar por si mesmo os passos necessários para se construir e não excluir o diálogo com ninguém, dentro ou fora do país, com o objetivo de alcançar essa meta, mesmo que isso exija abrir canais com atores que apoiam determinadas forças no Líbano em vez de apoiar o próprio Estado. Por que o Estado não buscaria formular entendimentos regionais sob cobertura internacional que lhe permitissem traduzir concretamente seu projeto no Líbano: o projeto do Estado? Isso está acima de suas capacidades? Talvez. Mas é preciso tentar.

Por fim, se a defesa de um diálogo no exterior parece necessária para sair do atual impasse, a necessidade de um diálogo interno não é menos urgente. Não pode se tratar de um diálogo meramente folclórico, cujos resultados se limitem a entendimentos verbais que jamais encontrem caminho para a implementação, mas de um diálogo que busque seriamente estabelecer os parâmetros necessários no plano interno: nenhum recuo no projeto de construção do Estado, cujo ponto de partida é assegurar ao Estado o monopólio das armas, e não promover o desarmamento; e nada de alimentar sentimentos de marginalização e abandono entre uma parcela dos libaneses.

Entre esses dois imperativos, será preciso criar algum espaço comum, por maiores que sejam as dificuldades.

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