Logotipo da Levant Time

Analisar

Acordo-Quadro: quando o Irã desloca a pressão para o Líbano
Por
Mona Fayad
Publicado
jul 3, 2026 - 17:33

Um pesquisador em biofísica escreveu certa vez: “Não interpreto o poder apenas pela política; também o interpreto pela matéria. No laboratório, aprendemos uma verdade que qualquer pessoa reconhece na vida cotidiana: a pressão não afeta todos os corpos da mesma maneira. Aplique pressão sobre o vidro, e ele pode se quebrar. Aplique-a sobre a borracha, e ela se deforma. Aplique-a sobre um tecido vivo, e ele pode absorvê-la, adaptar-se a ela e reparar-se. A mesma força pode destruir uma estrutura ou fortalecer outra. A diferença não está apenas na pressão em si, mas na estrutura interna que a recebe.” É justamente aí que a leitura que Israel e os Estados Unidos fazem do Irã, e do Oriente Médio de forma mais ampla, revela suas limitações. Israel, como toda potência convencida de sua superioridade tecnológica, parte da premissa de que a história pode ser moldada pela pressão: atacar mais, matar mais, endurecer as sanções, aprofundar o isolamento, e o adversário acabará recuando. Trata-se, porém, de uma visão mecânica das sociedades humanas. Ela imagina as nações como objetos inertes que, submetidos a pressão suficiente, inevitavelmente se romperão. Há, contudo, Estados que não entram em colapso sob pressão, embora tampouco saiam dela ilesos. Eles a absorvem, adaptam-se a ela e a redistribuem, transformando uma crise externa em um frágil equilíbrio interno, e um confronto internacional em um custo social prolongado. O Irã, apesar de suas sucessivas crises, não converteu a pressão em colapso. Transformou-a em capacidade de adaptação: absorveu a pressão, converteu-a em tempo e, depois, fez do tempo um instrumento de negociação. É nesse ponto que surgem as perguntas mais sensíveis. A questão já não consiste em saber se a pressão funciona ou fracassa, mas para onde seus efeitos são deslocados e quem acaba pagando esse preço. No caso iraniano, poucos contestariam que o Estado conseguiu, ao longo de muitos anos, conviver com níveis extremamente elevados de pressão externa: severas sanções econômicas, isolamento político, tensões regionais de segurança e pressões acumuladas em diversas frentes. Essa capacidade de resistir sob pressão costuma ser apresentada como prova de força. Mas essa conclusão, por si só, não basta para compreender o quadro em sua totalidade. Ao mesmo tempo, diversos indicadores dentro da sociedade iraniana apontam para um custo profundo: a erosão da classe média, a perda do poder de compra, o agravamento dos desequilíbrios sociais e o distanciamento crescente entre o Estado e a sociedade. Não se trata apenas de indicadores econômicos. São sinais de que a pressão deixou de se concentrar no sistema internacional para se instalar no próprio tecido social. Em outras palavras, a pressão não desapareceu; apenas mudou de lugar. Convém lembrar também que o povo iraniano tentou se insurgir contra as políticas de seu regime ditatorial e teocrático, apenas para enfrentar uma repressão brutal, como se o regime estivesse combatendo um exército invasor, e não seus próprios cidadãos. É exatamente aí que reside o cerne da questão. Regimes ditatoriais dotados de poderosos mecanismos de controle não eliminam a pressão; eles a redistribuem. Uma parte é absorvida pelas instituições do Estado, outra é transferida para a sociedade por meio da economia e das condições de vida cotidianas, sem qualquer consideração pelo custo imposto à população, enquanto uma terceira parcela é administrada além das fronteiras por meio da influência regional e de instrumentos indiretos de poder. Sob essa perspectiva, aquilo que costuma ser chamado de “resiliência” revela-se um fenômeno muito mais complexo. Não se trata da resiliência heroica propagada pelo discurso oficial, pois ela reflete não apenas a capacidade de enfrentar pressões externas, mas também a de administrar seus custos dentro e fora do país. A pergunta essencial, portanto, passa a ser: quem paga esse preço e quem decide como ele será distribuído? Por mais eficaz que esse mecanismo possa parecer no curto prazo, ele levanta uma questão política e moral impossível de ignorar: essa aparente estabilidade reflete a força do Estado ou a capacidade do regime de assegurar sua própria sobrevivência distribuindo o peso de forma profundamente desigual dentro da sociedade? Essa pergunta ganha ainda mais importância quando deixamos o campo da análise abstrata e entramos no terreno da geopolítica. O Irã vem redirecionando a pressão exercida sobre si para diferentes frentes regionais ligadas a ele, direta ou indiretamente. É dentro desse contexto que se deve compreender a posição do Líbano. O Líbano jamais foi um simples espectador das transformações regionais. Ao mesmo tempo, nunca dispôs dos meios necessários para se manter à margem delas. A fragilidade de sua estrutura interna, a complexidade de seu sistema político e sua vulnerabilidade econômica fizeram dele um país particularmente exposto a pressões que não consegue controlar plenamente. O Irã aproveitou essa realidade para transformar o Líbano em uma esfera de influência utilizada para aliviar parte de suas próprias pressões ou redistribuí-las. O que, fora do Líbano, é administrado como confronto geopolítico ou equilíbrio estratégico, traduz-se, dentro do país, em um enorme custo político, econômico e social. Nesse contexto, o debate sobre o Acordo-Quadro deixa de ser um simples detalhe diplomático ou um entendimento circunstancial. Ele se torna um teste decisivo sobre o próprio lugar do Líbano: permanecer preso à lógica de reprodução dos equilíbrios regionais ou iniciar, ainda que gradualmente, o caminho para recuperar a condição de um Estado capaz de exercer plenamente suas próprias decisões políticas. Durante décadas, o Irã utilizou o Líbano como esfera de influência e como um ponto de apoio estratégico no Mediterrâneo. Sempre que se sentiu ameaçado, o Líbano tornou-se o palco preferencial para afastar esse perigo. O Hezbollah esteve sempre pronto para atender ao chamado: da guerra do “Se eu soubesse”, em 2006, à defesa do regime de Bashar al-Assad em 2012, passando pela guerra de apoio de 2023 e, sobretudo, pela guerra de represália travada em nome de Ali Khamenei em 2026, que trouxe ao Líbano uma devastação sem precedentes. Hoje, o Hezbollah, com o respaldo de Nabih Berri, rejeita o Acordo-Quadro para manter o Líbano como um palco de confrontação e uma moeda de troca nas negociações que o Irã possa utilizar para fortalecer sua posição nas negociações. Quem paga esse preço, porém, é o Líbano como um todo e, em particular, a comunidade xiita, para que o Irã preserve sua influência sobre o país. Restituir à soberania seu verdadeiro significado implica rejeitar essa instrumentalização e reafirmar que as decisões sobre a guerra, a paz e a gestão dos riscos nacionais pertencem exclusivamente às instituições do Estado, e não a estruturas paralelas que impõem à sociedade custos que ela já não pode suportar. Sob essa perspectiva, o debate em torno do Acordo-Quadro deixa de ser um simples detalhe técnico para tornar-se um verdadeiro teste. Ou ele será compreendido como um passo, ainda que incompleto, rumo ao restabelecimento do Estado libanês como a única autoridade legítima para decidir os rumos do país, ou será inviabilizado sob o pretexto de considerações regionais, condenando o Líbano a permanecer no papel que lhe foi imposto durante tanto tempo: o de um país onde os interesses dos outros são administrados, em vez de um Estado soberano que conduz suas próprias políticas. O que acontece hoje não pode ser tratado como uma troca legítima de pressões entre atores de força equivalente. Trata-se de uma violação direta da soberania de um Estado e dos direitos de sua sociedade. Utilizar o Líbano como palco para acertos de contas ou como instrumento de pressão em conflitos regionais não constitui um ato de soberania, nem uma escolha política legítima, tampouco um direito inerente a qualquer ator, interno ou externo. Significa negar ao povo libanês o direito de decidir seu próprio destino e aceitar, ainda que implicitamente, que o Líbano continue sendo tratado como um instrumento, e não como um Estado. As consequências estão longe de ser teóricas. Elas se manifestam em um custo humano recorrente, em um desgaste econômico crônico, na paralisia das instituições do Estado e no enfraquecimento contínuo de sua capacidade de proteger a população. Seus efeitos vão muito além do presente: a infraestrutura se deteriora, a educação regride e o futuro de gerações inteiras é sacrificado em nome de cálculos dos quais elas jamais participaram. Neste ponto, já não basta descrever o que acontece como uma simples “redistribuição da pressão”. O que realmente está em curso é a imposição de um custo profundamente injusto a um país frágil, transformando-o de um Estado chamado a defender seus próprios interesses em um território onde se administram interesses alheios. Todo discurso que apresente isso como uma forma de “resiliência” evita uma pergunta fundamental: quem paga esse preço e com que legitimidade ele lhe é imposto? Restituir à soberania seu verdadeiro significado implica rejeitar essa instrumentalização e reafirmar que as decisões sobre a guerra, a paz e a gestão dos riscos nacionais devem caber exclusivamente às instituições do Estado, e não a estruturas paralelas que impõem à sociedade custos que ela não pode suportar. Em última análise, o problema não está no fato de que alguns Estados resistam melhor à pressão do que outros. O verdadeiro problema é que essa capacidade de resistência, muitas vezes, é construída transferindo o custo para espaços mais frágeis e vulneráveis. A partir desse momento, qualquer pretensão de legitimidade moral ou política perde o seu fundamento. A pressão não é apenas uma prova de força. É também uma prova de justiça. E, no caso do Líbano, a injustiça é evidente. Um país paga o preço de conflitos que não escolheu, enquanto toda uma sociedade é obrigada a suportar um peso muito acima de sua capacidade, sem que sequer lhe seja reconhecido o direito de recusá-lo. Trata-se de uma falha estrutural fatal que precisa chegar ao fim.

