
As negociações de Doha resultam no descongelamento de $3 mil milhões


À medida que os contornos do acordo-quadro celebrado entre Washington e a República Islâmica do Irão se vão delineando progressiva e timidamente — e talvez também os seus não-ditos —, dois parâmetros fundamentais, que poderíamos qualificar de «periféricos» ao processo político global em curso, emergem de forma cada vez mais explícita: por um lado, as divergências iranianas no seio do poder e as fissuras que surgem agora publicamente no núcleo do regime; e, por outro, a construção gradual, pelos Estados Unidos, com paciência e minúcia, do que parece ser uma nova ordem político-militar-securitária na região, com o efeito de cortar as asas ao regime dos mulás e de reduzir ao mínimo a sua influência extraterritorial.
O primeiro destes dois parâmetros complica, ou mesmo inibe, aquilo que alguns designam, por abuso de linguagem, como «o diálogo e as negociações» entre Washington e a República Islâmica.
Vários meios de comunicação iranianos, bem como fontes fidedignas que acompanham de perto a evolução da situação interna no Irão, ecoam há vários dias sérias fissuras que abalaram o aparelho político do regime dos mulás ao mais alto nível.
Confirma-se, a este respeito, que a ala radical do poder não perdeu a sua influência preponderante, manifestando-se através de violentas críticas públicas dirigidas ao campo dito «moderado» ou pragmático, que conseguiu fazer aprovar o acordo-quadro com os Estados Unidos.
A contestação dos radicais traduziu-se em ataques frontais contra o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, cuja entrevista à televisão estatal iraniana, há alguns dias, foi abruptamente interrompida e cortada antes de terminar.
O outro «símbolo» das negociações com os Estados Unidos, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, foi recebido com vaias por peregrinos iranianos durante a sua recente visita a Karbala, no Iraque.
Estes incidentes levaram o presidente iraniano, Massoud Pezechkian, a denunciar publicamente, no início desta semana, a campanha contra os negociadores iranianos.
As críticas não se limitam, contudo, à personalidade dos negociadores, mas abrangem de forma mais ampla e profunda as orientações do presidente iraniano e os membros do Conselho Superior de Segurança Nacional que deram luz verde ao acordo-quadro assinado com os Estados Unidos.
Facto significativo: os ataques contra o presidente Pezechkian e os negociadores partem de instâncias radicais de alto nível que representam a espinha dorsal do regime.
O sítio libanês al-Janoubiya, que reflete o ponto de vista da oposição xiita libanesa e que geralmente está muito bem informado sobre a situação no Irão, relata que 63 dos 84 membros do «Conselho dos Peritos do Regime» publicaram recentemente um comunicado a exigir que os negociadores da República Islâmica respeitem as «linhas vermelhas» definidas pelo «walih el-faqih», o Guia Supremo.
Al-Janoubiya indica ainda que a «direção das escolas religiosas» (as «hawzat»), sob tutela do walih el-faqih, publicou igualmente um comunicado alertando o presidente iraniano, os negociadores e os membros do Conselho Superior de Segurança Nacional contra qualquer «laxismo» na aplicação das «linhas vermelhas» mencionadas no documento assinado com Washington.
Estas tensões internas explicariam o facto de a delegação iraniana presente no Doha, que deveria reunir-se com os negociadores americanos para conversações de caráter técnico, ter recusado qualquer negociação direta.
Os delegados iranianos dialogavam assim com os mediadores paquistaneses, enquanto os representantes americanos trocavam impressões com os responsáveis qataris!
Essas negociações indiretas, conduzidas por meio dos mediadores paquistaneses e cataris, resultaram na adoção de uma medida simbólica: o descongelamento de 3 bilhões de dólares em ativos iranianos bloqueados, enquanto Teerã havia exigido inicialmente o descongelamento de 12 bilhões de dólares, para depois se contentar em reivindicar os 6 bilhões congelados no Qatar — o que também não conseguiu obter.
