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Um Olho sobre el suceso

Escalada eleitoral
Por
Hisham Dibsi
Publicado
set 1, 2026 - 04:18

Três polos políticos dominam hoje a vida política cotidiana em Israel, às vésperas das eleições para a vigésima sexta Knesset, marcadas para 27 de outubro. O primeiro é o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, aliado às correntes mais extremas do sionismo religioso. Diante dele está Naftali Bennett, oriundo da direita nacionalista e aliado ao centrista Yair Lapid. O terceiro, vindo do establishment militar, é o ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot, que pode ser o rival mais perigoso de Netanyahu. As pesquisas de opinião mudam constantemente. No entanto, até agora há um dado que permanece inalterado: nenhum dos três polos parece capaz de obter o avanço necessário para formar o próximo governo. O que suas plataformas eleitorais compartilham de forma mais evidente é uma ausência: nenhuma questão realmente ligada aos direitos do povo palestino ou ao seu futuro na Cisjordânia e na Faixa de Gaza ocupa um lugar significativo, enquanto o papel dos partidos árabes em Israel é ignorado. Quem acompanha as negociações diárias e observa as manobras internas em torno da formação de alianças, tanto públicas quanto secretas, pode perceber a dimensão do oportunismo e a lógica generalizada de chantagem política que rege as relações entre partidos e forças políticas. Isso é especialmente visível entre as pequenas formações e aquelas que apostam em sua capacidade de fazer pender a balança, como Avigdor Lieberman, sionista laico, assim como entre os representantes dos partidos religiosos, envolvidos em uma disputa permanente para levar cada vez mais longe o extremismo e as exigências. Nessa perspectiva, a forma como essas forças tratam os palestinos torna-se compreensível dentro da mesma lógica, inclusive do ponto de vista moral, se acrescentarmos a barreira psicológica criada pelo ataque de 7 de outubro, que ergueu um muro ainda mais alto e mais brutal do que o muro de separação de concreto. Nesse contexto, pode-se concluir que as próximas eleições serão diferentes das anteriores em vários aspectos. Para Netanyahu, seu resultado representa um acerto de contas existencial, tanto político quanto pessoal: ou ele permanece no governo ou acaba na prisão. Isso o levou a redobrar os esforços para reorganizar sua frente interna, ao ritmo das guerras em curso na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, no sul do Líbano e nas Colinas de Golã. O sangue de libaneses, palestinos e sírios tornou-se, assim, combustível da atual campanha eleitoral. Por outro lado, o deputado da Knesset Tzvi Sukkot, do Sionismo Religioso, declarou: “Matamos cem mulheres e crianças em uma única noite e ninguém se importa. Então, por que não matar mais? O processo de desumanização dos palestinos já foi concluído.” Essas declarações foram reproduzidas em um artigo do jornalista Jack Khoury publicado no Haaretz em 18 de maio de 2025. O que hoje ocorre de múltiplas formas em toda a Cisjordânia, e que vem sendo chamado de “revolta dos colonos”, busca decidir de uma vez por todas o destino da Cisjordânia em favor de sua anexação e da imposição da soberania israelense. Essa mudança reflete o afastamento da imensa maioria dos israelenses em relação à corrente sionista, laica e democrática que no passado foi encarnada pelo movimento trabalhista, particularmente durante a fase de fundação do Estado. Nenhum dos três polos contesta o conteúdo das palavras de Sukkot, mesmo quando Netanyahu se vê obrigado a descrever as formas mais atrozes de violência simplesmente como “distúrbios” que prejudicam a imagem de Israel. Os três polos também não divergem de forma substancial quanto à implementação do projeto de assentamentos E1, a leste de Jerusalém, exceto em aspectos formais que não alteram o curso dos acontecimentos. Isso significa que quem vencer as próximas eleições não se afastará dessa trajetória. A solução de dois Estados é rejeitada pela mentalidade israelense predominante, enquanto a destruição da entidade política e administrativa palestina continuará sendo considerada uma necessidade para concluir a anexação, a judaização e a extensão da soberania sobre a “Judeia e Samaria”, segundo sua própria terminologia. Uma perigosa bifurcação Depois que pipas foram encontradas perto do assentamento de Nahal Oz, atrás da cerca de segurança que circunda a Faixa de Gaza, o Exército israelense anunciou, após examiná-las, que elas não continham substâncias suspeitas nem perigosas. Ainda assim, seguiram-se ameaças israelenses de escalada. Quadros do Hamas foram detidos, e a aviação lançou ataques contra hospitais e tendas, causando vítimas civis. Ao mesmo tempo, a diplomacia israelense fala nos fóruns internacionais sobre a ameaça existencial representada por essas pipas e seus fios finos, enquanto os mortos desaparecem do debate. Também no nível militar foi indicado que a próxima fase poderá incluir planos e reflexões que podem desembocar em uma nova ocupação da Cidade de Gaza, com o objetivo de eliminar o que resta do Hamas. Por meio desse modelo de Gaza, somado ao que ocorre na Cisjordânia após a desumanização dos palestinos, surge uma equação eleitoral na qual o número de mortos e feridos aumenta de forma constante com o objetivo de colher votos. Simplesmente não sabemos quanto mais sangue terá de ser derramado para que um partido conquiste uma cadeira adicional na próxima Knesset. Tudo isso, enquanto o mundo presencia diariamente, em imagem e som, o que está acontecendo, aponta para o fim do projeto sionista laico e socialista em nome do qual o Estado de Israel pretendia ser um oásis democrático no deserto árabe e o representante da civilização ocidental em um Oriente Médio apresentado como selvagem. Também parece ter chegado ao fim o debate entre as elites israelenses que defendiam a entrada em uma fase pós-sionista e a busca de soluções baseadas no reconhecimento do direito dos palestinos à autodeterminação. Essas eleições inauguram uma perigosa bifurcação, alimentada por mitos bíblicos e rituais talmúdicos, a serviço do triunfo da ideia da Grande Israel sobre os mais de 27 mil quilômetros quadrados da Palestina histórica, aos quais poderiam se somar outros territórios ocupados e anexados, como as Colinas de Golã. Foi também nesse contexto inquietante que foi publicada a carta aberta assinada por 102 ex-diplomatas britânicos e franceses, na qual se afirma que “a Palestina está sendo apagada diante dos olhos do mundo”. Na carta, datada de 22 de agosto, eles pediram aos governos britânico e francês que aplicassem as decisões da Corte Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional, suspendessem determinadas formas de cooperação econômica e militar, adotassem medidas concretas contra os investimentos ligados aos assentamentos e utilizassem sua influência política e econômica para preservar a possibilidade de estabelecer um Estado palestino. No entanto, a resposta dos Estados continua muito aquém do necessário. A transformação de Israel “democrático” em um Israel “bíblico” torna ainda mais complexo o desafio enfrentado pelo campo da paz palestino e árabe. Esse desafio já não se limita à capacidade de preservar a entidade política palestina, mas reativa a ideia da Palestina histórica como contraponto ao projeto do Grande Israel. E, uma vez que o nascimento do Estado de Israel foi, em grande medida, uma iniciativa europeia e norte-americana, seria justo que o nascimento do Estado da Palestina também o fosse.

Sobre o fundamentalismo religioso… A última dança da morte (3/3)
Por
Hisham Dibsi
Publicado
ago 25, 2026 - 04:34

