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Líbano: convivência ou medo ritualizado?

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Retrato do autor
Por Mona Fayad
Publicado ago 20, 2026 - 19:45

Durante uma de minhas visitas ao Canadá, passei, como costumo fazer, pela livraria Volume, que reúne valiosas obras de pensamento que já não se encontram no mercado editorial. Ali encontrei um pequeno livro de um autor canadense, Michel Poulin: Vivre et laisser vivre.

Peguei-o imediatamente porque trata da maneira de viver juntos, aquilo que, no Líbano, chamamos de “convivência”. A ideia central do livro parece simples: minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro. Mas a verdadeira questão é: quem estabelece esses limites?

O livro rejeita duas ideias extremas: a liberdade absoluta, que leva ao caos, e o controle total, que conduz à repressão. Em lugar de ambas, propõe outra forma de liberdade: a “liberdade responsável”.

Essas ideias se aproximam do pensamento de John Stuart Mill e de seu “princípio do dano”, segundo o qual a sociedade ou o Estado podem recorrer legitimamente à coerção contra um indivíduo, contra a sua vontade, com um único objetivo: impedir que cause dano aos outros. Elas também encontram eco em Jean-Jacques Rousseau e em sua formulação do contrato social, isto é, na tentativa de conciliar a liberdade individual absoluta do ser humano no estado de natureza com a submissão a uma autoridade política e jurídica na sociedade civil, sem perder por isso a sua liberdade nem se tornar dependente de outros.

O que chama particularmente a atenção nesse livro, porém, é que ele não oferece um discurso teórico. Parte, ao contrário, de exemplos vividos e retirados do cotidiano, da família ao trabalho e, em seguida, ao espaço público.

Recorre a situações concretas para mostrar como o princípio da liberdade se transforma em uma luta diária por influência e poder e, por conseguinte, em uma divergência sobre a própria definição de “direito”.

Como isso se manifesta no Líbano?

Partamos de uma pergunta: temos uma única definição de liberdade? Ou cada grupo define a liberdade de acordo com os seus próprios interesses?

Um grupo considera que somente as suas armas protegem a sua liberdade. Outro entende que essas mesmas armas ameaçam não apenas a sua liberdade, mas também a sua existência e a própria existência do Líbano. Um terceiro considera que é a sua influência que protege a sua liberdade. Essas concepções contraditórias colocam as liberdades em conflito. Em vez de se complementarem e permitirem uma convivência pacífica, desembocam em uma convivência imposta ou em um equilíbrio forçado.

As comunidades confessionais que se enfrentam no Líbano não o fazem porque suas religiões ou culturas sejam diferentes, mas porque são movidas pelo mesmo “desejo mimético”, nos termos de René Girard: o desejo de dominação, de monopolizar o poder e de recorrer ao exterior para se fortalecer. Todas as comunidades atravessaram, em algum momento da história libanesa, uma fase em que exerceram uma forma de hegemonia política: a hegemonia maronita, depois a sunita e, agora, a xiita. Em cada uma dessas etapas, as demais comunidades sentiram o desejo de imitar a dominação do grupo predominante, que viam ao mesmo tempo como “modelo e rival”.

Assim, quando uma comunidade possui armas ou dispõe de influência regional, as demais não exigem necessariamente o seu desarmamento a partir de uma perspectiva estritamente cívica. Elas também são movidas por uma forma de “inveja mimética” e pelo desejo de dispor de uma margem adicional de poder, tanto para se proteger quanto para reforçar a sua posição recorrendo a uma potência externa.

As comunidades libanesas são “gêmeos rivais” que sacrificam os interesses nacionais em favor de impulsos semelhantes: a dominação e o monopólio do poder.

Mas essa rivalidade mimética atingiu hoje o seu ponto culminante. A ordem social atravessa uma crise enquanto as instituições do Estado, único denominador comum entre todos os adversários, desmoronam. É isso que leva alguns a reivindicar segurança autônoma e cantões.