As dissensões iranianas inibem o diálogo com os EUA
Por
Michel Touma
Publicado
jul 2, 2026 - 00:29

À medida que os contornos do acordo-quadro celebrado entre Washington e a República Islâmica do Irão se vão delineando progressiva e timidamente — e talvez também os seus não-ditos —, dois parâmetros fundamentais, que poderíamos qualificar de «periféricos» ao processo político global em curso, emergem de forma cada vez mais explícita: por um lado, as divergências iranianas no seio do poder e as fissuras que surgem agora publicamente no núcleo do regime; e, por outro, a construção gradual, pelos Estados Unidos, com paciência e minúcia, do que parece ser uma nova ordem político-militar-securitária na região, com o efeito de cortar as asas ao regime dos mulás e de reduzir ao mínimo a sua influência extraterritorial. O primeiro destes dois parâmetros complica, ou mesmo inibe, aquilo que alguns designam, por abuso de linguagem, como «o diálogo e as negociações» entre Washington e a República Islâmica. Vários meios de comunicação iranianos, bem como fontes fidedignas que acompanham de perto a evolução da situação interna no Irão, ecoam há vários dias sérias fissuras que abalaram o aparelho político do regime dos mulás ao mais alto nível. Confirma-se, a este respeito, que a ala radical do poder não perdeu a sua influência preponderante, manifestando-se através de violentas críticas públicas dirigidas ao campo dito «moderado» ou pragmático, que conseguiu fazer aprovar o acordo-quadro com os Estados Unidos. A contestação dos radicais traduziu-se em ataques frontais contra o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, cuja entrevista à televisão estatal iraniana, há alguns dias, foi abruptamente interrompida e cortada antes de terminar. O outro «símbolo» das negociações com os Estados Unidos, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, foi recebido com vaias por peregrinos iranianos durante a sua recente visita a Karbala, no Iraque. Estes incidentes levaram o presidente iraniano, Massoud Pezechkian, a denunciar publicamente, no início desta semana, a campanha contra os negociadores iranianos. As críticas não se limitam, contudo, à personalidade dos negociadores, mas abrangem de forma mais ampla e profunda as orientações do presidente iraniano e os membros do Conselho Superior de Segurança Nacional que deram luz verde ao acordo-quadro assinado com os Estados Unidos. Facto significativo: os ataques contra o presidente Pezechkian e os negociadores partem de instâncias radicais de alto nível que representam a espinha dorsal do regime. O sítio libanês al-Janoubiya, que reflete o ponto de vista da oposição xiita libanesa e que geralmente está muito bem informado sobre a situação no Irão, relata que 63 dos 84 membros do «Conselho dos Peritos do Regime» publicaram recentemente um comunicado a exigir que os negociadores da República Islâmica respeitem as «linhas vermelhas» definidas pelo «walih el-faqih», o Guia Supremo. Al-Janoubiya indica ainda que a «direção das escolas religiosas» (as «hawzat»), sob tutela do walih el-faqih, publicou igualmente um comunicado alertando o presidente iraniano, os negociadores e os membros do Conselho Superior de Segurança Nacional contra qualquer «laxismo» na aplicação das «linhas vermelhas» mencionadas no documento assinado com Washington. Estas tensões internas explicariam o facto de a delegação iraniana presente no Doha, que deveria reunir-se com os negociadores americanos para conversações de caráter técnico, ter recusado qualquer negociação direta. Os delegados iranianos dialogavam assim com os mediadores paquistaneses, enquanto os representantes americanos trocavam impressões com os responsáveis qataris! Essas negociações indiretas, conduzidas por meio dos mediadores paquistaneses e cataris, resultaram na adoção de uma medida simbólica: o descongelamento de 3 bilhões de dólares em ativos iranianos bloqueados, enquanto Teerã havia exigido inicialmente o descongelamento de 12 bilhões de dólares, para depois se contentar em reivindicar os 6 bilhões congelados no Qatar — o que também não conseguiu obter. Além disso, os 3 bilhões desbloqueados na quarta-feira servirão para a compra de produtos humanitários, provavelmente no mercado americano… A nova ordem americana O segundo parâmetro que marca o febril jogo de xadrez que se desenrola na região é a nova ordem americana — político-militar-securitária —, que parece estar se consolidando progressivamente na zona do Levante e, de forma mais ampla, em toda a região. Os sinais desse dispositivo americano ficaram evidentes nos últimos dias e semanas. A sequência dos acontecimentos nesse âmbito é particularmente reveladora: às vésperas da assinatura pelo Líbano e por Israel do acordo-quadro sob a égide de Washington, o Secretário de Estado, Marco Rubio, reunia-se no Bahrein com os membros da conferência ministerial do Conselho de Cooperação do Golfo, e ao término desse encontro, os países do Golfo e o Sr. Rubio publicaram um comunicado conjunto apoiando sem ambiguidade as orientações do governo libanês relativas às negociações diretas com Israel (a União Europeia também manifestou, de forma independente das iniciativas americanas, seu apoio total à linha de conduta adotada pelo poder libanês). Com o respaldo dos EUA, da União Europeia e dos países do Golfo, o Líbano assinou assim seu acordo-quadro com Israel, cujo principal efeito é manter o Irã afastado do processo de saída da crise e de encerramento do estado de guerra no Líbano, consolidando, dessa forma, a opção soberanista adotada por Beirute. A dinâmica estabelecida pelo presidente Joseph Aoun, pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo seu governo poderá implicar um envolvimento militar americano, por meio de especialistas e oficiais de alta patente, na execução do processo gradual de desdobramento do exército libanês e de retirada das forças do Estado hebreu do sul do Líbano. Dado significativo: a Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou no início desta semana, por ampla maioria, um projeto de resolução apresentado pelo Partido Democrata que impunha ao presidente Donald Trump severas restrições a um possível envolvimento militar americano no Líbano. Esse papel americano foi, aliás, discutido com os dirigentes libaneses durante a visita que o comandante do Centcom, o almirante Brad Cooper, realizou no início da semana a Beirute. Três outros desenvolvimentos significativos ilustraram ainda o processo americano em curso: - A onda de prisões no Iraque de parlamentares, altos dirigentes políticos e empresários próximos do regime iraniano, bem como a decisão tomada há 48 horas pelo governo iraquiano de fixar para as milícias pró-iranianas o prazo limite de 30 de setembro para entregarem suas armas ao Estado. - A realização, esta semana no Bahrein, pelo comandante do Centcom de uma reunião regional ampliada de segurança e defesa com altos responsáveis militares do Líbano, da Síria, do Bahrein, da Arábia Saudita, do Egito, da Jordânia, do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos, de Omã, do Qatar e do Iêmen. - O anúncio, há vinte e quatro horas, pelo Departamento do Tesouro americano, da decisão dos Estados membros do Centro de Combate ao Financiamento do Terrorismo (TFTC) de impor medidas contra as fontes de financiamento do Hezbollah (incluindo o Qard el-Hassan). Face a esta dinâmica americana, o regime iraniano tenta se agarrar a dois trunfos que busca preservar: a manutenção do seu papel preponderante no Líbano (seriamente questionado pela posição firme do poder libanês a esse respeito); e o reconhecimento da sua soberania sobre o Estreito de Ormuz, ignorando as regulamentações e o Direito internacional nessa matéria. A esse respeito, um alto funcionário americano indicou ao site Axios que os negociadores americanos deixaram claro aos delegados iranianos presentes em Doha que a insistência do Irã em impor uma taxa de passagem aos navios que utilizam o Estreito de Ormuz corre o risco de torpedear o acordo-quadro entre Washington e Teerã. Caso(s) a seguir, portanto…

Cronologia das tréguas após a guerra dos 40 dias no Irã
Por
Khalil Helou
Publicado
jul 1, 2026 - 17:06