A última dança da morte começou com o golpe contra as instituições da Autoridade Nacional Palestina em 2007, consequência direta do surgimento de uma dualidade de poder após a eleição de Ismail Haniyeh como primeiro-ministro. No entanto, sua principal missão consistia em implementar a política do presidente da Autoridade, eleito pelo voto popular, no âmbito de um sistema eleitoral híbrido: os eleitores escolhem metade dos membros do Conselho Legislativo por meio de um sistema de distritos uninominais, votando diretamente em um candidato, e a outra metade por meio de listas partidárias, considerando todo o território como uma única circunscrição eleitoral. O número de cadeiras conquistadas por cada lista é determinado de acordo com a porcentagem de votos obtida. Segundo a definição estabelecida pelos Acordos de Oslo, a Autoridade Nacional Palestina é uma autoridade com autonomia limitada que administra três categorias de áreas nos territórios palestinos ocupados em 1967, cada uma com seu próprio regime de segurança e administração. Tudo isso ocorre em um contexto de sobreposição de competências entre os serviços de segurança palestinos e o exército de ocupação israelense, além da atividade sistemática dos colonos, que contam com proteção militar e de segurança, bem como com recursos financeiros para construir e ampliar assentamentos na Cisjordânia. Ao mesmo tempo, a Autoridade Nacional Palestina precisava enfrentar duas questões de grande importância: a primeira, o destino de Jerusalém Oriental; a segunda, a questão dos refugiados palestinos na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e na diáspora, que representam, na realidade, cerca de metade da população palestina. O que foi exposto revela um problema profundo nas políticas adotadas para formular soluções capazes de responder às aspirações dos palestinos sem entrar em choque com a busca de um acordo histórico com o Estado de Israel que leve à sua retirada dos territórios palestinos ocupados. O cerne desse problema estava no fato de que a Autoridade Nacional Palestina baseava suas políticas na adesão à legitimidade política internacional e, como autoridade surgida dos Acordos de Oslo, apoiava-se no quadro político e jurídico decorrente deles. O Hamas, uma vez que passou a contar com representantes dentro da Autoridade, baseava, em contrapartida, suas decisões e posições no conceito de direito histórico e religioso, e não no de direito político tal como reconhecido pela comunidade internacional. Surgiu, assim, uma contradição objetiva entre o direito histórico e o direito político, uma contradição para a qual não era fácil encontrar uma fórmula de convivência dentro de uma mesma autoridade. A coexistência entre a presidência da Autoridade e a chefia do governo desmoronou, portanto, menos de um ano depois das eleições, abrindo caminho para o confronto que culminou com a tomada, pelo Hamas, das instituições da Autoridade Nacional Palestina na Faixa de Gaza em 2007. Uma coexistência impossível O governo de Ismail Haniyeh obteve a confiança do Conselho Legislativo no fim de março de 2006. No entanto, a coexistência com a presidência palestina deteriorou-se rapidamente e atingiu seu auge em junho de 2007, quando as forças de segurança do Hamas lançaram um amplo ataque contra as instituições da Autoridade Nacional Palestina na Faixa de Gaza. Segundo dados das Nações Unidas, os confrontos deixaram 161 mortos, entre eles 41 civis, 11 mulheres e 7 crianças, além de cerca de 700 feridos. O que ocorreu indica que a direção do movimento não soube avaliar a dimensão de sua vitória popular nas eleições. Também perdeu a flexibilidade política que poderia ter permitido a continuidade da coexistência, ao menos por mais alguns anos, dentro de uma democracia palestina nascente. A forma sangrenta como o conflito foi resolvido refletiu igualmente o predomínio do pensamento militar e de segurança sobre qualquer outra consideração e demonstrou a opção por se apoderar, pela força, dos principais centros e aparelhos do poder, apesar de o primeiro-ministro e um grande número de ministros pertencerem ao próprio movimento. Nesse sentido, o processo democrático não parecia constituir, na visão da direção do movimento, um fim em si mesmo, mas antes um meio de chegar ao poder e controlar suas instituições. Os efeitos da divisão e do golpe prolongaram-se por quase duas décadas, durante as quais o processo democrático ficou paralisado não apenas na Faixa de Gaza, mas também, por extensão, na Cisjordânia, nas instituições da Organização para a Libertação da Palestina e na vida sindical. Isso provocou uma deterioração contínua da estrutura das instituições nacionais e o predomínio de políticas emergenciais e temporárias em detrimento de políticas de Estado dotadas de uma dimensão estratégica clara, até o ponto em que a gestão da divisão substituiu a construção das instituições do Estado. Quanto ao poder do Hamas em Gaza, orientou-se para o fortalecimento de seu aparato de segurança a fim de consolidar o controle, ao mesmo tempo em que desenvolvia sua capacidade militar para resistir à ocupação. No entanto, desta vez, após a retirada israelense da Faixa de Gaza em 2005, o confronto já não se baseava principalmente em atentados suicidas, mas em foguetes e operações militares lançadas a partir de túneis e posições subterrâneas. Paralelamente, a «cultura dos túneis» passou a fazer parte da vida econômica da Faixa, já que eles eram usados para introduzir bens e mercadorias, tanto para uso civil quanto militar. Em determinado momento, a «economia dos túneis» chegou inclusive a ser apresentada como uma solução para a deterioração da economia, enquanto o desemprego ultrapassava 40% da população economicamente ativa e os índices de pobreza atingiam níveis recordes. Para a direção do Hamas, essa realidade não constituiu motivo suficiente para rever seu modelo de governo. Seu custo social e econômico foi considerado, ao contrário, como o preço da «jihad sagrada» e do confronto com a ocupação, travado por meio de foguetes disparados à distância e de operações realizadas a partir do subsolo. Ao mesmo tempo, o movimento mantinha, em uma frente paralela, negociações permanentes com o Fatah e as demais facções em busca de uma reconciliação nacional entre «irmãos». Em outras palavras, a autoridade de fato em Gaza combinava, de um lado, a consolidação da divisão e, de outro, a condução de negociações de reconciliação, em um paradoxo político que se prolongou por muitos anos. Os jogos da reconciliação O Hamas sofreu o impacto da vitória, assim como o Fatah sofreu o impacto da derrota. Um dos efeitos desse choque da vitória foi que a confusão e a hesitação passaram a dominar as posições e declarações, refletindo certo receio por parte daqueles que nunca antes haviam se testado no governo e que só assumiram as rédeas do poder pela primeira vez depois de vencer as eleições. Depois de décadas de mobilização exagerada em torno das alegações de integridade, do desapego em relação ao poder e à sua corrupção, e da dedicação à luta e ao martírio, a posição da Jihad Islâmica aprofundou essa confusão. A organização recusou-se a assinar o «Documento de Concórdia Nacional», elaborado pela liderança do movimento de prisioneiros nas prisões israelenses, devido à sua contínua rejeição aos Acordos de Oslo, que constituíam a base política e jurídica da Autoridade Nacional Palestina. Declarou que permaneceria fiel à sua linha jihadista, afastada do poder e da corrupção que ele traz consigo. A maioria das demais facções, em contrapartida, assinou o texto conhecido como «Documento dos Prisioneiros», que continha disposições combinando o apoio ao esforço da OLP para estabelecer um Estado palestino independente com a adoção da resistência no âmbito de um consenso nacional. Posteriormente, essas disposições foram transformadas no «Documento de Concórdia Nacional para um Diálogo Abrangente», aprovado em Ramallah e Gaza nos dias 25 e 26 de junho de 2006. No entanto, essas tentativas não conseguiram produzir uma fórmula de parceria nacional no poder até que a Arábia Saudita interviesse no processo de reconciliação, levando ao chamado «Acordo de Meca» em fevereiro de 2007. O acordo foi além do Documento de Concórdia Nacional e avançou no sentido de estabelecer uma parceria efetiva e uma divisão de poder entre os dois polos do sistema político palestino, Fatah e Hamas, bem como entre a presidência e a chefia do governo. Com base nisso, foi formado o governo de Ismail Haniyeh em março de 2007. No entanto, a primavera da reconciliação durou menos de três meses. Tudo desmoronou no início de junho daquele mesmo ano, quando as forças e os serviços de segurança vinculados ao Hamas tomaram as instituições da Autoridade Nacional Palestina na Faixa de Gaza, considerando esse o caminho mais curto para monopolizar o poder e retornar a uma política de acusações de traição e exclusão. Essa situação prolongou-se por quatro anos, antes que a mediação egípcia interviesse novamente e conduzisse ao «Acordo do Cairo» de maio de 2011. O fracasso voltou a se repetir e, desta vez, o Catar apresentou uma nova iniciativa que desembocou na chamada «Declaração de Doha» em fevereiro de 2012. Depois veio o «Acordo da Praia», firmado em Gaza em abril de 2014, que conseguiu formar um governo de consenso nacional chefiado por Rami Hamdallah. No entanto, ele também não durou muito, e a sequência de iniciativas de reconciliação foi interrompida por quase três anos, antes que o Egito retomasse, em 2017, seu papel de mediador no dossiê da reconciliação, culminando no segundo «Acordo do Cairo». A Argélia tentou depois promover uma nova reconciliação em 2022 por meio da chamada «Declaração de Argel». O último episódio dessa sucessão de iniciativas veio da China, que patrocinou um entendimento entre Fatah e Hamas e deu origem à chamada «Declaração de Pequim» em julho de 2024, sem que esta tampouco chegasse a se transformar em um acordo aplicável. Chegamos, assim, a uma longa série de tentativas de acordo, com a participação de países árabes e estrangeiros como mediadores ou patrocinadores, enquanto a Autoridade Nacional Palestina continuou aplicando uma política de flexibilidade e acomodação. No entanto, o resultado permaneceu nulo. O sarcasmo e o ceticismo diante desse processo disseminaram-se amplamente entre a população palestina, a ponto de os principais negociadores parecerem já não ter nada de novo a discutir. Tornou-se comum dizer que aquilo não passava de «turismo da reconciliação», a repetição de uma cena em que já restava muito pouco a esconder depois que a roupa suja havia sido exposta em público. Depois do Dilúvio de Al-Aqsa No próximo mês de novembro, data prevista para as eleições do Conselho Legislativo, se elas de fato forem realizadas, ocorrerão no primeiro mês do quarto ano do «Dilúvio de Al-Aqsa», o ataque que gerou uma guerra de extermínio e deslocamento que prossegue, em diferentes intensidades, e à qual nem os acordos de cessar-fogo nem o bloqueio conseguiram pôr fim. Porque o derramamento de sangue judeu, como ocorreu no ataque de 7 de outubro de 2023, é tratado como uma licença para derramar sangue palestino e levar a violência ainda mais longe, tornando-se assim um novo emblema de um conflito permanente após o fracasso da primeira tentativa de acordo histórico por meio dos Acordos de Oslo. Todos compreenderam que derrubar Oslo por qualquer um dos dois lados é muito mais fácil do que construir um processo de paz complexo. Basta que um homem armado atire contra o primeiro-ministro Yitzhak Rabin enquanto ele exorta a sociedade israelense a optar pela paz para que todo o edifício desmorone, e basta que o Hamas execute um atentado suicida para que fique exposta a incapacidade da Autoridade Nacional Palestina de proteger seu povo. O exército israelense volta então a exercer suas funções como exército de ocupação, enquanto os colonos avançam na construção de novos assentamentos, até chegar à imposição da soberania israelense sobre a maior parte da Cisjordânia. Ao mesmo tempo, o ministro israelense da Segurança Nacional, Ben-Gvir, exige que dezenas de palestinos sejam mortos todos os dias, de forma permanente e sistemática, até convencer os habitantes de Gaza de que devem emigrar. A situação atual está profundamente ligada a uma série de erros cometidos pela Autoridade Nacional Palestina na gestão de seu conflito interno com todos aqueles que contribuíram para o retorno da violência. Essa é a primeira raiz do fracasso das tentativas, prolongadas ao longo de quatro décadas, de estabelecer uma fórmula de ação conjunta entre a Organização para a Libertação da Palestina e o Hamas. A esse respeito, o autor destas linhas escreveu a seguinte conclusão há dois anos, por ocasião do aniversário da Declaração de Independência da Palestina, em 15 de novembro: «A questão da reconciliação não é responsabilidade do Fatah, já que o peso político do movimento não lhe confere a prerrogativa de conduzir esse processo, mas apenas de contribuir para sua concretização. Tampouco se pode discutir qualquer reconciliação nem empreender qualquer diálogo que ultrapasse o contrato social e político representado pela “Declaração de Independência da Palestina”, como documento de referência supremo para todos, até que seja aprovada a prometida Constituição palestina. Da mesma forma, o peso considerável do Hamas não lhe dá o direito de renegar esse contrato social e político enquanto a sociedade palestina permanecer apegada a ele e continuar lutando orientada por seus princípios. O Hamas, como movimento em rebelião contra a ordem política baseada no interesse nacional palestino, não tem o direito de estabelecer as regras do diálogo para a reconciliação, mesmo que as demais facções concordem, porque minar a legitimidade e afastar-se dela constitui precisamente o ponto de partida para fazer fracassar o diálogo. Foi isso que vimos na “Declaração de Pequim”. Da mesma forma, definir a rebelião do Hamas como uma rebelião interna obriga a Autoridade Palestina a dialogar com o movimento apenas em solo palestino, e não em qualquer capital estrangeira. A lógica e a finalidade da reconciliação consistem em trazer o movimento rebelde de volta ao âmbito da legitimidade por meio de uma mudança em seu comportamento e em suas políticas, e não em submeter a legitimidade e as leis às suas exigências nem em passar por cima do conteúdo e do texto da “Declaração de Independência”. A insistência em falar da “reforma da Organização para a Libertação da Palestina”, de sua reconstrução, da “sacralização do consenso nacional” e de todos os termos derivados dessas expressões, que carecem de um significado preciso ou de uma definição válida, serve apenas para contornar as contradições em favor de uma lógica tribal que costuma terminar em acusações de traição. Isso enfraquece nossas opções nacionais e abre a porta para agendas que não são palestinas.» Por fim, é indispensável reconsiderar nossa compreensão, nosso comportamento e nossas estratégias para construir o Estado da Palestina, partindo do princípio de que já não podemos nos permitir confundir os conceitos da revolução e a filosofia dos antigos movimentos de libertação com os conceitos de construção do Estado no mundo contemporâneo. Neste breve panorama, cabe assinalar que a Autoridade Nacional Palestina cometeu dois erros que nunca foram debatidos com o rigor metodológico necessário para preservar a ordem política baseada no interesse nacional palestino. O primeiro erro ocorreu durante a etapa de transição da aplicação dos Acordos de Oslo, entre 1993 e 2000, quando o presidente Yasser Arafat adotou em relação ao Hamas uma política de acomodação, aproximação e fraternidade, enquanto o movimento travava abertamente uma guerra destinada a fazer fracassar o acordo e recorria à violência por meio de atentados suicidas. Na prática, essa política consolidou a dualidade de poder na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. O segundo erro ocorreu durante a preparação das segundas eleições para o Conselho Legislativo, no início de 2006, quando o Hamas foi autorizado a participar do pleito sem ter declarado previamente sua adesão às opções nacionais estabelecidas pela «Declaração de Independência» nem aos compromissos da Autoridade perante Israel e a comunidade internacional. Esse erro não esteve relacionado apenas à decisão do presidente Mahmoud Abbas, mas também às pressões excepcionais exercidas por Washington naquele momento. Por isso, é indispensável tornar públicos os documentos de arquivo correspondentes para que possamos avaliar objetivamente aquele episódio e suas consequências persistentes sobre o nascente sistema político palestino. O paradoxo é que o Hamas se adaptou às leis e às regras dos Acordos de Oslo, ao mesmo tempo em que manteve até hoje o slogan de acabar com Oslo. A violação das grandes opções nacionais consagradas nesses documentos, juntamente com a dualidade de poder, destruiu por dentro os elementos de força do sistema político palestino e permitiu que os adversários da criação de um Estado palestino implementassem suas políticas, como estamos vendo hoje. Por fim, o fracasso do acordo entre os dois povos pode ser resumido no sucesso dos extremismos de ambos os lados em reproduzir a violência e na incapacidade de alcançar a justiça. O acordo político concebido pelas elites dirigentes carece de uma verdadeira concepção de reconciliação histórica entre israelenses e palestinos, uma reconciliação respaldada por forças sociais interessadas em rejeitar a violência e orientada pela justiça.

Sobre o fundamentalismo religioso…  Dança da morte (2/3)
Por
Hisham Dibsi
Publicado
ago 18, 2026 - 13:32

