


A transformação representada pela operação «Amanhecer do Iêmen» não pode ser compreendida apenas a partir de seus resultados militares imediatos, nem basta examinar as posições declaradas pelas partes envolvidas na guerra. A questão ultrapassa os limites dos confrontos no terreno e alcança a reconfiguração dos equilíbrios regionais, a definição do futuro do Iêmen e seu lugar nos mecanismos de segurança árabe e nas rotas marítimas internacionais.
A comparação entre «Amanhecer do Iêmen» e a operação «Tempestade Decisiva», de 2015, talvez revele a dimensão das mudanças ocorridas na natureza e nos objetivos da guerra. Naquela época, a Arábia Saudita entrou no conflito com o propósito declarado de restabelecer a legitimidade e impedir que os houthis assumissem o controle do Estado iemenita, apoiando-se em ampla superioridade militar e em uma coalizão regional. No entanto, os anos de guerra demonstraram que a superioridade militar não basta para decidir um conflito no qual as divisões internas se entrelaçam com os cálculos regionais e em que a geografia se transforma em um fator de poder tão importante quanto as armas.
Hoje, os cálculos parecem mais complexos. Riad já não enfrenta um adversário local de capacidades limitadas, mas uma força que acumulou experiência de combate, adquiriu tecnologias militares e conseguiu explorar a posição geográfica do Iêmen para pressionar seus adversários. Em contrapartida, a Arábia Saudita passou a compreender melhor o custo de uma guerra aberta e os riscos associados à persistência das ameaças às suas fronteiras, instalações vitais e à segurança da navegação no mar Vermelho.
Assim, a questão não diz respeito apenas ao que a operação poderá alcançar militarmente, mas à possibilidade de estabelecer uma nova etapa que ponha fim à lógica do desgaste ou, pelo contrário, desencadeie outra rodada de guerra, com meios ainda mais perigosos.
Arábia Saudita: entre um desfecho militar decisivo e a reconfiguração dos equilíbrios
A Arábia Saudita enfrenta um desafio que vai além da retomada da iniciativa militar. O êxito de qualquer iniciativa não se mede apenas por sua capacidade de infligir perdas aos houthis, mas também pela possibilidade de impedir que reconstruam seu poder e privá-los da capacidade de utilizar o território iemenita como plataforma para ameaçar o reino e as rotas marítimas.
Alcançar esse objetivo, porém, exige mais do que pressão militar. A questão fundamental diz respeito à alternativa política capaz de preencher o vazio e à capacidade das forças iemenitas contrárias aos houthis de superar suas divergências e apresentar um projeto de Estado que transcenda os interesses locais e faccionais.
É justamente aí que reside um dos problemas da experiência anterior: os objetivos se multiplicaram, as prioridades dos aliados divergiram, enquanto a construção de uma autoridade iemenita capaz de unificar o país permaneceu uma meta constantemente adiada. Se essa situação se repetir, poderão ocorrer avanços militares sem que deles resulte uma estabilidade duradoura.
Irã e houthis: os limites da influência e da autonomia de decisão
Não é possível dissociar a posição dos houthis de sua relação com o Irã. Entretanto, reduzir o movimento iemenita à condição de mero instrumento iraniano significa ignorar suas raízes locais, seus interesses próprios e sua capacidade de tomar decisões orientadas por seus cálculos internos.
Teerã se beneficia da presença de uma força aliada nas proximidades de Bab el-Mandeb e do mar Vermelho, o que lhe permite ampliar seus instrumentos de pressão regional e elevar o custo de uma confrontação para seus adversários. Essa influência, contudo, não significa necessariamente que o Irã controle todas as decisões dos houthis ou que possa garantir os resultados de uma eventual escalada.
Teerã pode enxergar na continuidade dos confrontos uma maneira de ampliar sua margem de negociação, mas também pode se ver diante dos riscos de uma ampliação da guerra, especialmente se as operações se transformarem em uma ameaça direta à navegação internacional ou aos interesses americanos.
Quanto aos houthis, eles enfrentam uma equação igualmente complexa: a escalada pode lhes permitir assegurar sua presença em qualquer acordo, mas, ao mesmo tempo, aumenta o custo da guerra para a sociedade iemenita e eleva a possibilidade de que suas capacidades e os territórios sob seu controle sejam alvo de ataques. Entre as considerações locais e os cálculos iranianos, a questão do grau de autonomia das decisões dos houthis permanece um fator essencial para determinar os rumos da próxima etapa.
