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O Novo Mundo

Hezbollah em falência busca cobertura
Por
Khairallah Khairallah
Publicado
set 3, 2026 - 19:58

A busca do Hezbollah por uma cobertura cristã para suas armas e para sua rejeição às negociações diretas com Israel dá a medida da profundidade da crise enfrentada por um partido que, em essência, não passa de uma milícia confessional a serviço da Guarda Revolucionária iraniana. O Hezbollah que conhecemos, com todo o seu poder, seu arsenal e seus recursos financeiros, pertence agora ao passado. Na realidade, um partido que se julgava capaz de desempenhar papéis muito além do Líbano, na Síria, no Iêmen e, em determinado momento, no Bahrein, para citar apenas alguns exemplos, está falido. Nada ilustra melhor essa falência do que a reabertura de antigos livros de contas, a começar pelo de sua relação com a Corrente Aounista e com Michel Aoun, cuja única ambição era chegar à Presidência da República a qualquer preço. Só um comerciante falido volta a vasculhar antigos registros convencido de que ainda há dívidas a cobrar. O Hezbollah parece não perceber que a Corrente Aounista, atualmente liderada pelo deputado Gebran Bassil, está tão falida quanto ele. A Bassil e aos que se parecem com ele pouco resta além de tentar se reerguer tomando distância das armas do Hezbollah, tanto para satisfazer o que ainda resta de sua base cristã quanto para insistir em que o Exército libanês deve ser o único a deter o monopólio das armas. Desde quando a Corrente Aounista demonstra tamanha preocupação com o Exército libanês? Durante dez anos, a partir da assinatura do documento de Mar Mikhaël com Hassan Nasrallah, em fevereiro de 2006, Michel Aoun foi submetido a uma longa série de provas impostas pelo Hezbollah. Passou em todas elas. Entre essas provas esteve a justificativa da morte, pelas mãos de um membro do Hezbollah, do oficial piloto Samer Hanna, simplesmente porque ele havia voado de helicóptero para uma área do sul do Líbano controlada pelo partido. Aoun chegou ao ponto de justificar a morte de um oficial libanês que sobrevoava território libanês perguntando: «O que ele foi fazer lá?». Hoje, pede-se a uma força falida que dê cobertura a outra igualmente falida. Uma reunião entre uma delegação do Hezbollah e uma delegação aounista não mudará nada. Tampouco servirá de muito uma rodada de contatos de uma delegação do partido com outras forças políticas para justificar a manutenção de um arsenal que não passa de um instrumento a serviço do Irã e de seu projeto expansionista na região. Esse projeto desmoronou na Síria antes de começar a vacilar no próprio Irã, hoje envolvido em uma guerra na qual está em jogo o futuro de seu regime, o da República Islâmica. O regime iraniano parece ter perdido contato com as transformações que remodelaram o mundo e a região desde 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou a operação «Dilúvio de Al-Aqsa» contra localidades israelenses ao redor de Gaza. Depois de 7 de outubro, Israel mudou. A região mudou. O Irã se recusou a mudar. O surpreendente é que o Hezbollah continue buscando cobertura para suas armas enquanto o sul do Líbano vive uma verdadeira tragédia. Essa tragédia significou o retorno de uma ocupação que havia terminado em 2000, com a destruição, por Israel, de cerca de setenta vilarejos e o deslocamento de mais de um milhão de cidadãos. Nada disso parece importar ao partido. Sua principal preocupação é encontrar uma justificativa interna para manter suas armas. Um partido subordinado ao Irã considera que preservar seu arsenal é mais importante do que pôr fim à ocupação. Sabe que sua própria existência depende dessas armas, que nunca foram outra coisa senão um instrumento destinado a submeter o cidadão libanês e o Estado libanês e a colocar ambos sob tutela iraniana. Quem, no Líbano, ainda está disposto a dar cobertura a armas milicianas e confessionais cuja consequência mais imediata é a perpetuação da ocupação israelense? A Corrente Aounista já não é o interlocutor adequado para oferecer essa cobertura. Ela já obteve do Hezbollah e de suas armas o que buscava: a chegada de Michel Aoun ao Palácio de Baabda. Ao Hezbollah resta uma única carta: o presidente do Parlamento, Nabih Berri. Seria de esperar que ele recordasse de outra maneira o desaparecimento do imã Musa al-Sadr, em vez de fazer um discurso completamente desconectado das realidades políticas do Líbano e da região. Berri falou como se o país ainda estivesse vivendo nos anos 1980. Em 1983, o regime sírio de Hafez al-Assad desempenhou um papel decisivo para fazer fracassar o Acordo de 17 de Maio. No entanto, diante da atual correlação de forças, dificilmente o Líbano conseguirá algo melhor. Ainda assim, não convém subestimar a posição de Nabih Berri. Ele parece ter suas próprias razões para se recusar a encarar a realidade libanesa, ignorar o que de fato acontece no terreno no sul do Líbano e contemporizar com o Irã até o limite. O líder do movimento Amal, que oferece ao Hezbollah uma cobertura política substancial, compreende as consequências do que está fazendo, quando poderia enfrentar a realidade do Líbano e a do sul do Líbano, em vez de fugir de ambas? Entre uma Corrente Aounista reduzida a uma cobertura já bastante desgastada e Nabih Berri, que tenta projetar a imagem de uma comunidade xiita coesa e mostrar que não existe diferença real entre Amal e Hezbollah, permanece uma pergunta fundamental: quem porá fim à ocupação israelense e a que preço? Uma coisa é certa: as armas do Hezbollah ameaçam agora o próprio sul do Líbano e talvez o Líbano inteiro, qualquer que seja a cobertura que o partido ainda consiga obter de forças que, por sua vez, também precisam de cobertura.

Marrocos: por que as próximas eleições legislativas são importantes
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Khairallah Khairallah
Publicado
ago 29, 2026 - 03:36

