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Reportagem

Nos passos de Sélim Abou, S.J.: fragmentos perdidos do Paraná

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Por Maxime Pluvinet
Publicado mar 28, 2026 - 15:00

Na província argentina de Misiones, na remota tríplice fronteira entre Argentina, Paraguai e Brasil, os vestígios das missões jesuíticas contam uma história de mistura cultural, resistência e utopias sociais singulares. Das ruínas de San Ignacio às comunidades guaranis atuais, a Levant Time percorre o caminho deixado pelo padre Sélim Abou, ex-reitor da Universidade Saint Joseph, cujo trabalho de campo lança luz, muito além da América Latina, sobre questões contemporâneas de identidade e convivência, chegando até o Líbano. Neste 19 de março, dia de São José, padroeiro da USJ, a Levant Time apresenta a reportagem de Maxime Pluvinet y Miroslava Salazar na América Latina, seguindo os passos do padre Sélim Abou.


No calor das antigas terras missioneiras, onde estradas de laterita vermelha se dissolvem na floresta e o rio Paraná traça fronteiras incertas entre Argentina, Paraguai e Brasil, fragmentos da história persistem, nunca totalmente apagados pelo tempo. São pedras, vozes, memórias. E, por vezes, trajetórias humanas que conectam mundos antes considerados irreconciliáveis.


O padre Sélim Abou, S.J., falecido em Beirute em 2018, foi uma dessas figuras cujo percurso ultrapassou amplamente as fronteiras nacionais. Antropólogo de destaque, pensador central sobre pluralismo e identidade libanesa, e ex-reitor da Universidade Saint Joseph, manteve também, por mais de meio século, uma ligação profunda com um canto remoto da América do Sul: a província de Misiones, na Argentina.


Nessas reduções, formou-se uma sociedade híbrida, nem totalmente europeia nem puramente indígena, baseada em organização coletiva, economia autônoma e no uso central da língua guarani.


Quando o jovem jesuíta libanês Sélim Abou encontrou essas ruínas pela primeira vez, no Natal de 1961, aos 33 anos, o impacto foi imediato.


Recém-chegado à Argentina para concluir sua formação, visitou San Ignacio Miní, hoje Patrimônio Mundial da UNESCO. Diante do que mais tarde chamaria de “testemunho silencioso da pedra”, experimentou uma espécie de reconhecimento íntimo: a percepção de um diálogo entre culturas tornado possível, frágil, mas real, que confirmava sua vocação jesuíta.


O momento foi revelador. Herdeiro intelectual do antropólogo Roger Bastide e do padre Albert de Jerphanion, morto no início da guerra civil libanesa, Abou encontrou na experiência jesuíta-guarani a confirmação de sua vocação: compreender como identidades plurais podem coexistir sem se dissolverem.


Uma utopia jesuíta?


Mais de sessenta anos depois, em Posadas, capital da província às margens do rio Paraná, essa memória permanece em lugares inesperados. O Instituto Montoya, que leva o nome de um dos pioneiros da experiência jesuíta-guarani, tornou-se uma segunda casa para Sélim Abou.


Foi ali que começou a lecionar nos anos 1960 e para onde retornou regularmente ao longo de três décadas. É também ali que parte significativa de seus arquivos está preservada.


Em uma sala silenciosa no andar superior de sua residência em Apóstoles, entre fotografias e obras originais de Sélim Abou, a doutora Marisa Micolis manuseia com cuidado documentos acumulados ao longo de mais de cinquenta anos.


Amiga, colega e ex-aluna do “padre Abou”, ela recorda um homem para quem a perspectiva de longo prazo era essencial.


“Hoje”, afirma, refletindo sobre meio século dedicado à educação, “as pessoas acham que a excelência surge do nada. Mas os seres humanos são feitos para o longo prazo.”


Em uma fotografia, o jovem jesuíta sorri ao lado do irmão Habib. Em outra, um ícone da Virgem diante do qual rezava diariamente. Próximo dali, um exemplar de sua obra de 1961 sobre o bilinguismo árabe-francês, sua primeira grande contribuição em Buenos Aires.


Para compreender o que marcou tão profundamente Sélim Abou, é preciso atravessar a fronteira com o Paraguai. Em San Ignacio Guazú, o padre Daniel, curador do museu jesuíta, resume a experiência das reduções sem idealizá-la: “Não existe sociedade perfeita. Mas, em comparação com o mundo de sua época, a sociedade jesuíta-guarani realmente criou algo novo.”


Ele relembra a figura de Roque González de Santa Cruz, jesuíta nascido em Assunção no século XVI e feroz opositor do sistema de encomienda. Ao lado de outros missionários, defendeu que as comunidades guaranis existissem como sociedades livres, protegidas das expedições escravistas que devastavam a região.


Esse projeto não foi uma utopia abstrata, mas um compromisso histórico. Os guaranis conquistaram certo grau de autonomia; os jesuítas encontraram um terreno fértil para a evangelização.


Entre ambos, emergiu uma cultura original.


Ainda hoje, no Paraguai, o guarani é língua oficial, herança direta dessas comunidades, onde era não apenas falado, mas também escrito e ensinado ao lado do espanhol e do latim, como demonstram as numerosas obras impressas nas próprias reduções.


Na igreja de Santa María de Fe, pequena cidade próxima a San Ignacio Guazú, um guia aponta uma escultura de São Jorge matando um dragão. Ali, porém, o dragão assume a forma do aña, figura do mal na cosmologia guarani.


