

Um pesquisador em biofísica escreveu certa vez:
“Não interpreto o poder apenas pela política; também o interpreto pela matéria. No laboratório, aprendemos uma verdade que qualquer pessoa reconhece na vida cotidiana: a pressão não afeta todos os corpos da mesma maneira. Aplique pressão sobre o vidro, e ele pode se quebrar. Aplique-a sobre a borracha, e ela se deforma. Aplique-a sobre um tecido vivo, e ele pode absorvê-la, adaptar-se a ela e reparar-se. A mesma força pode destruir uma estrutura ou fortalecer outra. A diferença não está apenas na pressão em si, mas na estrutura interna que a recebe.”
É justamente aí que a leitura que Israel e os Estados Unidos fazem do Irã, e do Oriente Médio de forma mais ampla, revela suas limitações. Israel, como toda potência convencida de sua superioridade tecnológica, parte da premissa de que a história pode ser moldada pela pressão: atacar mais, matar mais, endurecer as sanções, aprofundar o isolamento, e o adversário acabará recuando. Trata-se, porém, de uma visão mecânica das sociedades humanas. Ela imagina as nações como objetos inertes que, submetidos a pressão suficiente, inevitavelmente se romperão.
Há, contudo, Estados que não entram em colapso sob pressão, embora tampouco saiam dela ilesos. Eles a absorvem, adaptam-se a ela e a redistribuem, transformando uma crise externa em um frágil equilíbrio interno, e um confronto internacional em um custo social prolongado.
O Irã, apesar de suas sucessivas crises, não converteu a pressão em colapso. Transformou-a em capacidade de adaptação: absorveu a pressão, converteu-a em tempo e, depois, fez do tempo um instrumento de negociação.
É nesse ponto que surgem as perguntas mais sensíveis. A questão já não consiste em saber se a pressão funciona ou fracassa, mas para onde seus efeitos são deslocados e quem acaba pagando esse preço.
No caso iraniano, poucos contestariam que o Estado conseguiu, ao longo de muitos anos, conviver com níveis extremamente elevados de pressão externa: severas sanções econômicas, isolamento político, tensões regionais de segurança e pressões acumuladas em diversas frentes. Essa capacidade de resistir sob pressão costuma ser apresentada como prova de força.
Mas essa conclusão, por si só, não basta para compreender o quadro em sua totalidade.
Ao mesmo tempo, diversos indicadores dentro da sociedade iraniana apontam para um custo profundo: a erosão da classe média, a perda do poder de compra, o agravamento dos desequilíbrios sociais e o distanciamento crescente entre o Estado e a sociedade. Não se trata apenas de indicadores econômicos. São sinais de que a pressão deixou de se concentrar no sistema internacional para se instalar no próprio tecido social. Em outras palavras, a pressão não desapareceu; apenas mudou de lugar. Convém lembrar também que o povo iraniano tentou se insurgir contra as políticas de seu regime ditatorial e teocrático, apenas para enfrentar uma repressão brutal, como se o regime estivesse combatendo um exército invasor, e não seus próprios cidadãos.
É exatamente aí que reside o cerne da questão. Regimes ditatoriais dotados de poderosos mecanismos de controle não eliminam a pressão; eles a redistribuem. Uma parte é absorvida pelas instituições do Estado, outra é transferida para a sociedade por meio da economia e das condições de vida cotidianas, sem qualquer consideração pelo custo imposto à população, enquanto uma terceira parcela é administrada além das fronteiras por meio da influência regional e de instrumentos indiretos de poder.
Sob essa perspectiva, aquilo que costuma ser chamado de “resiliência” revela-se um fenômeno muito mais complexo. Não se trata da resiliência heroica propagada pelo discurso oficial, pois ela reflete não apenas a capacidade de enfrentar pressões externas, mas também a de administrar seus custos dentro e fora do país. A pergunta essencial, portanto, passa a ser: quem paga esse preço e quem decide como ele será distribuído?
Por mais eficaz que esse mecanismo possa parecer no curto prazo, ele levanta uma questão política e moral impossível de ignorar: essa aparente estabilidade reflete a força do Estado ou a capacidade do regime de assegurar sua própria sobrevivência distribuindo o peso de forma profundamente desigual dentro da sociedade?
Essa pergunta ganha ainda mais importância quando deixamos o campo da análise abstrata e entramos no terreno da geopolítica.
O Irã vem redirecionando a pressão exercida sobre si para diferentes frentes regionais ligadas a ele, direta ou indiretamente.
É dentro desse contexto que se deve compreender a posição do Líbano.
O Líbano jamais foi um simples espectador das transformações regionais. Ao mesmo tempo, nunca dispôs dos meios necessários para se manter à margem delas. A fragilidade de sua estrutura interna, a complexidade de seu sistema político e sua vulnerabilidade econômica fizeram dele um país particularmente exposto a pressões que não consegue controlar plenamente. O Irã aproveitou essa realidade para transformar o Líbano em uma esfera de influência utilizada para aliviar parte de suas próprias pressões ou redistribuí-las.