A realização das eleições legislativas no Marrocos em 23 de setembro próximo, na data prevista, demonstra a regularidade da vida política em um reino com mais de doze séculos de história. Em cada etapa de sua longa trajetória, o Marrocos conseguiu superar dificuldades, obstáculos e desafios de diferentes naturezas, até chegar ao reinado de Mohammed VI, que subiu ao trono há pouco mais de 27 anos, sucedendo ao seu pai, Hassan II. O desenvolvimento da vida política foi uma das características marcantes do reinado de Mohammed VI. Esse desenvolvimento foi acompanhado pela criação de uma infraestrutura moderna que faz com que quem chega ao Marrocos vindo da Espanha ou de Portugal praticamente não sinta que passou de dois países europeus para um mundo diferente… A realização das eleições marroquinas na data prevista consagra novos conceitos de governo baseados no respeito rigoroso à Constituição aprovada pelos cidadãos no referendo popular realizado em 2011. Entre suas disposições está a incumbência de formar o governo com uma personalidade pertencente ao partido que obtiver o maior número de cadeiras no Parlamento. Por isso, as eleições abrirão amplamente as portas para negociações entre os partidos, sobretudo porque a legenda que conquistar o maior número de cadeiras não será capaz de garantir sozinha uma maioria que lhe permita formar o governo sem se aliar a outras forças políticas. Foi isso que aconteceu há quatro anos, após as últimas eleições, quando o Reagrupamento Nacional dos Independentes, então liderado por Aziz Akhannouch, conquistou o maior número de cadeiras sem obter maioria absoluta. A Constituição de 2011 marcou um novo impulso para a vida política em um reino que escolheu se desenvolver sem ignorar as dificuldades que enfrenta, diante da falta de recursos naturais, de um lado, e da guerra de desgaste à qual está submetido desde 1975, de outro. Não é segredo que o Marrocos enfrenta uma guerra de desgaste travada contra ele pelo regime argelino desde que recuperou suas províncias saarianas do colonizador espanhol graças à “Marcha Verde”, uma marcha pacífica da qual participaram cerca de 350 mil cidadãos marroquinos em resposta a um chamado do falecido rei Hassan II. Essa guerra de desgaste, na qual a Frente Polisário vem sendo utilizada há mais de meio século, teve um custo elevado. Ainda assim, ela não impediu o Marrocos de prosseguir com seus planos de desenvolvimento e sua atividade diplomática, que culminou, em outubro de 2025, com a adoção da Resolução 2797 do Conselho de Segurança, que reconheceu a marroquinidade do Saara e que a única solução viável reside na proposta de uma ampla autonomia no âmbito da soberania marroquina. As eleições e a etapa que se seguirá a elas podem ser consideradas parte dos desafios enfrentados pelo Marrocos, entre eles a guerra contra a pobreza defendida por Mohammed VI desde sua ascensão ao trono. Uma guerra desse tipo, que começa pela eliminação das favelas e pela construção de moradias dignas para os cidadãos que nelas vivem, continua sendo a melhor maneira de combater o terrorismo e todas as formas de extremismo. A realização das eleições na data prevista confirmará que a mudança para melhor não é possível sem uma consciência política integrada em nível nacional. Essa mudança ocorre por meio das urnas, e não das ruas, mesmo quando as reivindicações dos manifestantes são legítimas. O governo de Aziz Akhannouch não caiu em setembro e outubro do ano passado, quando jovens da geração Z foram às ruas para protestar contra o nível dos serviços médicos e da educação, bem como contra o aumento das mensalidades nas escolas privadas. As ruas não derrubaram o governo. Existe agora, porém, uma necessidade urgente de um novo governo chefiado por uma personalidade mais próxima do cidadão comum e de suas preocupações. Há necessidade de uma figura que tenha demonstrado, em um passado recente, ser capaz de obter sucesso quando encarregada de uma missão específica. Em termos mais claros, passou a existir a necessidade de um governo capaz de compreender as verdadeiras razões pelas quais simples informações falsas e rumores divulgados pelas redes sociais levaram milhares de jovens, nos últimos dias de julho passado, a seguir em direção a Ceuta, ocupada pela Espanha no norte de Marrocos. Esses jovens marroquinos, cujo número chegou a cinquenta mil, acreditavam que Ceuta, situada em território marroquino, era um tesouro de ouro do qual poderiam retirar riquezas antes de voltar para suas cidades e aldeias para viver com conforto material. Desse ponto de vista, parece importante que as eleições desempenhem o papel que delas se espera na realização da mudança política. Ao mesmo tempo, porém, elas colocam todos os partidos políticos e seus dirigentes diante dos desafios impostos pela realidade marroquina. Isso inclui, naturalmente, estar à altura do processo de modernização vivido pelo reino, onde hospitais, centros médicos, portos e instalações de serviços estão sendo construídos em diferentes regiões do país. Soma-se a isso uma verdadeira consciência, por parte do próprio Mohammed VI, da importância de elevar o nível da educação. O monarca marroquino falou abertamente sobre esse tema alguns anos atrás, em um discurso por ocasião da Festa do Trono. Nesse discurso, tratou explicitamente do nível da educação e da importância do domínio de línguas estrangeiras, além do árabe, naturalmente. A cerca de três semanas das eleições marroquinas, a classe política deveria assimilar o que a cena de Ceuta revelou a respeito dos jovens, do desemprego, das desigualdades e da espera pelos frutos dos grandes projetos. O próprio rei falou sobre isso há um ano, quando enfatizou a necessidade de que todo o Marrocos avance em uma única velocidade. Mais importante ainda, a crise relacionada a Ceuta não se transformou em uma divisão política interna, nem em uma confrontação aberta com a Espanha, nem em uma ruptura diplomática capaz de reorganizar as relações do Marrocos com a Europa. Esse sucesso confirma a capacidade do Estado marroquino de absorver o choque, impedir que seus adversários conhecidos imponham sua própria interpretação e, em seguida, recolocar o acontecimento em suas devidas proporções sem negar sua gravidade. Esses são alguns dos principais desafios da fase pós-eleitoral, dirigidos antes de tudo à classe política marroquina.

Iraque, o grande prêmio do Irã
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Khairallah Khairallah
Publicado
ago 20, 2026 - 17:26

