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O Novo Mundo

Iraque, o grande prêmio do Irã

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Manifestantes carregam bandeiras durante um protesto contra o primeiro-ministro do Iraque, Ali al-Zaidi, na rua Palestina, em Bagdá, em 19 de agosto de 2026, após a recente prisão de um alto dirigente das Forças de Mobilização Popular, uma aliança armada iraquiana que inclui grupos pró-Irã. (Foto: AHMAD AL-RUBAYE / AFP)
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Por Khairallah Khairallah
Publicado ago 20, 2026 - 17:26

Basta olhar ao redor para constatar que várias guerras estão sendo travadas, com a bênção do Irã, no mundo árabe e além. No Iêmen, os houthis tentam fechar o estreito de Bab el-Mandeb na tentativa de retomar o porto iemenita de Mokha, de onde foram expulsos em 2014 por forças locais iemenitas apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos. Conseguirá o Irã controlar, ao mesmo tempo, o estreito de Ormuz, no Golfo, e o de Bab el-Mandeb, porta de entrada para o mar Vermelho e o canal de Suez, por intermédio dos houthis no Iêmen?

O Irã não escondeu sua decisão de adotar uma política ofensiva em várias frentes. Mas, para a Guarda Revolucionária, a prioridade continua sendo manter o controle iraniano sobre o Iraque. No país, trava-se uma verdadeira disputa em torno das armas das milícias sectárias ligadas à Guarda Revolucionária. Essas milícias foram reunidas sob a bandeira das «Forças de Mobilização Popular», que contam com financiamento do orçamento do Estado iraquiano e buscam exercer sobre o Estado um papel dominante semelhante ao desempenhado pela Guarda Revolucionária no Irã.

O apego da Guarda Revolucionária às Forças de Mobilização Popular e ao seu arsenal explica a importância que o Irã atribui ao Iraque, hoje colocado a serviço de múltiplos interesses iranianos que beneficiam o regime de Teerã. Entre esses usos está o de financiar parte do orçamento iraniano.

Há poucos dias, o governador do Banco Central do Irã viajou a Bagdá para exigir o pagamento de 12 bilhões de dólares referentes ao gás iraniano utilizado no Iraque para gerar eletricidade. Os iranianos esqueceram que o fechamento do estreito de Ormuz impede o Iraque de exportar grande parte de seu petróleo e faz o país perder bilhões de dólares. O Irã exige bilhões do Iraque e, ao mesmo tempo, quer impedi-lo, por razões próprias, de exportar a maior parte de seu petróleo. A razão é que o estreito de Ormuz se tornou a arma mais poderosa do Irã em seu confronto com os Estados Unidos, do qual o Iraque passou a ser uma das vítimas.

Independentemente do que a «República Islâmica» obtém dos recursos do Iraque, em particular de seu petróleo, o país continua sendo o grande prêmio que o Irã recebeu de presente dos Estados Unidos. Isso ocorreu durante o governo de George W. Bush, que insistiu, em 2003, em derrubar o regime de Saddam Hussein e entregar o Iraque de bandeja à «República Islâmica».

O governo americano busca agora, precisamente, arrancar o Iraque das mãos do Irã. No entanto, parece ignorar uma realidade fundamental: desde 2003, o Iraque tem sido governado, na prática, por milícias sectárias ligadas à Guarda Revolucionária, as mesmas que combateram o Exército iraquiano durante os oito anos da guerra entre Irã e Iraque, de 1980 a 1988. São milícias iraquianas que voltaram de Teerã a Bagdá a bordo de tanques americanos. Elas se apoderaram dos principais centros de poder do sistema iraquiano e impediram qualquer reforma verdadeira capaz de transformar o Iraque em um Estado normal, capaz de equilibrar suas relações com o Irã e com seu entorno árabe. Essa é uma realidade iraquiana que o governo de Donald Trump ignora por não compreender a profundidade da penetração iraniana no Iraque…

O governo de George W. Bush livrou o Iraque do regime baasista de caráter familiar de Saddam Hussein. Era necessário pôr fim àquele regime, tão sanguinário quanto estúpido, mas com a condição de saber quem o sucederia. O governo Trump tenta hoje corrigir as consequências de uma catástrofe que se abateu sobre o Iraque, que agora é chamado a se transformar em uma adaga cravada no flanco da segurança árabe. Do Iraque partem ataques contra a Arábia Saudita e o Kuwait. É também a partir do Iraque que determinados alvos na Região do Curdistão iraquiano são atacados.

Não é por acaso que Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano, fez questão de iniciar sua recente visita ao Iraque com uma visita ao monumento dedicado a Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, morto em um ataque americano ao lado de Abu Mahdi al-Muhandis, vice-comandante das Forças de Mobilização Popular iraquianas, pouco depois de terem deixado o aeroporto de Bagdá, no início de 2020.

Qalibaf, uma das figuras mais proeminentes do regime iraniano, foi a Bagdá para confirmar a oposição de Teerã ao desarmamento das milícias iraquianas, em oposição aos esforços do governo de Ali al-Zaidi, que se encontra em uma posição pouco invejável. Qalibaf não disse isso de forma explícita. Mas sua visita ao monumento de Qassem Soleimani, onde pronunciou um discurso glorificando a «resistência», transmite uma mensagem clara. Significa, antes de tudo, que a «República Islâmica» continua considerando o Iraque uma «arena» dentro de sua órbita e, mais do que isso, um trunfo essencial em seu confronto com o governo Trump, um confronto às vezes silencioso e outras vezes aberto, pontuado, de tempos em tempos, por negociações públicas ou secretas.

O Iraque já pode ser considerado parte integrante das guerras que se desenrolam na região, do Iêmen ao estreito de Ormuz, dos países do Golfo Árabe, alvo de ataques iranianos, ao sul do Líbano. Quem terá a última palavra no Iraque? Até onde o Irã poderá continuar exercendo pressão? Até que ponto o governo de Ali al-Zaidi conseguirá resistir às milícias armadas? A visita à Arábia Saudita de Faiq Zidan, presidente do Conselho Supremo da Magistratura do Iraque, ajudará a garantir apoio árabe ao governo de Ali al-Zaidi?

Cabe observar que Faiq Zidan se tornou, recentemente, um ator central da política interna iraquiana, inclusive na escolha do primeiro-ministro.

Essas são as perguntas que marcarão a próxima etapa, com o próprio Iraque no centro de todas elas. É no Iraque que o Irã defende seu regime e procura afirmar que não haverá volta atrás, isto é, que não haverá retorno à situação anterior a 2003. Naquele ano, o governo de George W. Bush decidiu transformar a «República Islâmica» na potência tutelar do Iraque sob o pretexto da «maioria xiita» do país. Será que o governo de Donald Trump conseguirá corrigir um erro histórico que alterou todos os equilíbrios no Oriente Médio, no Oriente Próximo e na região do Golfo?

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