Após quarenta dias de guerra entre os Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, do outro, e simultaneamente entre Israel e o Hezbollah no Líbano, em 8 de abril de 2026, entrou em vigor um primeiro acordo-quadro de cessar-fogo entre Washington e Teerã. Algumas horas depois, uma série de operações aéreas israelenses em larga escala atingiu mais de trinta posições do Hezbollah no Líbano em um intervalo de dez minutos, deixando mais de 300 mortos e 1.150 feridos, em alguns dos ataques mais letais do conflito, com a aviação israelense lançando precisamente 160 bombas. O acordo entre Estados Unidos e Irã, inicialmente previsto para quinze dias e que não incluía o Líbano, foi prorrogado por prazo indeterminado em 21 de abril. Ele previa, além da interrupção das hostilidades entre as duas partes, a reabertura do Estreito de Ormuz e o início de negociações diplomáticas. Essas negociações resultaram, em 17 de junho de 2026, no protocolo de entendimento, válido por 60 dias, que incluía o fim da guerra no Líbano, assinado por Donald Trump e Massoud Pezeshkian, com o objetivo de estabelecer uma cessação duradoura das hostilidades. Enquanto isso, e sob forte pressão americana, um acordo complementar sobre o Líbano entrou em vigor em 17 de abril de 2026, nove dias após o início do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos e do ataque israelense simultaneamente devastador. Essa trégua, negociada entre Trump, Netanyahu e Joseph Aoun, estabelecia o fim dos combates por um período de dez dias. Ela foi prorrogada e posteriormente levou ao acordo-quadro libano-israelense assinado em Washington em 26 de junho de 2026. A ilusão do cessar-fogo Desde 17 de abril, e mesmo após o acordo-quadro de 26 de junho, o cessar-fogo no Líbano rapidamente demonstrou seus limites no terreno. De fato, as hostilidades não cessaram: entre violações repetidas, ampliação geográfica dos ataques e desastre econômico, o sul do Líbano continuava sendo palco de um confronto de alta intensidade até 26 de junho, passando depois para uma intensidade média a baixa. No mesmo “estande” do Hezbollah mencionado na legenda anterior, um cartaz mostra um combatente fazendo uma saudação militar, com a bandeira libanesa e a bandeira do Hezbollah. Uma cena extremamente rara, quase impensável, já que a bandeira nacional costuma estar ausente das manifestações do Hezbollah, e ainda menos é colocada em destaque diante da bandeira amarela do grupo pró-Irã. (AFP) Para ilustrar melhor a postura da Casa Branca em relação aos cessar-fogos entre Israel e o Hezbollah, que não foi diretamente incluído nas negociações, Donald Trump, questionado no início de junho de 2026 no Salão Oval, afirmou que “um cessar-fogo no Líbano é diferente de um cessar-fogo em outros lugares do mundo”. Essa declaração demonstra sua intenção de separar a situação libanesa do dossiê iraniano, embora os iranianos relacionem os dois conflitos, uma ligação mais próxima da realidade e que fragiliza os acordos, a menos que as autoridades libanesas demonstrem firmeza e solidariedade. Uma assimetria de fogo persistente O Hezbollah, assim como seu público incondicional, continua demonstrando uma negação patológica de uma realidade muito mais sombria do que o imaginário coletivo. Entre o primeiro cessar-fogo Líbano-Israel de abril e 14 de junho de 2026, data do anúncio do protocolo de entendimento Washington-Teerã incluindo o Líbano, os dados coletados demonstram um claro desequilíbrio das forças e da atividade militar no terreno. Durante esse período de 59 dias, as forças israelenses realizaram um total de 5.056 ataques de todos os tipos (principalmente ataques aéreos, drones, artilharia e outros) contra 947 do movimento xiita em todas as modalidades (mísseis antitanque com carga tandem, drones, morteiros e outros), o equivalente a 5,34 ataques israelenses para cada ataque do Hezbollah (1). Essa disparidade se traduz em uma média diária de 94 ataques israelenses, com picos de intensidade alarmantes, especialmente em 26 de maio de 2026, quando foram registrados 203 ataques realizados pelo exército israelense em apenas um dia. Desde o início do conflito, números alarmantes Se voltarmos ao início do conflito, nenhum balanço oficial preciso sobre o número bruto de bombas lançadas sobre o Líbano desde 2 de março de 2026 foi divulgado. Os institutos científicos e as autoridades governamentais libanesas, porém, realizaram levantamentos. Entre 2 de março e 16 de abril de 2026 (antes do primeiro cessar-fogo Líbano-Israel), o Conselho Nacional de Pesquisa Científica do Líbano registrou 8.200 ataques israelenses de todos os tipos (ataques aéreos, disparos de artilharia e incursões), incluindo 306 ondas massivas de ataques aéreos apenas durante as duas primeiras semanas de março. Somando esse número ao registrado após 17 de abril (2), o total desde 2 de março até 14 de junho chega a 13.256 ataques israelenses. Por fim, desde meados de junho de 2026, os bombardeios continuam em um ritmo menor, mas diariamente, variando de 10 a mais de 160 projéteis por dia, segundo a FINUL. Paralelamente, nenhum número oficial global e preciso sobre a tonelagem de munições (massa líquida de explosivos ou peso das bombas) foi divulgado desde o início do conflito, nem para o exército israelense nem para o Hezbollah. No entanto, os balanços publicados pelas Forças de Defesa de Israel indicam o uso de bombas guiadas de 250 a 900 kg durante os ataques aéreos, o que representa, em termos aproximados de tonelagem total, 12.500 toneladas de munições aéreas lançadas contra o Líbano. Para efeito de comparação, durante a guerra de 33 dias de 2006, Israel havia lançado sobre o Líbano 7.500 toneladas de bombas. Para maior precisão, registros da FINUL indicam que, em dias típicos de observação, cerca de 97% das trajetórias de explosivos e projéteis observadas provinham das forças israelenses. Do lado do Hezbollah, o arsenal é baseado em foguetes, mísseis antitanque e drones suicidas, em vez de bombas pesadas de aviação. Desde o colapso do primeiro cessar-fogo de 17 de abril, o partido pró-Irã lançou vários milhares de projéteis, com picos de 100 a 200 projéteis em dias de alta intensidade. A carga explosiva individual desses foguetes (do tipo Katyusha/Grad) é geralmente estimada entre 20 e 50 kg, o que deixa uma tonelagem total pelo menos 18 vezes inferior à das munições israelenses. Isso reduz a massa de munições do Hezbollah direcionadas contra Israel para cerca de 700 toneladas. A inovação tecnológica do Hezbollah No final de abril de 2026, o Hezbollah alcançou um novo patamar militar ao mobilizar em grande escala drones kamikazes FPV (First Person View), guiados por cabos ultrafinos de fibra óptica. Inspirados nas táticas do conflito ucraniano e montados a baixo custo (entre 300 e 600 dólares por unidade), esses aparelhos feitos de material não metálico dispensam completamente ondas de rádio e sinal de GPS. Essa característica técnica os torna praticamente indetectáveis pelos radares e imunes aos sistemas israelenses de interferência eletrônica. Graças a um fluxo de vídeo em alta definição ininterrupto, transmitido por cabos ultrafinos de fibra óptica que conectam os drones aos operadores do Hezbollah, esses equipamentos conseguem realizar ataques cirúrgicos de precisão contra veículos blindados das Forças de Defesa de Israel, causando as maiores perdas humanas israelenses desde maio e obrigando o Estado-Maior israelense a repensar seus sistemas de proteção terrestre. Esses “drones kamikazes” representavam, de fato, mais de 50% das operações da milícia pró-Irã até 26 de junho. Do outro lado, a resposta israelense baseava-se principalmente no poder aéreo (60,5% dos ataques) e no uso intenso da artilharia, mirando principalmente infraestruturas, mas sem capacidade de resposta eficaz contra os drones FPV. E o acordo-quadro libano-israelense? Sob um ponto de vista puramente tático e técnico, desde 26 de junho observa-se uma redução relativa da intensidade das operações militares. As campanhas massivas de ataques aéreos israelenses deram lugar a ataques aéreos e ataques de drones mais direcionados, além de ações terrestres limitadas, incluindo demolições de edifícios e infraestruturas. Embora o Hezbollah também pareça ter reduzido ou interrompido seus ataques, o cenário permanece extremamente frágil, diante do fator iraniano, que busca atrasar as negociações em curso em Bürgenstock, e do fator israelense, que prioriza a questão da segurança e pretende esvaziar o sul da linha amarela de seus habitantes que apoiam a milícia pró-Irã. Em conclusão, o “cessar-fogo” é extremamente frágil e o Hezbollah está longe de proclamar uma vitória em voz alta, embora tenha se adaptado a novas táticas e técnicas. Para o Líbano, já enfraquecido por uma crise multidimensional, a implementação das cláusulas do acordo-quadro representa um verdadeiro desafio. (1) e (2): Fadi Hajji-Georgiou, pesquisa e desenvolvimento

Da guerra ao Estado
Por
Yakzan Takki
Publicado
jun 30, 2026 - 19:31

A importância do acordo-quadro proposto entre o Líbano e Israel não reside apenas no fato de buscar pôr fim a um confronto militar. Seu verdadeiro alcance está na profunda transformação que reflete na própria natureza dos acordos do pós-guerra. O documento distancia-se dos tradicionais acordos de cessar-fogo e vai muito além de disciplinar as linhas de contato ou as modalidades de retirada. Ele lança as bases de um novo modelo de resolução de conflitos, no qual a construção do Estado passa a integrar o próprio processo de construção da paz e no qual a soberania adquire um significado renovado, muito mais complexo do que a simples proteção das fronteiras. Enquanto os Acordos de Camp David, o Tratado de Paz entre Israel e Jordânia firmado em Wadi Araba, bem como o Acordo de Taif e os Acordos de Dayton surgiram após grandes guerras com o propósito de reorganizar as relações políticas entre antigos beligerantes, o acordo atual vai um passo além. Ele busca redefinir a relação entre o próprio Estado libanês e os instrumentos da força existentes em seu território, ao mesmo tempo em que reconfigura o ambiente de segurança regional, apesar da oposição do Hezbollah, que pretende apoiar-se em seu patrocinador iraniano para definir os contornos da ordem do pós-guerra. Também chama a atenção o fato de que o documento não parte da pergunta sobre por que a guerra eclodiu. Em vez disso, formula uma questão inteiramente diferente: que forma deverá assumir o Estado quando a guerra terminar? Por essa razão, dedica muito menos atenção às conhecidas causas históricas do conflito do que à ordem política destinada a surgir após o fim dos combates. Mais do que escrever o epílogo da guerra, o texto escreve o prólogo de uma nova etapa política. Uma leitura desconstrutiva do texto revela que sua questão central não são as fronteiras, mas o monopólio do uso da força pelo Estado. Praticamente todas as suas disposições giram em torno de devolver ao Estado libanês a autoridade exclusiva para decidir sobre a guerra e a paz, do desarmamento dos grupos armados que atuam fora das instituições oficiais e da submissão da segurança nacional à autoridade constitucional. Dessa forma, o acordo reflete uma notável evolução do próprio conceito de soberania. Ela deixa de limitar-se à proteção das fronteiras ou ao fim da ocupação e passa a abranger também o controle exclusivo do Estado sobre o uso da força dentro de seu território. A soberania assume, assim, uma dupla dimensão: exerce-se tanto sobre o território quanto sobre os instrumentos da força no plano interno. Ao mesmo tempo, o documento evidencia a habilidade negociadora do embaixador Simon Karam e de sua equipe diplomática. Ele não reabre a questão das fronteiras internacionais nem as trata como um tema passível de nova negociação. Parte, ao contrário, da premissa implícita de que essas fronteiras, excetuadas as conhecidas questões técnicas, se sustentam em uma legitimidade internacional já consolidada à luz do direito internacional, decorrente do Acordo Geral de Armistício entre o Líbano e Israel de 1949, levando igualmente em consideração as circunstâncias históricas que lhe deram origem, o justificaram e lhe conferiram legitimidade. Desse modo, os negociadores libaneses conseguiram separar a questão da soberania territorial, considerada juridicamente resolvida, dos arranjos de segurança impostos pelas circunstâncias da guerra. Com isso, impediram que os resultados do conflito se transformassem em um pretexto para redefinir as fronteiras do Estado libanês, cujo papel na estabilidade internacional continua particularmente relevante, ou para reabrir a discussão sobre qualquer acordo definitivo que venha a ser alcançado no futuro. Nesse sentido, essa abordagem constitui um modelo internacional de preservação do conjunto dos instrumentos jurídicos internacionais, cujo significado continua a ser determinado dentro de seu contexto histórico mais amplo, isto é, de seu ambiente geoestratégico regional e internacional. A filosofia que orienta a implementação do acordo é tão importante quanto o seu próprio conteúdo. O documento não parte do pressuposto de que a paz surgirá simplesmente com a assinatura do acordo. Reconhece, de forma implícita, que as consequências da guerra continuarão presentes no terreno e que violações ou incidentes ainda poderão ocorrer durante o período de transição. Por isso, adota uma lógica gradual, na qual cada retirada corresponde a uma etapa recíproca, enquanto cada avanço no terreno é acompanhado por mecanismos de verificação e supervisão internacional. O gradualismo deixa, assim, de ser um simples procedimento técnico para tornar-se uma verdadeira filosofia política, que reconhece que a passagem da guerra para a paz constitui um processo cumulativo, e não um acontecimento instantâneo. Trata-se menos de proclamar o fim da guerra do que de administrar a transição para a paz. A modernidade deste acordo também se manifesta em sua arquitetura negociadora. A história diplomática foi marcada, em geral, por acordos concluídos dentro de um único processo de negociação que reunia diretamente as partes envolvidas. Neste caso, porém, o acordo parece integrar uma arquitetura regional muito mais ampla, na qual o processo libanês-israelense avança paralelamente a outros processos de negociação que influenciam o ambiente estratégico mais amplo do conflito. Se os sinais políticos apontam para entendimentos paralelos entre Washington e Teerã sobre questões regionais de maior alcance, o sucesso do acordo libanês já não depende apenas da vontade política de Beirute e Tel Aviv, mas também da solidez dos equilíbrios produzidos por esses entendimentos regionais. O mundo passa, assim, da lógica do “acordo único” para a dos “acordos simultâneos”, em que cada processo de negociação se torna parte de uma rede mais ampla de entendimentos. Ainda assim, o presidente Joseph Aoun afirmou: “Recebemos com satisfação toda ajuda oferecida por outros Estados para pôr fim à guerra. Mas há uma diferença entre nos ajudar e interferir em nossos assuntos internos. Negociamos em nosso próprio nome e não aceitaremos que ninguém negocie em nosso lugar.” O documento também redefine a função da reconstrução. Ela deixa de ser apresentada apenas como uma resposta humanitária aos efeitos da guerra e passa a integrar uma equação política e de segurança mais ampla, que vincula a assistência internacional a avanços verificáveis no restabelecimento da autoridade do Estado e na consolidação de seu monopólio sobre as armas. Dessa forma, a ajuda econômica transforma-se em um instrumento de consolidação da estabilidade, mais do que em um simples meio de reparar a destruição material. O alcance mais profundo do acordo, contudo, vai além de suas disposições de segurança e suscita uma reflexão sobre o futuro do próprio sistema político libanês. Ao defender o controle exclusivo do uso da força pelo Estado, o documento abre implicitamente o caminho para que as instituições constitucionais exerçam, de maneira exclusiva, a autoridade sobre as decisões nacionais. Questões dessa magnitude somente poderão alcançar estabilidade duradoura quando deixarem a lógica das ruas e das correlações de força para ingressarem no âmbito das instituições. Por isso, qualquer oposição ao acordo, sejam quais forem suas justificativas políticas ou ligadas à soberania, deveria encontrar seu espaço natural no Parlamento, enquanto instituição constitucional que representa a vontade nacional e exerce as funções de legislação e fiscalização. A oposição não constitui o oposto do Estado. Ela somente se torna uma ameaça quando abandona o terreno institucional em favor das disputas de poder no campo. Se o acordo pretende pôr fim à existência de grupos armados ilegais que atuam à margem da autoridade estatal, ao mesmo tempo testa a capacidade dos libaneses de consolidar a unidade da decisão política no interior de suas instituições legítimas. Em última análise, este documento não pode ser compreendido apenas como um acordo de segurança entre dois Estados. Ele representa uma tentativa de redefinir o próprio conceito de soberania, os mecanismos de construção da paz e a natureza do Estado na era do pós-guerra. Desloca o debate das fronteiras para as instituições, da gestão do conflito para a reconstrução do Estado, e de uma paz concebida como simples cessar-fogo para uma paz entendida como um processo político gradual. O êxito desse projeto depende, em última instância, de um fator que transcende o próprio texto do acordo: a capacidade dos libaneses de levarem suas divergências das ruas para o terreno da disputa democrática dentro do Parlamento. Somente então o monopólio estatal do uso da força poderá caminhar lado a lado com o monopólio estatal da decisão política, permitindo que o fim da guerra marque verdadeiramente a construção do Estado, e não apenas mais uma trégua na longa história dos conflitos libaneses. Somente então o fim da guerra poderá tornar-se, de fato, o início do Estado. Mas, se os libaneses optarem por fazer fracassar esse processo fora do marco de suas instituições, não terão apenas derrubado um acordo. Talvez tenham desperdiçado a última oportunidade histórica de reconstruir seu Estado, como se, mais uma vez, o suicídio político prevalecesse sobre o instinto de sobrevivência.