Basta olhar ao redor para constatar que várias guerras estão sendo travadas, com a bênção do Irã, no mundo árabe e além. No Iêmen, os houthis tentam fechar o estreito de Bab el-Mandeb na tentativa de retomar o porto iemenita de Mokha, de onde foram expulsos em 2014 por forças locais iemenitas apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos. Conseguirá o Irã controlar, ao mesmo tempo, o estreito de Ormuz, no Golfo, e o de Bab el-Mandeb, porta de entrada para o mar Vermelho e o canal de Suez, por intermédio dos houthis no Iêmen? O Irã não escondeu sua decisão de adotar uma política ofensiva em várias frentes. Mas, para a Guarda Revolucionária, a prioridade continua sendo manter o controle iraniano sobre o Iraque. No país, trava-se uma verdadeira disputa em torno das armas das milícias sectárias ligadas à Guarda Revolucionária. Essas milícias foram reunidas sob a bandeira das «Forças de Mobilização Popular», que contam com financiamento do orçamento do Estado iraquiano e buscam exercer sobre o Estado um papel dominante semelhante ao desempenhado pela Guarda Revolucionária no Irã. O apego da Guarda Revolucionária às Forças de Mobilização Popular e ao seu arsenal explica a importância que o Irã atribui ao Iraque, hoje colocado a serviço de múltiplos interesses iranianos que beneficiam o regime de Teerã. Entre esses usos está o de financiar parte do orçamento iraniano. Há poucos dias, o governador do Banco Central do Irã viajou a Bagdá para exigir o pagamento de 12 bilhões de dólares referentes ao gás iraniano utilizado no Iraque para gerar eletricidade. Os iranianos esqueceram que o fechamento do estreito de Ormuz impede o Iraque de exportar grande parte de seu petróleo e faz o país perder bilhões de dólares. O Irã exige bilhões do Iraque e, ao mesmo tempo, quer impedi-lo, por razões próprias, de exportar a maior parte de seu petróleo. A razão é que o estreito de Ormuz se tornou a arma mais poderosa do Irã em seu confronto com os Estados Unidos, do qual o Iraque passou a ser uma das vítimas. Independentemente do que a «República Islâmica» obtém dos recursos do Iraque, em particular de seu petróleo, o país continua sendo o grande prêmio que o Irã recebeu de presente dos Estados Unidos. Isso ocorreu durante o governo de George W. Bush, que insistiu, em 2003, em derrubar o regime de Saddam Hussein e entregar o Iraque de bandeja à «República Islâmica». O governo americano busca agora, precisamente, arrancar o Iraque das mãos do Irã. No entanto, parece ignorar uma realidade fundamental: desde 2003, o Iraque tem sido governado, na prática, por milícias sectárias ligadas à Guarda Revolucionária, as mesmas que combateram o Exército iraquiano durante os oito anos da guerra entre Irã e Iraque, de 1980 a 1988. São milícias iraquianas que voltaram de Teerã a Bagdá a bordo de tanques americanos. Elas se apoderaram dos principais centros de poder do sistema iraquiano e impediram qualquer reforma verdadeira capaz de transformar o Iraque em um Estado normal, capaz de equilibrar suas relações com o Irã e com seu entorno árabe. Essa é uma realidade iraquiana que o governo de Donald Trump ignora por não compreender a profundidade da penetração iraniana no Iraque… O governo de George W. Bush livrou o Iraque do regime baasista de caráter familiar de Saddam Hussein. Era necessário pôr fim àquele regime, tão sanguinário quanto estúpido, mas com a condição de saber quem o sucederia. O governo Trump tenta hoje corrigir as consequências de uma catástrofe que se abateu sobre o Iraque, que agora é chamado a se transformar em uma adaga cravada no flanco da segurança árabe. Do Iraque partem ataques contra a Arábia Saudita e o Kuwait. É também a partir do Iraque que determinados alvos na Região do Curdistão iraquiano são atacados. Não é por acaso que Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano, fez questão de iniciar sua recente visita ao Iraque com uma visita ao monumento dedicado a Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, morto em um ataque americano ao lado de Abu Mahdi al-Muhandis, vice-comandante das Forças de Mobilização Popular iraquianas, pouco depois de terem deixado o aeroporto de Bagdá, no início de 2020. Qalibaf, uma das figuras mais proeminentes do regime iraniano, foi a Bagdá para confirmar a oposição de Teerã ao desarmamento das milícias iraquianas, em oposição aos esforços do governo de Ali al-Zaidi, que se encontra em uma posição pouco invejável. Qalibaf não disse isso de forma explícita. Mas sua visita ao monumento de Qassem Soleimani, onde pronunciou um discurso glorificando a «resistência», transmite uma mensagem clara. Significa, antes de tudo, que a «República Islâmica» continua considerando o Iraque uma «arena» dentro de sua órbita e, mais do que isso, um trunfo essencial em seu confronto com o governo Trump, um confronto às vezes silencioso e outras vezes aberto, pontuado, de tempos em tempos, por negociações públicas ou secretas. O Iraque já pode ser considerado parte integrante das guerras que se desenrolam na região, do Iêmen ao estreito de Ormuz, dos países do Golfo Árabe, alvo de ataques iranianos, ao sul do Líbano. Quem terá a última palavra no Iraque? Até onde o Irã poderá continuar exercendo pressão? Até que ponto o governo de Ali al-Zaidi conseguirá resistir às milícias armadas? A visita à Arábia Saudita de Faiq Zidan, presidente do Conselho Supremo da Magistratura do Iraque, ajudará a garantir apoio árabe ao governo de Ali al-Zaidi? Cabe observar que Faiq Zidan se tornou, recentemente, um ator central da política interna iraquiana, inclusive na escolha do primeiro-ministro. Essas são as perguntas que marcarão a próxima etapa, com o próprio Iraque no centro de todas elas. É no Iraque que o Irã defende seu regime e procura afirmar que não haverá volta atrás, isto é, que não haverá retorno à situação anterior a 2003. Naquele ano, o governo de George W. Bush decidiu transformar a «República Islâmica» na potência tutelar do Iraque sob o pretexto da «maioria xiita» do país. Será que o governo de Donald Trump conseguirá corrigir um erro histórico que alterou todos os equilíbrios no Oriente Médio, no Oriente Próximo e na região do Golfo?

O Líbano tem um só governo?
Por
Khairallah Khairallah
Publicado
ago 14, 2026 - 16:15

A pergunta não poderia ser mais simples. O Líbano tem um único governo, chefiado por Nawaf Salam, ou vários governos, cada um com sua própria agenda e sob o controle deste ou daquele ministro? Era natural que Nawaf Salam encerrasse a questão e impedisse o ministro da Defesa, Michel Menassa, de tomar a palavra durante a sessão parlamentar em que foi aprovada a lei de anistia, com seus méritos e suas falhas, uma lei que reflete melhor do que qualquer outra coisa a situação do Líbano, com toda a sua deterioração e suas tensões. Nada ilustra melhor essa deterioração do que a aliança entre o Hezbollah e a Corrente Patriótica Livre, liderada por Gebran Bassil, genro do ex-presidente Michel Aoun. Essa aliança se opôs à lei de anistia e apoiou o ministro da Defesa, que pretendia expressar diante do Parlamento a posição do Exército libanês sobre essa lei. Isso significaria minar o sistema vigente em seus próprios alicerces, ao apresentar o Exército como uma entidade autônoma em relação ao Conselho de Ministros. Em outras palavras, o Exército teria uma posição própria, paralela à do Conselho de Ministros, que representa o Poder Executivo… ou pelo menos é assim que deveria ser. Se o ministro da Defesa tivesse tomado a palavra diante do Parlamento, o Líbano teria passado, na prática, a contar com quatro poderes: o Executivo, o Legislativo, o Judiciário… e um quarto poder: o Exército libanês, em vez de permanecer sob a autoridade do Poder Executivo, representado pelo Conselho de Ministros em seu conjunto e pela Presidência da República. O país precisa de mais um poder em uma etapa que, no mínimo, pode ser considerada decisiva, já que determinará se o Líbano continuará ou não sendo um país viável? A aliança entre o Hezbollah e a Corrente Patriótica Livre, isto é, a corrente aounista, não é fruto do acaso. O mandato presidencial de Michel Aoun, entre 2016 e 2022, foi, na prática, um mandato do Hezbollah. Ao lado de seu genro Gebran Bassil, Aoun colocou o Estado libanês sob as ordens do Hezbollah, isto é, sob as ordens do Irã. Isso ocorreu em um momento em que o Hezbollah sempre se opusera a qualquer atuação do Exército libanês em território nacional. Sua primeira objeção foi à própria presença do Exército no sul do Líbano. Quem se lembra do helicóptero pilotado pelo oficial Samer Hanna, abatido no sul do Líbano por um combatente do Hezbollah, que depois foi posto em liberdade? Quem se lembra de que Michel Aoun justificou a morte do piloto perguntando: «O que Samer Hanna estava fazendo no sul do Líbano?». Michel Aoun disse isso antes de se tornar presidente da República. Era a fase em que apresentava suas credenciais ao Hezbollah, uma etapa que durou dez anos e começou em 2006. Ela precedeu sua chegada ao Palácio de Baabda como candidato presidencial do Hezbollah, um candidato que não se opunha a nenhuma decisão do Hezbollah. A aliança entre os aounistas e o Hezbollah é o oportunismo levado ao extremo. Ela também corresponde a uma aposta em sabotar por dentro o governo de Nawaf Salam, com um único objetivo: impedir qualquer avanço nas negociações em curso entre o Líbano e Israel. Por isso, o primeiro-ministro fez bem em barrar Michel Menassa, que não passa de um oficial da reserva com boas intenções, mas que não percebe os danos que o mau uso dessas intenções pode causar, sobretudo quando exploradas pelo Irã, que controla por completo o Hezbollah. Em última análise, o Líbano enfrenta uma questão muito mais grave do que a lei de anistia, com todas as falhas que ela contém. O país está diante de uma prova histórica: como se livrar da ocupação israelense. Uma ocupação que o Hezbollah quer prolongar para justificar a manutenção de suas armas, dirigidas, antes de tudo, contra os demais libaneses. O que Nawaf Salam fez foi um ato eminentemente patriótico em um momento em que o Líbano não tem alternativa senão negociar diretamente com um monstro israelense que faz tudo o que pode para mudar a realidade do sul do Líbano, multiplicando a destruição e as explosões em seus vilarejos e localidades. Nessa perspectiva, o Líbano não pode se permitir afundar nos labirintos da lei de anistia e de questões semelhantes. O país não tem, pelo menos por enquanto, outra opção senão encarar uma realidade: Israel é o único beneficiário da manutenção das armas do Hezbollah. Quem hoje corre em socorro do Hezbollah e procura desmontar o governo de Nawaf Salam coloca-se a serviço de Israel e da ocupação. Todo o resto são detalhes, e todos eles acabam servindo ao projeto promovido pela «República Islâmica», um de cujos objetivos é transformar o Líbano em refém do Irã nas negociações conduzidas, direta ou indiretamente, entre Washington e Teerã. É vergonhoso que os aounistas e seus satélites voltem a se colocar a serviço do Hezbollah e do Irã. Na realidade, uma conduta como essa não surpreende em um grupo que nunca deixou de apunhalar o Exército libanês pelas costas. Michel Aoun não fugiu, em outubro de 1990, para a sede da Embaixada da França em Baabda enquanto oficiais e soldados do Exército libanês enfrentavam com bravura o Exército sírio, que avançava em direção ao palácio presidencial e ao Ministério da Defesa em Yarzeh? Para quem fez o Exército sírio entrar no Palácio de Baabda e no Ministério da Defesa em 1990, é fácil, em 2026, colocar-se a serviço do projeto iraniano no Líbano…