Além disso, os 3 bilhões desbloqueados na quarta-feira servirão para a compra de produtos humanitários, provavelmente no mercado americano…
A nova ordem americana
O segundo parâmetro que marca o febril jogo de xadrez que se desenrola na região é a nova ordem americana — político-militar-securitária —, que parece estar se consolidando progressivamente na zona do Levante e, de forma mais ampla, em toda a região.
Os sinais desse dispositivo americano ficaram evidentes nos últimos dias e semanas.
A sequência dos acontecimentos nesse âmbito é particularmente reveladora: às vésperas da assinatura pelo Líbano e por Israel do acordo-quadro sob a égide de Washington, o Secretário de Estado, Marco Rubio, reunia-se no Bahrein com os membros da conferência ministerial do Conselho de Cooperação do Golfo, e ao término desse encontro, os países do Golfo e o Sr. Rubio publicaram um comunicado conjunto apoiando sem ambiguidade as orientações do governo libanês relativas às negociações diretas com Israel (a União Europeia também manifestou, de forma independente das iniciativas americanas, seu apoio total à linha de conduta adotada pelo poder libanês).
Com o respaldo dos EUA, da União Europeia e dos países do Golfo, o Líbano assinou assim seu acordo-quadro com Israel, cujo principal efeito é manter o Irã afastado do processo de saída da crise e de encerramento do estado de guerra no Líbano, consolidando, dessa forma, a opção soberanista adotada por Beirute.
A dinâmica estabelecida pelo presidente Joseph Aoun, pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo seu governo poderá implicar um envolvimento militar americano, por meio de especialistas e oficiais de alta patente, na execução do processo gradual de desdobramento do exército libanês e de retirada das forças do Estado hebreu do sul do Líbano.
Dado significativo: a Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou no início desta semana, por ampla maioria, um projeto de resolução apresentado pelo Partido Democrata que impunha ao presidente Donald Trump severas restrições a um possível envolvimento militar americano no Líbano.
Esse papel americano foi, aliás, discutido com os dirigentes libaneses durante a visita que o comandante do Centcom, o almirante Brad Cooper, realizou no início da semana a Beirute.
Três outros desenvolvimentos significativos ilustraram ainda o processo americano em curso:
- A onda de prisões no Iraque de parlamentares, altos dirigentes políticos e empresários próximos do regime iraniano, bem como a decisão tomada há 48 horas pelo governo iraquiano de fixar para as milícias pró-iranianas o prazo limite de 30 de setembro para entregarem suas armas ao Estado.
- A realização, esta semana no Bahrein, pelo comandante do Centcom de uma reunião regional ampliada de segurança e defesa com altos responsáveis militares do Líbano, da Síria, do Bahrein, da Arábia Saudita, do Egito, da Jordânia, do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos, de Omã, do Qatar e do Iêmen.
- O anúncio, há vinte e quatro horas, pelo Departamento do Tesouro americano, da decisão dos Estados membros do Centro de Combate ao Financiamento do Terrorismo (TFTC) de impor medidas contra as fontes de financiamento do Hezbollah (incluindo o Qard el-Hassan).
Face a esta dinâmica americana, o regime iraniano tenta se agarrar a dois trunfos que busca preservar: a manutenção do seu papel preponderante no Líbano (seriamente questionado pela posição firme do poder libanês a esse respeito); e o reconhecimento da sua soberania sobre o Estreito de Ormuz, ignorando as regulamentações e o Direito internacional nessa matéria.
A esse respeito, um alto funcionário americano indicou ao site Axios que os negociadores americanos deixaram claro aos delegados iranianos presentes em Doha que a insistência do Irã em impor uma taxa de passagem aos navios que utilizam o Estreito de Ormuz corre o risco de torpedear o acordo-quadro entre Washington e Teerã. Caso(s) a seguir, portanto…