

A vitória de Péter Magyar e do seu partido «Tisza» marca um ponto de viragem histórico no panorama político húngaro, pondo fim a dezasseis anos de governo de Viktor Orbán e do seu partido Fidesz. As eleições foram descritas como as mais importantes das últimas décadas, não apenas pelo volume de participação popular sem precedentes, mas também porque o seu resultado conferiu à oposição uma maioria de dois terços no parlamento, permitindo-lhe alterar a Constituição e reverter as políticas iliberais que Orbán havia enraizado durante os seus anos no poder.
O novo presidente Magyar comprometeu-se a restaurar a liberdade de imprensa e a reformar os meios de comunicação estatais, num passo destinado a desmantelar o sistema de controlo informativo em que o regime anterior se havia apoiado. A grande surpresa foi o reconhecimento imediato da derrota por parte de Orbán, sem qualquer tentativa de se agarrar ao poder pela força, o que poupou ao país uma crise política ou protestos violentos.
Causas da derrota
A derrota não nasceu de um único momento eleitoral, sendo antes o resultado da acumulação de pressões económicas, sociais e políticas que foram erodindo a legitimidade de Orbán. Acresce que a campanha organizada de Magyar — que havia sido, no passado, aliado de Orbán — logrou unir a oposição em torno de uma única figura capaz de rivalizar seriamente com o Fidesz. A dependência de Orbán na propaganda negativa e na intimidação também deixou de convencer o eleitorado, voltando-se antes contra ele, à medida que as suas mensagens perdiam credibilidade perante a deteriorada realidade económica.
1. A ascensão de Orbán e a construção do modelo económico
Desde a crise de 2008, Viktor Orbán construiu a sua popularidade sobre a promessa de prosperidade económica e de uma «sociedade baseada no trabalho», com ênfase na criação de emprego e no reforço da autonomia dos cidadãos. Este modelo assentava em investimentos estrangeiros de salários baixos, ou seja, na atracção de empresas estrangeiras para empregar mão-de-obra local com remunerações reduzidas, com o objectivo de diminuir os custos de produção e aumentar a competitividade do país nos mercados globais. Se bem que este modelo crie postos de trabalho, mantém a economia nacional numa situação de fragilidade perante as crises mundiais e limita a capacidade de melhoria do nível de vida.
2. A estagnação económica e o declínio do modelo
Os êxitos de Orbán na criação de emprego abrandaram de forma marcada após a pandemia de Covid e a invasão russa da Ucrânia, revelando a fragilidade do modelo económico em que os seus anos de governo haviam assentado. A Hungria, que na década anterior se orgulhava das suas elevadas taxas de emprego, viu-se a partir de 2022 confrontada com uma realidade económica severa: um crescimento quase nulo e uma inflação que era a mais elevada da União Europeia, afectando directamente a vida quotidiana dos cidadãos através da subida dos preços e da perda de poder de compra. Mas a crise não era apenas económica; transformou-se numa profunda crise social e política. Os cidadãos sentiram que as promessas de Orbán de construir uma "sociedade baseada no trabalho» já não eram exequíveis face às crises globais e às pressões do mercado.
3. A erosão do apoio popular e as crises éticas
Apesar da elevada participação eleitoral, a base do partido Fidesz retraiu-se de 3,1 para 2,3 milhões de eleitores, indicador inequívoco da erosão da confiança popular em Orbán e no seu partido. Este recuo não foi apenas a consequência natural de factores económicos, estando também associado a crises éticas e políticas que mancharam a imagem do partido, nomeadamente os escândalos ligados ao encobrimento de casos de abuso sexual de menores, que comprometeram a legitimidade do partido e a sua capacidade de se apresentar como guardião dos valores tradicionais. A frustração cresceu por via da corrupção generalizada e da flagrante desigualdade social evidenciada pelas imagens dos suntuosos palácios pertencentes à elite governante, em contraste com as dificuldades das classes média e trabalhadora, aprofundando o fosso de confiança entre o povo e o governo. Tudo isto contribuiu para a ascensão do seu rival Péter Magyar, que soube capitalizar a perda generalizada de confiança para se apresentar como uma alternativa mais íntegra e competente.
4. O discurso cultural e a admiração exterior
Perante o declínio interno, Orbán procurou compensá-lo através do discurso nacionalista e cultural, recorrendo ao que ficou conhecido como as «guerras culturais,» focando a atenção nas questões de identidade e na defesa da nação contra o «globalismo.» Apresentou a União Europeia, as instituições financeiras internacionais e as organizações liberais como forças «globalistas» que ameaçavam a identidade e a cultura húngaras, insistindo na protecção das fronteiras, na rejeição das políticas europeias de imigração e na afirmação dos «valores tradicionais» contra o que considerava um desmantelamento da família e da sociedade.