A arrogância iraniana para justificar uma derrota libanesa
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Khairallah Khairallah
Publicado
ago 5, 2026 - 16:28

Seis anos após a catástrofe da explosão no porto de Beirute, quando é mais do que provável que o Hezbollah, com a cumplicidade de outros atores, tenha protegido o armazenamento de nitrato de amônio, o Líbano continua resistindo ao seu inimigo interno. Esse inimigo tem nome: as armas do Hezbollah, utilizadas tanto dentro quanto fora do país, especialmente na Síria, muito antes da chamada “guerra de apoio a Gaza”, uma guerra que acabou provocando uma tragédia para a comunidade xiita e, acima de tudo, um desastre nacional para o Líbano. As declarações mais recentes do secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, são mais uma prova dessa realidade. Ele acusou as autoridades libanesas de “ajudar Israel em vez de ajudar o Líbano” e acrescentou que “o presidente Joseph Aoun tornou-se parte do conflito e um fator de divisão, algo incompatível com o papel que lhe cabe desempenhar”. Essas declarações representam apenas mais um capítulo da guerra que o Irã trava contra o Estado libanês e todas as suas instituições. Felizmente, a arrogância não é capaz de esconder uma derrota. O que o Líbano enfrenta hoje é uma derrota provocada pelo Hezbollah. Por causa dessa derrota, pela qual o Hezbollah, ou seja, o Irã, é responsável, o país vê-se obrigado a lutar em duas frentes, em circunstâncias particularmente difíceis. A primeira é a guerra travada pelo Irã contra o Estado libanês. A segunda consiste em pôr fim à ocupação israelense para permitir que os deslocados retornem às suas cidades e aldeias. Em Roma, ocorreram negociações difíceis com Israel com o objetivo de pôr fim a essa ocupação. Tudo o que o Hezbollah, apoiado pela República Islâmica do Irã, faz hoje serve apenas para reforçar a posição israelense. Como pode o negociador libanês responder quando o lado israelense lembra que as armas do Hezbollah foram usadas para ameaçar as comunidades israelenses da Galileia? Foi sob essa perspectiva que o primeiro-ministro Nawaf Salam respondeu com notável clareza ao secretário-geral do Hezbollah, sem mencioná-lo nominalmente: “Hoje surgem aqueles que acusam as autoridades políticas de terem ajudado Israel em vez de defender a soberania do Líbano, para depois conclamarem ao diálogo e à unidade como se os libaneses não tivessem memória. O maior favor prestado a Israel foi feito por aqueles que arrastaram unilateralmente o Líbano para as aventuras absurdas das chamadas guerras de “apoio”, oferecendo-lhe todos os pretextos para atacar o nosso país, pisotear sua soberania, destruir suas cidades e aldeias, matar seus habitantes e deslocar centenas de milhares deles. Quem monopolizou a decisão da guerra, quem ainda procura confiscar a decisão do Estado e vincular o Líbano a agendas e eixos externos, ignorando os interesses da sua própria base e do conjunto dos libaneses, não tem autoridade moral para distribuir certificados de patriotismo, muito menos de soberania. Não haverá soberania para o Líbano senão por meio de uma única decisão nacional e independente, exercida por um Estado dotado de um único Exército, que exerça sozinho sua autoridade sobre todo o território nacional. Quanto ao diálogo e à unidade, eles só podem ser construídos com a coragem de reconhecer os fatos, por mais amargos que sejam, e de assumir a responsabilidade por escolhas temerárias cujo alto preço os libaneses continuam pagando até hoje.” Com isso, as acusações de Naim Qassem ficam plenamente respondidas. Ele exortou as autoridades libanesas a “proteger a soberania nacional, fortalecer o Exército libanês, garantir a retirada do inimigo israelense, reconstruir o país e esclarecer a verdade sobre o porto”. Também afirmou que “as negociações diretas não trouxeram ao Líbano nada além de vergonha, humilhação, decepções e concessões sucessivas”. Chegou até mesmo a afirmar que “todas as agressões contra o Líbano ocorreram sob supervisão, direção e aprovação dos Estados Unidos”, ao mesmo tempo em que conclamou as autoridades libanesas a “pôr fim às concessões gratuitas, dialogar com a Resistência, restabelecer a estabilidade interna e defender a soberania”. Também não deixou de elogiar o Irã, afirmando que o país “trabalhou para que o Líbano ocupasse o primeiro lugar no memorando de entendimento com os Estados Unidos e exigiu o fim da agressão e a retirada israelense”. O secretário-geral do Hezbollah concluiu afirmando que “é o processo decorrente do memorando de entendimento que permitirá a retirada israelense e que, sem a firmeza da Resistência, nada teria sido alcançado”. Acrescentou: “Estamos comprometidos com a unidade nacional. A grande unidade entre o Hezbollah e o Amal constituiu uma barreira intransponível contra a agressão israelo-americana e contra os pequenos atores. Juntos, como povo, Resistência, futuro e vida, seguiremos nosso caminho.” O mínimo que se pode dizer desse discurso, que desafia toda lógica, é que Naim Qassem parece convencido de que os libaneses não têm memória. Nem mesmo da memória do assassinato de Rafic Hariri, de seus companheiros, de tantos dos homens mais honrados do país e, por fim, de Lokman Slim. Também parece acreditar que os libaneses ignoram quem abriu a frente sul sem o menor respeito pela soberania nacional, mesmo em seu sentido mais elementar. Está claro que o secretário-geral do Hezbollah considera os libaneses um rebanho incapaz de submeter suas posições ao menor exame crítico. Pretende que o Estado libanês assuma as consequências dos crimes cometidos por seu partido contra o país, incluindo o retorno da ocupação israelense. As declarações de Naim Qassem só podem ser explicadas por seu desprezo pela inteligência dos libaneses e pelo controle absoluto que o Irã exerce sobre o Hezbollah. A pergunta continua a mesma: como o Líbano pode sair dessa crise? Deve esperar por uma grande mudança no Irã? A resposta é simples. O Líbano é capaz de fazê-lo, desde que compreenda que a verdadeira humilhação consiste em invocar a ocupação para justificar a existência de armas ilegais em seu território. Consiste também em se recusar a reconhecer que nenhuma ocupação pode terminar sem negociações diretas com quem ocupa a terra. Há um preço que inevitavelmente terá de ser pago. Aqueles que se recusam a assumi-lo buscam apenas continuar explorando o sul do Líbano e sua população indefinidamente, enquanto aguardam o Dia do Juízo na República Islâmica. Em outras palavras, esperam o dia em que o Irã volte a ser simplesmente um Estado normal. Um Estado que já não precise recorrer à arrogância para justificar sua derrota.

