

Fiquei profundamente tocada ao assistir à série Antarctica, na Netflix, e me perguntei se nós, no Líbano, seríamos capazes de fazer algo semelhante ao que ocorreu no Japão em 1950, ou se nossa situação é simplesmente desesperadora.
A série gira em torno do modelo representado pela expedição japonesa à Antártida na década de 1950 e mostra como um projeto científico e técnico pode se transformar em uma alavanca para reconstruir o sentimento nacional num contexto de pós-ocupação e derrota.
Ao sair da Segunda Guerra Mundial, o Japão não se limitou a reconstruir sua infraestrutura material. Também procurou reconstruir sua narrativa coletiva e sua imagem no mundo, transferindo o fundamento de sua legitimidade da esfera militar para as esferas científica e civil. A expedição desempenhou um papel simbólico nessa transformação, ao ser apresentada como prova da capacidade da nação japonesa de se reerguer e reintegrar-se à comunidade internacional por meios pacíficos.
O que chama a atenção nessa experiência é que o lançamento da expedição não foi apenas uma decisão administrativa ou científica. Foi, acima de tudo, um ato profundamente político e simbólico, enquadrado por um discurso público que associava o progresso científico à recuperação da dignidade nacional. As instituições educacionais e os meios de comunicação desempenharam um papel central nesse processo por meio de campanhas de mobilização emocional e pedagógica que simplificavam o projeto e o apresentavam como uma aventura humana coletiva, capaz de envolver diferentes setores da sociedade e reunir os recursos necessários para a expedição em um momento em que os recursos do Estado eram limitados.
É precisamente aqui que se evidencia o papel notável desempenhado pela mobilização das crianças. Elementos do ambiente polar, como os pinguins e os cães de trenó, os huskies, foram transformados em veículos emocionais e pedagógicos que inseriam o projeto no imaginário cotidiano e criavam um vínculo afetivo entre as pessoas e a expedição. Esse uso simbólico dos animais esteve longe de ser um detalhe secundário. Ao contrário, constituiu uma maneira eficaz de transformar um projeto complexo em uma história compreensível e capaz de gerar identificação, sobretudo entre as gerações mais jovens.
Nesse sentido, as doações populares não foram apenas uma fonte de financiamento. Também se tornaram um meio de fomentar o sentimento de pertencimento, uma vez que o próprio ato de doar reforçava a sensação de participação em uma realização nacional comum.
Isso nos remete ao que Benedict Anderson chama de “comunidades imaginadas”, nas quais a nação se constitui por meio de narrativas compartilhadas que dão aos indivíduos a sensação de pertencer a uma entidade que ultrapassa suas experiências pessoais. Também se insere no que Eric Hobsbawm descreveu como “a invenção da tradição”, por meio da construção de rituais e práticas que contribuem para legitimar uma nova forma de patriotismo.
Segundo Axel Honneth, o Estado-nação não se constrói apenas por meio de leis e constituições que, no Líbano, perdem sua função e eficácia em razão da corrupção. Ele também se constrói a partir do que Honneth chama de uma “vida ética compartilhada”. Essa vida só pode tomar forma quando os cidadãos compartilham “práticas, tradições vivas e projetos comuns” que promovam a solidariedade e o reconhecimento mútuo, fazendo com que sintam que sua liberdade individual está ligada à liberdade dos outros e ao êxito da coletividade como um todo. É precisamente isso que falta hoje ao Líbano, diante da ausência de qualquer projeto comum capaz de redefinir a identidade nacional para além das lógicas sectárias e da corrupção.
O sucesso da experiência japonesa, no entanto, não foi resultado apenas do discurso. Ele se apoiou em condições estruturais específicas.
A primeira foi a existência de um Estado coeso, capaz, apesar da derrota, de planejar, executar suas políticas e administrar seus recursos. A segunda foi a presença de elites políticas e administrativas conscientes da necessidade de passar de uma legitimidade assentada no nacionalismo militar para uma legitimidade civil e científica, e empenhadas em consolidar essa transformação por meio de projetos concretos. A terceira condição, e talvez a mais importante, foi o nível de confiança pública nas instituições, que permitia aos cidadãos acreditar que suas contribuições, materiais ou simbólicas, seriam de fato utilizadas em benefício do interesse geral.
Sem essa confiança, qualquer tentativa de mobilização popular perde o sentido e se reduz a uma mera formalidade.
Quando pensei em lançar no Líbano uma campanha semelhante de arrecadação de fundos para ajudar a população do Sul, contribuir para a reconstrução e impedir que a dupla xiita instrumentalizasse a ocasião, tornou-se evidente uma realidade radicalmente diferente da japonesa.
A realidade libanesa atual se apresenta, em termos estruturais, como o oposto da experiência japonesa. Em vez de funcionar como um quadro unificador, o Estado se transformou em uma arena de disputa entre forças sectárias e redes clientelistas, o que compromete sua capacidade de lançar qualquer projeto nacional comum. O colapso da confiança entre os cidadãos e as instituições também condena de antemão qualquer possibilidade de uma arrecadação popular em larga escala, já que os recursos públicos são vistos como vulneráveis ao saque ou ao desvio em favor de interesses facciosos.
A isso se soma a coexistência de narrativas antagônicas sobre o próprio sentido do Líbano enquanto entidade política, entre a lógica da “resistência” e a da “soberania”, além de lealdades regionais e internacionais conflitantes. Tudo isso impede o surgimento de uma “narrativa comum” sobre a qual uma mobilização coletiva poderia ser construída.
Nesse contexto, os mecanismos de reconstrução e de ajuda se transformam em instrumentos de reprodução das lealdades políticas. Isso se manifesta no predomínio de instituições de caráter clientelista na distribuição dos recursos, reforçando a dependência em vez de construir uma cidadania baseada na igualdade.
O objetivo dessa comparação, portanto, não é reproduzir o modelo japonês. Trata-se, antes, de evidenciar aquilo que falta no caso libanês: um marco simbólico e institucional capaz de transformar um ato econômico em um ato de pertencimento.
O problema não está apenas na escassez de recursos, mas também na incapacidade de criar um propósito coletivo suficientemente forte para levar os indivíduos a contribuir voluntariamente para um projeto que ultrapasse suas divisões.
Assim, qualquer iniciativa destinada a financiar a reconstrução no Líbano terá alcance limitado enquanto não vier acompanhada da reconstrução da confiança, da formulação de uma narrativa nacional comum e da criação de mecanismos transparentes capazes de romper o vínculo entre a alocação de recursos e as práticas clientelistas.
Em poucas palavras: libertar o Estado de seus ocupantes.
Sem isso, o contraste entre as duas experiências continuará sendo a expressão de profundas diferenças na estrutura do Estado, na natureza de suas elites e nas condições em que pode surgir um sentido nacional comum.