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Olhar pousado

O impasse libanês exige novas abordagens

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Foto ANWAR AMRO/AFP
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Por Rami Rayess
Publicado out 4, 2026 - 22:29

Se as autoridades libanesas consideram que estão mobilizando todas as suas energias e capacidades para enfrentar a nova realidade criada pela ocupação israelense de cerca de 7% do território libanês, e que estão fazendo todo o esforço possível para colocar em prática o acordo-quadro assinado com Israel e retomar as negociações estagnadas em Roma ou Washington, é necessário também que procurem conceber alguma forma de diálogo político interno, sobretudo com o Hezbollah, principal responsável por ter arrastado o Líbano para duas guerras sucessivas, em 2024 e 2026.

As autoridades libanesas estabeleceram metas muito elevadas desde a recomposição do poder, com a eleição do general Joseph Aoun para a Presidência da República, em janeiro de 2025, e a formação do governo do primeiro-ministro Nawaf Salam, em fevereiro do mesmo ano. É preciso reconhecer que se trata de objetivos que, poucos anos antes, mal poderiam sequer ter sido cogitados, quando o domínio do Hezbollah sobre o Estado e o poder político no Líbano havia se tornado profundamente enraizado e sua força militar o havia levado a se expandir em direção à Síria e a mergulhar nas complexidades e nos problemas daquele país.

Vale lembrar que o governo reafirmou que as armas deveriam permanecer exclusivamente nas mãos do Estado, uma reivindicação que reúne um consenso quase geral entre os libaneses, já que constitui o primeiro passo, elementar e indispensável, para a construção do Estado. Em seguida, o governo foi além, ao considerar ilegais as atividades militares do partido e afirmar que seu papel deveria se limitar à atuação política civil. Também ressaltou a necessidade de impedir o lançamento de qualquer foguete a partir do território libanês e convocou os órgãos de segurança a fazer cumprir essa decisão.

Com o passar do tempo, porém, sobretudo depois que o Irã, principal patrocinador do partido, conseguiu se manter firme diante da guerra americano-israelense, o tom oficial começou a mudar. Não se tratava de recuar em relação a essas decisões fundamentais, mas de examinar como colocá-las em prática. Se as autoridades chegaram à convicção política de que, na prática, é impossível desarmar o Hezbollah pela força, torna-se necessário sair desse impasse e dialogar com o partido e com Teerã sobre o futuro desse arsenal, tendo em vista as repercussões que isso terá para o futuro do Líbano.

E se Beirute reiterou diversas vezes o princípio de que ninguém, seja quem for, deve negociar em seu nome, trata-se de uma posição compreensível e louvável. Isso, porém, não significa ignorar as realidades no terreno nem deixar de adotar novas abordagens, diferentes das que prevaleceram na etapa anterior. O Líbano talvez não tenha muito a oferecer ao Irã em troca do fim de seu apoio ao Hezbollah. Mas uma decisão de expulsar um embaixador que depois se revelou impossível de aplicar, o que constitui um problema em si, pode exigir a busca por outros meios nesse campo. Um recuo desse tipo, caso ocorra, não seria covardia, mas realismo político, algo extremamente necessário neste momento decisivo.

O governo libanês também precisa desenvolver uma abordagem abrangente para esse dossiê, que vá além da questão das armas, apesar de sua centralidade e importância, e examinar seriamente como reconstruir os vínculos entre a comunidade do Hezbollah, seu meio social e o Estado. Há muito tempo, esse meio considera que o Estado o trata com condescendência e indiferença e o deixa em situação de privação. Superar essa distância exige estudar formas de integrar gradualmente as instituições e os serviços sociais e médicos. Afinal, esse é o dever do Estado para com seus cidadãos.

Uma abordagem como essa tampouco pode ignorar os membros do partido nem a forma de lidar com sua situação. Não se trata de incorporá-los em bloco às instituições do Estado, correndo o risco de que reformulem seus equilíbrios por meio de seu peso político e de suas referências ideológicas, mas de tratá-los como indivíduos que precisam de novas oportunidades de trabalho que lhes permitam viver com dignidade e sair de uma existência fechada nos caminhos das armas e da guerra.

Naturalmente, trata-se de uma questão extremamente complexa. Mas o Líbano não é o único país que passou por experiências desse tipo, ainda que tenha suas próprias particularidades culturais e pluralistas. Aproveitar a experiência de outros países parece, portanto, uma ideia útil diante das dificuldades que o país enfrenta atualmente.

O certo é que é preciso tirar as negociações da atual paralisia, reafirmando certos princípios nacionais capazes de fortalecer a posição negociadora libanesa e abrindo canais de diálogo interno e externo para sair do impasse e avançar rumo a uma nova etapa marcada pela estabilidade e pela confiança.

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