Em outro motivo, o maracujá, símbolo indígena de fertilidade, dialoga com a videira cristã. Por toda parte permanecem marcas de hibridismo cultural, uma experiência interrompida precocemente com a expulsão dos jesuítas do continente, resultado de acordos políticos entre coroas. O sacrifício de um ideal em favor de interesses bem terrenos, cujo desfecho é retratado de forma marcante no filme A Missão (1987), de Roland Joffé.


1978: o coração e o pedido


A ligação de Sélim Abou com os guaranis, porém, não se limitou ao fascínio pelo passado. Ela ganhou forma concreta em 1978, durante um evento singular: a transferência para Posadas da relíquia do coração de Roque González, santo paraguaio martirizado em 1628 e fundador da cidade, em memória de seu sacrifício.


Integrantes do povo Mbyá-Guarani vieram venerá-la. Para eles, o missionário era mais do que uma figura religiosa: era “um amigo de seus ancestrais”.


Eles fizeram então um pedido inesperado.


Na floresta, durante um encontro com o bispo Jorge Kemerer e professores do Instituto Montoya, o líder espiritual, o Pa’i Antonio Martínez, foi questionado sobre o que seu povo necessitava.


Três vezes respondeu que não precisavam de nada. Mas, diante da insistência do bispo, esclareceu: “Quero uma escola para meus netos. Não quero que sejam como eu, sem documentos, sem uma língua em comum com vocês.”


A declaração marcou um ponto de inflexão.


Assim nasceu um projeto inédito: a criação de comunidades guaranis com escolas bilíngues em Fracrán e Perutí.


Sélim Abou se envolveu profundamente. Durante doze anos, acompanhou e documentou a iniciativa, que descreveu como uma “revivência em escala microscópica” das antigas reduções.


Sem nostalgia nem ilusões: o objetivo não era reproduzir o passado, mas inventar uma forma contemporânea de convivência.


Javier Villalba, cacique de Perutí, recorda: “Ele construiu uma ponte entre si e nossos avós. Era como um conselheiro… e até como um pai.”


Nos testemunhos reunidos, um traço aparece de forma constante: a humildade. Sélim Abou não veio impor um modelo. Aprendeu, observou, acompanhou. Respeitou estruturas sociais, crenças e língua. Viveu com as comunidades, compartilhando seu cotidiano. “Ele era como nós”, lembra Villalba.


De Misiones a Beirute: “resistência cultural”


Em Fracrán, hoje rebatizada em homenagem ao Pa’i Antônio Martínez, a escola ainda existe. As crianças aprendem guarani e espanhol.


Catalino Martínez, neto do líder fundador, destaca a dimensão política da iniciativa: “Meu avô queria que nosso povo continuasse avançando, mesmo depois de sua morte.”


A experiência contribuiu para lançar as bases de instituições locais, como um órgão dedicado aos assuntos guaranis. Também deixou uma marca mais sutil: uma forma de pensar o desenvolvimento sem apagar identidades.


Para Sélim Abou, essa experiência dialogava diretamente com suas reflexões sobre o Líbano.


Em entrevista à France Culture, em 2006, destacou o contraste entre um Líbano fragmentado em comunidades e uma Argentina que buscava construir uma nação unificada apesar da diversidade.


Em ambos os casos, a mesma questão se impunha: como construir uma sociedade sem negar as diferenças? Como permitir que especificidades culturais vivam e prosperem sem se tornarem base de agendas políticas separadas?


Aquilo que viveu nas florestas de Misiones era, ao mesmo tempo, o que pensava para o Líbano. Como antropólogo das identidades, dedicou sua obra a essa questão central.


No Líbano, o problema ganhou dimensão dramática após a guerra civil e durante a ocupação síria.


Entre 1995 e 2003, como reitor da Universidade Saint Joseph em Beirute, tornou-se uma voz central da resistência intelectual à tutela síria. Seus discursos anuais, aguardados com expectativa, tornaram-se cada vez mais políticos.


Em 2002, denunciou uma “sirianização” do Líbano e um sistema que corrompia até mesmo a linguagem política. No mesmo ano, declarou: “A ocupação é a mãe das feridas de que o Líbano sofre.”


Sua resposta, porém, não foi militar. Foi intelectual. Diante da repressão às manifestações, desenvolveu a ideia de “resistência cultural”. Incentivava os estudantes a escrever, a pensar e a expressar-se de outra forma, reconstruindo um espaço crítico capaz de resistir à dominação.


Em um de seus discursos, por ocasião do dia de São José, citou editoriais e artigos de Issa Goraieb e Michel Hajji Georgiou, publicados no L’Orient-Le Jour, para sustentar seus argumentos.


Em suas intervenções, alertava para um perigo mais profundo do que a coerção política: a destruição da capacidade de discernimento. Descrevia um sistema que “perverte a linguagem”, “rompe a coesão social” e “suspende o discurso racional”. Em outras palavras, uma ocupação que atua tanto nas mentes quanto no território e que promove a mediocridade.


Essa perspectiva se apoiava em uma convicção mais ampla. Como afirmou um de seus contemporâneos, Sélim Abou buscava responder a uma pergunta fundamental: “Como viver juntos, iguais em direitos, mas diferentes em nossas pertenças?”


Nas florestas de Misiones ou nas salas de aula de Beirute, perseguia a mesma intuição: identidades não são muros, mas passagens. E, às vezes, é nas margens do mundo, em uma escola perdida no meio da floresta, que se inventam as formas mais concretas do universal.


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