

São muitos os legados entre o Líbano e a Síria, mas também são muitas as oportunidades. O passado entre os dois países pesa enormemente. Da independência sob o Mandato, em 1920, à independência efetiva, em 1943, passando pelas etapas mais recentes, os dossiês foram se acumulando a ponto de transformar as relações complexas entre os dois países em uma situação quase permanente. Mas chegou a hora de pôr fim a isso e abrir uma nova página cujo princípio fundamental seja o respeito mútuo e a não ingerência nos assuntos internos.
A amarga experiência da tutela síria vivida pelos libaneses, desde a entrada da Síria no Líbano, em 1976, até a retirada militar de 26 de abril de 2005, continua profundamente presente em sua memória. Essa retirada ocorreu em meio às reações internacionais que se seguiram ao assassinato do presidente Rafic Hariri, em 14 de fevereiro daquele mesmo ano. Embora a análise das razões da entrada síria no Líbano exigisse, por si só, vários artigos, a fase que marcou o auge da tutela teve início após a participação da Síria na operação de libertação do Kuwait, em 1990, quando seu controle sobre o Líbano lhe foi concedido, na prática, como uma espécie de “recompensa”.
Os libaneses naturalmente se lembram de como a administração síria do Líbano se transformou em uma forma de gestão direta, exercida por meio do centro dos serviços de inteligência sírios em Anjar, do Beau Rivage e de outros locais, onde figuras do antigo regime se empenhavam em humilhar as autoridades libanesas e lhes davam ordens com grande condescendência, sem a menor consideração pelas exigências mais elementares da dignidade nacional.
Também é desnecessário lembrar que os libaneses não esqueceram os assassinatos políticos perpetrados no Líbano contra líderes de opinião, intelectuais e políticos, de Kamal Jumblatt a Rafic Hariri, nem as intimidações, as prisões e a supressão da liberdade de expressão e das demais liberdades. A tutela quase transformou o Líbano em um regime calcado no sistema sírio, com eleições de fachada sem verdadeiro impacto, cujo único objetivo era completar a encenação política.
O importante é que essa página tenha sido virada. Mais importante ainda, porém, é refletir seriamente sobre como construir, para o futuro, relações sólidas baseadas na confiança, no respeito e nos interesses comuns, e sobre como evitar que qualquer um dos dois países volte a ser arrastado a prejudicar o outro ou a tentar assumir o controle sobre ele, como ocorreu no período anterior. Também é necessário que certos círculos oficiais e não oficiais libaneses saiam da hesitação ou da indiferença em relação ao desenvolvimento dessas relações na direção correta, de modo a servir aos interesses de ambos os países.
A extinção do Conselho Superior Libanês-Sírio constituiu um passo na direção correta para devolver as relações ao seu quadro natural: relações entre dois Estados plenamente independentes, ligados por numerosos interesses comuns e cujas relações devem ser organizadas pelos canais diplomáticos habituais, isto é, por meio das embaixadas. Elas também podem ser elevadas ao nível de comissões mistas ou ministeriais encarregadas de tratar de questões setoriais específicas.
No entanto, apesar de tudo o que foi dito acima sobre a necessidade de restabelecer a «normalidade» das relações entre o Líbano e a Síria, é indispensável superar alguns dos obstáculos que impedem o avanço em numerosos domínios, sem que isso implique um retorno às antigas fórmulas, particularmente em matéria de política externa. Se é absolutamente inaceitável voltar à fórmula da «unidade das frentes e dos destinos», que dominou a política externa libanesa durante a década de 1990 e que, na prática, privou o Líbano da capacidade de formular uma política independente fora da órbita síria, isso não significa que a coordenação deva ser interrompida, especialmente nas questões regionais e no contexto do conflito com Israel.
O Líbano e a Síria sofrem ambos com a expansão militar israelense. A primeira sofreu sua parcela de destruição e ocupação ao longo de duas guerras sucessivas, enquanto a segunda também viu novas porções de seu território serem ocupadas. Ambos os países enfrentam violações diárias de sua soberania nacional. E embora a ideia de uma confrontação militar direta com Israel não esteja em pauta nem no Líbano nem na Síria, a coordenação das posições políticas e diplomáticas é extremamente útil para ambos os países.
No âmbito da segurança, a coordenação é mais do que necessária para desmantelar o que resta das redes de narcotráfico, de tráfico de Captagon, de tráfico de pessoas e de contrabando. Essa ação deve ser conduzida com firmeza por ambos os lados, pois tais atividades causam graves prejuízos aos dois países. Quanto às possibilidades de cooperação econômica, no setor elétrico e comercial, elas são numerosas, muito numerosas mesmo, e exigem atenção especial por parte das autoridades oficiais dos dois países.
Virar a página do passado não basta. É preciso pensar seriamente no futuro, sobretudo porque a região atravessa transformações sem precedentes em diferentes níveis e as ameaças israelenses também chegaram a um estágio avançado. Isso faz com que até mesmo um mínimo de « harmonia » libanesa-síria se torne uma necessidade urgente.