Mohammed VI deixa os números falarem
Por
Khairallah Khairallah
Publicado
jul 31, 2026 - 15:05

Há sucessos que geram outros sucessos. O Marrocos vem demonstrando isso desde a ascensão de Mohammed VI ao trono, há vinte e sete anos. A primeira dessas conquistas continua sendo a consolidação da marroquinidade do Saara, à qual se somaram grandes projetos que hoje são uma realidade. Entre eles destacam-se a transformação do porto de Dakhla em uma das principais portas atlânticas da África, o gasoduto africano que ligará a Nigéria ao Marrocos e a rodovia de mais de mil quilômetros que conecta Tiznit a Dakhla e que hoje leva o nome de Donald Trump. O soberano marroquino dificilmente precisaria insistir nesses resultados em seu discurso por ocasião da Festa do Trono, sobretudo após a adoção da Resolução 2797 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 31 de outubro de 2025. A resolução marcou um ponto de inflexão ao reconhecer explicitamente a marroquinidade do Saara e confirmar que a única solução realista continua sendo a defendida por Rabat desde 2007: uma ampla autonomia para as províncias saarianas no âmbito da soberania marroquina. Mohammed VI preferiu deixar que os números falassem por si. Ainda assim, fez questão de lembrar àqueles dispostos a ouvir que os avanços do Reino repousam sobre bases sólidas, porque o Marrocos é, segundo suas próprias palavras, “um Estado-nação antigo”. Como afirmou: “O Marrocos é um Estado antigo que extrai sua força de tradições profundamente enraizadas como Estado-nação. Suas instituições cumprem plenamente seu papel em um ambiente de harmonia e complementaridade. É isso que confere ao Estado a eficácia necessária para dar continuidade às suas realizações e enfrentar os desafios apesar das dificuldades e limitações. O Marrocos demonstrou isso por meio da organização exemplar de grandes eventos continentais e internacionais, conquistando admiração e reconhecimento em todo o mundo e despertando, às vezes, a inveja de alguns.” É natural que o Marrocos desperte “a inveja de alguns”. Os avanços alcançados transformaram o Reino em um fator de estabilidade em uma região que necessita de um ambiente completamente diferente para promover o desenvolvimento e a integração, longe dos slogans, das promessas vazias, das ilusões e da exploração dos povos e de seu futuro. Por ocasião do vigésimo sétimo aniversário de sua ascensão ao trono, Mohammed VI tinha todas as razões para olhar para o futuro com confiança. Seu discurso voltou-se para o futuro promissor do Marrocos, um futuro que já não se apoia apenas em aspirações, mas em conquistas concretas firmemente ancoradas na realidade. Esses resultados são fruto, destacou ele, “da segurança, da estabilidade e da eficácia das instituições”. Disso decorre “a multiplicação dos indicadores positivos em todos os setores, fortalecendo a dinâmica do crescimento econômico e consolidando a soberania nacional”. Retomando a linguagem dos números, ou seja, dos fatos concretos e verificáveis, o soberano marroquino destacou que “a taxa de crescimento atingiu cerca de 4,9% em 2025 e deverá manter-se nesse patamar, ou até mesmo superá-lo, em 2026”. Ele observou ainda que, “no setor agrícola, o Marrocos foi beneficiado por chuvas abundantes e por uma excelente safra, o que contribuiu para fortalecer a segurança hídrica e alimentar”. Ao mesmo tempo, o Reino consolidou sua posição como polo de investimentos industriais, turísticos e financeiros, como demonstram a melhora contínua de seus indicadores, especialmente no setor industrial. As indústrias automobilística e aeronáutica, as energias renováveis e a indústria de alimentos constituem hoje a espinha dorsal do aparato produtivo marroquino. Elas desempenham um papel decisivo tanto na atração de investimentos estrangeiros quanto na geração de riqueza e de empregos. O Marrocos é hoje o maior exportador de automóveis da África, com uma capacidade de produção próxima de um milhão de veículos por ano. As exportações dos setores automobilístico e aeronáutico representam atualmente mais de 40% das exportações totais do Reino, superando inclusive as de fosfato. Como parte dessa mesma estratégia, Mohammed VI lembrou ter presidido, no início deste ano, a inauguração de novas unidades industriais que permitiram ao Marrocos ingressar no seleto grupo de países que contam com grandes centros de produção de motores aeronáuticos e sistemas de trem de pouso. O desenvolvimento de uma indústria integrada de baterias elétricas também reflete a capacidade do Reino de antecipar as transformações tecnológicas e integrar-se às cadeias globais de produção das indústrias estratégicas. Com esse mesmo espírito de inovação e modernização, o Marrocos segue desenvolvendo grandes projetos destinados a transformar as energias renováveis em um dos pilares de sua segurança energética e em um poderoso fator de atração para indústrias que buscam energia competitiva e de baixo carbono. Como parte dessa estratégia ambiciosa, o Reino iniciou a implementação de seu programa de hidrogênio verde, autorizando uma primeira série de grandes projetos. Tudo isso representa apenas uma pequena parte do que o Marrocos conquistou, em um país que hoje recebe vinte milhões de turistas por ano. O discurso proferido este ano por Mohammed VI por ocasião da Festa do Trono foi uma mensagem dirigida a todos: aos que querem compreender e aos que se recusam a fazê-lo. Sua ideia central é clara: o Marrocos tem uma visão e aposta em seu povo. Confia na capacidade dos marroquinos de continuar impulsionando o desenvolvimento do país e de colocá-lo entre as nações capazes de desempenhar um papel construtivo tanto no plano regional quanto no internacional, longe dos confrontos ideológicos, das ilusões e das estéreis disputas retóricas que não oferecem qualquer horizonte político, econômico ou civilizacional. No fundo, a mensagem é simples: o Marrocos compreendeu plenamente que o mundo mudou. Mudou de forma ainda mais profunda do que muitos imaginavam há menos de cinco anos, primeiro com o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e, depois, com a onda de violência desencadeada pelos ataques de 7 de outubro de 2023 e pela guerra que mergulhou o Oriente Médio em um novo ciclo de conflitos. O mundo mudou, e o Marrocos está determinado a assegurar seu lugar entre os países que estão redesenhando as cadeias globais de abastecimento, diversificando sua produção e conectando suas capacidades nacionais à economia mundial. Para isso, o Reino apoia-se em suas infraestruturas, em seus recursos naturais, na qualidade de sua diplomacia e de sua ação política, bem como na preservação de uma estabilidade que hoje constitui um de seus maiores trunfos, tanto no plano nacional quanto no regional.

