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Um Olho sobre el suceso

«O Amanhecer do Iêmen»: um ponto de inflexão de consequências duradouras (1)

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Por Hisham Dibsi
Publicado out 10, 2026 - 16:38

Da «Tempestade Decisiva» ao «Amanhecer do Iêmen»

A distância entre a «Tempestade Decisiva» e o «Amanhecer do Iêmen» não se resume a onze anos de guerra no Iêmen. Trata-se de uma distância política e estratégica que condensa fracassos acumulados, mudanças na correlação de forças e transformações na posição do Iêmen dentro do conflito regional, até chegar a um momento em que a segurança do mar Vermelho e do estreito de Bab el-Mandeb passou a integrar os cálculos da guerra e de seus possíveis desdobramentos.

Quando a Arábia Saudita lançou a operação «Tempestade Decisiva», em março de 2015, o objetivo declarado era restabelecer a autoridade reconhecida internacionalmente e conter o avanço dos houthis após a tomada de Sanaa e sua progressão em direção a Áden. A intervenção parecia uma tentativa de impedir o colapso de uma configuração política e de segurança cuja manutenção Riad considerava indispensável para proteger suas fronteiras meridionais e evitar que o Iêmen se transformasse em uma base de influência hostil no flanco sul do reino.

No entanto, os anos seguintes demonstraram que a superioridade aérea, por si só, não bastava para estabelecer uma autoridade política estável, que a retomada de posições não significava necessariamente a restauração do Estado e que enfraquecer militarmente um adversário não implicava desmantelar automaticamente sua capacidade de conduzir o conflito. Os houthis mantiveram o controle de Sanaa e de extensas regiões do norte do Iêmen, enquanto as forças que se opunham a eles enfrentavam divisões internas e uma multiplicidade de centros de decisão. Ao mesmo tempo, a crise humanitária e econômica continuava a desgastar a sociedade iemenita.

O problema não estava apenas na dimensão militar, mas na distância entre os objetivos declarados da guerra e a capacidade de transformar os resultados obtidos no campo de batalha em um acordo político viável. É aí que reside uma das principais lições da experiência anterior: não é possível reconstruir o Estado apenas pela retomada do território se o poder continuar dividido entre forças rivais e as instituições permanecerem reféns de lealdades militares e cálculos regionais.

É sob essa perspectiva que deve ser analisada a operação «Amanhecer do Iêmen», lançada pelas forças governamentais iemenitas em outubro de 2026, com apoio saudita, em meio à intensificação dos confrontos na costa ocidental e em regiões de importância estratégica para a navegação no mar Vermelho e no estreito de Bab el-Mandeb.

Da gestão da guerra à transformação de seus parâmetros

O que distingue o momento atual é que a batalha já não se limita às linhas de frente dentro do Iêmen. A frente iemenita passou a estar entrelaçada com a segurança da Arábia Saudita, os interesses do comércio internacional e a competição regional pelas rotas marítimas. Dessa forma, Bab el-Mandeb deixou de ser apenas um estreito geográfico banhado pelo litoral iemenita para se tornar um ponto central de uma equação de segurança e de interesses econômicos que ultrapassa as fronteiras do próprio Iêmen.

É nesse contexto que se pode compreender o deslocamento do centro de gravidade para a costa ocidental e as regiões próximas ao estreito. A retomada dessas posições não visa apenas reduzir a extensão dos territórios controlados pelos houthis, mas também limitar sua capacidade de utilizar a geografia iemenita como instrumento de pressão sobre a Arábia Saudita e a navegação internacional.

Essa mudança, porém, levanta uma questão fundamental: Riad pretende retomar posições estratégicas e garantir a segurança de suas fronteiras e rotas marítimas, ou busca reformular a correlação de forças no Iêmen para impor um acordo político em condições diferentes?

Os três objetivos podem fazer parte de uma mesma estratégia, mas cada um apresenta exigências distintas. Garantir a segurança de um estreito marítimo pode ser possível por meio de uma operação militar relativamente limitada. Já o fim do controle houthi sobre Sanaa exige uma campanha mais ampla e complexa, enquanto a construção de um acordo estável requer o enfrentamento das divisões internas do Iêmen, e não apenas a alteração das linhas de controle territorial.

Esse é o verdadeiro teste para o «Amanhecer do Iêmen»: a operação conseguirá estabelecer uma ligação entre força militar, legitimidade política e reconstrução das instituições do Estado, ou voltará a reproduzir a distância que marcou os anos anteriores de guerra?