O acordo libano-israelense: o poder retoma o controle…
Por
Michel Touma
Publicado
jun 28, 2026 - 00:48

O ato diplomático de 26 de junho, em Washington, reflete por si só, de maneira indiscutível e qualquer que seja o desenrolar dos acontecimentos, uma grande coragem política por parte do Líbano. O teor do acordo-quadro assinado pelo Líbano e por Israel ao término de cinco rodadas e dois meses de negociações diretas conduzidas em Washington, sob a supervisão do secretário de Estado Marco Rubio, reveste-se de um caráter histórico, em toda a acepção do termo. Os termos desse documento constituem, de fato, um verdadeiro “ponto de virada” na evolução da profunda crise existencial que há décadas não deixa de corroer os próprios fundamentos do país, de seu sistema político, de sua estabilidade e de sua prosperidade. O Hezbollah quis manifestar a sua desaprovação após a assinatura do acordo-quadro, mas a sua reação limitou-se a algumas manifestações e a um breve bloqueio da antiga estrada do aeroporto. (AFP) É vital, desde o início, demonstrar discernimento. O acordo de 26 de junho não tem como função resolver rapidamente, em alguns dias ou semanas, o pesado contencioso enfrentado pelos libaneses, e mais especificamente pelos habitantes do Sul. Sua importância está situada no âmbito de seu alcance geopolítico, na medida em que define com muita clareza um roteiro, um processo que será, certamente, longo, difícil e sinuoso, mas que tem a grande vantagem de colocar, enfim, o Líbano no caminho correto: o da restauração da soberania do Estado, o do fim dos fatos consumados dos miniestados milicianos de fato que sabotam, desde o fim dos anos 1960, a autoridade do poder central. A dimensão geopolítica do documento de 26 de junho está em sua finalidade: por um lado, a aplicação do princípio do monopólio da violência legítima, do monopólio das armas nas mãos da autoridade legal; e, por outro lado, finalmente, e isso é o essencial, a realização de uma paz duradoura com Israel e o estabelecimento de relações de boa vizinhança entre os dois países. Os postulados de Joseph Aoun O presidente Joseph Aoun resumiu bem a situação nesse sentido ao estabelecer quatro postulados para definir claramente a orientação adotada pelo regime: fim da ocupação; fim das ingerências estrangeiras; fim da tutela; a decisão deve caber, a partir de agora, exclusivamente ao Estado e aos libaneses. Trata-se, é preciso reconhecer, de lugares-comuns, e este não é de forma alguma o primeiro documento oficial desse tipo a definir tais opções. Certamente… Mas a diferença desta vez é que o caminho traçado dessa forma surge sob a sombra de um equilíbrio de forças, local, regional e internacional, amplamente favorável… Pela primeira vez desde os anos 1980, o país se beneficia assim da ação combinada e simultânea de um presidente da República, de um primeiro-ministro e de um governo, em seu conjunto, que definiram, desde o início, orientações soberanistas que não deixam margem a qualquer ambiguidade. O último gesto, altamente simbólico, de substituir na estrada do aeroporto os painéis que traziam a inscrição “Obrigado ao Irã” por outros com as cores libanesas e o slogan “Líbano primeiro” não é insignificante. Esse gesto simbólico ilustra, de forma esquemática e resumida, a alternativa diante da qual o Líbano se encontrava hoje: aceitar o fato consumado de um envolvimento direto do Irã, no terreno, nos esforços de solução no Sul do Líbano, como havia sido acordado durante as negociações entre Estados Unidos e Irã na Suíça, sob a condução do vice-presidente americano JD Vance; ou manter-se fiel à vontade firme do poder de retomar o controle e se engajar no processo de Washington, que permitiria ao Líbano decidir sozinho, longe de qualquer tutela, as orientações a serem tomadas para alcançar a retirada israelense, o desarmamento do Hezbollah e a restauração da soberania. O poder optou claramente pelo segundo caminho, que, na prática, mantém o Irã afastado do processo de solução, ao contrário da opção acordada durante as negociações na Suíça, que colocava, sob a supervisão do senhor Vance, a Guarda Revolucionária no centro da dinâmica em curso. Isso explica a reação contundente do secretário-geral do Hezbollah, xeque Naïm Kassem, que, em um discurso pronunciado no sábado, evidentemente condenou o acordo assinado com Israel, destacando, sinal significativo, que seu partido, e portanto seu patrocinador, apoiava o acordo-quadro Irã-Estados Unidos… Esquece-se rapidamente o “Grande Satã” e o slogan “Morte à América”… Uma conjuntura favorável No plano regional e internacional, o processo colocado nos trilhos em Washington ocorre, sem dúvida, em um momento em que o campo iraniano desestabilizador, chamado de “obstrucionista”, sai amplamente enfraquecido pelos acontecimentos dos últimos três anos. Ao tomar distância e adotar uma visão global do atual contexto geopolítico, é forçoso constatar que o regime dos mulás, verdadeira pedra angular e elemento motor da política de subversão antiocidental, perdeu muitos trunfos estratégicos desde 2023: a eliminação do alto comando político e militar do Hezbollah; a queda do regime Assad; a eliminação da liderança política e de segurança da República Islâmica; as enormes perdas militares, econômicas e logísticas sofridas por Teerã após as duas guerras de junho de 2025 e de março-abril de 2026, que agravaram, além disso, uma profunda crise socioeconômica e financeira sem precedentes; o enfraquecimento generalizado dos representantes iranianos no Líbano, no Iraque, em Gaza e no Iêmen… O conjunto desses parâmetros cria, sem dúvida, uma conjuntura favorável à concretização do acordo-quadro de 26 de junho, especialmente porque a opção estratégica adotada nesse sentido pelo poder libanês recebeu o claro apoio dos Estados do Conselho de Cooperação do Golfo, como demonstra o comunicado conjunto publicado na última quinta-feira pela conferência ministerial do CCG e pelo secretário de Estado Marco Rubio. Esse documento, divulgado na véspera da assinatura do acordo-quadro, apoia claramente as orientações do Líbano relativas à restauração da soberania do Estado, ao monopólio das armas e ao desmantelamento da estrutura militar e de segurança do Hezbollah… A esse apoio do CCG somou-se, neste sábado, o claro respaldo da União Europeia às orientações do Estado libanês. E, como cereja do bolo, o presidente Trump entrou em contato, no fim da noite de sábado, com o presidente Aoun, a quem parabenizou calorosamente pela assinatura do acordo de 26 de junho, afirmando que ambos farão uma avaliação conjunta do processo em andamento durante uma próxima reunião que realizarão em breve na Casa Branca. A capacidade de dano iraniana Essa conjuntura favorável não significa de forma alguma que a partida esteja ganha antecipadamente e que obstáculos não estejam previstos. O verdadeiro teste ao qual o Estado libanês será submetido nos próximos dias dependerá da questão de saber em que medida os Guardiões da Revolução iraniana ainda podem, ou desejam, dar livre curso à sua plena capacidade de causar danos, que continua se manifestando, como mostram suas agressões nas últimas 48 horas contra navios no Estreito de Ormuz, o que provocou, durante a noite, novos ataques americanos no Irã. Paralelamente, até que ponto o Hezbollah também pode, ou deseja, fazer tudo para sabotar o processo iniciado em 26 de junho? Dois acontecimentos poderiam atenuar a posição de confronto adotada pelo partido pró-Irã nesse sentido: a atitude do Exército, que publicou na noite de sábado um comunicado em tom firme, afirmando que não permitirá que o chamado a manifestações lançado no início da noite de sábado pelo Hezbollah se transforme em bloqueios de estradas na capital ou em agressões contra propriedades públicas e privadas; ao mesmo tempo, o líder do movimento Amal, Nabih Berry, pediu calma e destacou a necessidade de evitar qualquer transbordamento de natureza securitária, ao mesmo tempo em que condenava a assinatura do acordo com Israel e as negociações diretas com o Estado hebreu. Esses dois fatores explicariam o fato de que o apelo do Hezbollah a grandes manifestações, no sábado à noite, em Beirute e nas regiões “para obter a queda do governo”, não recebeu imediatamente o amplo eco esperado. Ainda assim, a capacidade de dano do campo iraniano ainda poderá se manifestar em grande escala, apesar do amplo apoio árabe, dos Estados do Golfo, da União Europeia e dos Estados Unidos ao processo de 26 de junho. A vingança é um prato que se come frio… A reação dos Guardiões da Revolução ao Acordo de Washington constituirá, sem dúvida, em um futuro muito próximo, um indicador significativo de sua real capacidade de transformar esse ditado em realidade.

