
Há uma verdadeira virada americana em relação ao Estado hebreu?

Muitos analistas se debruçaram sobre as críticas incomuns feitas pelo vice-presidente americano J.D. Vance em relação a Israel, vendo nelas uma posição inédita, apesar do amplo apoio político, militar e econômico que Washington oferece a Tel Aviv.
De fato, Vance lembrou aos críticos israelenses do acordo diplomático com Teerã que dois terços das armas que «protegeram sua pátria» são de fabricação americana e totalmente financiadas pelos contribuintes dos Estados Unidos.
Ele destacou que Israel depende excessivamente da força militar para resolver suas crises e que deveria dar mais consideração a Washington como seu único e verdadeiro aliado estratégico restante no mundo. Em uma entrevista concedida ao New York Times, Vance afirmou que Donald Trump é o único chefe de Estado no mundo que demonstra simpatia por Israel neste momento, antes de declarar aos israelenses:
“Vocês são um país de nove milhões de habitantes e não podem resolver todos os seus problemas de segurança nacional apenas por meio de assassinatos.”
Uma mudança de tom inédita
Não há dúvida de que existe uma mudança no tom e na forma de se dirigir a Israel. É raro ouvir críticas sérias de vozes oficiais americanas contra esse país, frequentemente visto como o «filho mimado» das administrações sucessivas.
Essas administrações geralmente disputavam entre si demonstrações de parcialidade política em favor de Israel, um caminho quase obrigatório para seguir uma carreira política sem obstáculos, devido à influência considerável dos grupos de pressão (lobbies) americanos nos corredores de Washington.
Se essa mudança repentina de tom é de fato real, isso não significa de maneira alguma que a atual administração americana tenha se «libertado» da influência sionista exercida por esses lobbies. Também não significa que ela seja agora capaz de debater publicamente o fato de que existe uma diferença entre o interesse nacional americano e o interesse israelense, e que presumir um alinhamento permanente entre ambos é um erro político, ou até estratégico, que custou, e continua custando, aos Estados Unidos pesadas perdas morais, políticas e materiais.
As consequências do viés histórico americano
O histórico e absoluto viés americano em favor de Israel, assim como o escudo de proteção fornecido ao país em todos os níveis, desde o uso repetido do direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas durante décadas para garantir sua impunidade diante da ocupação e da repressão do povo palestino, até os níveis mais baixos, contribuiu, ao longo das últimas décadas, para alimentar sentimentos de ódio contra os Estados Unidos, especialmente na região árabe, criando um abismo entre os povos da região e Washington.
No entanto, esses sentimentos de ódio nunca se transformaram em um movimento concreto de oposição. Isso se deve a vários fatores, entre eles:
A ausência de democracia nos países árabes e a repressão dos povos, que impedem a expressão de seus verdadeiros sentimentos.
A fragmentação árabe e as divisões oficiais sobre a maneira de lidar com o conflito árabe-israelense.
A assinatura de acordos de paz unilaterais com Israel, especialmente pelo Egito e pela Jordânia, o que rompeu a unidade e enfraqueceu a posição árabe. Esse processo, aliás, continuou anos depois com os Acordos de Abraão, voltados para uma normalização praticamente sem contrapartidas.
É importante lembrar que o primeiro governo do presidente americano Donald Trump transferiu a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém, reconheceu a cidade como capital de Israel e reconheceu a soberania israelense sobre as Colinas de Golã sírias ocupadas. Essas medidas, discutidas por administrações anteriores sem jamais serem executadas, foram concretizadas por Trump sem que ele esperasse reações árabes significativas, o que de fato ocorreu.
Hoje, prevalece um sentimento em parte da equipe de Trump: Israel “arrastou” a América para a guerra contra o Irã, enquanto o perigo real representado por Teerã, seja diretamente ou por meio de seus braços armados, especialmente o Hezbollah no Líbano, estava direcionado muito mais contra Israel do que contra os Estados Unidos, apesar da retórica política iraniana hostil a Washington (classificado como “Grande Satã”, entre outros termos).
O próprio Trump parece compartilhar desse sentimento, o que explica sua insistência em querer chegar a um acordo com Teerã, mesmo que envolva esse desejo em um tom ameaçador, chegando a mencionar “o apagamento da civilização persa”.
Isso também explica por que o acordo é fundamentalmente americano-iraniano, enquanto a guerra era americano-israelense-iraniana.
Trump e sua equipe estão conscientes de que Israel não aceitará facilmente um acordo e que prefere a continuidade de uma guerra patrocinada e assumida por Washington, servindo primeiro aos seus próprios interesses. É isso que justifica a frase do vice-presidente americano aos israelenses: “Vocês não podem resolver todos os seus problemas de segurança nacional apenas por meio de assassinatos.”
Uma oportunidade para os países do Golfo?
É certamente prematuro apostar em uma ruptura entre a América e Israel, ou em um divórcio entre os dois países. No entanto, os países árabes do Golfo podem se apoiar nessa mudança para abrir um debate político com Washington. Os principais pontos dessa discussão deveriam ser:
A recusa em envolver a região em novas guerras a serviço de Israel.
A recusa de que as bases americanas se tornem alvos em vez de uma fonte de estabilidade.
A afirmação de que persistir em contornar a causa palestina só leva a mais mortes e destruições, sem solução.
O reconhecimento dos direitos legítimos do povo palestino como passagem obrigatória para a estabilidade no Oriente Médio e na região árabe.
O presidente americano está consciente da importância de sua relação estratégica com os países árabes do Golfo devido às suas riquezas petrolíferas, que constituem um pilar central da política externa de Trump (a Venezuela é um exemplo marcante disso).
Portanto, Washington não pode mais continuar ignorando as reivindicações árabes por uma solução pacífica para a causa palestina, que começa pelo estabelecimento de um Estado independente e viável, e pelo fim da política de assassinatos e expansão colonial de Israel na Cisjordânia, assim como de sua expansão em direção ao Líbano e ao sul da Síria.
Somente os Estados Unidos têm o poder de frear e disciplinar Israel, caso exista vontade política para isso, e caso se consolide a convicção de que o interesse nacional americano não se realiza necessariamente por meio de um alinhamento cego com Tel Aviv, seus projetos expansionistas e suas guerras sem fim.