Bab el-Mandeb: a geografia que mudou os cálculos da guerra

A evolução dos confrontos mostra que o controle da costa ocidental se tornou um dos principais eixos da batalha. No entanto, anunciar a retomada de posições estratégicas não basta, por si só, para comprovar o controle efetivo do território, nem garante a capacidade de mantê-las. As posições costeiras exigem forças capazes de proteger as linhas de abastecimento e impedir que o adversário volte a ocupá-las ou as ameace a partir de outras frentes.

A troca de ataques envolvendo instalações sauditas também demonstrou que o confronto não ocorre em uma única direção. Quanto maior a importância dos alvos militares e econômicos, maior a probabilidade de represálias em uma área geográfica mais ampla. Assim, a batalha pode deixar de ser uma tentativa de garantir a segurança da navegação e se transformar em uma guerra de desgaste recíproco, na qual os cálculos militares se misturam aos interesses econômicos e aos setores da aviação e da energia.

Portanto, a questão não é apenas quem controla Bab el-Mandeb em determinado momento, mas quem dispõe da capacidade de garantir sua segurança de forma duradoura e quem consegue impedir que o estreito seja utilizado como instrumento de pressão política e militar.

Os houthis e o dilema das forças que os enfrentam

Não se pode tratar os houthis como uma força que deixaria de existir simplesmente por perder algumas posições. Ao longo dos anos de guerra, eles acumularam experiência militar e organizacional, beneficiaram-se do controle sobre instituições e extensos territórios e desenvolveram instrumentos de pressão que ultrapassam as frentes terrestres. Sua relação com o Irã também acrescenta uma dimensão regional ao confronto, embora fosse um erro reduzir todo o movimento iemenita a essa relação e ignorar suas raízes locais.

O desafio enfrentado pelas forças governamentais não consiste apenas em avançar sobre determinadas posições, mas em transformar esses avanços em uma mudança duradoura na correlação de forças. Isso exige coordenação entre as diferentes formações militares, unidade na tomada de decisões, administração política das áreas retomadas e atenção aos interesses locais que influenciam a continuidade ou a interrupção dos combates.

É aqui que surge o dilema das forças contrárias aos houthis. O governo e o Conselho de Liderança Presidencial não são os únicos atores envolvidos. Existem também forças do sul com seu próprio projeto político, formações militares com diferentes bases de apoio e interesses, além de forças locais na costa ocidental, em Marib e em Taiz. Esses grupos podem concordar quanto à necessidade de enfrentar os houthis, mas não necessariamente compartilham uma mesma visão sobre a configuração do futuro Estado ou sobre a distribuição do poder e da riqueza.

A unificação dessas forças não é uma questão organizacional secundária, mas uma condição política e militar para qualquer transformação duradoura. Um avanço no campo de batalha que não esteja sustentado por um consenso sobre a administração das áreas retomadas pode desencadear novos conflitos e reproduzir as divisões sob outras bandeiras.

A lição que a «Tempestade Decisiva» deixou em aberto

A experiência demonstrou que a guerra no Iêmen não pode ser reduzida a um confronto entre a Arábia Saudita e os houthis, nem a uma disputa entre a influência árabe e a iraniana. Trata-se também de uma crise do Estado, do colapso de uma transição política, de uma competição pelo poder e pelos recursos e de um conflito entre diferentes concepções do futuro do Iêmen.

Por isso, a comparação entre a «Tempestade Decisiva» e o «Amanhecer do Iêmen» não deve se basear na intensidade dos ataques aéreos ou no número de posições retomadas, mas nas diferenças entre seus objetivos, suas circunstâncias e a capacidade de transformar a força militar em resultados políticos. A primeira experiência não conseguiu pôr fim à guerra nem reconstruir uma autoridade central estável. Já a nova operação enfrenta um desafio ainda mais complexo: recuperar a iniciativa em meio a divisões iemenitas acumuladas, ameaças transfronteiriças e rotas marítimas que passaram a integrar os cálculos do conflito regional.

Se o «Amanhecer do Iêmen» representar um verdadeiro ponto de inflexão, não será simplesmente porque uma operação militar começou ou porque houve avanços em uma frente, mas porque a correlação de forças poderá mudar de maneira a abrir uma possibilidade política até então inexistente. Por outro lado, se os objetivos militares permanecerem dissociados de um projeto de Estado, esta nova etapa poderá terminar apenas com uma alteração das linhas de confronto, sem modificar a natureza da crise.

É aqui que começam as perguntas mais difíceis, que serão abordadas na segunda parte: o que a Arábia Saudita realmente pretende com esta nova guerra? Quais são os limites do papel iraniano? As forças iemenitas serão capazes de construir uma parceria política que supere suas divergências? E que caminho poderá conduzir ao fim da guerra, em vez de prolongá-la por meio de uma nova rodada de confrontos?

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