EUA-Irã: os ultimatos anteriores de Trump (2/2)
Por
Khalil Helou
Publicado
jun 26, 2026 - 12:06

É necessário situar o roteiro americano-iraniano de 60 dias no contexto dos ciclos de ultimatos que marcam o ritmo da estratégia do presidente Donald Trump para o Médio Oriente, uma método assente numa alternância entre a ameaça de destruição total e a aplicação de uma diplomacia puramente transacional. Em abril de 2025, um primeiro ultimato unilateral de sessenta dias, que intimava Teerão a desmantelar o seu programa nuclear, resultou numa recusa categórica do Guia Supremo Ali Khamenei, desencadeando os maciços bombardeamentos de junho de 2025 pelos B-2 americanos contra os sítios nucleares iranianos. Um ano depois, em abril de 2026, face ao bloqueio asfixiante do estreito de Ormuz, a Casa Branca voltou à carga brandeando a ameaça de devastar as infraestruturas vitais iranianas «em menos de quatro horas», uma ameaça concreta que obrigou Teerão a aceitar in extremis o princípio de uma trégua, abrindo caminho ao protocolo assinado em Versalhes pelo presidente Trump. A segurança marítima nas negociações No plano operacional, os Estados Unidos e o Irão estabeleceram em Bürgenstock uma «linha de comunicação direta» destinada a evitar qualquer incidente marítimo no estreito de Ormuz, principal rota de escoamento do petróleo iraniano e árabe. Em paralelo, o Tesouro americano concedeu uma isenção de sanções até 21 de agosto de 2026, abrangendo o petróleo e os produtos petroquímicos iranianos. Estas medidas são significativas tanto para Washington como para Teerão: respondem à exigência iraniana de um alívio económico imediato e reduzem, a curto prazo, o risco de uma escalada dos preços do petróleo. Evidenciam igualmente a lógica de troca que subjaz às negociações — segurança em troca de acesso aos mercados — e a fragilidade de soluções assentes em isenções temporárias em vez de garantias duradouras. O Líbano e a desconflitualização: um mecanismo sem Israel é viável? A criação de uma «célula de desconflitualização» destinada a impor o cessar-fogo no Líbano é um mecanismo que reúne os Estados Unidos, o Irão, o Qatar, o Líbano e o Paquistão, mas exclui Israel — uma situação inédita em quatro décadas, ao contrário do «mecanismo» atual e das comissões estabelecidas pelos acordos de julho de 1993 e de abril de 1996. A ausência de Telavive é politicamente explosiva. Para Israel, que considera o Hezbollah uma ameaça existencial, ser mantido à margem desta célula que governará o seu próprio front é inaceitável, e Benjamin Netanyahu fê-lo saber em várias ocasiões, pois tal limita as suas margens de manobra militares e operacionais no sul do Líbano. Para Washington, esta configuração cria um dilema: estabilizar o Líbano sem alienar Israel, ou arriscar perder o apoio de um aliado estratégico face ao Irão ao impor-lhe restrições que considera perigosas. A longo prazo, a eficácia desta célula de desconflitualização está em causa, e o cessar-fogo no Líbano continua frágil. O dossiê nuclear: intenções declaradas, mas sem compromissos vinculativos No dossiê nuclear, os progressos são duvidosos. JD Vance falou no regresso dos inspetores da AIEA, suscitando algum otimismo, mas o Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros esclareceu que Teerão não assinou «nenhum novo compromisso nuclear» durante a sessão. Por outras palavras, a porta está aberta ao controlo e à transparência, mas sem qualquer compromisso por parte do Irão de entregar o urânio enriquecido a 60% à China ou à Rússia, de o diluir, ou de suspender as atividades de enriquecimento. Na fase atual, o programa nuclear iraniano encontra-se certamente degradado e não está operacional na sequência dos bombardeamentos americanos e israelenses. Em contrapartida à supervisão da AIEA, o Irã aguarda garantias económicas e de segurança tangíveis e duradouras, o que não é minimamente visível no momento. Sem um calendário vinculativo para o desmantelamento das capacidades nucleares iranianas, o cerne do problema permanece intacto. Esta ambiguidade torna difícil alcançar um acordo duradouro sem cláusulas técnicas robustas, verificáveis e acompanhadas de sanções automáticas em caso de violação. Os ganhos económicos: oxigénio pontual além dos circuitos que contornam as sanções O anúncio oficial de Teerão sobre a conclusão positiva das negociações técnicas, selado por um acordo da Casa Branca para libertar 12 mil milhões de dólares iranianos congelados, ilustra uma lógica transacional. Este desbloqueio financeiro de grande envergadura desencadeou, no entanto, de imediato um duelo à distância, revelador da fragilidade do processo: enquanto Donald Trump se apressava a afirmar nas suas redes sociais que esses fundos seriam obrigatoriamente destinados à compra de produtos agrícolas americanos, o governo iraniano rejeitava categoricamente essa imposição. Se a administração americana procura apresentar um contrato comercial vantajoso como uma concessão geopolítica, o Irã pretende consagrar este triunfo financeiro como uma restituição soberana e sem contrapartida comercial unilateral. Por outro lado, a dependência do Irã do mercado chinês continua a ser um fator determinante, mesmo que Pequim não esteja diretamente no centro das negociações. A China mantém-se, portanto, um parceiro energético essencial para Teerão, e os seus interesses asseguram em parte a moderação iraniana, nomeadamente a manutenção da abertura do Estreito de Ormuz. Por fim, a sombra dos circuitos de exportação que contornam as sanções ainda em vigor complica a capacidade da diplomacia ocidental de exercer uma pressão duradoura. Síntese dos riscos e cenários De forma resumida, por detrás do otimismo de fachada exibido na Suíça, a trégua de sessenta dias é constantemente ameaçada por quatro detonadores geopolíticos. O primeiro é o desfasamento fundamental entre as expectativas de Washington, que exige a renúncia nuclear de Teerão, e a posição iraniana, que nela vê apenas uma trégua económica sem contrapartida estratégica. O segundo reside na exclusão de Israel da célula de desconflitualização libanesa, o que deixa o governo Netanyahu livre para sabotar militarmente a trégua no Líbano e neutralizar o Hezbollah, forçando o Irã a retaliar. O terceiro é a relançamento em surdina, pelo Hezbollah, da reorganização das suas fileiras e do reposicionamento camuflado de um dispositivo de combate face a Israel — algo que já havia conseguido fazer com mestria após a retirada israelense de 2000, depois da resolução 1701 de 2006, e novamente após o cessar-fogo de 27 de novembro de 2024. Se o Hezbollah reincidir nessas atividades, dará de novo a Israel um pretexto para retomar os combates e ultrapassar as diretrizes de Washington. Por fim, o quarto detonador de carácter geopolítico que ameaça a trégua é a imprevisibilidade intrínseca de Donald Trump, sujeito a pressões internas tanto da sua direita como da sua esquerda, o que poderia levá-lo a romper unilateralmente o processo de Bürgenstock. Se um desses travões ceder, o acionamento do efeito dominó será imediato: o restabelecimento instantâneo do bloqueio americano provocará, como resposta simétrica, um novo encerramento iraniano do Estreito de Ormuz, mergulhando o Golfo e o Médio Oriente numa nova crise. Conclusão: apaziguamento condicional, não uma paz garantida Os próximos 60 dias determinarão se o roteiro é o prelúdio de uma pacificação gradual, ou antes o quadro de uma estratégia dilatória que simplesmente adiará o confronto. Por ora, assistimos a um alívio frágil que talvez permita construir pacientemente garantias verificáveis e chegar a um acordo formal no final do verão de 2026, não sem o risco potencial de um retorno à guerra no Líbano e no Golfo. Uma estabilização bem-sucedida transformaria assim uma guerra quente numa guerra fria regional altamente militarizada, suspensa a vários fatores de rutura a médio e longo prazo. Leia também sobre o mesmo tema: EUA-Irão: um roteiro sob pressão do tempo (1/2)

EUA-Irão: um roteiro sob pressão do tempo (1/2)
Por
Khalil Helou
Publicado
jun 24, 2026 - 22:10