O paradoxo é que a reivindicação de segurança autônoma e de cantões não nasce de uma visão política coerente. Constitui, ao contrário, uma das expressões mais claras da “rivalidade mimética”, uma reação em espelho diante de uma correlação de forças desigual. Há décadas, o Hezbollah conseguiu construir o seu próprio “cantão”, com seu aparato militar, suas instituições financeiras, seus serviços sociais e seu sistema de segurança independente. Quando as demais comunidades veem esse grupo, completamente autônomo dentro do seu próprio “Estado”, dominar ao mesmo tempo a decisão política central, não veem nisso uma parceria entre iguais. Daí que sua reação sociológica natural, alimentada pelo medo por sua própria existência, seja: se o Estado central é incapaz de nos proteger, teremos de construir nossos próprios cantões para sobreviver.

É precisamente para isso que Girard alerta ao falar dos “gêmeos rivais”. Ao tentar resistir ao modelo do Hezbollah ou se proteger dele, as demais comunidades acabam reproduzindo o seu comportamento e reivindicando, também elas, territórios isolados. Ao fazê-lo, servem ao objetivo do Hezbollah: tornar impossível a construção de um Estado soberano, civil, centralizado e regido pelo Estado de direito.

A “crise mimética” e o colapso: a guerra de todos contra todos

Quando a rivalidade mimética atinge o seu ponto culminante, a ordem social desmorona e as fronteiras e diferenças começam a se apagar. É o que Girard chama de “crise mimética”.

Parece que estamos no coração dessa crise, porque as instituições do Estado, nosso único denominador comum, estão desmoronando. Quando o Estado desmorona, cada comunidade passa a se ver como a vítima absoluta e a outra como o demônio que deve ser eliminado. Foi isso que aconteceu durante a guerra civil que vivemos e cujo retorno continua a nos assombrar hoje, à medida que se aprofundam as fraturas confessionais e cada libanês enfrenta um choque após outro.

Historicamente, o sistema pluralista libanês conseguiu, depois de cada crise que atravessamos, reproduzir-se. A cada vez, as comunidades, ou melhor, seus líderes, fabricaram um “bode expiatório” ao qual atribuíram toda a responsabilidade, como forma de descarregar a violência coletiva e reanimar a convivência.

Tudo começou com a expressão “as guerras dos outros” em nosso território, utilizada para explicar a guerra civil. Depois veio a questão dos refugiados palestinos, seguida pela dos refugiados sírios, esses “estrangeiros” a quem se atribuiu a culpa pelo colapso econômico. Em seguida, chegou a vez do juiz Bitar, transformado em bode expiatório do sistema após o crime do porto de Beirute. Até a própria classe política foi apontada em 2019, quando as ruas ergueram o slogan: “Todos significam todos”. E, quando o sistema conseguiu mais uma vez salvar-se, sacrificou algumas figuras. O governador do Banco do Líbano, Riad Salamé, tornou-se assim o bode expiatório encarregado de carregar os pecados de todo o sistema bancário; 40% de seus proprietários pertencem à própria classe política, assim como os do sistema político em seu conjunto. Os demais sobreviveram.

Pode isso realmente ser chamado de “convivência”? Ou trata-se de um ritual que venera o medo?

Essa convivência, reciclada e reproduzida repetidamente por meio de rituais políticos que o sistema soube vender com grande habilidade, mesas de diálogo, distribuição confessional de cargos e vetos recíprocos, não tem como objetivo construir de fato um Estado. Sua finalidade é impedir que a “rivalidade mimética” exploda.

É uma convivência baseada no medo de voltar ao confronto. Em outras palavras, o que é sagrado no Líbano é uma “paz civil precária”, venerada como um ídolo, em nome da qual são sacrificados a justiça, a lei, a prestação de contas, os direitos das vítimas do porto e os dos depositantes, até sacrificar o próprio Estado, a terra e a pátria.

Mas hoje vivemos a fase mais perigosa pela qual o Líbano já passou e a mais grave de suas crises, porque o “mecanismo do bode expiatório” começa a perder eficácia. O sistema já não consegue inventar uma vítima capaz de convencer todos os libaneses. A fratura se aprofundou e já não existe “o sangue de uma vítima comum” capaz de reunir os adversários.

A esperança é que as novas gerações, chamadas a assumir as responsabilidades de amanhã, rejeitem essa “falsa convivência” baseada em enterrar as verdades. A esperança é que a nova geração exija a transição de uma sociedade que barganha suas vítimas para uma sociedade que exige prestação de contas e para um Estado de direito e de justiça, tanto para o porto quanto para a pátria.

 

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