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O Novo Mundo

Marrocos: por que as próximas eleições legislativas são importantes

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Por Khairallah Khairallah
Publicado ago 29, 2026 - 03:36

A realização das eleições legislativas no Marrocos em 23 de setembro próximo, na data prevista, demonstra a regularidade da vida política em um reino com mais de doze séculos de história. Em cada etapa de sua longa trajetória, o Marrocos conseguiu superar dificuldades, obstáculos e desafios de diferentes naturezas, até chegar ao reinado de Mohammed VI, que subiu ao trono há pouco mais de 27 anos, sucedendo ao seu pai, Hassan II.

O desenvolvimento da vida política foi uma das características marcantes do reinado de Mohammed VI. Esse desenvolvimento foi acompanhado pela criação de uma infraestrutura moderna que faz com que quem chega ao Marrocos vindo da Espanha ou de Portugal praticamente não sinta que passou de dois países europeus para um mundo diferente…

A realização das eleições marroquinas na data prevista consagra novos conceitos de governo baseados no respeito rigoroso à Constituição aprovada pelos cidadãos no referendo popular realizado em 2011. Entre suas disposições está a incumbência de formar o governo com uma personalidade pertencente ao partido que obtiver o maior número de cadeiras no Parlamento.

Por isso, as eleições abrirão amplamente as portas para negociações entre os partidos, sobretudo porque a legenda que conquistar o maior número de cadeiras não será capaz de garantir sozinha uma maioria que lhe permita formar o governo sem se aliar a outras forças políticas. Foi isso que aconteceu há quatro anos, após as últimas eleições, quando o Reagrupamento Nacional dos Independentes, então liderado por Aziz Akhannouch, conquistou o maior número de cadeiras sem obter maioria absoluta.

A Constituição de 2011 marcou um novo impulso para a vida política em um reino que escolheu se desenvolver sem ignorar as dificuldades que enfrenta, diante da falta de recursos naturais, de um lado, e da guerra de desgaste à qual está submetido desde 1975, de outro. Não é segredo que o Marrocos enfrenta uma guerra de desgaste travada contra ele pelo regime argelino desde que recuperou suas províncias saarianas do colonizador espanhol graças à “Marcha Verde”, uma marcha pacífica da qual participaram cerca de 350 mil cidadãos marroquinos em resposta a um chamado do falecido rei Hassan II.

Essa guerra de desgaste, na qual a Frente Polisário vem sendo utilizada há mais de meio século, teve um custo elevado. Ainda assim, ela não impediu o Marrocos de prosseguir com seus planos de desenvolvimento e sua atividade diplomática, que culminou, em outubro de 2025, com a adoção da Resolução 2797 do Conselho de Segurança, que reconheceu a marroquinidade do Saara e que a única solução viável reside na proposta de uma ampla autonomia no âmbito da soberania marroquina.

As eleições e a etapa que se seguirá a elas podem ser consideradas parte dos desafios enfrentados pelo Marrocos, entre eles a guerra contra a pobreza defendida por Mohammed VI desde sua ascensão ao trono. Uma guerra desse tipo, que começa pela eliminação das favelas e pela construção de moradias dignas para os cidadãos que nelas vivem, continua sendo a melhor maneira de combater o terrorismo e todas as formas de extremismo.

A realização das eleições na data prevista confirmará que a mudança para melhor não é possível sem uma consciência política integrada em nível nacional. Essa mudança ocorre por meio das urnas, e não das ruas, mesmo quando as reivindicações dos manifestantes são legítimas. O governo de Aziz Akhannouch não caiu em setembro e outubro do ano passado, quando jovens da geração Z foram às ruas para protestar contra o nível dos serviços médicos e da educação, bem como contra o aumento das mensalidades nas escolas privadas.

As ruas não derrubaram o governo. Existe agora, porém, uma necessidade urgente de um novo governo chefiado por uma personalidade mais próxima do cidadão comum e de suas preocupações. Há necessidade de uma figura que tenha demonstrado, em um passado recente, ser capaz de obter sucesso quando encarregada de uma missão específica.

Em termos mais claros, passou a existir a necessidade de um governo capaz de compreender as verdadeiras razões pelas quais simples informações falsas e rumores divulgados pelas redes sociais levaram milhares de jovens, nos últimos dias de julho passado, a seguir em direção a Ceuta, ocupada pela Espanha no norte de Marrocos. Esses jovens marroquinos, cujo número chegou a cinquenta mil, acreditavam que Ceuta, situada em território marroquino, era um tesouro de ouro do qual poderiam retirar riquezas antes de voltar para suas cidades e aldeias para viver com conforto material.

Desse ponto de vista, parece importante que as eleições desempenhem o papel que delas se espera na realização da mudança política. Ao mesmo tempo, porém, elas colocam todos os partidos políticos e seus dirigentes diante dos desafios impostos pela realidade marroquina. Isso inclui, naturalmente, estar à altura do processo de modernização vivido pelo reino, onde hospitais, centros médicos, portos e instalações de serviços estão sendo construídos em diferentes regiões do país. Soma-se a isso uma verdadeira consciência, por parte do próprio Mohammed VI, da importância de elevar o nível da educação. O monarca marroquino falou abertamente sobre esse tema alguns anos atrás, em um discurso por ocasião da Festa do Trono. Nesse discurso, tratou explicitamente do nível da educação e da importância do domínio de línguas estrangeiras, além do árabe, naturalmente.

A cerca de três semanas das eleições marroquinas, a classe política deveria assimilar o que a cena de Ceuta revelou a respeito dos jovens, do desemprego, das desigualdades e da espera pelos frutos dos grandes projetos. O próprio rei falou sobre isso há um ano, quando enfatizou a necessidade de que todo o Marrocos avance em uma única velocidade.

Mais importante ainda, a crise relacionada a Ceuta não se transformou em uma divisão política interna, nem em uma confrontação aberta com a Espanha, nem em uma ruptura diplomática capaz de reorganizar as relações do Marrocos com a Europa. Esse sucesso confirma a capacidade do Estado marroquino de absorver o choque, impedir que seus adversários conhecidos imponham sua própria interpretação e, em seguida, recolocar o acontecimento em suas devidas proporções sem negar sua gravidade. Esses são alguns dos principais desafios da fase pós-eleitoral, dirigidos antes de tudo à classe política marroquina.

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