Após 48 horas caóticas, marcadas por ameaças de ruptura, a primeira sessão de alto nível entre as delegações americana e iraniana foi encerrada sob a dupla mediação do Catar e do Paquistão. O protocolo assinado em Versalhes em 17 de junho parecia, até então, uma trégua frágil; agora, ele se transforma em um verdadeiro exercício diplomático após a validação formal de um roteiro de 60 dias. Esse processo deverá levar ou a um acordo final, semelhante aos arranjos que estruturam o Oriente Médio desde 1948, ou a uma nova crise aberta. Os riscos políticos e militares entre as duas partes permanecem totalmente presentes, em um período extremamente comprimido. O papel do Catar O papel central do Catar nas negociações entre o Irã e os Estados Unidos demonstra, por um lado, que a estratégia de pressão iraniana, por meio dos bombardeios contra o emirado, produziu resultados e, por outro, o retorno de uma diplomacia transacional, na qual a geopolítica desaparece por trás do que se assemelha a um contrato comercial. Já responsável historicamente pelos canais financeiros secretos entre Washington e Teerã, Doha se consolidou na Suíça, graças ao seu soft power, como garantidor de uma certa estabilidade regional. Compartilhando com o Irã o maior campo de gás natural do mundo, ao mesmo tempo em que abriga a principal base militar americana no Oriente Médio, o Catar soube manobrar para organizar, em um primeiro momento, o congelamento dos ativos iranianos sob pressão de Washington e, depois, seu descongelamento, reabrindo assim o Estreito de Ormuz. Mas a força dessa mediação catariana também reside na proximidade de suas redes econômicas com a equipe de Donald Trump. Seja o genro de Donald Trump, Jared Kushner, ou o enviado especial Steve Witkoff, presentes na Suíça ao lado de JD Vance, as duas figuras centrais da delegação americana mantêm estreitos vínculos financeiros com os fundos soberanos do emirado. Essa combinação inédita entre interesses privados e assuntos de Estado permitiu transformar um conflito ideológico altamente inflamável em uma mesa de negociação comercial, não sem riscos. Ao integrar ainda o Catar ao centro da célula de desconflição na frente libanesa, Washington valida o surgimento de um patrocínio catariano que redefine o equilíbrio de forças no Oriente Médio. O pior cenário para o Líbano, neste caso, seria um novo acordo de Doha, como o de 2008. A principal novidade resultante das negociações na Suíça é esse roteiro, que desencadeia uma verdadeira corrida contra o tempo de 60 dias, com negociações técnicas prolongadas destinadas a implementar o protocolo de entendimento. As equipes permanecem em Bürgenstock e os grupos técnicos deverão se multiplicar. Esse calendário rígido coloca Washington e Teerã em uma armadilha política, na qual o tempo necessário para as concessões se transforma em uma contagem regressiva explosiva diante das pressões internas em cada um dos dois países. Possível extensão do prazo de 60 dias? A administração americana não tem o luxo do tempo: a Casa Branca precisa urgentemente de resultados rápidos para estabilizar os mercados de energia e validar sua doutrina de diplomacia transacional. Um impasse técnico na Suíça, acompanhado de uma possível extensão da trégua, ofereceria ao Irã o cenário ideal: continuar recebendo petrodólares graças ao levantamento temporário das sanções sobre a venda de seu petróleo, mantendo ao mesmo tempo a indefinição sobre seu programa nuclear. Diante desse relógio iraniano em movimento, o governo americano se veria preso por sua própria opinião pública à direita, especialmente pelo senador Roger Wicker, republicano do Mississippi e presidente da Comissão das Forças Armadas do Senado, que declarou publicamente que esse acordo “negocia e destrói as vitórias” militares do Exército americano. Quanto ao senador Ted Cruz, republicano do Texas, ele critica duramente o descongelamento dos 12 bilhões de dólares em ativos iranianos, afirmando que enviar bilhões aos aiatolás equivale a financiar diretamente o terrorismo antiamericano e a formalizar o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz. Por sua vez, o senador John Cornyn, republicano do Texas, denuncia um acordo que permitiria ao Irã vender livremente seu petróleo e recuperar recursos para reconstruir seu arsenal de mísseis balísticos, sem qualquer contrapartida relacionada ao desmantelamento nuclear. O senador Rick Scott, republicano da Flórida, expressa, por sua vez, sua recusa categórica em confiar no regime de Teerã. Mas o mais importante de todos é o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, um dos aliados mais próximos de Donald Trump, que adotou uma posição cautelosa, porém firme: ele exige que qualquer acordo final seja submetido à aprovação e votação do Congresso, recusando-se a deixar que apenas o Poder Executivo valide o descongelamento dos fundos. Assim, se a trégua de 60 dias levar a um tratado, Donald Trump terá de enfrentar uma coalizão de republicanos linha-dura acusando-o de traição e democratas denunciando um cheque em branco. Essa oposição constitui o primeiro obstáculo interno ao sucesso do roteiro suíço. Quando o Capitólio chega a Bürgenstock Donald Trump também está sob pressão pela esquerda. Em 23 de junho, o Senado americano aprovou, por 50 votos a 48, uma resolução limitando os poderes de guerra do presidente. Essa medida constitucional não tem força jurídica para paralisar a Casa Branca, mas seu calendário político é constrangedor. Ao se unirem aos democratas, quatro senadores republicanos romperam a unidade de seu partido para contestar o monopólio de Donald Trump sobre a decisão militar diante de Teerã, exigindo que ele obtenha a aprovação do Congresso para qualquer ato de guerra. Essa postura legislativa enfraquece os negociadores americanos em Bürgenstock: o Irã sabe agora que a ameaça de Donald Trump de retomar os bombardeios diante de qualquer deslize está politicamente limitada por um Congresso que poderia bloquear os recursos necessários. Além disso, ela leva o presidente americano, furioso com o que classifica como uma “falha patriótica”, a endurecer o discurso para provar sua soberania, mesmo que isso signifique sabotar os próprios trabalhos técnicos com declarações incendiárias nas redes sociais. Pressionada entre as exigências de Mojtaba Khamenei, a fúria de um aliado israelense marginalizado e de seus interlocutores dentro da administração americana, além do despertar constitucional de seu próprio Congresso, o roteiro de 60 dias aparece mais do que nunca como uma trégua precária, na qual cada lado espera o primeiro erro do outro. A imprevisibilidade americana e a diplomacia dupla As negociações quase fracassaram quando, em 21 de junho, Donald Trump, ao vivo na Fox News, ameaçou retomar os bombardeios contra o Irã e intervir no Estreito de Ormuz caso nenhum acordo fosse alcançado dentro dos 60 dias. A delegação iraniana então suspendeu sua participação, e foi necessário um intenso trabalho de mediação por parte dos catarianos e paquistaneses para trazer os negociadores de volta à mesa. Esse tipo de intervenção pública ilustra uma tensão permanente entre uma diplomacia de campo conduzida por JD Vance, Jared Kushner e Steve Witkoff e uma comunicação presidencial que lembra onde está o centro de decisão, com o risco de anular os avanços obtidos nos bastidores. Esse é todo o paradoxo estratégico: a combinação entre uma ameaça verbal máxima e uma prática diplomática pragmática. Esse paradoxo pode, de fato, funcionar para impor concessões, mas também provoca crises de confiança do lado iraniano, paquistanês e catariano. (Continua)

O discurso da vitória e o comércio das ilusões
Por
Mona Fayad
Publicado
jun 22, 2026 - 16:37

Um cidadão do Sul comentou assim sobre o retorno dos deslocados: “Se vocês voltarem… voltem em um silêncio digno do que aconteceu, e não em um barulho que fere o que ainda resta de vida.” “Não levantem os sinais da vitória sobre uma terra cujas lágrimas ainda não secaram, e não agitem bandeiras onde a poeira continua escondendo os traços de rostos que ainda não foram retirados dos escombros.” “Voltem… mas retirem dos ombros a arrogância dos slogans, porque aqui não se trata de palanques de celebração, mas de túmulos abertos…” Se acompanharmos as declarações de Naïm Kassem, que agora aparece mais de uma vez por semana, ele teria vencido a guerra, derrotado Israel e libertado o Líbano. Ele se permite, portanto, acusar o presidente da República e o primeiro-ministro de traição e colaboração, e exigir a queda de um governo do qual, no entanto, se recusa a retirar seus próprios representantes. Enquanto isso, Israel chegou aos arredores de Nabatieh, bombardeia os vilarejos de Zahrani e tenta ocupar uma das colinas estratégicas mais importantes, Ali al-Taher. O número de mortos ultrapassa 4 mil, os feridos chegam a 11 mil, casas foram destruídas e vilarejos inteiros foram apagados do mapa. Tudo isso, no entanto, seria apenas “vitórias divinas”. Quando autoridades libanesas conversam com os americanos, são classificadas como traidoras. Mas esses mesmos círculos se orgulham quando Donald Trump afirma ter se encontrado com o Hezbollah. Quando o Líbano estabelece um acordo de cessar-fogo, ele o denuncia em nome do Estado e se recusa a reconhecê-lo; mas aceita um cessar-fogo iraniano. Como nomear tal mentalidade, tal lógica, ou melhor, essa ausência de mentalidade e de lógica? Trata-se de uma manifestação da separação entre a realidade no terreno e o discurso de mobilização. Quando Naïm Kassem afirma que “a vitória foi alcançada”, ele não fala segundo os critérios comuns aos quais as pessoas geralmente recorrem: perdas humanas, destruição, controle territorial. Ele raciocina segundo outra lógica, que pode ser resumida da seguinte forma: Primeiro, a redefinição da vitória. Ela já não significa derrotar militarmente o inimigo nem proteger a terra e a população, mas “resistir”, ou seja, impedir o colapso total do partido e preservar a capacidade de lutar e responder, mesmo que de maneira intermitente e ineficaz. Com uma definição assim, praticamente qualquer resultado pode ser transformado em “vitória”, inclusive ao custo de perdas enormes. Há também o deslocamento da batalha do campo da realidade para o campo da narrativa. Quando os fatos se tornam difíceis demais de suportar, destruições, mortes, recuos no terreno, eles são compensados por uma narrativa midiática poderosa: amplificação das conquistas simbólicas, ocultação ou justificativa das perdas, demonização e acusação de traição contra qualquer voz interna dissidente. Aquele que questiona essa narrativa torna-se então um “traidor”, porque a batalha já não é apenas militar: ela passa a ser uma batalha pela própria narrativa. Depois vem a lógica do “monopólio do patriotismo”. O Estado ou seus responsáveis, o presidente da República e o primeiro-ministro, são acusados de traição. Entramos então em uma lógica na qual a legitimidade já não pertence ao Estado, mas à “resistência”. Qualquer negociação com o exterior, especialmente com os Estados Unidos, torna-se traição, enquanto o mesmo contato se torna aceitável quando passa por seus próprios canais ou serve ao seu discurso, como já fizeram diversas vezes. Como explicar essa lógica? Ela pode ser explicada por meio de vários conceitos conhecidos nas ciências políticas e sociais: dois pesos e duas medidas; o pensamento ideológico fechado, que rejeita os fatos quando eles contradizem a doutrina; a propaganda de mobilização, que busca preservar o apoio popular em torno dela; e, acima de tudo, a negação da realidade sempre que as crises se agravam. Mais precisamente, trata-se de uma “lógica mobilizadora que escapa a qualquer prestação de contas”, porque ela não permite medir resultados nem questionar decisões. Tudo nela é sagrado e divino. O verdadeiro perigo dessa política imposta não está apenas em suas contradições, mas em suas consequências catastróficas: a paralisia do Estado e de suas instituições; a destruição da própria noção de verdade, já que tudo se torna interpretável; a transformação da sociedade em dois campos, o dos “crentes” e o dos “traidores”. É exatamente isso que torna quase impossível qualquer discussão racional. O problema, portanto, não está apenas na propaganda ou na contradição; ele está nas próprias ferramentas do pensamento. Essas ferramentas tornaram-se ídolos que são venerados. Paul Valéry alertava para o momento em que o ser humano deixa de utilizar suas ferramentas de pensamento para se tornar seu servo. Estamos diante de conceitos antigos, vitória/derrota, resistência/traição, reutilizados continuamente; de fórmulas prontas de interpretação das quais eles nunca se afastam; de moldes linguísticos rígidos. Tudo isso transforma ferramentas em referências sagradas. Mas eles não percebem que elas são antigas. A questão então ultrapassa a simples pergunta: esse raciocínio está correto? Ela passa a ser: ele pertence ao léxico aceito dentro do grupo? Além disso, o pensamento “passadista” não é ignorância, mas uma estrutura. É um pensamento voltado para o passado, que se adapta ao presente. Ele não está fora do presente; ele vive nele, mas com ferramentas vindas de outro tempo. Como funciona esse pensamento? Ele projeta o passado sobre o presente. Cada acontecimento é compreendido como a repetição de uma batalha anterior, como a continuação de uma antiga narrativa, resistência, libertação, conspiração. Ele ignora completamente que as condições mudaram, que a relação de forças mudou, que a natureza da guerra mudou e que a própria sociedade mudou. No entanto, a ferramenta permaneceu a mesma. Isso acontece porque eles protegem a identidade por meio da imobilidade. Toda mudança é percebida como uma ameaça existencial, e não como uma necessidade. Os conceitos de Durkheim podem nos ajudar a compreender essa lógica apesar de suas contradições. Ele fala dos “fatos sociais” que se impõem ao indivíduo. A opinião, nesse caso, não é uma opinião individual: é o discurso coletivo, a “verdade coletiva imposta”. O indivíduo torna-se incapaz de enxergar a contradição, ou então não consegue rompê-la mesmo quando a percebe, porque rompê-la significa sair do grupo. Também podemos encontrar uma explicação para esse comportamento na forma como Claude Lévi-Strauss concebe o funcionamento da mente humana por meio das estruturas, frequentemente baseadas em oposições binárias: vitória/derrota, traição/resistência, nós/eles. Assim, a realidade deixa de ser importante. O que importa é fazer com que ela se encaixe nessa oposição binária. É isso que acontece diante dos nossos olhos todos os dias: a derrota no terreno é reformulada como vitória; a negociação conduzida pelo Estado é chamada de traição; mas a negociação conduzida pela “resistência” torna-se estratégia e projeto. Não porque eles não vejam, mas porque sua estrutura mental não lhes permite enxergar de outra forma. Isso é mais perigoso do que uma simples ausência de lógica ou uma irracionalidade. É uma razão que funciona dentro de um sistema fechado. Ela não pode ser corrigida pelos fatos, pelos argumentos, nem mesmo pelas perdas. Toda nova informação é “digerida” dentro da antiga estrutura. É todo um sistema de percepção que vive de ferramentas mortas… mas que ressuscita todos os dias.

