


Ao assumir o controle do porto de Mokha, os houthis permitiram ao Irã dar um passo importante em direção ao controle do estreito de Bab el-Mandeb. Esse estreito constitui a passagem obrigatória para o mar Vermelho e o canal de Suez. A “República Islâmica” tem utilizado os houthis no contexto da guerra que trava contra os Estados Unidos e Israel, uma guerra que também estendeu aos Estados árabes do Golfo e à Jordânia. Entre esses países, destaca-se em primeiro lugar a Arábia Saudita, que agora considera estar travando uma guerra ao longo de sua extensa fronteira com o Iêmen, ao mesmo tempo em que é alvo de ataques provenientes do Iraque.
Já não se trata apenas de uma prova para a “legitimidade” iemenita, cujo próprio destino está agora em questão. Trata-se também de uma prova para o mundo árabe e para o Golfo, sobretudo porque a “República Islâmica” não hesitou em utilizar o Iêmen para exercer pressão sobre cada um dos Estados da região.
O que fará a administração americana? Compreenderá que a guerra com o Irã se transformou em um conflito abrangente, isto é, em uma única e mesma guerra que se estende do Iêmen ao Iraque? Compreenderá que a “República Islâmica” está disposta a ir até as últimas consequências nessa guerra, da qual o Iraque passou a ser uma parte essencial?
O que acontece no Iêmen levanta a questão do futuro da “legitimidade” iemenita e de sua capacidade de sobreviver. Mas também se coloca outra questão: o futuro do Iraque e se ele está ou não sob o controle do Irã.
Não há dúvida de que o sucesso militar dos houthis representa um grande êxito para o Irã em sua estratégia de chantagem. Em última análise, para dar continuidade a essa política em relação aos Estados da região, o Irã utiliza os houthis, que não passam de um dos instrumentos de sua política regional. Eles próprios se denominam “grupo Ansar Allah”, em referência ao Hezbollah no Líbano. Não é segredo que o Hezbollah desempenhou um papel central na transformação dos houthis no Iêmen em mero instrumento a serviço da “República Islâmica”, em particular por meio do treinamento, da criação de redes de comunicação e da instalação, em Beirute, de um canal de televisão via satélite. Dessa forma, o norte do Iêmen transformou-se em uma base para mísseis e drones iranianos na Península Arábica, bem como em uma ameaça para todos os Estados árabes do Golfo.
Os houthis cumpriram as instruções iranianas sem a menor hesitação. Mobilizaram forças consideráveis na batalha pelo porto de Mokha, que já haviam controlado brevemente logo após entrarem em Sanaa, em 21 de setembro de 2014, transformando assim mais uma capital árabe em uma capital sob a autoridade de Teerã. É bem conhecido quem havia anteriormente expulsado os houthis de Mokha e, antes disso, da própria Áden e de outras áreas do sul. Forças apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos desempenharam um papel fundamental ao obrigar os houthis a recuar em diferentes regiões do Iêmen, em particular nas províncias do sul.
O interesse dos houthis por Mokha era evidente, a começar por seu avanço militar na região montanhosa de Taiz, onde “Ansar Allah” já possui uma presença estabelecida. Os houthis atacaram posições específicas na província de Taiz com o objetivo de cercar Mokha e tornar sua queda militarmente inevitável. Conseguiram entrar na cidade aproveitando-se da ausência, no terreno iemenita, de uma frente unida capaz de enfrentá-los. Está claro que as divergências entre as diversas forças iemenitas hostis aos houthis criaram uma situação da qual estes souberam tirar o máximo proveito.
Entre algumas facções do sul e outros grupos que contribuíram para retomar Áden e Mokha dos houthis há mais de dez anos, já não existe o mesmo entusiasmo em enfrentá-los. Há pouca razão, neste momento, para reabrir questões das quais o Iêmen poderia muito bem prescindir. Convém, no entanto, recordar que, em determinado momento, as forças que haviam retomado Mokha dos houthis estiveram, juntamente com outras, muito perto de expulsá-los também de Hodeida. Isso ocorreu no início de 2018, quando intervenções internacionais americanas e britânicas impediram a expulsão dos houthis de Hodeida.
Chegará o dia em que serão reveladas as razões da insistência demonstrada por certos círculos internacionais em manter os houthis em Hodeida, o maior porto iemenita no mar Vermelho. Pode-se dizer que a situação atual em Taiz é marcada por avanços e recuos. Os houthis obtêm progressos em determinadas áreas, como aconteceu em Mokha, e recuam em outras, chegando até a sofrer pesadas perdas, como ocorreu em Al-Jawf, longe de Taiz. Mas uma coisa está clara: mais do que nunca, é necessária uma coordenação entre as facções opostas aos houthis, que, em princípio, deveriam atuar sob a autoridade da “legitimidade” liderada pelo Dr. Rashad Al-Alimi. No fim das contas, as rivalidades entre aqueles que fracassaram de forma retumbante em impedir que o Irã chegasse a Mokha não têm hoje qualquer utilidade.
Uma melhor coordenação entre as forças leais à “legitimidade” iemenita ou submetidas à sua autoridade também não basta. Mais do que nunca, parece necessária uma coordenação árabe, e especificamente do Golfo, no que diz respeito ao Iêmen. Por uma razão simples: o que está em jogo é enorme. Não se limita ao futuro do Iêmen nem à presença iraniana no país. Trata-se do uso que a “República Islâmica” faz dessa presença para ameaçar a segurança do Golfo como um todo, chegando a colocar em risco o canal de Suez e seu funcionamento. O que ocorreu no Iêmen constitui, portanto, um acontecimento de enorme importância, sobretudo porque foi seguido por ataques lançados a partir do Iraque contra o oleoduto saudita que desemboca no mar Vermelho.
Tudo isso ocorre em um momento em que não existe uma estratégia americana clara diante do Irã. Em determinado momento, o Irã não hesitou em atacar vários Estados do Golfo, entre eles a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Bahrein, o Qatar e o Sultanato de Omã. Diante da ausência de uma estratégia americana clara, por que não haveria uma estratégia árabe do Golfo, com a participação do Reino Hachemita da Jordânia, que também vem sendo alvo de repetidas agressões iranianas?