Iraque incapaz de recuperar seu equilíbrio
Por
Khairallah Khairallah
Publicado
jul 30, 2026 - 11:00

Os ataques lançados a partir do território iraquiano contra a Arábia Saudita, o Kuwait e o Reino Hachemita da Jordânia revelam a fragilidade de um país que continua incapaz de recuperar seu equilíbrio. A resposta saudita, que atingiu posições das Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi), estrutura que serve de cobertura às milícias sectárias iraquianas ligadas ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, confirma que a guerra na região entrou em uma nova fase. Com essa resposta, Riad deixou claro que já não está disposta a se submeter indefinidamente à chantagem iraniana. A República Islâmica utiliza agora todas as cartas de que dispõe para intensificar o confronto que trava com os Estados Unidos. É incapaz de admitir que não é uma superpotência e que precisa chegar a um entendimento com o governo de Donald Trump que lhe permita tornar-se um Estado normal, em vez de continuar agindo como uma potência hegemônica que impõe sua vontade por meio do Iraque, do Iêmen e do Líbano. A República Islâmica também tem dificuldade em reconhecer que essa escalada não lhe trará qualquer benefício. Mais do que isso, ela expõe a verdadeira realidade do Iraque: o país continua incapaz de se libertar da tutela iraniana, enquanto o governo de Ali al-Zaidi não passa, em essência, de uma continuidade da administração de Mohammed Shia’ al-Sudani. Isso apesar dos esforços que afirma empreender, entre eles a definição de um cronograma para eliminar as armas que permanecem fora do controle do Estado. Ali al-Zaidi visitou recentemente Washington. Donald Trump o cobriu de elogios durante o encontro no Salão Oval. Bastaram poucos dias, porém, para ficar evidente que a aposta da Casa Branca no primeiro-ministro iraquiano estava equivocada e que al-Zaidi simplesmente não tem condições de livrar o Iraque da influência direta do Irã. No fim das contas, é verdade que Ali al-Zaidi lançou uma campanha amplamente bem-sucedida contra a corrupção no Iraque. Também é verdade, porém, que essa campanha jamais atingiu os verdadeiros chefes do sistema, aqueles que sustentam um regime corrupto surgido em 2003, quando a administração de George W. Bush entregou o Iraque ao Irã em uma bandeja de prata. Existe uma ligação evidente entre a corrupção no Iraque e o papel desempenhado pelo Irã no país. Essa corrupção não serve apenas para financiar as milícias sectárias iraquianas ligadas ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica. Ela também abastece os cofres da República Islâmica e financia seus proxies em toda a região. Não basta Donald Trump afirmar que “daremos uma dura lição ao Irã e estamos considerando ataques contra seus proxies”. Declarações desse tipo não passam de retórica enquanto os Estados Unidos não assumirem uma posição clara sobre o lugar que o Iraque ocupa na equação regional. Essa posição deveria começar pelo reconhecimento, sem rodeios, de que o país continua sob tutela iraniana e representa, ao mesmo tempo, uma ameaça para seus vizinhos. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica mantém bases na fronteira entre o Iraque e a Jordânia, bem como nas proximidades da Síria. Além disso, a maior parte dos drones lançados pelo Irã em direção ao Kuwait partiu de território iraquiano. O mais preocupante é que os ataques iranianos contra a Arábia Saudita, realizados a partir do Iraque, não apenas expuseram as limitações do governo de Ali al-Zaidi. Também demonstraram que a República Islâmica não respeita os acordos que assina com outros países. Isso inclui o acordo firmado com a Arábia Saudita em Pequim, em 2023. O Irã não apenas violou esse entendimento por meio dos Houthis no Iêmen, como também fez questão de reafirmar que o Iraque continua firmemente sob sua influência. Mais do que isso, tudo indica que a República Islâmica está disposta a utilizar o Iraque como plataforma em sua guerra contra os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo e a Jordânia. As declarações de Donald Trump de que os ataques contra as Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi) no Iraque, realizados em conjunto pela Arábia Saudita e pelo Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), “foram coordenados com o governo iraquiano” não alteram em nada a realidade dos fatos. Na prática, representam uma tentativa de fechar os olhos para uma realidade da qual não há como escapar. A questão pode ser resumida em uma pergunta bastante simples: qual é, afinal, o lugar do Iraque na equação regional? O país pode aspirar a ser algo mais do que um satélite na órbita do Irã? O mais lamentável é que a tentativa de Ali al-Zaidi de equilibrar, de um lado, a relação de seu governo com o Irã e, de outro, seus vínculos com os países árabes vizinhos, não produziu qualquer resultado concreto. O primeiro-ministro iraquiano acabou sendo obrigado a anunciar o adiamento de sua visita a Riad, pelo menos por enquanto. Trata-se de uma decisão lógica, enquanto permanecer indefinido o lugar que o Iraque ocupará na equação regional e enquanto não houver uma resposta clara sobre a possibilidade de o país libertar-se da tutela iraniana. As Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi), que reúnem diversas milícias, representam o símbolo mais evidente da hegemonia iraniana que se mantém no Iraque desde 2003. Os salários de seus combatentes são pagos pelo orçamento do Estado iraquiano. As declarações de Donald Trump sobre uma suposta “coordenação” com o governo de Ali al-Zaidi não mudam essa realidade. Ao contrário, evitam enfrentar a questão central de sua aposta no Iraque, uma aposta fadada ao fracasso enquanto as armas das milícias, e não as instituições do Estado, continuarem tendo a primeira e a última palavra no país. Todo o resto são apenas detalhes destituídos de qualquer importância.

Os Houthis revelam a fraqueza da "República Islâmica"
Por
Khairallah Khairallah
Publicado
jul 23, 2026 - 03:35

