


Durante muito tempo, o Iraque foi a pedra angular das manobras e ambições geoestratégicas da República Islâmica do Irã. Sem o Iraque, nada se sustenta: nem o corredor terrestre em direção à Síria, nem a economia voltada para driblar sanções, nem a rede de milícias que garantia ao Irã profundidade estratégica no Golfo. Poderosas milícias xiitas, as Forças de Mobilização Popular (PMF), financiadas, treinadas e supervisionadas pela Guarda Revolucionária, controlaram durante anos as zonas fronteiriças de al-Qaim e Bukamal, por onde transitavam armas, combatentes e tecnologias com destino à Síria e ao Líbano.
O governo iraquiano, vacilante, oscilou de forma constante entre Washington e Teerã, embora a influência iraniana tenha permanecido considerável. Hoje, o Iraque tornou-se um campo de contradições. Cresce a pressão dos Estados Unidos para sancionar redes pró-Irã, enquanto as milícias se enfraquecem com a desorganização do front sírio. A recente disputa interna sobre a classificação do Hezbollah e dos houthis, incluídos e retirados das listas terroristas em questão de dias, revela uma profunda confusão, ao mesmo tempo, em que ganha força um nacionalismo iraquiano que rejeita tanto a ingerência iraniana quanto a dominação americana.
Bagdá agora caminha sobre uma corda bamba entre Washington, Teerã e Riad. O Irã mantém ali uma influência real e significativa, mas já não dispõe do “corredor” que fazia do Iraque uma extensão natural de sua arquitetura defensiva. O elo iraquiano continua existindo, mas já não estrutura o espaço regional.
Gaza, ou a profundidade Palestina do eixo iraniano
Resta Gaza. Por que esse apego geopolítico à carta palestina, para além do ativo político que ela representa desde 2006, ou seja, uma extensão sunita do Irã e uma moeda de troca com o Ocidente em torno do dossiê nuclear, como instrumento de pressão sobre Israel? Para compreender Gaza dentro do sistema iraniano, é preciso desmontar um mito: o Hamas não é uma criação iraniana. O Hamas é o braço palestino da Irmandade Muçulmana, e sua consolidação foi claramente facilitada por Israel como forma de criar um contrapeso ao Fatah e à Autoridade Palestina, dividir o campo palestino e justificar a continuidade do conflito israelense-palestino sob o argumento da existência de um ator terrorista extremista.
Entre 1990 e 2000, o Hamas aproximou-se gradualmente do Irã e do Hezbollah, no contexto de sua rejeição aos Acordos de Oslo. Em 2007, a tomada de Gaza às custas do Fatah aumentou sua dependência do apoio iraniano em todos os níveis. Ainda assim, o Hamas não é o Hezbollah. Não se trata de uma emanação direta dos Pasdaran, embora mantenha vínculos estreitos com eles por meio de intermediários libaneses. O grupo preserva autonomia ideológica e tática, mas está plenamente integrado à estratégia iraniana.
Para Teerã, Gaza cumpre três funções. A primeira é constituir um front interno permanente contra Israel. Para Tel Aviv, a Faixa de Gaza é inescapável: enclausurada e explosiva, torna-se impossível neutralizá-la politicamente sem um custo humano e militar colossal. Desde outubro de 2023, a destruição sistemática do enclave e a eliminação metódica de sua população não conseguiram esmagar o Hamas. O conflito imobiliza o Exército israelense, impede Israel de projetar livremente seu poder na região e abre uma brecha permanente em sua segurança interna. De forma paradoxal, também permite que Benjamin Netanyahu se mantenha no poder, apesar das acusações de corrupção que enfrenta.
A segunda função é conferir legitimidade palestina à narrativa iraniana, papel que também é desempenhado pelo discurso do Hezbollah. Sem Gaza, o Irã não pode se apresentar como o campeão da causa palestina. Com Gaza, a retórica da “resistência” ganha substância, e os foguetes disparados contra Tel Aviv e Ashkelon fornecem a iconografia necessária à grandiloquência iraniana. Trata-se da distração perfeita, que desvia as populações árabes do que realmente está em jogo: o controle do vilayat-e faqih sobre o Oriente Médio, em nome da restauração de uma mítica idade de ouro imperial.
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