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O Novo Mundo

Hezbollah em falência busca cobertura

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Foto Joseph EID/AFP
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Por Khairallah Khairallah
Publicado set 3, 2026 - 19:58

A busca do Hezbollah por uma cobertura cristã para suas armas e para sua rejeição às negociações diretas com Israel dá a medida da profundidade da crise enfrentada por um partido que, em essência, não passa de uma milícia confessional a serviço da Guarda Revolucionária iraniana.

O Hezbollah que conhecemos, com todo o seu poder, seu arsenal e seus recursos financeiros, pertence agora ao passado. Na realidade, um partido que se julgava capaz de desempenhar papéis muito além do Líbano, na Síria, no Iêmen e, em determinado momento, no Bahrein, para citar apenas alguns exemplos, está falido.

Nada ilustra melhor essa falência do que a reabertura de antigos livros de contas, a começar pelo de sua relação com a Corrente Aounista e com Michel Aoun, cuja única ambição era chegar à Presidência da República a qualquer preço.

Só um comerciante falido volta a vasculhar antigos registros convencido de que ainda há dívidas a cobrar. O Hezbollah parece não perceber que a Corrente Aounista, atualmente liderada pelo deputado Gebran Bassil, está tão falida quanto ele. A Bassil e aos que se parecem com ele pouco resta além de tentar se reerguer tomando distância das armas do Hezbollah, tanto para satisfazer o que ainda resta de sua base cristã quanto para insistir em que o Exército libanês deve ser o único a deter o monopólio das armas. Desde quando a Corrente Aounista demonstra tamanha preocupação com o Exército libanês?

Durante dez anos, a partir da assinatura do documento de Mar Mikhaël com Hassan Nasrallah, em fevereiro de 2006, Michel Aoun foi submetido a uma longa série de provas impostas pelo Hezbollah. Passou em todas elas. Entre essas provas esteve a justificativa da morte, pelas mãos de um membro do Hezbollah, do oficial piloto Samer Hanna, simplesmente porque ele havia voado de helicóptero para uma área do sul do Líbano controlada pelo partido. Aoun chegou ao ponto de justificar a morte de um oficial libanês que sobrevoava território libanês perguntando: «O que ele foi fazer lá?».

Hoje, pede-se a uma força falida que dê cobertura a outra igualmente falida. Uma reunião entre uma delegação do Hezbollah e uma delegação aounista não mudará nada. Tampouco servirá de muito uma rodada de contatos de uma delegação do partido com outras forças políticas para justificar a manutenção de um arsenal que não passa de um instrumento a serviço do Irã e de seu projeto expansionista na região.

Esse projeto desmoronou na Síria antes de começar a vacilar no próprio Irã, hoje envolvido em uma guerra na qual está em jogo o futuro de seu regime, o da República Islâmica. O regime iraniano parece ter perdido contato com as transformações que remodelaram o mundo e a região desde 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou a operação «Dilúvio de Al-Aqsa» contra localidades israelenses ao redor de Gaza. Depois de 7 de outubro, Israel mudou. A região mudou. O Irã se recusou a mudar.

O surpreendente é que o Hezbollah continue buscando cobertura para suas armas enquanto o sul do Líbano vive uma verdadeira tragédia. Essa tragédia significou o retorno de uma ocupação que havia terminado em 2000, com a destruição, por Israel, de cerca de setenta vilarejos e o deslocamento de mais de um milhão de cidadãos. Nada disso parece importar ao partido. Sua principal preocupação é encontrar uma justificativa interna para manter suas armas.

Um partido subordinado ao Irã considera que preservar seu arsenal é mais importante do que pôr fim à ocupação. Sabe que sua própria existência depende dessas armas, que nunca foram outra coisa senão um instrumento destinado a submeter o cidadão libanês e o Estado libanês e a colocar ambos sob tutela iraniana.

Quem, no Líbano, ainda está disposto a dar cobertura a armas milicianas e confessionais cuja consequência mais imediata é a perpetuação da ocupação israelense? A Corrente Aounista já não é o interlocutor adequado para oferecer essa cobertura. Ela já obteve do Hezbollah e de suas armas o que buscava: a chegada de Michel Aoun ao Palácio de Baabda.

Ao Hezbollah resta uma única carta: o presidente do Parlamento, Nabih Berri. Seria de esperar que ele recordasse de outra maneira o desaparecimento do imã Musa al-Sadr, em vez de fazer um discurso completamente desconectado das realidades políticas do Líbano e da região. Berri falou como se o país ainda estivesse vivendo nos anos 1980.

Em 1983, o regime sírio de Hafez al-Assad desempenhou um papel decisivo para fazer fracassar o Acordo de 17 de Maio. No entanto, diante da atual correlação de forças, dificilmente o Líbano conseguirá algo melhor.

Ainda assim, não convém subestimar a posição de Nabih Berri. Ele parece ter suas próprias razões para se recusar a encarar a realidade libanesa, ignorar o que de fato acontece no terreno no sul do Líbano e contemporizar com o Irã até o limite. O líder do movimento Amal, que oferece ao Hezbollah uma cobertura política substancial, compreende as consequências do que está fazendo, quando poderia enfrentar a realidade do Líbano e a do sul do Líbano, em vez de fugir de ambas?

Entre uma Corrente Aounista reduzida a uma cobertura já bastante desgastada e Nabih Berri, que tenta projetar a imagem de uma comunidade xiita coesa e mostrar que não existe diferença real entre Amal e Hezbollah, permanece uma pergunta fundamental: quem porá fim à ocupação israelense e a que preço?

Uma coisa é certa: as armas do Hezbollah ameaçam agora o próprio sul do Líbano e talvez o Líbano inteiro, qualquer que seja a cobertura que o partido ainda consiga obter de forças que, por sua vez, também precisam de cobertura.

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