As ameaças feitas pelos Houthis no Iêmen contra o Reino da Arábia Saudita e contra o tráfego marítimo que atende seus portos não têm qualquer horizonte, nem político nem militar. Simplesmente não têm condições de cumprir a ameaça de impor um bloqueio aos portos sauditas. Na realidade, com suas declarações grandiosas e sem qualquer conteúdo concreto, os Houthis desperdiçaram a oportunidade de se tornarem um componente pleno do cenário político iemenita, cujo objetivo é alcançar uma solução política que não exclua nenhuma das partes. Ao demonstrarem abertamente seu alinhamento com a "República Islâmica", eles próprios se excluíram desse processo político. Demonstraram, simplesmente, que são antes de tudo iranianos, e não iemenitas, e que qualquer esperança de vê-los recuperar um mínimo de consciência nacional não passava de uma ilusão. No fim das contas, essa aposta não foi mais do que uma perda de tempo. Nos últimos anos, especialmente desde a assinatura do acordo entre a Arábia Saudita e o Irã, mediado pela China em março de 2023, os Houthis haviam demonstrado certa contenção, adotando uma neutralidade apenas de fachada. Procuraram manter o diálogo com Riad, evitando qualquer tipo de provocação. As conversas, ora diretas, ora indiretas, buscavam estabelecer uma fórmula de convivência entre as duas partes. Então, de forma repentina, quando a "República Islâmica" no Irã, ou mais precisamente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, decidiu intensificar a escalada militar, os Houthis, por meio de seu líder Abdel Malek al-Houthi, revelaram sua verdadeira natureza: não podem ser outra coisa senão um instrumento do Irã. Eles decidiram participar da ofensiva iraniana contra os Estados Árabes do Golfo e contra a Jordânia, uma ofensiva que reflete um fracasso iraniano sem precedentes. Dessa forma, os Houthis demonstraram que não passam de mais um braço da Guarda Revolucionária, assim como o Hezbollah no Líbano. É verdade que podem perturbar a navegação no Mar Vermelho e no Golfo de Áden contando com piratas somalis que possam ser recrutados para determinadas operações. Mas isso não significa, de forma alguma, que sejam capazes de fechar o estreito de Bab el-Mandeb, passagem obrigatória para o Mar Vermelho e o Canal de Suez. A razão é muito simples: os Houthis não controlam o porto iemenita de Mokha, que domina o tráfego em Bab el-Mandeb. Eles perderam esse porto ainda no outono de 2014, quando forças iemenitas os expulsaram do sul do país, incluindo esse ponto estratégico. Não é segredo para ninguém que essas forças locais, que também retomaram Áden, Mokha e várias posições na província de Shabwa, contavam com o apoio dos Emirados Árabes Unidos, cuja política no Iêmen tinha como objetivo claro impedir que os Houthis assumissem o controle de todo o país, especialmente da região sul. Mais cedo ou mais tarde, a comunidade internacional e as potências regionais terão de voltar sua atenção para o Iêmen, dada a importância estratégica excepcional do país, pelo menos por duas razões. A primeira é que o território iemenita pode servir de corredor para oleodutos capazes de contornar o Estreito de Ormuz. A segunda é que, caso não seja possível transportar petróleo por dutos que atravessem o Iêmen até o Mar Vermelho ou o Mar da Arábia, nem os países da região nem o restante do mundo poderão suportar por muito tempo a permanência do Irã no Iêmen. Em outras palavras, é impossível aceitar que o Irã continue dificultando a navegação no Mar Vermelho a partir do território iemenita. Não é segredo para ninguém que a "República Islâmica", por meio dos Houthis, está determinada a manter seu domínio sobre o Iêmen para utilizá-lo no fechamento do estreito de Bab el-Mandeb e atacar embarcações que seguem em direção ao Canal de Suez. Essa é, de fato, a intenção dos Houthis. No entanto, a perda do controle do porto de Mokha os priva dos meios necessários para transformar essas ameaças em realidade. Também é importante lembrar que os Houthis controlam Sanaã e uma parte significativa do território iemenita desde 21 de setembro de 2014. Nada demonstra melhor o empenho do Irã em manter sua presença no Iêmen do que sua recente insistência em violar a proibição imposta ao aeroporto de Sanaã. Teerã enviou um avião civil sob o pretexto de transportar uma delegação iemenita que participaria do funeral do falecido "Líder Supremo", Ali Khamenei. O Irã não parou por aí. Após um longo período de relativa calma e de diálogo com Riad, os Houthis lançaram repentinamente uma campanha contra o Reino da Arábia Saudita, acompanhada de ameaças explícitas. Essa fase havia permitido aos Houthis obter certas vantagens, diretamente ou por meio da mediação do Sultanato de Omã. A questão que hoje se coloca tem duas dimensões. A primeira diz respeito à real capacidade dos Houthis de concretizar suas ameaças contra a Arábia Saudita e contra a navegação no Mar Vermelho. A segunda refere-se ao fracasso do regime iraniano. Quanto ao primeiro ponto, os Houthis continuam tendo capacidade para atacar navios mercantes e petroleiros que transitam pelo Mar Vermelho, principalmente porque controlam o porto de Hodeida, de enorme importância estratégica nessa costa. Já o Irã optou por atacar os Estados árabes do Golfo e a Jordânia, em vez de enfrentar diretamente os Estados Unidos ou Israel. Teerã mira o Kuwait, o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos, o Catar e o Sultanato de Omã, enquanto encarrega os Houthis de atacar a Arábia Saudita. Em contrapartida, evita atingir qualquer navio de guerra americano que navegue pelo Golfo. Em última análise, as ameaças dos Houthis não passam de um sintoma do fracasso de um regime iraniano cujo esgotamento já não pode mais ser ocultado. Elas revelam, em prejuízo do Iêmen e dos iemenitas, que o fim desse regime é agora inevitável. É apenas uma questão de tempo, desde que os Houthis expuseram ao mundo a fraqueza da "República Islâmica" e a dimensão de seu fracasso.

Trump e a aposta no Iraque…
Por
Khairallah Khairallah
Publicado
jul 17, 2026 - 09:19

Donald Trump terá mais sorte com o Iraque do que teve com o Irã? A pergunta surge naturalmente depois da calorosa recepção que o presidente norte-americano ofereceu, em Washington, ao primeiro-ministro iraquiano Ali al-Zaidi. Trump não poupou elogios a al-Zaidi, ignorando o fato de que, até pouco tempo atrás, ele era proprietário de um banco incluído na lista de sanções dos Estados Unidos por lavagem de dinheiro em benefício da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Trump recebeu o primeiro-ministro iraquiano na Casa Branca em um momento em que os confrontos intermitentes entre os Estados Unidos e o Irã voltaram a se intensificar, com especial atenção ao Estreito de Ormuz. O presidente norte-americano descobriu, ainda que tardiamente, que o memorando de entendimento assinado com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, na prática, valia muito pouco. Continua existindo um enorme abismo entre Washington e Teerã. Cada lado interpreta o memorando de acordo com seus próprios interesses. Pelo lado americano, o acordo foi negociado pelo vice-presidente J. D. Vance, acompanhado dos enviados Steve Witkoff e Jared Kushner. A retomada dos confrontos entre Washington e Teerã nada mais é do que a expressão da profunda decepção de Trump com os resultados do processo de Islamabad e do fracasso da mediação conduzida pelo Paquistão. Ali al-Zaidi conseguiu reabilitar sua imagem política e chegar ao cargo de primeiro-ministro, o posto mais importante do Iraque, depois que o presidente norte-americano vetou o retorno do ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki, a principal figura xiita da chamada Estrutura de Coordenação ( Coordination Framework ). Até agora, al-Zaidi tem demonstrado verdadeira determinação por meio da campanha de combate à corrupção conduzida por seu governo. Ainda assim, essa campanha permanece incompleta, pois ainda não alcançou os grandes responsáveis que estão na origem da corrupção desde 2003, quando os Estados Unidos derrubaram o regime de Saddam Hussein, com todos os seus defeitos, para acabar entregando esse país estratégico à República Islâmica do Irã. O que hoje se espera do Iraque, sob o governo de Ali al-Zaidi, é que passe a seguir um caminho independente do Irã. No entanto, isso parece pouco provável por uma razão simples: a Guarda Revolucionária Islâmica continua controlando os principais centros de poder do país. A prova mais evidente disso é a permanência das Forças de Mobilização Popular ( Hashd al-Shaabi ), uma estrutura que reúne diversas milícias sectárias leais a Teerã e que continua sendo um dos principais polos de influência da vida política iraquiana. O Hashd chegou inclusive a desempenhar funções de segurança durante as cerimônias fúnebres do Líder Supremo Ali Khamenei, em Karbala e Najaf, na presença de figuras de grande peso político, como Nouri al-Maliki, Hadi al-Amiri e Qais al-Khazali. Mais revelador ainda, o dia do funeral de Khamenei foi decretado feriado oficial no Iraque. Mais cedo ou mais tarde, chegará o momento da verdade para o Iraque. A questão não se limita a dar continuidade à campanha de combate à corrupção, da qual dificilmente se espera que avance muito além do ponto a que já chegou. O verdadeiro desafio diz respeito às armas que permanecem nas mãos das diferentes facções do Hashd al-Shaabi , assim como de outras milícias iraquianas também ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Ao contrário do que parece acreditar o presidente Trump, nem Ali al-Zaidi nem qualquer outro líder iraquiano conseguirão libertar facilmente o país da influência iraniana enquanto Teerã continuar detendo as verdadeiras chaves do poder em Bagdá. Como al-Zaidi explica o lançamento de drones a partir do território iraquiano em direção ao Kuwait? E como justifica a continuidade dos ataques ao consulado do Kuwait em Basra, enquanto a República Islâmica continua atacando os Estados do Golfo Árabe e a Jordânia sob o argumento de que isso constitui uma resposta aos ataques norte-americanos? Também chamou a atenção a apreensão, pelas autoridades sírias na fronteira com o Iraque, de um carregamento de armas que incluía 150 drones e mísseis e que seguia para Baniyas, onde se localiza uma refinaria de petróleo. As armas tinham como destino o Hezbollah, classificado pelas autoridades sírias como uma organização terrorista. Quem preparou cuidadosamente esse carregamento no Iraque para enviá-lo, através da Síria, ao Hezbollah e ao Líbano? Basta criar uma comissão de investigação iraquiana para que deixem de existir, no Iraque, simpatizantes do Hezbollah? Não há dúvida de que a decisão do governo iraquiano de incluir o Hezbollah libanês na lista de organizações terroristas representa um passo de enorme importância. Permanece, porém, uma realidade fundamental: pelo menos até agora, o governo de Ali al-Zaidi mostrou-se incapaz de romper completamente com o Hezbollah, que conseguiu penetrar em mais de uma milícia iraquiana que continua a simpatizar com ele. Mas quem sabe? Talvez, ao adotar essa posição em relação ao Hezbollah libanês, o governo iraquiano esteja apenas apenas para despistar a opinião pública , em vez de enfrentar o problema do chamado “Hezbollah iraquiano”. Trump falou longamente sobre a importância do petróleo iraquiano e sobre o que ele representa para as empresas norte-americanas. Há razões para temer que sua aposta no Iraque não tenha um destino melhor do que aquela feita em relação ao Irã e ao memorando de entendimento que uma ala de seu governo negociou com a República Islâmica. Perguntas como essa continuarão a ser feitas enquanto não ocorrer uma mudança profunda no Irã. Essa mudança pode acontecer… ou pode jamais acontecer. Até lá, toda a região, inclusive o Iraque, continuará refém dessa mudança, com ou sem Ali al-Zaidi no poder.