A Irmandade Muçulmana passou da pregação à atividade política e jihadista na Palestina por meio da reestruturação de sua organização, que assumiu a forma do Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas. Essa transformação foi acompanhada por uma considerável ampliação de sua base popular. O movimento passou então a buscar a imposição de sua própria concepção do interesse palestino, como exposto na primeira parte desta análise. Em sua política declarada, o Hamas se apoiou em dois pilares principais: derrubar os Acordos de Oslo e denunciar a má gestão e a corrupção da Autoridade Palestina. Ao mesmo tempo, promoveu as palavras de ordem de reforma e mudança, dirigindo suas críticas contra a Autoridade, seus ministérios e órgãos, bem como contra a Organização para a Libertação da Palestina, estrutura política palestina detentora da representação oficial e da legitimidade internacional. Quanto às suas atividades jihadistas, militares e de segurança, elas constituíram para o movimento nascente a porta de entrada para sua transformação, de um grupo partidário elitista e fechado em um amplo movimento popular. Essa transformação ocorreu por meio do recurso à violência durante o que chamou de Intifada de Al-Aqsa. O Hamas levou então o uso da violência tão longe quanto suas capacidades permitiam, convencido de que a jihad suicida levaria à libertação de Jerusalém e de todo o território palestino da ocupação sionista. Essa orientação seguia o modelo revolucionário da República Islâmica do Irã e a aliança com o regime de Hafez al-Assad na Síria, como se essas duas experiências, por si sós, encarnassem os mundos árabe e islâmico. Ao final da Intifada de Al-Aqsa e após a morte do presidente Yasser Arafat, a correlação interna de forças entre os palestinos se inclinava a favor do Hamas. À medida que se aproximavam as eleições legislativas de janeiro de 2006, foi emitida uma fatwa autorizando a participação no pleito, sem se deter nas leis que o regiam, em sua relação com os Acordos de Oslo nem nos compromissos da Autoridade Palestina com Israel e com a comunidade internacional. O movimento se apoiou em sua ampla base popular, favorável à luta armada em todas as suas formas, ao mesmo tempo em que mantinha sua palavra de ordem de derrubar o “acordo da traição”. Fortalecido por essa nova base popular, concorreu às eleições sob a bandeira da “Mudança e Reforma”. A prova do poder O Hamas conquistou 74 das 132 cadeiras do Conselho Legislativo e obteve, assim, a maioria. Seu dirigente Ismail Haniyeh tornou-se primeiro-ministro, enquanto Mahmoud Abbas permanecia como presidente eleito da Autoridade Palestina. Abbas não exigiu que o Hamas alterasse seu programa partidário, assim como não exigiu isso das demais facções que participavam do governo. No entanto, ressaltou a necessidade de que o governo e todas as instituições da Autoridade respeitassem os acordos assinados com Israel e os compromissos assumidos perante a comunidade internacional. Essa posição se baseava em uma distinção essencial entre, de um lado, os partidos e as facções com seus respectivos programas e, de outro, a instituição que exerce o poder, supostamente encarregada de representar a entidade política palestina. Em princípio, trata-se de uma distinção própria dos sistemas parlamentares e dos Estados modernos. Se voltarmos ao programa eleitoral com o qual o Hamas concorreu sob a bandeira da “Mudança e Reforma”, encontraremos um documento político que incluía disposições sobre os princípios nacionais e a resistência, a proteção das liberdades políticas e do pluralismo, a alternância pacífica no poder, a rejeição dos confrontos internos, o respeito aos direitos das minorias, a proibição das prisões políticas, o combate à corrupção e a reforma da Justiça. O programa também propunha fazer da sharia islâmica a única fonte da legislação, além de uma série de disposições sociais e econômicas que, em sua maioria, pouco diferiam das defendidas por outras forças políticas palestinas. O programa continha dezoito seções, cada uma delas dividida em vários pontos detalhados. No entanto, esse documento, que representava para o Hamas sua primeira grande prova democrática no exercício do poder, não resistiu por muito tempo à realidade da dualidade institucional surgida entre a presidência da Autoridade e a chefia do governo. Menos de um ano e meio depois, essa dualidade desembocou em um confronto armado, seguido pela tomada da Faixa de Gaza pela força pelo Hamas, em junho de 2007. Os acontecimentos daquele conflito interno revelaram uma contradição flagrante entre os compromissos do programa eleitoral em favor do pluralismo, da rejeição dos confrontos internos e da alternância pacífica no poder, e uma prática política que acabou recorrendo à força para resolver a disputa pelo poder. Centenas de integrantes das forças de segurança, militantes de diferentes facções e civis morreram ou ficaram feridos nesses confrontos. Desde então, o cenário palestino entrou em uma fase de divisão política e geográfica entre duas autoridades rivais. O problema não estava, em si, na passagem do Hamas da oposição ao governo. Afinal, essa é a essência da democracia. Mas a chegada ao poder colocou seu discurso ideológico diante de uma prova de natureza muito diferente: como transformar uma doutrina política em um projeto de governo? Há uma diferença fundamental entre possuir um discurso mobilizador capaz de conquistar apoio popular na oposição e governar uma sociedade atingida pela pobreza, pelo desemprego, pelo bloqueio, pela ocupação e pela deterioração dos serviços públicos, uma sociedade que precisa, antes de tudo, de educação, saúde, emprego, desenvolvimento, justiça e boa administração. É aí que aparece um dos dilemas estruturais do fundamentalismo religioso: sua capacidade de produzir um discurso político que extrai grande parte de sua força de um referencial religioso, diante da dificuldade de transformar esse referencial em um programa coerente nos campos da economia, do desenvolvimento, da cultura e da administração pública. Essa dificuldade não é exclusiva da experiência palestina. Ela se manifestou, em graus diferentes, em outras experiências islamistas, do Irã ao Sudão, passando pela Somália e pela Tunísia, quando a ideologia se chocou com as realidades e as complexidades da sociedade e quando a política se transformou em uma extensão da doutrina, em vez de ser um espaço de gestão dos interesses conflitantes dentro da sociedade. No caso palestino, o dilema era ainda mais complexo. O Hamas não havia chegado ao poder em um Estado plenamente soberano, mas no âmbito de uma Autoridade com atribuições limitadas, sob ocupação e em uma sociedade submetida ao bloqueio, enquanto Israel continuava controlando as fronteiras, o espaço aéreo, as águas e as passagens, além de manter a capacidade de separar os territórios palestinos e controlar a circulação de pessoas, bens e recursos. Em um contexto como esse, qualquer projeto político que aspirasse a governar deveria ter colocado o desenvolvimento, a melhoria das condições de vida e a gestão das instituições no topo de suas prioridades, definindo ao mesmo tempo, com clareza, a relação entre a resistência e as exigências do exercício do poder. No entanto, o Hamas foi colocando gradualmente o conflito armado com Israel no centro de sua atividade política e de segurança. Assim, a passagem ao poder não levou à separação entre a função partidária e ideológica do movimento e a função das instituições governamentais. Ao contrário, reproduziu o conflito dentro das próprias instituições do poder. A partir desse momento, tornou-se cada vez mais evidente o paradoxo que acompanharia a experiência do Hamas: um movimento que chegou ao poder por meio de eleições, mas que não conseguiu estabelecer uma separação estável entre seu projeto ideológico como movimento e as exigências de governar como autoridade. Esse paradoxo acabaria levando da “Mudança e Reforma”, como palavra de ordem eleitoral, ao estabelecimento de uma autoridade de fato surgida da divisão e do recurso à força militar. O poder e a guerra Desde que passou a controlar a Faixa de Gaza, o Hamas travou quatro grandes guerras e dezenas de confrontos intermitentes, além de duas guerras durante as quais permaneceu à margem enquanto a Jihad Islâmica enfrentava sozinha o Exército israelense. Assim como as grandes operações israelenses carregavam nomes simbólicos extraídos do imaginário religioso sionista, o Hamas também deu às suas batalhas nomes carregados de referências religiosas islâmicas: Al-Furqan, em 2009, Hijarat al-Sijjil, em 2012, Al-Asf al-Ma’kul, em 2014, Espada de Jerusalém, em 2021, e, por fim, o “Dilúvio de Al-Aqsa”. Ao longo desses confrontos, as Brigadas al-Qassam desenvolveram suas capacidades de lançamento de foguetes e sua rede de túneis, destinando a ambas somas consideráveis de dinheiro e importantes recursos humanos. Nas quatro primeiras guerras, cuja duração acumulada se aproximou de cem dias, o número de mortos ultrapassou 4 mil, enquanto dezenas de milhares de outras pessoas, entre civis e combatentes, ficaram feridas. As guerras provocaram ainda uma destruição generalizada de edifícios, infraestrutura e residências. Se essas guerras fossem submetidas a uma análise séria de suas causas, de suas consequências imediatas e de seus efeitos de longo prazo, concluiríamos que elas constituíram o principal fator de coesão do aparato militar e de segurança do Hamas. O confronto permanente com o Exército israelense permite ao Hamas preservar essa coesão e prolongar sua permanência no poder, ao mesmo tempo em que lhe permite evitar assumir a responsabilidade por seus fracassos na gestão dos assuntos públicos de um território submetido ao bloqueio, cuja economia dependia em grande medida dos túneis e do contrabando. A taxa de pobreza na Faixa de Gaza chegou a 60%, enquanto o desemprego subiu para 45%, três vezes o nível registrado na Cisjordânia. Enquanto o produto interno bruto de Gaza representava 31% do PIB palestino total em 2006, em 2022 representava apenas 17% da economia palestina sob o domínio do Hamas. Esses números revelam a realidade do fracasso na gestão dos assuntos públicos quando decisões políticas são elevadas à categoria de obrigações religiosas e vinculadas a palavras de ordem relacionadas à vida após a morte. A morte se transforma então em uma forma de elevação espiritual que deve ser celebrada, e felicita-se a organização e a família quando se trata de um combatente. Em contrapartida, a morte de um civil é simplesmente lamentada, embora esse civil nunca tenha recebido missão alguma e, sobretudo, nunca tenha sido consultado, seja ele solteiro ou chefe de família, perdendo a própria vida, e até a de sua família, sem jamais ter escolhido semelhante destino. Desse modo, os problemas não resolvidos do exercício do poder são projetados sobre o conflito permanente com a ocupação. Toda crítica, objeção ou reivindicação pode então ser apresentada como um ataque ao sagrado ou, no mínimo, como abandono da luta contra a ocupação e, com frequência, como alta traição. Por mais duras e amargas que sejam as consequências, os dirigentes do movimento continuam recorrendo, em seu discurso político e em suas declarações públicas, à terminologia religiosa, aos versículos corânicos e aos hadiths do Profeta para convencer a população de que avança rumo à derrota de Israel e à libertação de Jerusalém. Chegam inclusive a proclamar como “inevitável o desaparecimento da entidade sionista”, assim como alguns nacionalistas e militantes de esquerda proclamavam, em outros tempos, a “futura derrota do imperialismo mundial e de sua protegida, Israel”. Esse mesmo padrão se reproduziu ano após ano sob o domínio do Hamas na Faixa de Gaza, até o “Dilúvio de Al-Aqsa” de outubro de 2023.

Sobre o fundamentalismo religioso: a dança da morte (1)
Por
Hisham Dibsi
Publicado
ago 11, 2026 - 13:46