O que, fora do Líbano, é administrado como confronto geopolítico ou equilíbrio estratégico, traduz-se, dentro do país, em um enorme custo político, econômico e social.
Nesse contexto, o debate sobre o Acordo-Quadro deixa de ser um simples detalhe diplomático ou um entendimento circunstancial. Ele se torna um teste decisivo sobre o próprio lugar do Líbano: permanecer preso à lógica de reprodução dos equilíbrios regionais ou iniciar, ainda que gradualmente, o caminho para recuperar a condição de um Estado capaz de exercer plenamente suas próprias decisões políticas.
Durante décadas, o Irã utilizou o Líbano como esfera de influência e como um ponto de apoio estratégico no Mediterrâneo. Sempre que se sentiu ameaçado, o Líbano tornou-se o palco preferencial para afastar esse perigo. O Hezbollah esteve sempre pronto para atender ao chamado: da guerra do “Se eu soubesse”, em 2006, à defesa do regime de Bashar al-Assad em 2012, passando pela guerra de apoio de 2023 e, sobretudo, pela guerra de represália travada em nome de Ali Khamenei em 2026, que trouxe ao Líbano uma devastação sem precedentes.
Hoje, o Hezbollah, com o respaldo de Nabih Berri, rejeita o Acordo-Quadro para manter o Líbano como um palco de confrontação e uma moeda de troca nas negociações que o Irã possa utilizar para fortalecer sua posição nas negociações. Quem paga esse preço, porém, é o Líbano como um todo e, em particular, a comunidade xiita, para que o Irã preserve sua influência sobre o país.
Restituir à soberania seu verdadeiro significado implica rejeitar essa instrumentalização e reafirmar que as decisões sobre a guerra, a paz e a gestão dos riscos nacionais pertencem exclusivamente às instituições do Estado, e não a estruturas paralelas que impõem à sociedade custos que ela já não pode suportar.
Sob essa perspectiva, o debate em torno do Acordo-Quadro deixa de ser um simples detalhe técnico para tornar-se um verdadeiro teste. Ou ele será compreendido como um passo, ainda que incompleto, rumo ao restabelecimento do Estado libanês como a única autoridade legítima para decidir os rumos do país, ou será inviabilizado sob o pretexto de considerações regionais, condenando o Líbano a permanecer no papel que lhe foi imposto durante tanto tempo: o de um país onde os interesses dos outros são administrados, em vez de um Estado soberano que conduz suas próprias políticas.
O que acontece hoje não pode ser tratado como uma troca legítima de pressões entre atores de força equivalente. Trata-se de uma violação direta da soberania de um Estado e dos direitos de sua sociedade. Utilizar o Líbano como palco para acertos de contas ou como instrumento de pressão em conflitos regionais não constitui um ato de soberania, nem uma escolha política legítima, tampouco um direito inerente a qualquer ator, interno ou externo. Significa negar ao povo libanês o direito de decidir seu próprio destino e aceitar, ainda que implicitamente, que o Líbano continue sendo tratado como um instrumento, e não como um Estado.
As consequências estão longe de ser teóricas. Elas se manifestam em um custo humano recorrente, em um desgaste econômico crônico, na paralisia das instituições do Estado e no enfraquecimento contínuo de sua capacidade de proteger a população. Seus efeitos vão muito além do presente: a infraestrutura se deteriora, a educação regride e o futuro de gerações inteiras é sacrificado em nome de cálculos dos quais elas jamais participaram.
Neste ponto, já não basta descrever o que acontece como uma simples “redistribuição da pressão”. O que realmente está em curso é a imposição de um custo profundamente injusto a um país frágil, transformando-o de um Estado chamado a defender seus próprios interesses em um território onde se administram interesses alheios. Todo discurso que apresente isso como uma forma de “resiliência” evita uma pergunta fundamental: quem paga esse preço e com que legitimidade ele lhe é imposto?
Restituir à soberania seu verdadeiro significado implica rejeitar essa instrumentalização e reafirmar que as decisões sobre a guerra, a paz e a gestão dos riscos nacionais devem caber exclusivamente às instituições do Estado, e não a estruturas paralelas que impõem à sociedade custos que ela não pode suportar.
Em última análise, o problema não está no fato de que alguns Estados resistam melhor à pressão do que outros. O verdadeiro problema é que essa capacidade de resistência, muitas vezes, é construída transferindo o custo para espaços mais frágeis e vulneráveis. A partir desse momento, qualquer pretensão de legitimidade moral ou política perde o seu fundamento.
A pressão não é apenas uma prova de força.
É também uma prova de justiça.
E, no caso do Líbano, a injustiça é evidente.
Um país paga o preço de conflitos que não escolheu, enquanto toda uma sociedade é obrigada a suportar um peso muito acima de sua capacidade, sem que sequer lhe seja reconhecido o direito de recusá-lo.
Trata-se de uma falha estrutural fatal que precisa chegar ao fim.