

Um ramo singular do xiismo
O xiismo (shī‘a, «partido» de Ali) considera Ali ibn Abi Talib e seus descendentes, a «Gente da Casa» (Ahl al-Bayt), os sucessores legítimos do Profeta. Ao longo das disputas sucessórias, dividiu-se em vários ramos: os duodecimanos, majoritários no Irã, no Iraque e no Bahrein, e também muito presentes no Líbano; os ismaelitas; as correntes chamadas «exageradas» (ghulāt); e os zaiditas, hoje concentrados no noroeste do Iêmen.
O zaidismo deve seu nome a Zayd ibn Ali, neto de Hussein, que se rebelou contra os omíadas e morreu como mártir em 740. Seu sobrinho Ja‘far al-Sadiq, referência para os futuros duodecimanos, recusou-se a segui-lo. A separação ocorreu precisamente em torno desse ponto: seguir o imã que toma as armas contra a injustiça ou esperar. Zayd mantinha estreitos vínculos com o mutazilita Wasil ibn Ata, enquanto Abu Hanifa, fundador de uma das grandes escolas jurídicas sunitas, foi seu discípulo e apoiou sua revolta. Essa proximidade explica por que o zaidismo foi durante muito tempo descrito como «o mais sunita dos xiismos».
Os princípios: presença, khuruj e descendência
Três ideias distinguem o zaidismo do xiismo duodecimano. A primeira é a presença do imã: não há imã oculto nem Mahdi esperado, mas um líder vivo que deve se manifestar. A segunda é o dever de revolta armada (khuruj) contra o governante injusto, condição para o próprio acesso ao imamato. A terceira é a rejeição da dissimulação (taqiyya) e da espera passiva (intizar), características do xiismo duodecimano.
O imã deve reunir uma série de condições: piedade, conhecimento no nível de um mujtahid, coragem, senso de justiça, generosidade, ascetismo e, acima de tudo, ter se proclamado e tomado as armas. Deve também descender de Hassan ou de Hussein, os dois filhos de Ali e Fátima. É essa última condição que fundamenta o lugar central dos haxemitas na sociedade zaidita.
Vários zaidismos
A tradição conhece várias escolas. A Salihiyya e a Batriyya admitem o imamato do «menos meritório» mesmo na presença do mais meritório, o que lhes permite reconhecer a legitimidade dos dois primeiros califas; no plano jurídico, estão próximas do sunismo. A Sulaymaniyya considera esses califados um «erro» da comunidade, sem chegar ao anátema. A Jarudiyya, por fim, que reúne os discípulos de Abu al-Jarud, aproxima-se dos duodecimanos: considera que o Profeta designou Ali e julga severamente Abu Bakr e Omar.
No Iêmen, foi essa última interpretação que acabou prevalecendo. O imã al-Hadi Yahya ibn al-Hussein, fundador do Estado zaidita em 890, ou em 897 segundo algumas fontes, transformou-a em doutrina oficial e restringiu o imamato exclusivamente aos descendentes de Hassan e Hussein, os Hasanayn. Os zaiditas do Iêmen tornaram-se assim, na prática, jaruditas. No entanto, vozes dissidentes nunca deixaram de contestar esse monopólio da linhagem.
Do imamato à república, e depois ao ressurgimento
O imamato zaidita governou as terras altas do norte, com interrupções otomanas, durante mais de mil anos. Chegou ao fim em 26 de setembro de 1962, quando oficiais derrubaram o imã Muhammad al-Badr e proclamaram a República Árabe do Iêmen. Paradoxo fundador: muitos desses oficiais eram eles próprios zaiditas, mas provinham das tribos, e não da nobreza haxemita. A guerra civil que se seguiu, entre 1962 e 1970, opôs monarquistas apoiados pela Arábia Saudita a republicanos respaldados pelo Egito de Nasser.
Para o zaidismo, a queda do imamato representou uma ameaça existencial. A história mostra, de fato, que onde o zaidismo perdeu seu pilar político, como no Iraque ou nas regiões iranianas de Gilan e Dailam, acabou desaparecendo como doutrina. Sua força reside mais em sua dimensão prática e política, o imamato, a exortação ao bem e a revolta contra a injustiça, do que em uma metafísica. A grande autoridade religiosa Majd al-Din al-Mu’ayyadi empreendeu então um trabalho de preservação do patrimônio zaidita a partir de Saada, Taif e Najran, ao mesmo tempo em que se recusava a reconhecer a legitimidade do poder republicano.
Em 1990, diante do avanço do salafismo e da Irmandade Muçulmana, uma parte dos ulemás zaiditas deu um passo histórico: declarou que a exigência de ascendência haxemita para governar pertencia ao passado e que a direção da nação deveria caber a todos os cidadãos. Badreddine al-Houthi, segunda autoridade na hierarquia religiosa zaidita, rejeitou essa revisão e permaneceu fiel à interpretação jarudita.
O neozaidismo houthi
É a partir dessa recusa que o movimento se constrói. Trata-se de um «zaidismo político» ou, mais precisamente, de um haxemismo político: a mobilização interna e a aliança externa com o Irã e o Hezbollah se fazem sob a bandeira de uma restauração haxemita. O movimento acrescenta a isso elementos tomados do xiismo revolucionário iraniano, visíveis na introdução de comemorações como a Ashura, na sarkha, o slogan, e na importância atribuída à Palestina.
O movimento combina, assim, uma identidade de minoria perseguida, uma organização moderna e uma pretensão hegemônica. Sua teoria do poder é uma mistura de zaidismo tradicional, governo familiar ao estilo das monarquias do Golfo e elementos do sistema revolucionário iraniano, tudo isso sob uma fachada republicana. Símbolo dessa transformação: 21 de setembro, data da tomada de Sanaa pelos Houthis em 2014, substituiu a celebração de 26 de setembro, que muitos iemenitas continuam a comemorar iluminando os telhados de suas casas.
Próximo artigo: De Saada a Sanaa: a aliança paradoxal e a tomada do poder