A vitória israelense na Guerra de Junho e a nova ocupação da Faixa de Gaza livraram a Irmandade Muçulmana do pesadelo que o regime egípcio representava para ela, após um confronto desencadeado pela tentativa de assassinato do líder Gamal Abdel Nasser em Manshiyya, Alexandria, em 1954. As autoridades egípcias acusaram então a “Irmandade” de ter tramado o complô e lançaram uma ampla campanha de prisões que atingiu seus principais dirigentes, entre eles Sayyid Qutb, principal teórico da concepção de poder própria do Islã político. Uma década mais tarde, após a chegada de Abdul Salam Arif à presidência do Iraque, sua mediação permitiu a libertação de Sayyid Qutb. No entanto, isso não levou a uma reconciliação. Qutb foi novamente preso, acusado de ter criado uma organização clandestina destinada a derrubar pela força o regime egípcio, e condenado à morte. Recusou-se a pedir clemência para obter a comutação da pena e foi enforcado em 29 de agosto de 1966. Alguns meses mais tarde, Israel ocupava pela segunda vez a Faixa de Gaza. A derrota do regime egípcio marcou o início de um ressurgimento da Irmandade Muçulmana nas cidades palestinas, particularmente nos territórios recém-ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Ali, a “Irmandade” desenvolveu suas atividades como um movimento de pregação religiosa que buscava reformar o indivíduo e a sociedade. Criou uma rede de mesquitas, escolas e associações beneficentes, sem apresentar à população um verdadeiro programa político além do apelo à reforma e ao retorno à religião segundo sua própria concepção e interpretação. Ao mesmo tempo, o movimento nacional palestino adotava a luta armada como caminho para a libertação da Palestina, tanto a partir do interior dos territórios palestinos quanto através das fronteiras dos países árabes vizinhos: Egito, Jordânia, Síria e Líbano. Embora o movimento nacional palestino, representado pela Organização para a Libertação da Palestina, dominasse então o cenário e desfrutasse de amplo apoio popular no Oriente Médio, o movimento islamista prosseguiu pacientemente seu trabalho de base. Beneficiou-se da política israelense de fazer vista grossa às suas atividades, a ponto de algumas de suas instituições obterem do exército de ocupação as autorizações necessárias para funcionar. Em sua atividade de pregação religiosa, a “Irmandade” dava prioridade à formação do indivíduo e da sociedade segundo uma concepção particular do Islã. Sua maneira de encarar a relação com o exército de ocupação não implicava nenhum tipo de confronto comparável ao defendido pelas forças laicas, de esquerda e nacionalistas do movimento nacional palestino. Desse modo, criou um ambiente social próprio, relativamente isolado da maioria da sociedade palestina, e tornou-se também um refúgio seguro para aqueles que não desejavam arcar com as consequências do confronto armado e violento conduzido pelas facções da Organização para a Libertação da Palestina. Assim, nada em seu discurso público nem na conduta de seus dirigentes e membros a colocava em uma lógica de confronto com a ocupação. Foi dessa maneira que acumulou influência de forma lenta e gradual. Passaram-se vinte anos durante os quais a Irmandade desenvolveu, discretamente e sem obstáculos, seus mecanismos internos de funcionamento. Acumulou uma experiência considerável em um trabalho organizado, estruturado em torno de seus quadros e conduzido com constância, beneficiando-se de um importante apoio das organizações internacionais ligadas à Irmandade Muçulmana. Também permitiu certa forma de participação individual daqueles de seus membros que desejavam combater nas grandes batalhas travadas pela Organização para a Libertação da Palestina, mas sempre no âmbito de estruturas militares sem vínculos com a Irmandade, como o Exército de Libertação da Palestina, as Forças al-Asifa, ou sob outras denominações que não atribuíam à Irmandade Muçulmana nenhuma responsabilidade direta pela participação de alguns de seus membros em qualquer batalha, independentemente de sua dimensão. Essa situação perdurou até a eclosão da “Intifada das Pedras”, em 1987, quando a Irmandade começou a participar diretamente e abertamente do levante, embora permanecendo à margem da Liderança Nacional Unificada da Intifada. Foi durante esse grande acontecimento que a Irmandade Muçulmana lançou sua nova organização sob o nome de “Movimento de Resistência Islâmica”, o Hamas. Posteriormente, este criou um braço armado conhecido como Brigadas Izz ad-Din al-Qassam. Tratava-se da primeira transformação de um movimento de pregação e ação social em um movimento político independente, que traçava seu próprio caminho, distinto daquele do movimento nacional laico. Surgiu assim um novo dilema fundamental para os palestinos, com o aparecimento de um polo cuja concepção do interesse nacional palestino diferia radicalmente daquela que havia prevalecido até então e se opunha por completo à orientação central encarnada pela Organização para a Libertação da Palestina ao longo de quatro décadas. As divergências não se limitavam a algumas questões específicas. Abrangiam praticamente todos os temas, grandes e pequenos. Começou assim a se abrir uma profunda fratura na própria definição das políticas destinadas a expressar o interesse nacional palestino, mais profunda do que qualquer uma das divisões que o movimento nacional palestino havia conhecido até então. A divisão atravessou verticalmente a própria sociedade palestina e rapidamente alcançou seus sindicatos, federações e organizações populares, onde quer que estivessem. Mesmo nas universidades, as organizações estudantis não conseguiram elaborar uma fórmula comum de atuação sindical estudantil. Essa situação não decorria de uma incapacidade intrínseca de chegar a um acordo, mas da ausência de uma orientação política que permitisse chegar a um consenso sobre um programa sindical, por mais elementar que fosse. Dezenas de tentativas de diálogo foram empreendidas para encontrar um terreno comum, mas seus resultados rapidamente se dissipavam sempre que ressurgia a divergência fundamental: determinar qual instância estava habilitada a definir o interesse nacional palestino. A virada decisiva Durante os anos que separaram a fundação do Hamas do anúncio do “Acordo de Oslo”, o novo movimento retomou em suas palavras de ordem, sob certos aspectos, alguns dos princípios do Fatah de seus primeiros tempos. Em seguida, sobreveio um acontecimento que produziu o efeito de um terremoto político sem precedentes na realidade palestina, tanto entre a população e as facções quanto no seio das elites políticas e intelectuais. A liderança oficial palestina mostrou-se incapaz de apresentar uma análise política convincente que explicasse as razões que haviam levado à conclusão do acordo, tanto no plano internacional quanto no regional. Tampouco conseguiu explicar o papel que o “Acordo de Oslo” poderia desempenhar para responder às necessidades e prioridades mais urgentes dos palestinos, tanto nos territórios quanto na diáspora. A opinião pública palestina dividiu-se, assim, entre partidários e adversários do acordo. Pode-se dizer que uma parcela importante do apoio que ele recebeu dentro do Fatah se baseava mais na grande confiança de que gozava o presidente Yasser Arafat do que em uma verdadeira explicação da natureza e da importância dessa virada, bem como do papel que supostamente deveria desempenhar na reorientação da luta nacional. Tal como apresentada pela liderança palestina, a essência dessa virada consistia no retorno à geografia da pátria e na construção de uma entidade palestina reconhecida internacionalmente, concebida como uma etapa no caminho para a independência. Isso pressupunha que o movimento nacional passasse da etapa de um movimento de libertação armada para a de um movimento de luta pela independência, baseado principalmente na luta política e pacífica e que renunciasse à violência armada como instrumento de ação nacional. Foi isso que o presidente Arafat declarou e com o que se comprometeu formalmente ao assinar os documentos vinculados ao acordo. Não era, portanto, surpreendente que as forças de oposição nacionalistas e de esquerda dentro da Organização para a Libertação da Palestina considerassem o Acordo de Oslo uma ruptura com os princípios da revolução e um recuo em relação a seus objetivos. Foi nesse contexto que o Hamas encontrou o terreno político que lhe convinha. Foi ainda mais longe em sua caracterização do acordo, considerando-o uma traição tanto nacional quanto religiosa, com base na concepção da Irmandade Muçulmana segundo a qual a Palestina é um waqf islâmico, do qual ninguém tem o direito de ceder parte alguma. Fazer fracassar o Acordo de Oslo tornou-se, assim, um eixo central do programa político do Hamas, enquanto todo o resto parecia relegado a um segundo plano. No entanto, desde muito cedo, a prática política do movimento revelou duas linhas de ação paralelas. A primeira consistia em tirar o máximo proveito das realidades criadas no terreno pelo acordo. Entre elas figuravam, em primeiro lugar, o retorno de milhares de palestinos aos territórios, o surgimento de um espaço relativamente amplo de liberdades políticas e de atuação pública, bem como a possibilidade de construir instituições partidárias e organizacionais fora da autoridade direta da ocupação. A isso se somava a possibilidade de se beneficiar dos serviços prestados pelas instituições da Autoridade Nacional Palestina nas áreas da saúde, da educação e, de modo mais amplo, pelos diferentes órgãos e instituições públicas. O movimento considerou essas conquistas como direitos adquiridos pelos palestinos, e não como resultados diretos do Acordo de Oslo. No mesmo contexto, o Hamas passou gradualmente de uma posição religiosa que proibia a participação nas eleições municipais, legislativas e presidenciais para outra que a permitia quando os resultados políticos e organizacionais dessa participação passaram a servir aos interesses do movimento e a lhe proporcionar uma presença institucional e popular mais ampla. A segunda linha de ação consistia em continuar acusando de traição a liderança política que havia dado origem ao Acordo de Oslo, mantendo, ao mesmo tempo, abertos os canais de diálogo com ela quando necessário, com o objetivo de obter novas conquistas políticas e organizacionais. Nesse sentido, o movimento beneficiou-se da política adotada pelo falecido presidente Yasser Arafat, que buscava conter o Hamas integrando-o ao jogo político e mantinha abertas as portas da Autoridade à sua participação, sem lhe impor condições políticas particularmente restritivas. Em diferentes momentos, a Autoridade deixou de exigir de maneira categórica o fim da violência, embora o compromisso de renunciar a ela constituísse um dos principais compromissos palestinos sobre os quais se baseava o processo de reconhecimento internacional da Autoridade Nacional Palestina. Paralelamente, as operações armadas prosseguiram, em particular os atentados suicidas, em momentos de extrema sensibilidade política. Às vezes, ocorriam às vésperas de eleições israelenses ou coincidiam com visitas de enviados internacionais, o que as tornava um fator capaz de influenciar a política israelense e favorecer a ascensão das forças mais intransigentes. Foi nesse contexto que começou a surgir, no discurso político e midiático israelense, a ideia de que as operações realizadas pelo Hamas ofereciam aos dirigentes israelenses mais intransigentes, como Ariel Sharon e Benjamin Netanyahu, novas oportunidades políticas e contribuíam para reorientar as prioridades da sociedade israelense em torno das questões de segurança e violência, em detrimento de uma solução política. Desse modo, o radicalismo religioso palestino começou, indiretamente, a alimentar o radicalismo israelense, e vice-versa. Por meio do Hamas, o fundamentalismo religioso deixou de ser apenas um discurso de pregação religiosa e uma ideologia para se transformar em uma organização política e militar capaz de influenciar diretamente o curso do conflito e empurrar novamente a situação palestina para o terreno da violência armada. Os efeitos dessa evolução não se limitaram ao movimento islamista. O clima de violência crescente também contribuiu para reativar tendências favoráveis à luta armada em algumas correntes nacionalistas e de esquerda. Sua influência alcançou igualmente certos quadros dirigentes do Fatah, bem como amplos setores de seus partidários e de suas estruturas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Assim se formou gradualmente o ambiente político e social que precedeu a Segunda Intifada. Esta abandonou rapidamente o modelo da primeira, baseado na desobediência popular e na resistência civil, para desembocar em um confronto armado aberto do qual participaram diversas forças palestinas. A Segunda Intifada não foi, portanto, uma simples continuação da primeira. Transformou-se gradualmente em um modelo diferente, tanto em seus métodos quanto em suas consequências. A violência armada palestina entrelaçou-se com a violência militar israelense e a violência ligada à colonização, arrastando ambas as partes para uma espiral de escalada mútua na qual o povo palestino foi o maior perdedor. O povo palestino pagou um preço considerável em vidas humanas e bens materiais. Ao mesmo tempo, as perspectivas de uma solução política recuaram, enquanto, do lado israelense, fortaleciam-se as forças que consideravam o poder militar e a expansão dos assentamentos alternativas a qualquer solução negociada. É aí que reside o grande paradoxo: o período de Oslo havia começado como uma tentativa de passar da lógica da revolução para a lógica do Estado. No entanto, em apenas alguns anos, terminou por reproduzir a lógica do conflito armado, embora sob novas formas e com novos instrumentos. Abriu-se, assim, o caminho para uma fase ainda mais dura da história palestino-israelense.

O Plano da Decisão
Por
Hisham Dibsi
Publicado
ago 4, 2026 - 14:43

Benjamin Netanyahu aproveitou sua participação no funeral do senador norte-americano Lindsey Graham para voltar mais uma vez à Casa Branca, depois que seus aliados conseguiram convencer o presidente Donald Trump a recebê-lo. Desta vez, porém, a visita ocorreu pela porta dos fundos da política, sem lhe oferecer a oportunidade de explorá-la midiaticamente como esperava. A entrevista televisiva concedida em seguida refletiu a dimensão do impasse que enfrenta. Seu rosto foi incapaz de transmitir a expressão de um vencedor. Em vez disso, revelava obstinação e um sorriso constrangido. Trump, fiel ao seu temperamento direto e pouco dado a concessões, parece pouco disposto a se associar a um parceiro que lhe traz mais problemas do que benefícios. Mesmo assim, Netanyahu não demonstra qualquer disposição para admitir um fracasso, nem sequer para reconhecer que essa possibilidade exista. Para ele, a questão vai muito além da política e diz respeito diretamente ao seu futuro pessoal e eleitoral. Uma derrota poderá significar o fim de sua carreira política, abrir caminho para processos judiciais e destruir sua ambição de se consagrar como o líder incontestável do Estado de Israel. Enquanto isso, os partidos de oposição transformaram a criação de uma comissão oficial e independente de investigação sobre os acontecimentos de 7 de outubro em uma de suas principais bandeiras eleitorais. Seu objetivo é responsabilizar aqueles que falharam ao permitir o êxito do ataque do Hamas e as perdas humanas sem precedentes que se seguiram, mesmo quando comparadas às de muitas guerras convencionais. O ataque também provocou um profundo trauma coletivo na sociedade israelense, cujos efeitos psicológicos, políticos e de segurança continuam presentes até hoje. A disputa eleitoral, porém, não se limita ao 7 de outubro. Os partidos religiosos aliados de Netanyahu continuam exigindo a isenção do serviço militar para os estudantes haredim das escolas religiosas, além da separação entre homens e mulheres em determinados espaços públicos. Também ameaçam abandonar a coalizão governista caso suas reivindicações não sejam atendidas. Tudo isso acontece num momento em que as Forças Armadas israelenses enfrentam uma crescente crise de efetivos. O interesse pelo serviço militar diminui de forma contínua, tanto entre os cidadãos israelenses quanto entre voluntários estrangeiros, já que os riscos associados ao serviço passaram a superar os benefícios materiais ou simbólicos que ele pode oferecer. Ao mesmo tempo, a crise econômica se aprofunda em razão do custo cada vez mais elevado da guerra, das despesas extraordinárias com segurança impostas por um estado permanente de alerta e da continuidade das operações militares em múltiplas frentes, uma realidade à qual a sociedade israelense não estava habituada nas últimas décadas. É nesse contexto político, de segurança e econômico que se deve compreender o que vem ocorrendo na Cisjordânia, não apenas ao longo desta semana, mas desde o início deste ano. Os acontecimentos ali não parecem constituir apenas uma sucessão de medidas isoladas de segurança. Eles fazem parte de uma tentativa mais ampla de redesenhar o cenário interno e regional em função dos interesses políticos e eleitorais de Benjamin Netanyahu. Uma apropriação abrangente Criadores de gado dos assentamentos israelenses na Cisjordânia passaram a afirmar que os limites de sua área de influência se estendem até onde seus rebanhos conseguem pastar. Graças ao armamento individual de que dispõem e à proteção oferecida pelo Exército israelense, conseguiram estabelecer dezenas de postos avançados de pastoreio nos arredores de Jerusalém Oriental e no Vale do Jordão. Essa estratégia privou as comunidades palestinas beduínas e pastoris da maior parte de suas terras e de seus direitos históricos como populações originárias da região. Segundo relatórios publicados neste ano pelas Nações Unidas, essa política sistemática também provocou a demolição de moradias e o deslocamento forçado de mais de 30 mil integrantes de comunidades beduínas. Paralelamente, o rebanho da Cisjordânia caiu ao seu nível mais baixo. Além disso, extensas áreas da Área C, definida pelos Acordos de Oslo, passaram a ser submetidas a um controle israelense cada vez maior, apesar de constituírem a continuidade territorial indispensável à viabilidade de um futuro Estado palestino. Ao mesmo tempo, Israel ampliou seu controle sobre os recursos hídricos de superfície, depois de já ter consolidado, há anos, o domínio sobre o principal aquífero subterrâneo da Cisjordânia, a maior reserva de águas subterrâneas da Palestina histórica. Ao longo deste ano, meios de comunicação e organizações de direitos humanos documentaram repetidos ataques contra agricultores palestinos, sobretudo durante a colheita das azeitonas, com o objetivo de impedi-los de acessar suas terras e oliveiras. O Ministério da Agricultura palestino registrou o arranquio de 2.559 árvores, além da devastação de extensas áreas agrícolas. As perdas diretas, decorrentes da destruição de poços, redes de irrigação e da apreensão de tratores e outros equipamentos agrícolas, ultrapassam US$ 100 milhões. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 72 mil famílias agricultoras necessitam atualmente de ajuda emergencial, uma situação sem precedentes para essas comunidades. As medidas não se limitaram às zonas rurais. Também alcançaram cidades e campos de refugiados. Durante o primeiro semestre do ano, cerca de 3.600 palestinos foram presos, entre eles 276 crianças e 107 mulheres. O número total de prisioneiros palestinos é atualmente estimado em aproximadamente 10 mil. Paralelamente, o Exército israelense continua isolando cidades por meio de portões metálicos e postos de controle, ao mesmo tempo em que conduz operações de grande escala contra diversos campos de refugiados. Essas operações destruíram partes significativas desses campos, deslocaram dezenas de milhares de moradores e transformaram parte dessas áreas em posições militares israelenses. Todas essas políticas vêm sendo implementadas abertamente, diante da mídia. Diversos ministros do governo de Benjamin Netanyahu têm celebrado publicamente os avanços obtidos na execução do chamado «Plano da Decisão», defendido pelos partidos do Sionismo Religioso. O projeto busca estender a soberania israelense a todos os territórios palestinos ocupados em 1967, rebatizando-os como «Judeia e Samaria», além de enfraquecer a Autoridade Nacional Palestina como estrutura política e institucional sobre a qual se apoia a solução de dois Estados. Nesse contexto, o que acontece na Cisjordânia aparece como um dos elementos centrais da disputa política e eleitoral travada pelo governo Netanyahu às vésperas das eleições previstas para antes do fim do ano. O novo ainda não nasceu A declaração do presidente Trump pedindo que o Hamas entregasse suas armas pouco constrangeu a liderança do movimento, pois não trouxe nada de substancialmente novo em relação ao que o Hamas já havia aceitado em sua iniciativa de vinte pontos. Os entendimentos alcançados posteriormente não trataram das armas individuais por meio das quais o movimento continua exercendo sua autoridade na Faixa de Gaza durante o período de transição. A mais recente rodada de negociações realizada no Cairo produziu avanços limitados. Ela permitiu a entrada da comissão administrativa palestina e dos primeiros contingentes da força internacional nas áreas de Rafah e Khan Younis, ambas sob controle total do Exército israelense. Esses avanços ocorreram antes e durante a visita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a Washington, permitindo que cada lado os apresentasse da forma mais conveniente aos seus próprios interesses políticos. No terreno, entretanto, a realidade permanece praticamente inalterada. A ajuda humanitária continua entrando apenas na medida autorizada pelo comando do Exército israelense, sem produzir qualquer melhora significativa na catástrofe humanitária vivida pela população de Gaza. Ao mesmo tempo, os mediadores seguem empenhados em preservar a iniciativa de Trump e impedir seu colapso, pois seu fracasso deixaria Israel com liberdade para agir em Gaza sem qualquer horizonte político que acompanhasse as operações militares. Em Jerusalém Oriental, a escalada continua em ritmo acelerado. As incursões de grupos do Sionismo Religioso no complexo da Mesquita de Al Aqsa tornam-se cada vez mais frequentes, enquanto a maioria dos palestinos da Cisjordânia continua impedida de acessar o local, além das restrições etárias impostas aos fiéis. Paralelamente, Israel prossegue com sua intervenção gradual na administração e na estrutura institucional da Mesquita de Al Aqsa, apesar da histórica custódia hachemita sobre o local sagrado. Essas medidas respondem a dois objetivos claramente definidos: impor uma divisão temporal e espacial da Mesquita de Al Aqsa, nos moldes do que foi implementado na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e consolidar a narrativa israelense de uma «Jerusalém unificada» como capital exclusiva do Estado de Israel. Diante desses acontecimentos em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, e em meio a um bloqueio político, econômico e de segurança de caráter abrangente, a Autoridade Nacional Palestina vem ampliando seus canais de comunicação com a Casa Branca. Seu objetivo é impedir a concretização do projeto israelense destinado a pôr fim à entidade política palestina e evitar o colapso dos Acordos de Oslo, que continuam sendo a principal referência jurídica da comunidade internacional para o processo de paz. Nesse contexto, as eleições locais realizadas no início deste ano, com participação superior à metade do eleitorado registrado, adquiriram um significado político que ultrapassa amplamente sua dimensão administrativa. Da mesma forma, o anúncio do calendário para as eleições legislativas e presidenciais, bem como a continuidade das atividades de sindicatos, federações e instituições nacionais, entre elas o recente congresso da União Geral dos Estudantes Palestinos, realizado em Beirute, refletem um esforço para revitalizar a vida política palestina e preservar a legitimidade de suas instituições. Esses esforços convergem com o apoio árabe e internacional em torno de um objetivo comum: garantir que os palestinos permaneçam em sua terra, impedir o deslocamento forçado e preservar a coesão da sociedade palestina diante das políticas de desgaste e fragmentação. Até agora, a sociedade palestina, especialmente na Cisjordânia, demonstrou notável capacidade de resistir às tentativas de arrastá-la para um confronto generalizado que favoreceria a agenda israelense, optando pela paciência, pela contenção e pelo fortalecimento da solidariedade social. Isso, contudo, não significa que a situação tenha se estabilizado nem que o equilíbrio de forças esteja definido. Toda a região atravessa uma fase de transição, na qual a antiga ordem continua se desgastando, enquanto os contornos da nova ordem política ainda não se consolidaram. Os palestinos de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém sabem, portanto, que o que acontece hoje não representa o fim do conflito, mas apenas mais um de seus capítulos. O novo ainda não nasceu.