A engenharia semiótica do poder
Por
Yakzan Takki
Publicado
jun 21, 2026 - 17:27

O discurso político contemporâneo já não é medido apenas pelo que um líder diz, mas pelos significados e símbolos que suas palavras, movimentos e imagens geram. Sob essa perspectiva, a atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se apresenta como um dos modelos semióticos mais marcantes da política contemporânea, no qual linguagem, corpo e imagem se fundem em ferramentas integradas para a produção de poder e influência. O discurso político de Donald Trump representa um caso excepcional na literatura política contemporânea, devido às suas características linguísticas e semióticas, que o transformaram em objeto de estudo em áreas como ciência política, estudos de comunicação e psicologia política. Seu impacto vai muito além do conteúdo de seus discursos, abrangendo um sistema integrado de signos verbais, visuais e corporais. Esse sistema redefine a relação entre líder e público e confere à sua atuação política uma qualidade singular, baseada na construção de presença, e não apenas na transmissão de mensagens. Segundo teóricos da análise do discurso e da semiótica, como Roland Barthes, Umberto Eco e Teun A. van Dijk, a semiótica já não é apenas uma estrutura teórica para analisar uma figura política; ela se tornou uma abordagem indispensável para compreender como os Estados Unidos conduzem suas relações internacionais no momento atual. Os resultados da mais recente cúpula do G7 demonstraram que a presença americana foi definida não pelos comunicados finais, mas pela presença pessoal do presidente. Seus gestos, sua abordagem nas reuniões bilaterais, suas declarações breves e até mesmo a ambiguidade deliberada de determinadas posições funcionaram como mensagens políticas paralelas às decisões oficiais. Nesse contexto, imagem e símbolo não são menos influentes que os textos diplomáticos; eles se tornaram parte integrante do processo de negociação e da formação dos equilíbrios internacionais. Isso reflete uma mudança na política contemporânea, que se afasta da lógica da diplomacia clássica e se aproxima de uma lógica de "gestão de impressões", na qual um signo político pode produzir um efeito que supera o da própria decisão. Em comparação com seus antecessores, Trump utiliza uma linguagem simples e direta, com frases curtas, verbos no presente e repetição intensa de slogans, o que amplia seu público e confere ao seu discurso uma qualidade imediata e dinâmica. Essa estrutura linguística é acompanhada por uma performance física caracterizada por um tom de voz incisivo, gestos repetitivos, expressões faciais exageradas e uma postura corporal que transmite confiança e desafio, formando juntos um sistema semiótico deliberado que reforça a imagem do líder decisivo. A semiótica voltou ao centro das análises com seu segundo mandato, não apenas por causa de suas decisões controversas, como a imposição de tarifas ou a redefinição das prioridades da política externa, mas também por seu estilo de administrar crises e produzir ambiguidade política. Suas decisões e declarações frequentemente geram um estado de incerteza tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos, transformando a própria ambiguidade em uma ferramenta política utilizada em negociações e na gestão de conflitos. Essa abordagem aparece claramente em suas posições tanto em relação a aliados quanto a adversários: seja em suas críticas às instituições internacionais, sua postura diante da guerra em Gaza, suas declarações sobre a Groenlândia e o Canal do Panamá, sua relação com o presidente russo Vladimir Putin, sua retórica dura sobre imigração ou seus ataques recorrentes às elites políticas e à imprensa, enquanto se apresenta como o salvador contra o "Estado Profundo". Esse estilo também é evidente em seus confrontos com rivais políticos e na forma como se dirige a líderes estrangeiros, tornando a provocação um componente essencial de sua caixa de ferramentas de comunicação política. Uma análise linguística e semiótica revela que o discurso de Trump é construído sobre uma dualidade rígida entre "Eu" e "Outro", na qual ele reserva atributos de força e legitimidade exclusivamente para si mesmo e seus apoiadores, enquanto retrata seus opositores como fonte de perigo e corrupção. Além disso, sua preferência por frases curtas e estruturas diretas não é um sinal de simplicidade, mas uma escolha comunicativa deliberada destinada a maximizar a circulação midiática de suas mensagens e incorporá-las mais profundamente na consciência coletiva. A repetição surge como uma de suas ferramentas retóricas mais poderosas. Slogans como "America First", "Build the Wall" e "Drain the Swamp", assim como sua afirmação repetida de que "o Irã nunca terá uma arma nuclear", evoluem para símbolos políticos que condensam plataformas inteiras de políticas públicas em fórmulas breves e facilmente dissemináveis. Dessa forma, a repetição se torna muito mais do que um simples recurso estilístico: ela serve para consolidar ideias e interromper o debate antes mesmo que ele comece. Trump também utiliza a linguagem como arma para estimular a polarização política, construindo uma identidade coletiva para seus apoiadores como os "verdadeiros americanos" em oposição à imprensa "Fake News", às "elites corruptas" e aos "inimigos do povo". Ele não hesita em usar rótulos agressivos e inflamatórios contra seus rivais ou até mesmo contra aliados, como Benjamin Netanyahu, transformando o discurso político em uma batalha simbólica destinada a reforçar a lealdade interna, em vez de convencer adversários. Essa performance ultrapassa a linguagem e alcança o corpo como ferramenta de comunicação política. Seus gestos, seu olhar, os movimentos das mãos, sua postura diante do púlpito e até mesmo as danças que ocasionalmente realiza ao final de seus comícios constituem signos semióticos que reforçam a imagem de um líder confiante que desafia as normas políticas tradicionais. Quando suas palavras decisivas são combinadas com sinais físicos marcantes, o impacto da mensagem se multiplica, e o discurso se transforma em uma performance visual totalmente integrada. O vocabulário político de Trump se apoia em três principais campos semânticos: guerra e confronto, superioridade e excepcionalismo, e a personificação do mal. Seu uso frequente de termos como "nós destruímos", "o maior", "o mais forte" e "mal" se alinha perfeitamente a uma visão populista de mundo que percebe a realidade pela lente de uma luta permanente entre bem e mal, entre a nação e seus inimigos. Esse estilo influenciou diversos líderes populistas ao redor do mundo, como o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, refletindo uma tendência política que desafia muitos dos fundamentos da democracia liberal tradicional ao priorizar a liderança pessoal em detrimento das instituições, do pluralismo democrático e dos mecanismos constitucionais de controle e equilíbrio. Outra dimensão surge no discurso trumpista: a exploração de símbolos ligados à "masculinidade política". Nesse caso, o conflito não se limita a plataformas e políticas, mas se estende às representações de força e hegemonia no espaço público. Em seus confrontos com Hillary Clinton e posteriormente Kamala Harris, o discurso frequentemente ultrapassou o simples desacordo político para reproduzir a dualidade força/fraqueza e líder/adversário, por meio do sarcasmo, da desqualificação da competência e da representação de seu oponente como alguém sem determinação ou capacidade de liderança. Nesse contexto, a masculinidade funciona não apenas como uma característica pessoal, mas como uma ferramenta semiótica que projeta a imagem de um líder capaz de impor sua vontade, reforçando entre a base populista o arquétipo do "homem forte" que se coloca contra as elites tradicionais. Mesmo em suas relações com figuras conservadoras ou aliados, como Giorgia Meloni, seu estilo, baseado em humor ácido ou sarcasmo pontual, reflete uma tendência de monopolizar o centro da liderança simbólica, mantendo os demais em uma órbita que gira em torno de sua presença pessoal e transformando a própria personalidade política em um instrumento de geração de poder. Do ponto de vista semiótico, a masculinidade no discurso de Trump não é simplesmente uma postura em relação às mulheres em si, mas um signo político utilizado na construção da imagem do líder hegemônico, no qual a performance linguística e corporal se torna um meio de produzir superioridade simbólica e consolidar relações de poder no campo político. Ainda assim, é essencial distinguir entre a análise de um estilo político e a emissão de julgamentos pré-concebidos. Uma leitura rigorosa e acadêmica exige examinar fatos e discursos em seu devido contexto, sem preconceitos políticos ou preferências pessoais. Em última análise, toda visão política deriva de uma determinada concepção sobre a natureza humana e o comportamento humano, o que explica o crescente interesse dos pesquisadores em neurociência e psicologia política como ferramentas para compreender os mecanismos de tomada de decisão e a formação da liderança. A experiência de Trump não apresenta apenas um modelo diferente de discurso político; ela revela uma transformação mais profunda na própria natureza da liderança contemporânea. Imagem, gesto e símbolo são agora elementos ativos na produção do poder político, em igualdade de importância com decisões e instituições. A semiótica política surge, portanto, como uma ferramenta explicativa indispensável para compreender as mudanças que estão remodelando o sistema internacional, em um momento em que o conflito já não se resume apenas a políticas, mas aos significados que a liderança produz e às formas pelas quais esses significados são percebidos e disseminados em escala global.

