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Israel: as eleições do pós-«Dilúvio de Al-Aqsa»

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Comício eleitoral de Benjamin Netanyahu em Dimona, em Israel, a 21 de outubro de 2026. (Foto: ILIA YEFIMOVICH / AFP)
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Publicado out 22, 2026 - 14:28

O impasse político que a região vive atualmente, em todos os níveis, é resultado de anos de investimento no extremismo, na violência e no terrorismo, nos quais convergiram diversos atores, da direita israelense ao Irã, passando pelos instrumentos da «República Islâmica» na região, entre eles o Hamas e o Hezbollah. O antigo regime sírio não estava distante dessas forças. Era membro honorário da «frente da resistência» liderada por Teerã, depois de ter assegurado longos anos de calma e estabilidade na frente das Colinas de Golã, ocupadas desde 1967.

Nesse contexto, Israel chega às eleições gerais com diversas questões em pauta, entre elas a de saber se Benjamin Netanyahu ainda terá futuro político depois do pleito. A pergunta se impõe porque o homem que ocupa o cargo de primeiro-ministro há tantos anos já está sendo julgado por corrupção, um processo cujas consequências poderão pesar ainda mais sobre seu futuro caso deixe o poder.

Independentemente do futuro político de «Bibi», que encontra dificuldades para obter apoio entre os políticos israelenses fora de seu próprio campo, as eleições previstas para os próximos dias terão um caráter inédito. O pleito israelense de 27 de outubro de 2026 pode ser considerado uma eleição de natureza diferente, diante da profunda transformação pela qual passou toda a sociedade israelense. Essa sociedade passou a colocar a segurança de suas fronteiras no topo de suas prioridades. São as eleições da era posterior ao «Dilúvio de Al-Aqsa» e de suas consequências.

A segurança das fronteiras tornou-se a prioridade absoluta de Israel, com ou sem Netanyahu. Gadi Eisenkot, que poderá se tornar o próximo chefe de governo, não será menos intransigente que «Bibi». O mesmo vale para Naftali Bennett, que já ocupou o cargo de primeiro-ministro.

A busca por fronteiras seguras, com tudo o que isso implica em termos de consolidação da ocupação na Síria e no Líbano e de expansão dos assentamentos na Cisjordânia, substituiu a busca por uma solução política. Já não existe um projeto político israelense capaz de conduzir a uma paz razoável e aceitável na região. Diversos fatores contribuíram para a situação atual. Já não é possível ignorar que o ataque do «Dilúvio de Al-Aqsa», lançado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, destruiu, pelo menos no futuro previsível, qualquer esperança de mudança interna em Israel.

O «Dilúvio de Al-Aqsa» representou o ponto culminante de um investimento na violência no qual convergiram todas as forças empenhadas em perpetuar uma situação de nem guerra nem paz no Oriente Médio. Essas forças agiram sob uma mesma bandeira: a do extremismo, da violência e do terrorismo. Existia uma frente de rejeição à paz que conseguiu arrastar a região para o «Dilúvio de Al-Aqsa» e provocar uma transformação radical de Israel, ocorrida em etapas. A direita israelense contribuiu para sustentar essa frente. Convém lembrar, nesse contexto, que um dos atentados terroristas mais marcantes dirigidos contra o processo de Oslo ocorreu em Hebron.

Em 25 de fevereiro de 1994, um terrorista americano-israelense chamado Baruch Goldstein abriu fogo contra fiéis que rezavam na Mesquita de Ibrahim, em Hebron. Matou 29 palestinos e feriu outros 125. Nas semanas que se seguiram ao massacre de Hebron, o Hamas realizou uma série de atentados suicidas em Israel. Em 19 de outubro de 1994, o Hamas atacou um ônibus de passageiros na rua Dizengoff, em Tel Aviv. Também realizou vários outros atentados, todos destinados a fortalecer o extremismo dentro da sociedade israelense. Em 2001, por exemplo, matou adolescentes em um atentado cometido na entrada de uma casa noturna de Tel Aviv. Naquele período, o Hamas levou o terrorismo para o interior de Israel com o objetivo de demonstrar que os Acordos de Oslo não tinham futuro. A direita israelense não hesitou em apoiar o Hamas. Foi um extremista oriundo dessa direita que assassinou Yitzhak Rabin, em novembro de 1995, para acabar com os Acordos de Oslo.

O Irã nunca esteve distante do Hamas. Apoiou tudo o que pudesse inviabilizar o processo de paz e o projeto nacional palestino, até a tomada do controle de Gaza pelo Hamas, em meados de 2007.

O «Dilúvio de Al-Aqsa» consagrou a vitória da direita israelense liderada por Benjamin Netanyahu. Isso se reflete na ausência de qualquer perspectiva concreta de criação de um Estado palestino no discurso das principais forças políticas que disputam a chefia do governo. Mais do que isso, nenhuma mudança se anuncia no horizonte de Israel, independentemente de «Bibi» permanecer ou não como primeiro-ministro. Nenhum dos principais dirigentes políticos israelenses ousa declarar que está disposto a cooperar com os deputados árabes que deverão chegar ao Parlamento. Isso inclui Mansour Abbas, líder da «Lista Árabe Unida», que poderá desempenhar um papel na definição da maioria necessária para formar um governo após as eleições. Abbas se recusa a se submeter aos fatos consumados impostos por Israel. Incluiu em sua lista um judeu chamado Yoav Segalovitz, ex-alto dirigente da polícia, para reafirmar sua rejeição à marginalização da voz árabe no Parlamento israelense. Mansour Abbas poderá se tornar o «fazedor de reis» em Israel, segundo a expressão do The New York Times, contribuindo para afastar «Bibi» e levar outro dirigente ao cargo de primeiro-ministro.

A importância de Mansour Abbas reside na atenção que dedica à proteção e à segurança dos cidadãos árabes de Israel. Os árabes representam aproximadamente 20% da população. Ele sabe melhor do que ninguém que as principais forças políticas israelenses não demonstram qualquer vontade de alcançar a paz e que o Estado palestino se tornou um espantalho. A rejeição a esse Estado une os principais concorrentes ao poder. A «resistência» conseguiu transformar a própria natureza de Israel. Mas o paradoxo é que Mansour Abbas, um árabe israelense, poderá decidir o destino de Netanyahu. Faltam apenas alguns dias para que sejam conhecidos os resultados das primeiras eleições israelenses da era posterior ao «Dilúvio de Al-Aqsa», que não transformou apenas a natureza de Israel, mas também a de toda a região…

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