Hamas: a era al-Hayya
Por
Hisham Dibsi
Publicado
jul 27, 2026 - 21:55

Ao longo de três décadas, o Hamas deixou de ser a organização palestina da Irmandade Muçulmana para transformar-se em um movimento de resistência armada no final de 1987 e, posteriormente, na autoridade que governa a Faixa de Gaza após assumir o poder em 2007. A partir daquele momento, o Hamas deixou de ser apenas mais uma facção palestina. É verdade que o movimento havia chegado ao poder por meio de eleições democráticas e pacíficas, e que Ismail Haniyeh exercia então o cargo de primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina. No entanto, a tomada do poder pela força, que provocou a morte de mais de 120 integrantes das forças de segurança e do Fatah, além de 39 civis durante cinco dias de ataques às instituições da Autoridade Palestina e da prisão de dezenas de seus membros, segundo relatórios do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, alterou profundamente o cenário político. Vários dirigentes, entre eles Mohammed Dahlan, fugiram de barco para o Egito. Cerca de 50 mil servidores públicos deixaram de exercer suas funções, enquanto a jurisdição efetiva da Autoridade Nacional Palestina passou a restringir-se à Cisjordânia. Após derrubar a legitimidade da Autoridade Palestina, o Hamas deixou de ser uma simples facção política ou um parceiro democrático de governo. Optou por separar a Faixa de Gaza da Cisjordânia para exercer ali um poder exclusivo, transformando a queda do governo de Ramala e a rejeição aos Acordos de Oslo em dois dos pilares centrais de sua agenda política. O Hamas sob Ismail Haniyeh Durante a primeira década da liderança de Ismail Haniyeh, até 2017, o movimento passou por profundas transformações em sua relação com a sociedade palestina, suas lideranças e as diferentes facções do movimento nacional. Seus vínculos com o mundo árabe, o mundo islâmico e a comunidade internacional também evoluíram de maneira significativa. Ao mesmo tempo, seu braço armado, as Brigadas Izz al-Din al-Qassam, registrou um salto qualitativo tanto em suas capacidades militares quanto em seu arsenal, alcançando seu ponto mais elevado sob o comando de Yahya Sinwar. Essas mudanças redefiniram o equilíbrio interno do movimento. Com seu centro de gravidade firmemente estabelecido na Faixa de Gaza e uma influência popular crescente na Cisjordânia, o Hamas também se beneficiou de uma ampla onda de apoio no mundo árabe e islâmico, impulsionada pela liderança internacional da Irmandade Muçulmana, que, segundo o autor, soube aproveitar sua relação privilegiada com a administração norte-americana durante a presidência de Barack Obama. Essas recomposições internas acabaram por afastar Khaled Meshaal, que havia liderado o Escritório Político durante treze anos. Depois de transferir sua sede permanente de Amã para Istambul e, posteriormente, para Doha, Ismail Haniyeh passou a concentrar em suas mãos tanto a chefia do governo de Gaza quanto a presidência do Escritório Político do Hamas. Apesar da maneira como administrou os equilíbrios internos e externos do movimento, Ismail Haniyeh dificilmente imaginou que chegaria o dia em que seria obrigado a deixar a Faixa de Gaza para viver no exílio, em consequência da ascensão de Yahya Sinwar, o novo comandante das Brigadas al-Qassam. Com o tempo, Sinwar consolidou sua autoridade não apenas sobre o aparato militar do Hamas, mas também sobre suas estruturas políticas e governamentais. Assim, o presidente do Escritório Político juntou-se ao seu antecessor, Khaled Meshaal, no exílio, embora tenha mantido formalmente tanto seu título quanto o cargo de chefe do governo do Hamas. As circunstâncias que cercaram a saída de Haniyeh e de numerosos dirigentes e quadros históricos do movimento permanecem, contudo, pouco claras e dificilmente serão plenamente conhecidas enquanto a própria liderança do Hamas não apresentar sua versão dos acontecimentos. As disputas internas tampouco se limitavam à divisão geográfica entre Gaza, a Cisjordânia e a diáspora. Elas refletiam diferentes correntes políticas e ideológicas: os fiéis à liderança internacional da Irmandade Muçulmana; os dirigentes políticos, cujas relações gravitavam em torno da Türkiye, do Catar e do Irã; e os comandantes militares, de perfil mais pragmático, embora em diferentes graus de radicalização. Enquanto um grupo procurava extrair o máximo proveito de sua aliança com o Irã, outro preferia ampliar sua rede de relações regionais para expandir sua margem de manobra e consolidar sua influência, sem descartar contatos com os Estados Unidos ou mesmo com Israel, sempre que as circunstâncias assim o exigissem. Foi nesse contexto que Khalil al-Hayya emergiu como a principal liderança do Hamas na Faixa de Gaza e como um dos colaboradores mais próximos de Yahya Sinwar. Segundo diversas pessoas que acompanharam sua trajetória militar, Sinwar era conhecido por confiar apenas em um círculo extremamente restrito. Essas mesmas fontes sustentam que o papel central desempenhado por Khalil al-Hayya nas negociações decorreria justamente da confiança que Sinwar depositava nele. Quando Sinwar assumiu a presidência do Escritório Político do Hamas, uma semana após a morte de Ismail Haniyeh, no fim de julho de 2024, nomeou al-Hayya como seu vice. O assassinato de Sinwar, apenas dois meses depois de assumir a chefia do Escritório Político, reabriu imediatamente a disputa pela sucessão. Com o apoio da liderança do movimento em Gaza, Khalil al-Hayya acabou derrotando Khaled Meshaal e tornou-se o quinto presidente do Escritório Político do Hamas, passando a controlar os principais centros de decisão da organização. Sua ascensão ao topo do movimento, entretanto, não pode ser explicada apenas por essa sucessão. Fontes políticas e da imprensa, entre elas diversos analistas egípcios entrevistados por emissoras de televisão da região, afirmaram que as negociações realizadas em Doha, após o amplamente divulgado ataque israelense no Catar contra dirigentes do Hamas, contaram com a participação de altos representantes dos serviços de segurança de Israel, dos Estados Unidos e da Türkiye. De acordo com esses relatos, os encontros teriam resultado em compromissos assumidos por Israel para interromper as operações de eliminação seletiva de líderes do Hamas e encerrar sua perseguição. Os defensores dessa interpretação consideram que os acontecimentos posteriores pareceriam reforçar essa leitura. Sob essa perspectiva, o Hamas de Khalil al-Hayya já não seria o Hamas do xeique Ahmed Yassin, nem o de Yahya Sinwar. Sua nova liderança estaria voltada para a implementação de entendimentos de natureza política e de segurança, sob patrocínio principalmente do Catar e da Türkiye. Segundo essa análise, o papel que o movimento desempenharia no futuro seria profundamente diferente daquele que exerceu até agora. A preservação do poder, qualquer que fosse o custo político, humano ou material, tornar-se-ia sua prioridade absoluta. A sobrevivência de sua autoridade passaria a prevalecer sobre o bem-estar da população. O programa de al-Hayya No início desta semana, o novo líder do movimento fez seu primeiro pronunciamento, no qual apresentou os objetivos que, segundo afirmou, orientarão sua atuação: Primeiro, pôr fim às operações militares israelenses e obter a retirada total de Israel da Faixa de Gaza. Segundo, restabelecer as condições básicas de vida, impedir o deslocamento forçado da população, impulsionar a reconstrução e concluir um acordo de troca de prisioneiros palestinos. Terceiro, abrir um diálogo nacional destinado a reconstruir a Organização para a Libertação da Palestina sobre bases democráticas. Quarto, fortalecer as relações do Hamas com seu entorno árabe e islâmico. Quinto, coordenar os esforços internacionais para pôr fim à campanha militar israelense. Sexto, solicitar às Nações Unidas que garantam proteção ao povo palestino e levem os dirigentes israelenses responsáveis pela guerra perante os tribunais internacionais. Com um programa cuja implementação exigiria o apoio das principais potências mundiais e de uma ampla coalizão internacional, Khalil al-Hayya fala com segurança e a partir do que apresenta como uma posição de força. No entanto, faz isso do conforto de um quarto de hotel. Enquanto isso, no terreno, o confronto militar entre Hamas e Israel mistura-se às áreas onde se concentram os deslocados, em meio a uma população aglomerada em acampamentos improvisados. Assim, os habitantes acabam pagando um preço duplo: de um lado, o imposto pelo próprio aparato de segurança do Hamas, encarregado de controlar cerca de dois milhões de palestinos deslocados dentro de sua própria terra; de outro, o decorrente da perseguição israelense aos quadros do movimento, com sua sequência de bombardeios, destruição, expansão territorial e restrições que, segundo o autor, acabam sendo utilizadas para justificar limitações ao fornecimento de água, alimentos e medicamentos. Entre essa realidade cotidiana e o programa político proclamado pelo movimento acumulam-se a miséria, o desalento e a frustração. As redes sociais da Faixa de Gaza ecoam os gritos de socorro de uma população que a liderança do Hamas parece já não querer ouvir, concentrando-se, em vez disso, na preservação de seu poder e de seus próprios interesses. O programa de al-Hayya No início desta semana, o novo líder do movimento fez seu primeiro pronunciamento, no qual apresentou os objetivos que, segundo afirmou, orientarão sua atuação: Primeiro, pôr fim às operações militares israelenses e obter a retirada total de Israel da Faixa de Gaza. Segundo, restabelecer as condições básicas de vida, impedir o deslocamento forçado da população, impulsionar a reconstrução e concluir um acordo de troca de prisioneiros palestinos. Terceiro, abrir um diálogo nacional destinado a reconstruir a Organização para a Libertação da Palestina sobre bases democráticas. Quarto, fortalecer as relações do Hamas com seu entorno árabe e islâmico. Quinto, coordenar os esforços internacionais para pôr fim à campanha militar israelense. Sexto, solicitar às Nações Unidas que garantam proteção ao povo palestino e levem os dirigentes israelenses responsáveis pela guerra perante os tribunais internacionais. Com um programa cuja implementação exigiria o apoio das principais potências mundiais e de uma ampla coalizão internacional, Khalil al-Hayya fala com segurança e a partir do que apresenta como uma posição de força. No entanto, faz isso do conforto de um quarto de hotel. Enquanto isso, no terreno, o confronto militar entre Hamas e Israel mistura-se às áreas onde se concentram os deslocados, em meio a uma população aglomerada em acampamentos improvisados. Assim, os habitantes acabam pagando um preço duplo: de um lado, o imposto pelo próprio aparato de segurança do Hamas, encarregado de controlar cerca de dois milhões de palestinos deslocados dentro de sua própria terra; de outro, o decorrente da perseguição israelense aos quadros do movimento, com sua sequência de bombardeios, destruição, expansão territorial e restrições que, segundo o autor, acabam sendo utilizadas para justificar limitações ao fornecimento de água, alimentos e medicamentos. Entre essa realidade cotidiana e o programa político proclamado pelo movimento acumulam-se a miséria, o desalento e a frustração. As redes sociais da Faixa de Gaza ecoam os gritos de socorro de uma população que a liderança do Hamas parece já não querer ouvir, concentrando-se, em vez disso, na preservação de seu poder e de seus próprios interesses. Três opções O ministro israelense Bezalel Smotrich tem afirmado repetidamente que os palestinos dispõem de apenas três alternativas: emigrar, morrer ou submeter-se. Segundo o autor, essa visão é compartilhada por um governo comprometido com a expansão dos assentamentos em todos os territórios palestinos. As repetidas incursões ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa, assim como a onda de violência promovida por colonos sob a proteção do Exército israelense, não representariam, portanto, uma resposta a qualquer ameaça existencial. Elas fariam parte da implementação do que vários ministros da coalizão governista chamam de “Plano Decisivo”, destinado a ampliar a colonização israelense e anexar todas as áreas dos territórios palestinos que possam ser colocadas sob o controle dos colonos e das Forças Armadas de Israel. Com as eleições parlamentares previstas para outubro deste ano se aproximando, diversos integrantes do governo também têm manifestado abertamente o desejo de provocar o colapso da Autoridade Nacional Palestina em Ramala e eliminar o que consideram ser o último núcleo institucional palestino comprometido com uma solução política baseada na coexistência de dois Estados. Os principais expoentes da corrente mais radical do nacionalismo religioso israelense sustentam, de fato, que essa solução constitui, em sua visão, a verdadeira ameaça existencial ao Estado de Israel. A atual onda de violência que atinge a Cisjordânia e tem como alvo o povo palestino, população originária dessa terra, corre o risco de eliminar as últimas possibilidades de uma paz fundamentada no direito internacional. Enquanto a comunidade internacional continuar limitando-se a falar de paz sem criar as condições necessárias para torná-la viável na Palestina, o resultado, segundo o autor, não poderá ser outro senão a perpetuação de um conflito aberto.

