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Olhar pousado

Rumo a um “status quo” duradouro no Oriente Médio

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Por Rami Rayess
Publicado jun 29, 2026 - 11:03

Independentemente da controvérsia política e midiática provocada pelo conteúdo do acordo entre os Estados Unidos e o Irã, o desenrolar dos acontecimentos mostra agora com clareza que novas dinâmicas estão tomando forma na região. Seu principal denominador comum pode muito bem ser virar a página do profundo e antigo conflito entre Washington e Teerã para estabelecer uma gestão baseada em parâmetros diferentes daqueles que prevaleceram até agora. É nesse contexto que se explica a insistência iraniana em querer “pôr fim ao estado de guerra entre os dois países”.

O diretório iraniano demonstrou grande pragmatismo ao aceitar sentar-se à mesa de negociações diretas poucas semanas após o assassinato do Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, cuja autoridade moral, religiosa, política e militar ocupava um papel central dentro da República Islâmica. Com isso, rompia com uma doutrina que havia moldado sua política durante mais de quarenta e cinco anos, desde a vitória da Revolução Islâmica em 1979, a chegada do imã Khomeini ao poder, a definição dos fundamentos ideológicos do regime e da exportação da revolução, assim como a designação permanente dos Estados Unidos como o “Grande Satã”.

Apesar das pesadas perdas sofridas durante as duas guerras sucessivas, o Irã provavelmente soube tirar proveito do temperamento particular do presidente americano Donald Trump, sempre em busca de grandes acordos comerciais e desejoso de aparecer como o homem capaz de obter feitos espetaculares sem precedentes. Sua pressa em iniciar a guerra contra o Irã, seguindo os conselhos do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, levou-o a alimentar expectativas elevadas que rapidamente se mostraram fora de alcance. O poder americano, por maior que seja, não garante resultados imediatos.

Na prática, Teerã saiu dessa guerra com resultados superiores às suas próprias expectativas. As sanções que atingem o petróleo iraniano deverão ser suspensas após anos de embargo; parte de seus ativos financeiros congelados será desbloqueada, enquanto o país tem uma necessidade urgente desses recursos. Também se fala na criação de um fundo de reconstrução de 300 bilhões de dólares. Quanto aos temas que haviam motivado precisamente o conflito, o programa nuclear, o programa balístico e os grupos aliados iranianos, eles acabaram sendo devolvidos à mesa de negociações. Afinal, quem domina melhor a arte da paciência e da negociação de longo prazo do que aqueles que tecem tapetes?

Sem minimizar as consequências da grave crise econômica e social que atinge o país, o regime iraniano aprendeu há muito tempo a viver sob pressão política e econômica, embora hoje aspire mais do que nunca a se libertar dela. Para Teerã, ter resistido sem entrar em colapso já representa uma vitória em si mesma. Apesar da eliminação de altos responsáveis e das destruições em massa que atingiram numerosas instalações estratégicas, tanto civis quanto militares, o regime permaneceu de pé.

Também ficou evidente que as esperanças americanas, provavelmente nunca verdadeiramente fundamentadas, de que o povo iraniano se levantaria contra seus dirigentes assim que a guerra começasse, pertenciam mais ao campo da aposta do que da análise. Israel havia destacado amplamente essa hipótese para convencer Washington da validade da opção militar, sem que ela se apoiasse em informações realmente sólidas. Seja porque a retirada dos iranianos de qualquer mobilização de protesto tenha sido motivada por um reflexo de unidade nacional diante de uma agressão externa, seja porque tenha oferecido ao regime a oportunidade de recuperar o fôlego em plena guerra, o resultado permanece o mesmo. O poder iraniano não vacilou e todos aqueles que viviam no exterior, que já haviam preparado suas gravatas para o retorno, encontram-se hoje diante de uma profunda desilusão. As perspectivas de sobrevivência do regime estão agora fortalecidas e, ao que tudo indica, a questão de sua queda não deverá mais ser colocada em um futuro previsível.

Acima de tudo, o Irã “descobriu” uma carta importante, talvez até decisiva: a do Estreito de Ormuz, cuja ameaça há muito tempo utilizava. A experiência demonstrou que poderia usá-lo como instrumento de pressão a serviço de seus interesses, mesmo sem chegar a impor uma taxa de passagem, como desejava. Todos conhecem a importância que Donald Trump, assim como todos os países ocidentais, atribui à continuidade do abastecimento de petróleo e à livre circulação das cargas, já que seus impactos sobre a economia mundial continuam sendo enormes.

A questão agora ultrapassa o simples balanço de ganhos e perdas. Ela abre caminho para uma nova trajetória política, cujo conceito central pode muito bem ser um status quo regional, ou seja, uma forma de coexistência, ainda que sem qualquer cordialidade, entre Washington e Teerã. Os próximos acontecimentos mostrarão o que ocorrerá com os demais temas, entre eles o Líbano e as armas do Hezbollah. Aqueles que apostavam no desaparecimento automático do arsenal do partido em consequência de um colapso iraniano provavelmente serão levados a rever sua análise com maior realismo, privilegiando a busca por um compromisso regional sob patrocínio americano que permita colocar fim a esse impasse e garantir o monopólio das armas pelo Estado, único autorizado a decidir sobre guerra e paz.

Tal evolução, contudo, pressupõe que Washington contenha as ações de seu aliado turbulento, Israel, cujas iniciativas frequentemente ultrapassam limites políticos, morais e até geográficos, ocupando territórios aqui, bombardeando ali e realizando assassinatos seletivos em outros lugares. A expressão “conter as ações” não traduz qualquer hostilidade em relação a Israel. Ela apenas leva em conta a natureza das relações entre os Estados Unidos e Israel, sua profundidade e as dificuldades que tornam, neste momento, qualquer afastamento real uma possibilidade complexa.

Caso o compromisso mencionado não se concretize, o Líbano entraria em uma fase ainda mais delicada, entre a intransigência israelense, a recusa em realizar uma retirada militar e a rejeição do Hezbollah em entregar suas armas, fortalecido pela avaliação que Teerã faz dos resultados dessa guerra. O essencial continua sendo evitar que esse status quo regional se transforme, no Líbano, em uma realidade explosiva e em uma longa guerra de desgaste.

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