Emirados Árabes Unidos e o sul: objetivos contraditórios
A análise da situação iemenita não estaria completa sem um exame do papel dos Emirados Árabes Unidos, especialmente no sul, no litoral e nos portos. Embora a Arábia Saudita e os Emirados compartilhem interesses no enfrentamento aos houthis, não necessariamente possuem a mesma visão sobre o futuro do Iêmen e sua organização política.
Os cálculos dos Emirados estão relacionados à segurança das rotas marítimas e dos portos, bem como às suas relações com as forças do sul, que defendem projetos políticos diferentes daquele de um Estado iemenita unificado. Surge aqui uma contradição fundamental: as operações militares contribuirão para unificar a frente contrária aos houthis ou reacenderão as divergências entre seus integrantes?
O enfraquecimento dos houthis, caso não seja acompanhado de um entendimento entre sauditas e emiradenses sobre a configuração do futuro poder político, poderá abrir caminho para novos conflitos em torno da influência, dos recursos e dos portos. Nesse caso, o problema não estaria na ausência de poder militar, mas na falta de um projeto político capaz de transformá-lo em estabilidade.
Bab el-Mandeb e o mar Vermelho: a dimensão internacional da guerra
A posição geográfica do Iêmen confere ao conflito dimensões que ultrapassam suas fronteiras. Bab el-Mandeb não é apenas uma passagem marítima, mas um elo fundamental no fluxo de comércio e energia entre a Ásia e a Europa. Qualquer ameaça persistente à navegação pelo estreito coloca as potências internacionais diante de preocupações diretas de segurança e de natureza econômica.
Nesse contexto, a ampliação dos confrontos poderá provocar um aumento das intervenções estrangeiras, mas também poderá impulsionar um acordo motivado pelos interesses internacionais em garantir a liberdade de navegação e impedir que o mar Vermelho se transforme em um cenário de conflito permanente.
É nesse contexto que se destaca a importância de Omã, graças a seus canais de comunicação e à sua experiência em mediação, ao lado do papel americano, que poderá oscilar entre o apoio à pressão militar e a busca pela contenção da escalada. Entretanto, os interesses internacionais não coincidem necessariamente com os dos iemenitas. As grandes potências poderão se contentar em garantir a segurança das rotas marítimas sem enfrentar as causas da guerra e das divisões internas.
As perspectivas futuras: entre a solução política e o desgaste
É possível imaginar três caminhos principais para a próxima etapa.
O primeiro seria o êxito das operações em modificar a correlação de forças, abrindo caminho para negociações mais sérias que obrigassem os houthis a abandonar o uso da força para impor suas escolhas e permitissem reconstruir as instituições do Estado com base na parceria nacional.
O segundo seria uma redução da intensidade das operações sem um desfecho decisivo, levando a guerra de volta a uma dinâmica de desgaste mútuo, com a persistência das divisões iemenitas e da multiplicidade de centros de influência. Essa possibilidade não pode ser descartada, considerando as experiências dos últimos anos e a capacidade das partes de se adaptar às perdas sofridas.
O terceiro seria uma ampliação regional dos confrontos, com os riscos que isso representaria para a Arábia Saudita, o mar Vermelho e os interesses internacionais, transformando o Iêmen em mais um cenário de acerto de contas regionais. Esse caminho poderia levar a intervenções mais amplas, sem necessariamente garantir uma solução política mais estável.
Existe, porém, outra possibilidade, que depende da capacidade das partes de extrair lições da experiência anterior: transformar a pressão militar em um meio de alcançar uma solução política, e não em um fim em si mesma. Isso exige um consenso regional que impeça a perpetuação da guerra, além de entendimentos entre os iemenitas que enfrentem a questão do sul, devolvam às instituições do Estado o papel que lhes cabe e ponham fim à multiplicidade de exércitos e centros de decisão.
Em última análise, a população iemenita não pode ficar ausente dos cálculos que definem o futuro de seu país. A sociedade iemenita pagou um preço altíssimo em recursos, estabilidade e unidade, enquanto o Estado permaneceu incapaz de garantir um mínimo de segurança, serviços e direitos.
«Amanhecer do Iêmen» poderá representar um ponto de inflexão com consequências duradouras, mas não se tornará tal apenas com uma mudança nas linhas de frente. O verdadeiro desafio está na capacidade de passar da gestão da guerra ao seu fim, e dos equilíbrios temporários de poder à construção de um Estado capaz de proteger sua soberania e unificar sua sociedade.
Pois o critério definitivo não é quem vence esta rodada militar, mas quem consegue pôr fim à guerra, reconstruir o Estado e restituir aos iemenitas o direito de decidir seu próprio futuro.



