A ameaça existencial
Por
Hisham Dibsi
Publicado
jul 21, 2026 - 02:10

Com a proclamação da independência do Estado hebreu, em 15 de maio de 1948, eclodiu a primeira guerra árabe-israelense. Em Israel, ela é conhecida como a Guerra da Independência, enquanto, no mundo árabe, ficou marcada como a Nakba (“a Catástrofe”). O recém-criado Exército israelense enfrentou então as forças do Egito, do Emirado da Transjordânia, do Iraque, da Síria e do Líbano. Durante a primeira fase dos combates, o equilíbrio militar permaneceu frágil e inconclusivo. Os exércitos árabes mobilizaram cerca de 28 mil soldados, apoiados por um número limitado de aeronaves e veículos blindados. Israel, por sua vez, dispunha de aproximadamente 40 mil combatentes, cujo núcleo era formado pela Haganá e pelo Palmach. Após dois meses de combates, um primeiro cessar-fogo foi estabelecido em julho de 1948. Esse período permitiu ao comando israelense unificar as diferentes organizações militares judaicas, em especial o Irgun e o Lehi (Grupo Stern), consolidando tanto o monopólio do uso da força quanto uma cadeia unificada de comando político. Ao mesmo tempo, Israel recrutou dezenas de milhares de novos combatentes e adquiriu grandes quantidades de armamentos da Tchecoslováquia, então integrante da esfera de influência soviética. Em pouco tempo, o Exército israelense passou a contar com cerca de 100 mil soldados, equipados com aviões, tanques e artilharia moderna. A partir desse momento, conquistou uma superioridade estratégica sobre o conjunto dos exércitos árabes, vantagem que, em muitos aspectos, permanece até os dias de hoje. Foi nesse contexto que foram assinados os acordos de armistício com o Egito, a Transjordânia, a Síria e o Líbano. Na prática, eles representaram o reconhecimento da realidade do Estado de Israel, ainda que revestido por um discurso político enganoso destinado a apaziguar uma opinião pública árabe profundamente indignada, sobretudo a palestina. A partir de então, Israel assumiu a iniciativa estratégica, primeiro durante a Guerra de Suez de 1956 e, depois, na Guerra de Junho de 1967. Os dirigentes do Estado hebreu estavam convencidos de que a segurança nacional de Israel não dependia apenas da superioridade de suas Forças Armadas, mas também de sua posição estratégica no Oriente Médio como resultado da nova ordem internacional liderada pelos Estados Unidos e reconhecida pela União Soviética e, com ela, por todo o bloco socialista. Mas isso, por si só, não bastava. Também era necessário invocar constantemente a memória do Holocausto sempre que um judeu, em qualquer parte do mundo ou em Israel, fosse vítima de uma agressão verbal, física ou, com ainda mais razão, de um ataque armado. Foi assim que a noção de “ameaça existencial” passou a ocupar um lugar central no discurso político e midiático israelense, sendo evocada diante de qualquer desafio enfrentado pelo Estado hebreu, viesse ele de outro Estado, de uma organização ou de um indivíduo, tanto quando Israel agia de forma ofensiva quanto quando invocava o direito à legítima defesa. Com o passar do tempo, a “ameaça existencial” transformou-se em uma verdadeira constante matemática, incorporada a toda equação estratégica e tratada como uma premissa incontornável. A expressão aparece tanto nos discursos de políticos e generais israelenses quanto nas análises produzidas por centros de pesquisa e nos escritos de importantes intelectuais. Nesse aspecto, há pouca diferença entre as elites políticas e acadêmicas e uma opinião pública profundamente marcada por uma ansiedade existencial. Até mesmo alguns dos Novos Historiadores, que em determinado momento romperam com essa narrativa dominante, acabaram recuando diante de pressões intensas e amplamente conhecidas. Os acontecimentos que se seguiram ao ataque de 7 de outubro de 2023 demonstraram a rapidez com que o Ocidente acudiu em socorro de Israel, justamente quando sua capacidade militar havia sido profundamente abalada e seu aparato de segurança fracassara em conter o ataque surpresa da Inundação de Al-Aqsa, tanto por sua dimensão quanto por suas consequências imediatas. O extremismo islamista sunita palestino conseguiu expor muitas das fragilidades estruturais do aparato militar israelense, mergulhando sua liderança em um estado de choque, incerteza e desorientação estratégica. Não fosse a intervenção direta dos generais do Pentágono, que assumiram de fato a condução operacional durante a primeira semana para restabelecer o equilíbrio militar, de segurança e político, embora não o psicológico, o desfecho poderia ter sido muito diferente. Foi necessário mais de um mês, somado à destruição quase total da Faixa de Gaza, para que o estamento militar israelense recuperasse o ritmo operacional hoje ditado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e por seu ministro da Defesa, Israel Katz. Já se passaram mais de mil dias desde aquela catástrofe. As consequências da “Inundação” desencadeada pelo extremismo islamista sunita palestino continuam a se agravar para a população da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, enquanto o avanço do poder militar israelense continua a se expandir por todo o Grande Oriente Médio. A situação chegou ao ponto de o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmar a líderes de países como a Índia e os Emirados Árabes Unidos que já não precisavam recorrer à Casa Branca. “Bastava procurá-lo diretamente”, disse ele, “e tudo seria resolvido.” Ao observar hoje o posicionamento das forças israelenses nos territórios palestinos, na Síria e no Líbano, torna-se evidente a dimensão do salto estratégico alcançado por Israel a partir dos acontecimentos de 7 de outubro. Ainda assim, a noção de “ameaça existencial” continua sendo a pedra angular da doutrina estratégica israelense. Hoje, ela assume três rostos distintos que precisam ser eliminados. Três rostos Foram emitidas ordens para neutralizar cada um desses três rostos, em nome da eliminação do que é apresentado como uma ameaça existencial ao Estado e à nação. O primeiro rosto O primeiro é o doutor Hossam Abu Safiya, pediatra, neonatologista e diretor do Hospital Kamal Adwan, em Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza. Em diversas ocasiões, recebeu ordens transmitidas por alto-falantes para evacuar os feridos, a fim de que o hospital pudesse ser completamente destruído. Pouco depois, projéteis começaram a cair tanto do ar quanto por terra. Ainda assim, permaneceu em seu posto, salvando vidas, sobretudo as das crianças. Seu próprio filho, que ainda não havia completado vinte anos, foi morto na entrada do hospital. O pai o sepultou junto ao muro da instituição e retornou imediatamente ao atendimento das crianças e dos demais feridos. Quando o complexo hospitalar foi finalmente reduzido a escombros, o doutor Abu Safiya e toda a sua equipe foram presos diante dos olhos do mundo, em transmissões televisivas ao vivo. Preso em dezembro de 2024, permanece detido até hoje, onde, segundo testemunhos reunidos por organizações internacionais, tem sido submetido a torturas sistemáticas destinadas a destruir sua humanidade. Ele continua encarcerado sem que tenha sido formalmente acusado, com base na Lei israelense dos Combatentes Ilegais. A investigação sobre seus supostos vínculos com grupos armados não produziu, até o momento, qualquer prova. E, no entanto, ele continua vivo. E ele também continua representando uma ameaça existencial. O segundo rosto Ela não é médica, nem uma pessoa desconhecida cuja identidade, compromisso ou convicções sejam ignorados. Tampouco vive em Israel ou na Palestina. Trata-se da jornalista libanesa Amal Khalil, que, ao lado da fotojornalista Zeinab Faraj, documentava o cotidiano da população do sul do Líbano. Na localidade de Tayri, foi alvo de dois ataques: primeiro, quando o veículo em que viajavam foi atingido; depois, quando a casa onde havia buscado abrigo foi bombardeada, enquanto as equipes de resgate eram impedidas de chegar ao local. Não é essa a própria definição de um assassinato premeditado? Tudo isso foi acompanhado por declarações oficiais segundo as quais ela havia sido advertida repetidas vezes. De acordo com o Ordem dos Jornalistas do Líbano, vinte e sete profissionais libaneses da imprensa morreram desde o início da Operação Inundação de Al-Aqsa. Por sua vez, a Organização Mundial da Saúde documentou 137 ataques contra hospitais e instalações de saúde. O terceiro rosto Neste mesmo mês de julho, em 8 de julho de 1972, o subúrbio de Hazmieh, em Beirute, foi palco de um carro-bomba que matou o escritor, desenhista e editor-chefe da revista Al-Hadaf , Ghassan Kanafani, juntamente com sua sobrinha Lamees Najm, que ainda não havia completado dezessete anos. Kanafani tinha apenas trinta e seis anos. Ele retratou a Palestina por meio de seus desenhos, escreveu romances e contos traduzidos para dezessete idiomas, publicou inúmeros editoriais políticos e ocupou posição de liderança na Frente Popular para a Libertação da Palestina. Ainda assim, jamais empunhou uma arma. Desde então, o escritor, o jornalista e o intelectual também passaram a ser considerados ameaças existenciais. Hoje, 265 jornalistas já morreram na guerra na Palestina, enquanto centenas de outros ficaram feridos. Organizações internacionais também documentaram ataques contra dezenas de instituições de imprensa, além da destruição de muitas delas. Assim, o médico, o jornalista e o escritor transformam-se em alvos de assassinato ou de prisão simplesmente por exercerem sua profissão. Essa situação não pode ser aceita como se fosse a ordem natural das coisas. É indispensável preparar dossiês jurídicos independentes para cada vítima, à margem de qualquer estrutura oficial, e levar cada caso, individualmente, às instâncias judiciais competentes. A invocação israelense da chamada “ameaça existencial” já não pode continuar servindo de escudo contra a responsabilização, de instrumento para escapar à Justiça e de meio para continuar chantageando a comunidade internacional.

