
60 dias: uma contagem regressiva diplomática de alto risco

Após 48 horas caóticas, marcadas por ameaças de ruptura, a primeira sessão de alto nível entre as delegações americana e iraniana foi encerrada sob a dupla mediação do Catar e do Paquistão.
O protocolo assinado em Versalhes em 17 de junho parecia, até então, uma trégua frágil; agora, ele se transforma em um verdadeiro exercício diplomático após a validação formal de um roteiro de 60 dias. Esse processo deverá levar ou a um acordo final, semelhante aos arranjos que estruturam o Oriente Médio desde 1948, ou a uma nova crise aberta. Os riscos políticos e militares entre as duas partes permanecem totalmente presentes, em um período extremamente comprimido.
O papel do Catar
O papel central do Catar nas negociações entre o Irã e os Estados Unidos demonstra, por um lado, que a estratégia de pressão iraniana, por meio dos bombardeios contra o emirado, produziu resultados e, por outro, o retorno de uma diplomacia transacional, na qual a geopolítica desaparece por trás do que se assemelha a um contrato comercial.
Já responsável historicamente pelos canais financeiros secretos entre Washington e Teerã, Doha se consolidou na Suíça, graças ao seu soft power, como garantidor de uma certa estabilidade regional.
Compartilhando com o Irã o maior campo de gás natural do mundo, ao mesmo tempo em que abriga a principal base militar americana no Oriente Médio, o Catar soube manobrar para organizar, em um primeiro momento, o congelamento dos ativos iranianos sob pressão de Washington e, depois, seu descongelamento, reabrindo assim o Estreito de Ormuz.
Mas a força dessa mediação catariana também reside na proximidade de suas redes econômicas com a equipe de Donald Trump. Seja o genro de Donald Trump, Jared Kushner, ou o enviado especial Steve Witkoff, presentes na Suíça ao lado de JD Vance, as duas figuras centrais da delegação americana mantêm estreitos vínculos financeiros com os fundos soberanos do emirado.
Essa combinação inédita entre interesses privados e assuntos de Estado permitiu transformar um conflito ideológico altamente inflamável em uma mesa de negociação comercial, não sem riscos.
Ao integrar ainda o Catar ao centro da célula de desconflição na frente libanesa, Washington valida o surgimento de um patrocínio catariano que redefine o equilíbrio de forças no Oriente Médio.
O pior cenário para o Líbano, neste caso, seria um novo acordo de Doha, como o de 2008.
A principal novidade resultante das negociações na Suíça é esse roteiro, que desencadeia uma verdadeira corrida contra o tempo de 60 dias, com negociações técnicas prolongadas destinadas a implementar o protocolo de entendimento.
As equipes permanecem em Bürgenstock e os grupos técnicos deverão se multiplicar. Esse calendário rígido coloca Washington e Teerã em uma armadilha política, na qual o tempo necessário para as concessões se transforma em uma contagem regressiva explosiva diante das pressões internas em cada um dos dois países.
Possível extensão do prazo de 60 dias?
A administração americana não tem o luxo do tempo: a Casa Branca precisa urgentemente de resultados rápidos para estabilizar os mercados de energia e validar sua doutrina de diplomacia transacional.
Um impasse técnico na Suíça, acompanhado de uma possível extensão da trégua, ofereceria ao Irã o cenário ideal: continuar recebendo petrodólares graças ao levantamento temporário das sanções sobre a venda de seu petróleo, mantendo ao mesmo tempo a indefinição sobre seu programa nuclear.
Diante desse relógio iraniano em movimento, o governo americano se veria preso por sua própria opinião pública à direita, especialmente pelo senador Roger Wicker, republicano do Mississippi e presidente da Comissão das Forças Armadas do Senado, que declarou publicamente que esse acordo “negocia e destrói as vitórias” militares do Exército americano.
Quanto ao senador Ted Cruz, republicano do Texas, ele critica duramente o descongelamento dos 12 bilhões de dólares em ativos iranianos, afirmando que enviar bilhões aos aiatolás equivale a financiar diretamente o terrorismo antiamericano e a formalizar o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz.
Por sua vez, o senador John Cornyn, republicano do Texas, denuncia um acordo que permitiria ao Irã vender livremente seu petróleo e recuperar recursos para reconstruir seu arsenal de mísseis balísticos, sem qualquer contrapartida relacionada ao desmantelamento nuclear.
O senador Rick Scott, republicano da Flórida, expressa, por sua vez, sua recusa categórica em confiar no regime de Teerã.
Mas o mais importante de todos é o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, um dos aliados mais próximos de Donald Trump, que adotou uma posição cautelosa, porém firme: ele exige que qualquer acordo final seja submetido à aprovação e votação do Congresso, recusando-se a deixar que apenas o Poder Executivo valide o descongelamento dos fundos.
Assim, se a trégua de 60 dias levar a um tratado, Donald Trump terá de enfrentar uma coalizão de republicanos linha-dura acusando-o de traição e democratas denunciando um cheque em branco. Essa oposição constitui o primeiro obstáculo interno ao sucesso do roteiro suíço.
Quando o Capitólio chega a Bürgenstock
Donald Trump também está sob pressão pela esquerda. Em 23 de junho, o Senado americano aprovou, por 50 votos a 48, uma resolução limitando os poderes de guerra do presidente.
Essa medida constitucional não tem força jurídica para paralisar a Casa Branca, mas seu calendário político é constrangedor.
Ao se unirem aos democratas, quatro senadores republicanos romperam a unidade de seu partido para contestar o monopólio de Donald Trump sobre a decisão militar diante de Teerã, exigindo que ele obtenha a aprovação do Congresso para qualquer ato de guerra.
Essa postura legislativa enfraquece os negociadores americanos em Bürgenstock: o Irã sabe agora que a ameaça de Donald Trump de retomar os bombardeios diante de qualquer deslize está politicamente limitada por um Congresso que poderia bloquear os recursos necessários.
Além disso, ela leva o presidente americano, furioso com o que classifica como uma “falha patriótica”, a endurecer o discurso para provar sua soberania, mesmo que isso signifique sabotar os próprios trabalhos técnicos com declarações incendiárias nas redes sociais.
Pressionada entre as exigências de Mojtaba Khamenei, a fúria de um aliado israelense marginalizado e de seus interlocutores dentro da administração americana, além do despertar constitucional de seu próprio Congresso, o roteiro de 60 dias aparece mais do que nunca como uma trégua precária, na qual cada lado espera o primeiro erro do outro.
A imprevisibilidade americana e a diplomacia dupla
As negociações quase fracassaram quando, em 21 de junho, Donald Trump, ao vivo na Fox News, ameaçou retomar os bombardeios contra o Irã e intervir no Estreito de Ormuz caso nenhum acordo fosse alcançado dentro dos 60 dias.
A delegação iraniana então suspendeu sua participação, e foi necessário um intenso trabalho de mediação por parte dos catarianos e paquistaneses para trazer os negociadores de volta à mesa.
Esse tipo de intervenção pública ilustra uma tensão permanente entre uma diplomacia de campo conduzida por JD Vance, Jared Kushner e Steve Witkoff e uma comunicação presidencial que lembra onde está o centro de decisão, com o risco de anular os avanços obtidos nos bastidores.
Esse é todo o paradoxo estratégico: a combinação entre uma ameaça verbal máxima e uma prática diplomática pragmática.
Esse paradoxo pode, de fato, funcionar para impor concessões, mas também provoca crises de confiança do lado iraniano, paquistanês e catariano.
(Continua)