Contornar Ormuz… Explica a Loucura Iraniana
Por
Khairallah Khairallah
Publicado
jul 9, 2026 - 21:36

No fundo, uma pergunta se impõe: o que levou o Irã a violar de maneira tão flagrante o memorando de entendimento firmado com os Estados Unidos durante as negociações realizadas na Suíça com uma delegação americana chefiada pelo vice-presidente J. D. Vance? Não há dúvida de que existem muitas razões capazes de explicar o comportamento estranho do Irã, próximo da irracionalidade. Isso levou o presidente Donald Trump a chamar as autoridades iranianas de “doentes” e “mentirosas”, afirmando que é impossível lidar com elas. Ele foi ainda mais longe, empregando expressões que revelavam uma profunda decepção com os dirigentes iranianos antes de anunciar o fim do memorando de entendimento. A explicação mais importante para essa conduta irracional, porém, está na decisão dos países da região de buscar formas de contornar o Estreito de Ormuz, seja pelo Mar Vermelho, seja pelo Mar Mediterrâneo. Isso exige entendimentos com a Jordânia e a Síria, ou com o Iraque e a Türkiye, para que o petróleo e o gás cheguem a portos capazes de abastecer a Europa e outras regiões do mundo sem permanecer à mercê do Irã. Teerã simplesmente percebeu que o tempo, no qual havia apostado durante anos, já não favorecia sua estratégia e que avançavam iniciativas concretas para reduzir a dependência do Estreito de Ormuz, considerado por ele sua principal carta de pressão diante dos Estados Unidos. A busca dos países do Golfo por novas rotas para oleodutos e gasodutos privou a “República Islâmica” de sua carta mais forte, justamente aquela que levou o governo americano a firmar o memorando de entendimento com o Irã, sem perceber que negociava com um regime de natureza muito diferente, alheio a qualquer valor relacionado ao direito internacional e ao respeito pela soberania dos demais Estados. Desde sua criação, em 1979, o regime iraniano seguiu uma única política: a chantagem. De toda forma, a decisão dos Estados Unidos de recorrer a ataques militares em resposta às ações da Guarda Revolucionária contra navios petroleiros, entre eles um catariano e outro saudita que atravessavam o Estreito de Ormuz, refletiu a descoberta, ainda que tardia, por parte do presidente americano, da verdadeira natureza dos dirigentes iranianos e do próprio regime. Mesmo que tardiamente, é melhor que Donald Trump tenha finalmente compreendido o regime iraniano do que jamais tê lo compreendido. Nunca deveria ter sido necessário tanto tempo para que Donald Trump percebesse com quem estava lidando e entendesse que o regime iraniano jamais mudou. Em nenhum momento respeitou o direito internacional nem os valores humanos mais elementares. A tragédia provocada pela “República Islâmica” no Sul do Líbano é uma prova eloquente disso. Para Teerã, o memorando de entendimento com o governo americano nunca passou de uma oportunidade para ganhar tempo. O regime tampouco respeitou sua cláusula fundamental, aquela que, na visão de Washington, garantia a liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz. Manter Ormuz aberto era uma questão estratégica para o próprio Trump, que via na queda dos preços do petróleo uma grande conquista a ser apresentada ao público americano. Ele precisava desse resultado para fortalecer sua posição diante do cidadão comum dos Estados Unidos. Por isso reagiu com enorme irritação quando a Guarda Revolucionária voltou a dificultar a navegação pelo Estreito de Ormuz. Naquele momento, porém, o Irã já havia percebido o quanto os países da região levavam a sério os esforços para reduzir sua dependência da passagem. Isso explica o renovado foco de Teerã no Iêmen e nos houthis, que voltaram a ameaçar a Arábia Saudita depois de um período relativamente longo de contenção. Para o Irã, os houthis podem desempenhar um papel decisivo ao interromper a navegação no Mar Vermelho e impedir a passagem de navios petroleiros. Não foi por acaso que a “República Islâmica” violou as restrições internacionais impostas ao Aeroporto de Sanaa para demonstrar que os houthis continuam sendo uma de suas principais cartas e que não têm condições de escapar à disciplina imposta por Teerã. Há ainda outro ponto de enorme importância. Donald Trump não foi o único a redescobrir a verdadeira natureza do Irã e do regime de Teerã. O Paquistão também acabou constatando, de forma bastante simples, que sua mediação entre os Estados Unidos e o Irã não serve para grande coisa. Tudo o que realmente pode fazer é continuar sendo mais uma carta nas mãos de Teerã, nada além disso. A “República Islâmica” explorou o Paquistão ao máximo. Islamabad ajudou a convencer o governo Trump de que era possível alcançar um acordo equilibrado com o Irã, baseado na preservação da liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz. A estratégia iraniana de ganhar tempo acabou se voltando contra o próprio Irã. Antes de qualquer outro ator, os países da região deixaram claro que não aceitam permanecer reféns do Estreito de Ormuz. É isso, mais do que qualquer outro fator, que explica a crescente irracionalidade de Teerã, que não previu que Donald Trump acabaria perdendo a paciência e recorrendo novamente à lógica da força. A guerra voltou? Essa é a grande pergunta, e ainda é cedo demais para respondê la. Há, contudo, uma certeza: privar a “República Islâmica” da carta representada pelo Estreito de Ormuz, juntamente com o esforço dos países da região para contorná lo, levou Teerã a colocar em risco o memorando de entendimento firmado com os Estados Unidos. Afinal, que valor ainda pode ter esse acordo se o Irã já não dispõe da carta de Ormuz para pressionar o mundo e influenciar os preços globais do petróleo e do gás? O estreito era o grande trunfo de Teerã. Foi graças a ele que o Irã conseguiu um memorando de entendimento no qual os Estados Unidos fizeram importantes concessões, entre elas vincular o Irã à busca de uma solução para o Líbano. O esforço dos países da região para contornar o Estreito de Ormuz se assemelha é como tirar de uma criança seu brinquedo favorito. No fim das contas, o comportamento da Guarda Revolucionária não passa da reação de uma criança que acaba de de perder seu brinquedo favorito.

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