O funeral de um regime
Por
Hisham Dibsi
Publicado
jul 13, 2026 - 22:55

O funeral do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser foi um dos maiores funerais de Estado da história do Oriente Médio. A emoção popular transbordou o protocolo oficial e transformou a cerimônia em uma despedida espontânea, enquanto multidões acompanhavam o caixão de seu líder até sua última morada, em 1970. Em novembro de 2004, três continentes, Europa, África e Ásia, despediram-se do símbolo palestino Yasser Arafat. Paris lhe prestou as honras reservadas aos monarcas; o Cairo acolheu a Palestina, enquanto, em Ramala, toda a organização oficial foi superada pela dimensão do luto popular. Foram as próprias mãos dos palestinos que carregaram o caixão, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas pelo homem que havia moldado sua identidade nacional. Sua partida tornou-se ainda mais dolorosa pelas palavras de Ariel Sharon, que evocou “a mão do destino”. A resposta do povo palestino foi inequívoca: “Não se alegre. A justiça está do nosso lado.” Na Grã-Bretanha, o mundo testemunhou, em 2022, aquele que provavelmente foi o funeral de Estado mais grandioso deste século: o da rainha Elizabeth II, ao qual compareceram centenas de chefes de Estado, chefes de governo e monarcas reinantes. Cada detalhe da cerimônia havia sido cuidadosamente planejado pela própria soberana. Tudo refletia a sabedoria institucional da monarquia por meio de sua personalidade e de sua visão profundamente pragmática do Estado, da sociedade e da vida pública. Era quase possível imaginá-la acompanhando conscientemente o próprio funeral, satisfeita com o legado que deixava tanto para a Coroa quanto para o Reino. Ontem, milhões de seguidores leais do Líder Supremo marcharam atrás de Ali Khamenei, derramando lágrimas abundantes com impressionante disciplina. Ao seu redor havia apenas um pequeno grupo de dignitários estrangeiros convidados, mas uma multidão de generais e altos dirigentes da República Islâmica. A cerimônia acabou transformando-se em uma gigantesca demonstração de lealdade, hoje a principal fonte de poder do regime após ver seu poder destruído. No entanto, uma demonstração dessa magnitude dificilmente convencerá as dezenas de milhões de iranianos que acompanharam a cena à distância de que os aparelhos de segurança, mesmo apoiados pelos fiéis do regime, sejam capazes de garantir, sozinhos, sua sobrevivência. Na realidade, aquele cortejo parecia menos o funeral de um líder do que o funeral do próprio regime, um regime que, quando chegar o dia de sua queda, já não encontrará ninguém para acompanhar seu último cortejo. Uma sucessão de desafios A primeira declaração partiu do Líder Supremo, que afirmou: “Sem dúvida nos vingaremos e será em breve.” Ao fazê-lo, recorreu à linguagem da obrigação religiosa, conclamando, na prática, qualquer pessoa capaz de executar essa vingança. A retórica evocou imediatamente a fatwa emitida décadas antes pelo primeiro Líder Supremo, o aiatolá Ruhollah Khomeini, conclamando à morte do escritor britânico Salman Rushdie após a publicação de seu célebre romance Os Versos Satânicos . A segunda declaração veio dos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica, que anunciaram o “fechamento do Estreito de Ormuz até novo aviso”. Embora o Líder Supremo não tenha identificado explicitamente o alvo dessa prometida retaliação, a multidão reunida durante o funeral de seu antecessor dissipou qualquer dúvida ao entoar os gritos de “Morte a Trump” e “Morte a Netanyahu”. Entre as ameaças de assassinato e vingança lançadas pela mais alta autoridade religiosa do regime, o anúncio do fechamento do estreito e os ataques contra embarcações comerciais em águas territoriais de Omã, o conflito entrou em uma nova e muito mais perigosa fase. O entendimento inicial entre as partes desmoronou, a trégua foi rompida e as diferentes interpretações de disposições redigidas em termos genéricos deram lugar a uma nova escalada militar, na qual cada lado passou a agir de acordo com suas próprias capacidades. Muitos dos que criticaram a redação do memorando ignoraram um fato essencial: o documento já havia cumprido o principal objetivo de Washington ao permitir que os Estados Unidos se retirassem da guerra em sua configuração original. A liderança iraniana, tão confiante em sua habilidade diplomática, descobriu rapidamente que aquilo que considerava a “astúcia persa” não era páreo para a capacidade estratégica dos Estados Unidos. Nas relações internacionais, os resultados concretos são determinados pelos verdadeiros equilíbrios de poder, e não pela fanfarronice política ou pela habilidade em manobras táticas. Bastou a Washington reconhecer, ao menos por enquanto, a soberania iraniana sobre o estreito, mas limitando esse reconhecimento às águas territoriais internacionalmente reconhecidas. Ao mesmo tempo, a coordenação com o Sultanato de Omã permitiu à Marinha dos Estados Unidos contornar as restrições iranianas utilizando a rota marítima meridional ao longo da costa omanense. Com isso, Teerã perdeu sua última carta estratégica de peso e, ao mesmo tempo, afastou um mediador que durante anos havia se mostrado cooperativo e extraordinariamente tolerante, inclusive dentro de suas próprias águas territoriais. Esse foi o ponto de inflexão que desestabilizou a liderança iraniana. Depois de substituir a “carta do estreito” pela “carta nuclear”, ela acreditou ter conseguido desviar as negociações de seu objetivo original, modificar o comportamento do regime, para concentrá-las exclusivamente na discussão sobre abrir ou fechar o Estreito de Ormuz. Foi assim que a Casa Branca conseguiu reordenar suas cartas, tanto no cenário político interno dos Estados Unidos quanto no âmbito da OTAN, a partir dos resultados da Cúpula de Ancara. Antes mesmo de chegar ao fim o cortejo fúnebre do Líder Supremo, a liderança militar iraniana descobriu que a realidade estava muito distante das expectativas que havia alimentado. As vitórias prometidas à própria opinião pública desapareceram mais rapidamente do que o tempo necessário para consumir um bastão de incenso. Se a euforia que Teerã apresentou como uma vitória diplomática após o anúncio do memorando acabou se dissipando ao longo do corredor marítimo meridional de Omã, a mobilização de milhões de apoiadores entoando palavras de ordem por morte e vingança continua incapaz de alterar o verdadeiro equilíbrio de poder, ainda que contribua temporariamente para elevar o moral de um povo submetido e conduzido por uma liderança indiferente ao custo de suas próprias decisões. A liderança iraniana viu-se, assim, confrontada com a alternativa construída pelos Estados Unidos e Omã para manter permanentemente aberto o Estreito de Ormuz em conformidade com o direito internacional. É nesse contexto que deve ser compreendida a recente escalada de radicalização e temeridade, refletida nos ataques contra embarcações comerciais em trânsito, contra diversos países do Golfo Árabe e contra o Reino Hachemita da Jordânia. Há, contudo, um aspecto que chama particularmente a atenção. O Irã demonstrou extremo cuidado para evitar qualquer ataque direto contra Israel. Da mesma forma, um confronto militar aberto com a Marinha dos Estados Unidos permanece completamente fora de cogitação. Essa postura reflete um cálculo estratégico relativamente simples. Na visão de Teerã, atacar embarcações comerciais ou Estados árabes não desperta a ira de Washington. Ao contrário, incentiva esses mesmos países a adquirir mais sistemas norte-americanos de defesa antiaérea. Ao mesmo tempo, os Estados árabes, liderados pela Arábia Saudita, não têm qualquer intenção de permitir que a Guarda Revolucionária Islâmica os arraste para uma guerra no momento e nas condições determinadas pelo Irã. Todos dispõem de uma estratégia defensiva construída a partir de uma posição de força e desempenham um papel político cada vez mais influente tanto no plano regional quanto no internacional. Se a mediação constitui uma das expressões dessa estratégia, é porque ela serve a objetivos políticos de longo prazo. Isso se tornou ainda mais evidente desde que Omã abandonou sua postura anterior, enquanto a mediação do Catar foi gradualmente reduzida à sua dimensão financeira, com Doha continuando a manter sob bloqueio importantes ativos iranianos em razão das sanções internacionais. Enquanto isso, Islamabad, Riad, Cairo e Ancara mantêm abertos seus canais de comunicação com a Presidência iraniana e com o Ministério das Relações Exteriores para preservar os esforços de mediação. Todos os dias, essas quatro capitais reafirmam sua oposição à guerra e sua determinação em conter sua escalada por meio da aplicação do direito internacional, especialmente no que se refere à liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz. É precisamente nesse terreno que a Guarda Revolucionária Islâmica sofreu sua derrota mais significativa. Entramos agora em uma guerra de desgaste em múltiplas frentes. Dia após dia, a nova liderança iraniana oferece à Casa Branca tudo o que ela necessita para prolongar esse conflito até o fim do ano. Essa dinâmica favorece a agenda política interna do presidente dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, fortalece sua posição no cenário internacional. Tudo isso ocorre em um contexto de visível redução das tensões partidárias dentro dos Estados Unidos, sem que isso signifique a existência de um verdadeiro consenso político na superpotência que continua administrando grande parte dos principais assuntos do planeta. Uma decisão independente Pela primeira vez, o Estado libanês participa ativamente da construção de seu próprio futuro por meio de uma leitura lúcida e realista dos conflitos internacionais, em especial do confronto em curso com a República Islâmica do Irã. Esse confronto provocou o retorno da ocupação israelense ao sul do Líbano, além da continuidade das violações do espaço aéreo libanês. Também levou, pela primeira vez, o Hezbollah a enfrentar diretamente Israel em uma guerra de apoio a Gaza e ao Irã após a morte de Ali Khamenei, quando a organização já havia sido excluída da antiga equação “Exército, Povo e Resistência”, depois da implementação do princípio do monopólio estatal das armas. Pode-se afirmar, portanto, que, sem a decisão de consagrar o monopólio estatal das armas, o Líbano jamais teria conseguido iniciar as negociações que deram origem ao memorando. Esse acordo exige agora acompanhamento político permanente e a gestão de dossiês particularmente complexos, tarefa para a qual a diplomacia libanesa dispõe de reconhecida experiência tanto no mundo árabe quanto nas relações internacionais. A maioria dos que hoje criticam esse passo ousado e corajoso é composta justamente pelos mesmos atores que, desde o início, rejeitaram o princípio do monopólio estatal das armas. Também mantêm profundas reservas em relação ao Acordo de Taif e ao equilíbrio político e regional que ele estabeleceu. Assim, as objeções ao processo de negociações entre Líbano e Israel não podem ser dissociadas dessa oposição de fundo a essas duas decisões fundamentais, ainda que alguns afirmem apoiar verbalmente o Acordo de Taif enquanto, na prática, agem em sentido contrário. Em essência, trata-se do confronto entre um passado recente marcado por políticas que transformaram o Líbano em um palco de investimentos geopolíticos, em vez de uma pátria digna de ser construída e defendida, e uma nova abordagem que hoje conta com amplo apoio internacional e árabe. Esse apoio reflete a compreensão do peso das ingerências externas, pressões que ultrapassam a capacidade do Estado libanês e o colocam diante de desafios em relação a Israel que não decorrem de suas próprias escolhas. Essa compreensão foi consagrada por sucessivas resoluções das Nações Unidas, sobretudo a Resolução 425, que encerrou definitivamente qualquer controvérsia sobre a soberania do Líbano em relação às suas fronteiras meridionais. Essa resolução pôs fim a um longo período histórico iniciado após a Guerra de Junho de 1967 e seus desdobramentos, entre eles a ascensão da luta armada palestina a partir do território libanês. Também forneceu a base jurídica para a retirada israelense do Líbano em maio de 2000, permitindo ao Estado libanês iniciar o lento processo de recuperação após sucessivas guerras. As negociações atuais, fundamentadas no conjunto de resoluções internacionais favoráveis ao Líbano, especialmente a Resolução 1701, fazem parte de um esforço internacional e árabe profundamente comprometido com a soberania libanesa. Esse compromisso repousa sobre fundamentos claramente estabelecidos: a Constituição, o Pacto Nacional, o Acordo de Taif, o discurso de posse presidencial e a Declaração Ministerial. É precisamente esse alicerce que permite hoje ao Líbano utilizar de forma construtiva tanto a legitimidade internacional quanto a legitimidade árabe para reduzir, por meios políticos, a assimetria de poder em relação ao Estado hebraico. Essa diferença, contudo, não pode ser reduzida sem o diálogo com a própria administração dos Estados Unidos, principal fiadora do Estado hebraico. Aqueles que procuram desqualificar o esforço político do Líbano para alcançar entendimentos capazes de proteger o país e abrir um caminho para superar sua profunda crise buscam, na realidade, fazer o Estado retroceder para preservar interesses particulares que nada têm a ver com o destino do Líbano como nação e como Estado. No contexto dessa nova guerra de desgaste entre Washington e Teerã, preservar o Líbano das repercussões do Estreito de Ormuz tornou-se mais importante do que nunca. O Irã continua investindo onde ainda encontra oportunidades. Quanto mais suas cartas ruem, maior se torna sua determinação de retomar o controle sobre a decisão nacional independente do Líbano.