Um protocolo de entendimento ou uma guerra em pausa?
Por
Khalil Helou
Publicado
jun 19, 2026 - 17:11

Enquanto o Irão se encontra praticamente em ruínas, o memorando de entendimento entre Washington e Teerão assinado a 17 de junho deixa pairar um clima de incerteza sobre o Médio Oriente. Enquanto o regime iraniano se mantiver no poder e os seus proxies regionais sobreviverem, ainda que enfraquecidos, a dinâmica previsível não será muito diferente daquela que prevaleceu na região desde a revolução islâmica de 1979 em Teerão. O Irão continuaria assim a recorrer a uma combinação de ideologia e pragmatismo para assegurar, em primeiro lugar, a sua sobrevivência, e depois para se reafirmar no plano regional, mantendo as tensões acesas. A operação «Epic Fury» é, sem dúvida, uma obra-prima de execução tática, mas até ao momento sem um benefício estratégico claro, enquanto o Irão tenta demonstrar, através de falsa propaganda, manipulação mediática e pirataria de Estado, que é o grande «vencedor». O analista geopolítico George Friedman descreve a situação atual como um «paradoxo do poder no Médio Oriente»; por outras palavras, um mundo em que os Estados Unidos e Israel atingiram um nível de dominância militar convencional sem precedentes desde o início do século, sem contudo alcançarem todos os seus objetivos estratégicos. Importa recordar insistentemente, face à propaganda iraniana, que a dimensão da destruição infligida ao Irão ao longo de 40 dias é colossal. Os Estados Unidos e Israel realizaram cerca de 18 500 missões aéreas e atingiram 130 000 alvos iranianos com uma precisão cirúrgica notável, segundo a Foreign Affairs, destruindo 85% das instalações de produção de mísseis e drones e eliminando 70% das infraestruturas de lançamento de mísseis. Por outro lado, o ataque inicial de decapitação, que eliminou cerca de 40 dos mais altos dirigentes políticos e militares iranianos, incluindo o próprio Ali Khamenei, levou à sua substituição por uma nova geração de oficiais do Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica (CGRI), mais pragmáticos e menos ideológicos, que reagiram rapidamente evitando o colapso do regime. Um memorando de entendimento frágil O memorando de entendimento assinado a 17 de junho por Donald Trump e Massoud Pezechkian assemelha-se menos a um tratado de paz do que a uma fase de trégua temporária. Os fatores que o catalisaram têm origem na política interna de cada um dos três beligerantes, mais do que na situação militar. Com efeito, as tensões internas nos Estados Unidos tornaram-se, como em cada guerra desde 1917, uma prioridade face aos desafios geopolíticos. O presidente Donald Trump está sob pressão de todos os lados, nomeadamente por parte de uma ala do seu próprio partido, cansada da guerra e que vê no conflito uma violação das suas promessas eleitorais, ainda que as baixas americanas em vidas humanas sejam mínimas. Os seus opositores em ambos os partidos exploram as consequências económicas do encerramento do estreito de Ormuz como arma contra a sua administração. Por fim, o partido democrata não poupa esforços para o desacreditar, independentemente do que faça. Por outro lado, existe uma divergência crescente entre Washington e Jerusalém: enquanto os Estados Unidos encaram a cessação das hostilidades como uma pausa necessária para reconstituir alguns componentes do seu arsenal que atingiram níveis muito baixos, e para fazer face à escalada dos preços do petróleo, Israel mantém-se numa postura existencial. Por seu lado, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta uma tempestade política e pressões iniciadas, pela sua direita, pelos ultra-ortodoxos por causa da conscrição militar. Estes ultra-ortodoxos organizam protestos sentados em frente a prisões onde estão detidos aqueles que recusam apresentar-se nos quartéis. À sua esquerda, ele é combatido por aqueles que exigem sua saída imediata, por meio de manifestações e bloqueios de estradas. Por fim, ele se vê espremido entre desagradar Trump e continuar a guerra de forma intensiva no Líbano, ou desagradar seu aparato de segurança, determinado a obter uma «vitória total» que inclua o desmantelamento completo do Hezbollah e o fim definitivo do programa nuclear iraniano. Por fim, no Irã, a nova geração dos CGRI enfrenta, desde o verão de 2025, uma crise econômica sem precedentes, amplamente agravada pela guerra, e se vê dramaticamente sem os recursos necessários para administrá-la. Uma parte dos novos dirigentes iranianos teme um colapso do regime caso a guerra continue, enquanto a outra quer continuar a usar o estreito de Ormuz e explorá-lo como alavanca de pressão permanente sobre a economia mundial. Washington, Teerã e Jerusalém se veem, portanto, demasiado preocupados com seus desafios internos e menos atentos às considerações geoestratégicas. Acabaram por aceitar o memorando de entendimento, cujas cláusulas podem ser interpretadas «à la carte» conforme cada parte deseja, encarando-o como uma pausa necessária. A reconstituição dos arsenais O arsenal pesado iraniano está praticamente destruído. A Teerã restam apenas meios assimétricos modestos, mas suficientes para bloquear o estreito de Ormuz e assediar os países do Golfo — nomeadamente cerca de uma dezena de mini-submarinos Ghadir, milhares de drones Shahed 136, centenas de pequenas embarcações rápidas e minas marítimas. Por sua vez, a operação «Epic Fury» expôs uma taxa de consumo (burn rate) de munições enorme. Em poucas semanas, a Marinha dos EUA disparou mais de 1.000 mísseis de cruzeiro Tomahawk, ao passo que a capacidade de produção anual atual dos Estados Unidos é de 90 a 100 unidades — sabendo-se que o orçamento militar americano de 2027 prevê a compra de 950 mísseis desse tipo e de uma geração mais avançada, o que implica o financiamento da cadeia de produção para acelerar sua fabricação. Além disso, o exército americano utilizou 53% de seus interceptores antimísseis únicos no mundo THAAD existentes antes da guerra e 46% de seus mísseis Patriot para conter enxames de mísseis e drones iranianos de baixo custo. Dito isso, o Departamento de Defesa americano está desenvolvendo um projeto de concepção de armas antidrones e antimísseis a preços acessíveis e com eficácia aprimorada, a fim de poupar as munições sofisticadas e caras. O Pentágono tinha consciência de que estava vencendo a guerra no ar, mas perdendo no balanço financeiro. Em conclusão, uma pausa para recompor os estoques revelou-se necessária tanto para Washington quanto para Teerã. Uma nova doutrina americana para a região? Uma análise na última edição da Foreign Affairs sugere uma reformulação fundamental do poder americano na sequência desta guerra de 40 dias. Os Estados Unidos aproveitariam a trégua gerada pelo memorando de entendimento para se reorganizar na região, da qual não podem mais se dar ao luxo de ser o único garante de segurança, uma vez que os países árabes demonstraram uma vontade inabalável de se defender dos ataques iranianos. Alguns desses países, entre eles o Catar e a Arábia Saudita, ativaram os canais diplomáticos de forma simultânea. O desenvolvimento de um acesso militar americano ao Golfo Pérsico a partir do Ocidente — nomeadamente a partir de Israel, da Jordânia e do oeste da Arábia Saudita —, denominado «Western Access Network» ou «rede de acesso ocidental», foi estabelecido durante a fase de preparação para a guerra dos 40 dias, uma vez que as dezesseis bases americanas em torno do Golfo Pérsico (Kuwait, Bahrein, Catar, EAU) eram vulneráveis aos drones iranianos. As forças americanas as haviam evacuado em previsão do conflito. A mesma análise do Foreign Affairs também sugere uma «coprodução» de munições com os aliados da região (já iniciada), nomeadamente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, o que transforma o papel de Washington de garante da segurança em integrador de segurança. Mas isso exige maior solidariedade entre os países árabes e uma ativação dos Acordos de Abraão. Segundo o autor do artigo, trata-se de uma doutrina de necessidade, não de escolha. É um reconhecimento de que a era das soluções militares unipolares chegou ao fim. Para enfrentar a próxima década, os Estados Unidos precisam facilitar uma arquitetura de segurança regional que inclua a Turquia, a Arábia Saudita e o Egito, ao mesmo tempo em que tentam resolver o «não-assunto» do Estado palestino — um nó górdio que desafiou cada administração americana nos últimos setenta e cinco anos. Memorando de entendimento, … e o Líbano? As negociações israelo-libanesas em Washington parecem ofuscadas pelo memorando de entendimento. Foi proposto um modelo de «zonas piloto» com o objetivo de testar a capacidade do Estado libanês de se reafirmar e de dotar o exército libanês dos meios necessários para garantir a segurança nessas zonas e impedir o retorno do Hezbollah. Essas negociações continuarão diante da recusa do Hezbollah e de Nabih Berri em aceitar essas zonas piloto e de sua disposição de se referir a Mohammed Bagher Ghalibaf? A «Linha Amarela» e a demolição de casas que impedem o retorno dos moradores transformaram efetivamente o Sul do Líbano em um no man's land permanente. Isso dá ao Hezbollah margem para elevar o tom, reassertar a retórica de resistência e recusar-se a entregar suas armas ao Estado libanês. A tudo isso se soma a doutrina de autodefesa de Israel, que autoriza suas forças a atirar contra qualquer «fonte de suspeita», o que implica que os riscos de colapso do cessar-fogo no Líbano são elevados. Este cessar-fogo de 17 de junho de 2026 corre o sério risco de ter o mesmo destino que os cessar-fogos de 1993, 1996, 2006 e 2024. Uma única esperança diante dessa situação: a ressurgência do Estado libanês, que se faz esperar desde o novo mandato presidencial. Talvez um dia?