Sob o guarda-chuva…?
Por
Hisham Dibsi
Publicado
jul 6, 2026 - 12:17

A mais recente delegação do Hamas chegou ao Cairo no início deste mês, levando as respostas do movimento às perguntas de o Alto Comissário do Conselho da Paz, Nikolay Miladinov, bem como às suas propostas, constantemente revisadas. Desta vez, a delegação não foi chefiada por Khalil al Hayya, embora ele tenha transmitido uma posição firme e inabalável quanto à exclusividade das armas, ressaltando que qualquer medida nesse sentido só poderia ser implementada de forma gradual, de acordo com um cronograma vinculado a um processo político claro que garantisse ao povo palestino o direito à autodeterminação e ao exercício de sua soberania . Ao mesmo tempo, o movimento exigiu o pagamento de todos os valores devidos aos funcionários que haviam servido em seu governo por meio do “Comitê de Administração de Gaza” , ao mesmo tempo em que buscava manter seu papel durante o período de transição. Por sua vez, as posições israelenses continuam rejeitando qualquer fórmula que permita ao Hamas manter um braço militar após o fim do período de transição. Uma Partilha Funcional de Poder A fragmentação da Faixa de Gaza em duas zonas distintas consolida-se progressivamente. A leste estende-se o teatro das operações militares israelenses. A oeste vive a imensa maioria da população, sob a autoridade dos serviços de segurança e da polícia do Hamas, vivendo entre os restos das tendas, as ruínas das casas destruídas e os escassos vestígios de alimentos, água e medicamentos. Nessa parte do território, o Hamas exerce sua autoridade, arrecada impostos e administra a atividade comercial com um punhado de comerciantes cujas práticas não são menos implacáveis do que as do aparato de segurança do movimento em sua relação com a população. Sempre que surge a questão das armas e de seu controle exclusivo na Faixa de Gaza, convém lembrar que o governo Trump, juntamente com os mediadores turco e catariano, chegou à conclusão de que o Hamas deveria manter seu arsenal até o término do período de transição. A equação, portanto, é simples. Israel rejeita as armas do Hamas, enquanto o movimento endurece suas exigências quanto ao controle exclusivo do armamento, a ponto de exigir garantias tanto coletivas quanto individuais para o futuro. Enquanto isso, o Alto Comissário do Conselho da Paz, Nikolay Miladinov, atua intensamente para costurar um acordo capaz de satisfazer tanto Israel quanto o Hamas. De acordo com essa equação insolúvel e em conformidade com as instruções da administração norte-americana, com a aprovação de Israel, o Comitê de Administração de Gaza deve iniciar seus trabalhos na parte oriental da Faixa, sob o controle direto das forças de ocupação israelenses, embora até o momento nenhum cronograma para sua implementação tenha sido estabelecido. O Hamas continuaria exercendo sua autoridade na parte ocidental da Faixa, em uma dualidade de poderes que só pode ser compreendida como a expressão de uma partilha funcional de poder entre as duas partes. Essa partilha apenas aprofunda o sofrimento da população, presa à estagnação e ao impasse, enquanto a segurança alimentar, o abastecimento de água e os serviços de saúde continuam a se deteriorar em ritmo acelerado, deixando que a doença, a fome e a sede devastem o povo de Gaza. A população encontra-se, assim, simultaneamente submetida à tutela do Conselho da Paz, à ocupação do Exército israelense e ao governo do Hamas. Ao aprovar, em 17 de novembro de 2025, a resolução que instituiu o “Conselho da Paz”, o Conselho de Segurança das Nações Unidas não pretendia colocar os palestinos sob a tutela do presidente Donald Trump. Seu objetivo era pôr fim a uma guerra de extermínio que havia se tornado prejudicial aos interesses e à imagem de Israel, ao mesmo tempo em que autorizava o envio de uma força internacional destinada a ajudar a população de Gaza a enfrentar o genocídio do qual é vítima. Oito meses se passaram desde a criação do Conselho da Paz, e as negociações continuam paralisadas na implementação do primeiro dos vinte pontos previstos pela Iniciativa Trump. Linhas Vermelhas A quinta rodada de negociações terminou sem o menor avanço significativo. As linhas vermelhas de ambas as partes permanecem inconciliáveis, em um impasse de fundo entre Israel e o Hamas em torno do controle exclusivo das armas e do futuro do poder na Faixa de Gaza, à espera da mudança na liderança da Autoridade Palestina após as eleições legislativas e presidenciais previstas para o fim deste ano. Após cada revés nas negociações, a diplomacia egípcia volta a apresentar novas propostas com o objetivo de manter vivo o diálogo. Seu objetivo é impedir que Israel se esquive de seus compromissos internacionais e evitar que imponha uma nova realidade na Faixa de Gaza, transformando a fronteira palestino-egípcia em uma fronteira israelo-egípcia, com todas as implicações estratégicas que isso teria para a segurança nacional do Egito e para o Tratado de Paz entre Egito e Israel. Sob essa perspectiva geopolítica, a diplomacia egípcia trabalha para fortalecer o papel da Autoridade Nacional Palestina e assegurar sua presença política e institucional. Conseguiu reativar o Acordo sobre as Passagens de Fronteira, restabelecer a presença oficial palestina com participação europeia e também obter um acordo para o envio de quinze mil policiais, em três etapas sucessivas, com o objetivo de preservar a vida da população na Faixa de Gaza. Soma-se a isso a participação simbólica da cidade de Deir al Balah nas eleições municipais realizadas há poucos meses. O Cairo permanece mais determinado do que nunca a impedir o fracasso das negociações, apesar do que desejam Benjamin Netanyahu e seus generais. Para alcançar esse objetivo, a diplomacia egípcia combina flexibilidade e firmeza em seu trato com todas as partes, inclusive a parte israelense. Em coordenação com os três Estados mediadores, Paquistão, Arábia Saudita e Türkiye, o Cairo acompanha de perto a evolução do conflito entre Washington, Teerã e Tel Aviv, bem como a possibilidade, ainda aberta, de um retorno a níveis de violência suscetíveis de voltar a explodir, por mais controlados que pareçam. Os próximos processos políticos e eleitorais nos Estados Unidos e em Israel ainda poderão produzir resultados pouco favoráveis ao êxito de um amplo processo de paz, tanto internacional quanto regional. Ao mesmo tempo, as políticas da Turquia e do Catar seguem uma dinâmica distinta. Buscam construir uma nova relação entre o Hamas e a administração da Casa Branca, apoiando-se em sua longa experiência com os movimentos do islamismo político radical, em especial com o movimento Talibã afegão. Essa experiência, considerada durante muito tempo por Khaled Meshaal, membro do Bureau Político do Hamas, como um modelo de referência, poderá contribuir para recompor o movimento e reintegrá-lo ao sistema político palestino. Sem a flexibilidade demonstrada tanto pela administração norte-americana anterior quanto pela atual, a liderança do Hamas dificilmente teria levado tão longe suas exigências nas negociações. Sua aposta reside no sucesso dos esforços de Ancara e Doha para reabilitar seu papel na causa palestina. Isso permitiria à Casa Branca impor suas próprias condições tanto ao Hamas quanto à Autoridade Palestina, reduzindo o teto das aspirações nacionais que o povo palestino estaria disposto a aceitar. Esse jogo prossegue desde que o governo Sharon facilitou a chegada do Hamas ao poder por meio do golpe contra a legitimidade palestina, em 2007. Se esse jogo continua garantindo os mesmos resultados, por que não haveria de se repetir? Uma gota d’água Enquanto Israel continua impedindo a entrada de ajuda humanitária, a crise da água potável não para de se agravar. A Faixa de Gaza necessita diariamente de 140 mil metros cúbicos de água para atender às necessidades da população, dos hospitais e da alimentação. As Nações Unidas continuam alertando para o colapso da segurança hídrica, enquanto o Hamas, por sua vez, não deixa transparecer, nem em seu discurso nem em seu comportamento, a menor preocupação com a população. Para o Hamas, as armas valem mais do que uma gota d’água.

A lista da vergonha
Por
Hisham Dibsi
Publicado
jun 30, 2026 - 18:20

Em 2005, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou a resolução 1612, que prevê a designação das partes responsáveis por graves violações cometidas contra crianças em conflitos armados e guerras, sejam elas Estados ou forças de fato, como milícias ou autoridades locais ilegítimas. Em aplicação dessa resolução, é publicada a “Lista da vergonha”, que reúne Estados e organizações de acordo com o número e a natureza das violações que cometem. O relatório anual revela que as forças armadas e de segurança cometeram, ao longo do último ano, trinta e oito mil violações contra crianças em todo o mundo. O relatório das Nações Unidas abrange dezesseis países, entre os quais estão, especialmente, Afeganistão, Mali, Haiti, Mianmar, Somália, Nigéria, Sudão, Irã e Israel. Constata-se que as forças armadas e de segurança israelenses são responsáveis, sozinhas, por um quarto das violações registradas, com mais de 12,425 violações cometidas contra cinco mil crianças cujos casos foram verificados, enquanto outros cinco mil casos ainda estão sendo investigados. As forças de segurança israelenses foram, assim, designadas como as principais responsáveis por essas violações e ocupam, pela segunda vez, o primeiro lugar da “Lista da vergonha”. A diretora-geral do UNICEF, Catherine Russell, apresentou sua exposição sobre a questão, afirmando que: “Os números apresentados neste relatório não refletem o número real das violações cometidas contra as crianças, pois o relatório considera apenas os casos que puderam ser verificados. Muitas violações jamais são denunciadas por diversas razões, entre elas as dificuldades de acesso às áreas afetadas, o medo de represálias e outros fatores.” O relatório também mostra que 70% das mortes e dos ferimentos resultam do uso de armas explosivas em áreas densamente povoadas. A presença de Israel no topo dessa “Lista da vergonha” não se limita ao que ocorre na Palestina. As violações cometidas contra crianças no Líbano e na Síria não são menos graves, assim como aquelas que atingem o povo iraniano, já submetido à brutalidade do regime dos mulás. Essas violações constituem, contudo, um grande desafio para todos os países do mundo civilizado, especialmente para as democracias que reivindicam o direito internacional humanitário e as convenções que elas próprias ajudaram a elaborar e promover. O direito internacional prevê, de fato, que sejam responsabilizados não apenas o autor principal e direto dos crimes, mas também as partes que se tornam cúmplices do criminoso, conforme a Convenção de 1948 para a prevenção e repressão do crime de genocídio. A cumplicidade é considerada, assim, uma forma de participação indireta que engloba o apoio material, o apoio logístico e também o apoio moral. Essa responsabilidade jurídica também envolve as empresas que fabricam armas, assim como todas aquelas que participam, direta ou indiretamente, do abastecimento destinado ao esforço militar dos autores do crime de genocídio, incluindo empresas do setor de tecnologias e de inteligência artificial. Em sua intervenção, a representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para crianças e conflitos armados, Virginia Gamba, declarou: “A inação não resulta da ignorância. Ela decorre de uma escolha política consciente.” À luz desse testemunho, torna-se legítimo reavaliar as posições de todos os Estados ligados, de perto ou de longe, aos crimes cometidos contra crianças em todo o mundo, onde quer que vivam e quaisquer que sejam as razões pelas quais sua infância tenha sido violada. Permanece enorme a distância entre o que determina o direito internacional e o estado atual da humanidade. Os grandes avanços científicos alcançados até o momento não significam necessariamente um verdadeiro progresso civilizacional. A capital As negociações sobre o status de Jerusalém Oriental haviam sido adiadas para o fim do período de transição previsto pelos Acordos de Oslo, com duração de cinco anos. Quando o prazo se aproximou, no início do terceiro milênio, o primeiro-ministro israelense Ehud Barak recusou-se a abrir discussões sobre as questões relacionadas ao acordo definitivo com o presidente palestino Yasser Arafat. A mediação conduzida pelo presidente americano Bill Clinton antes de deixar a Casa Branca também não conseguiu aproximar as duas partes, pois nenhuma delas aceitou as propostas apresentadas. Ariel Sharon escolheu então outro caminho, o de uma provocação cuidadosamente planejada e coordenada com Ehud Barak, ao entrar na esplanada da mesquita Al-Aqsa. Seguiu-se, inicialmente, uma ampla mobilização popular palestina e, depois, o retorno à luta armada sob a liderança do Hamas. Quando Ariel Sharon assumiu posteriormente o cargo de primeiro-ministro, ordenou, em 15 de agosto de 2005, a retirada da Faixa de Gaza no âmbito do chamado plano de “desengajamento”. Ele apresentou, assim, um modelo de solução baseado na manutenção do projeto do Grande Israel, retirando-se apenas das aglomerações palestinas, enquanto prosseguia paralelamente à judaização de Jerusalém Oriental, submetida à legislação israelense de anexação desde o fim da guerra de junho de 1967. Esse modelo continuou sendo aplicado com o objetivo de prosseguir a judaização da capital do Estado da Palestina. Os habitantes de Jerusalém Oriental foram colocados sob um status jurídico especial que os impede de possuir uma carteira de identidade palestina, ao mesmo tempo em que também os priva da nacionalidade israelense, ao contrário dos palestinos que vivem dentro de Israel. O governo concedeu a eles, portanto, um documento com a indicação de “residente permanente”, que lhes permite apenas votar nas eleições municipais de Jerusalém, sem reconhecer o direito de participar das eleições para a Knesset. A cada eleição legislativa palestina, a mesma batalha ressurge em torno do direito dos habitantes de Jerusalém de votar na Autoridade Nacional Palestina e em seu Conselho Legislativo. As autoridades israelenses se opõem sistematicamente à sua participação no pleito palestino, embora, segundo o direito internacional, eles continuem sendo habitantes de um território ocupado que devem receber proteção internacional. Desde seu primeiro mandato, o presidente Trump reconheceu a anexação de Jerusalém por Israel ao transferir a embaixada americana de Tel Aviv para a cidade, sem se preocupar com as consequências de tal decisão. Ele foi ainda mais longe ao fechar o escritório da Organização para a Libertação da Palestina em Washington. No mês de maio passado, a Knesset aprovou em primeira leitura um projeto de lei que cria uma “Autoridade do Patrimônio na Judeia e Samaria”, denominação bíblica atribuída à Cisjordânia. O texto ainda precisa ser aprovado em segunda e terceira leituras. Uma vez em vigor, todos os sítios arqueológicos da Cisjordânia ficarão sob a autoridade do governo israelense. Esses vestígios, presentes em praticamente toda a região, abrangem períodos que vão desde a época cananeia até os períodos romano e otomano, o que permitirá a essa autoridade restaurar, construir, comprar e vender sem encontrar obstáculos. Tal evolução permitiria a Israel apropriar-se de qualquer área localizada em Jerusalém e, de maneira geral, na Cisjordânia. Aos seus olhos, a questão central continua sendo a do Templo, que consideram estar enterrado sob a mesquita Al-Aqsa segundo sua própria narrativa. É nessa perspectiva que o governo de Netanyahu multiplica medidas destinadas à administração do santuário, ocupando algumas de suas partes para instalar soldados e também a “Unidade dos Guardiões do Templo”, encarregada de proteger aqueles que desejam entrar no recinto da mesquita para realizar seus ritos religiosos. As forças israelenses assumiram posições, assim, em quatro edifícios situados dentro do complexo de Al-Aqsa: a cúpula do imã Al Ghazali, a cúpula de Salomão, a cúpula de Moisés e a Casa do Hadith. As forças de segurança também afastaram trinta e sete guardiões e funcionários para reduzir o número de guardiões palestinos de cinquenta para vinte por equipe, ao mesmo tempo em que retiraram as permissões de trabalho de trinta funcionários do santuário residentes na Cisjordânia. Paralelamente, a polícia israelense iniciou uma campanha de recrutamento de novos voluntários destinados a integrar a “Unidade do Monte do Templo”, entre os extremistas judeus mais radicais. Essas políticas, que violam os acordos firmados com a Autoridade Palestina e com o Reino Hachemita da Jordânia, depositário da tutela sobre a mesquita Al-Aqsa desde os anos vinte do século passado, não provocam de Netanyahu mais do que uma breve declaração garantindo que nada teria sido alterado no terreno. No entanto, apesar da fragilidade de seus apoios, o movimento Paz Agora continua sendo a única organização a denunciar esse projeto, declarando: “Se esse projeto de lei for aprovado pela Knesset, ele constituirá, em todos os aspectos, uma medida de anexação acompanhada de uma ampla confiscação de terras palestinas.”

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