Contudo, apesar da sua retórica anti-globalização, o seu modelo económico dependia do investimento estrangeiro — fabricantes alemães de automóveis, fábricas chinesas de baterias — tornando-o vulnerável às flutuações globais. Ou seja, enquanto se apresentava como um líder que resistia à «globalização liberal» imposta por Bruxelas e pelo Ocidente, havia na prática vinculado a economia húngara à globalização.
Em política externa, Orbán aproximou-se da Rússia, opondo-se às políticas da União Europeia em relação à Ucrânia, tornando-se símbolo das alianças hostis à globalização ocidental. Beneficiou também do apoio directo de Trump, que nele viu um modelo de nacionalismo populista contrário à globalização liberal. Tornou-se assim um ícone da direita populista mundial, estrela de conferências conservadoras em todo o mundo — como a Conservative Political Action Conference, onde se apresentou como um «David» a resistir a um «Golias da globalização.» Esta conferência anual americana, de que Donald Trump é a figura principal, converteu-se numa plataforma de exportação do discurso populista conservador à escala global, nomeadamente após a realização de uma edição na Hungria, sendo citada na Europa e na América Latina como fonte de inspiração para a direita nacionalista.
Todavia, este discurso cultural identitário da direita populista, que anteriormente constituía um instrumento eficaz de mobilização, já não era suficiente perante o deterioro económico e os serviços públicos em declínio. Os eleitores haviam-se tornado mais atentos à subida dos preços e à degradação do nível de vida do que às palavras de ordem nacionalistas.
Entretanto, os líderes nacionalistas na Europa e nos Estados Unidos continuaram a exaltar Orbán como símbolo de resistência à globalização, vendo na sua experiência um modelo para enfrentar as «ameaças globais.» Mas esta admiração exterior permaneceu desligada da realidade interna da Hungria, sem alterar nada no sofrimento quotidiano dos seus cidadãos nem no declínio da sua confiança no sistema.
5. As repercussões internacionais
Este resultado representa um golpe no discurso nacionalista e divisionista de que Orbán havia sido o emblema, revelando os limites da eficácia desse modelo, particularmente na Europa. A Rússia encontra-se entre as grandes perdedoras, tendo perdido a sua voz mais poderosa no interior da União Europeia no que diz respeito ao bloqueio da ajuda à Ucrânia. Os Estados Unidos, sob a administração Trump, perderam um aliado de relevo na Europa, não obstante as tentativas de apoiar Orbán antes das eleições. A China, como de costume, observa com cautela, tendo investido intensamente no sector do veículo eléctrico na Hungria; os seus interesses poderão ser afectados caso Magyar reoriente as suas posições para estreitar os laços com a União Europeia.
Talvez o maior perdedor seja a direita populista mundial, em especial os seus aliados em França: Marine Le Pen e o seu partido Rassemblement National, e Éric Zemmour com o seu partido Reconquête. Entre os grandes perdedores figuram ainda o partido Lei e Justiça (PiS) na Polónia, Nigel Farage e o Partido da Reforma no Reino Unido, o antigo primeiro-ministro australiano Tony Abbott, e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
Mas o maior vencedor é, antes de tudo, o povo húngaro, que expressou a sua rejeição da corrupção e do autoritarismo, a par da União Europeia, que recuperou um parceiro mais alinhado com as suas orientações, e da Ucrânia, que poderá encontrar maior facilidade em obter apoio no interior da União após o recuo da influência pró-russa.
Conclusão
As recentes eleições húngaras não foram um mero câmbio interno de poder, mas uma mensagem global contra o populismo de direita e a corrupção, e um golpe nas tentativas da Rússia e dos Estados Unidos de influenciar a Europa. A experiência de Orbán revela os limites do «conservadorismo pró-trabalhador»: tem êxito quando oferece promessas económicas tangíveis, mas colapsa quando posto à prova pelas crises globais. As eleições demonstraram igualmente os limites do «autoritarismo informacional»: quando a economia se deteriora e a oposição se une em torno de uma alternativa sólida, os instrumentos de desinformação e de propaganda tornam-se menos eficazes e perdem a sua capacidade de determinar os resultados. A queda de Orbán não se deveu apenas ao seu autoritarismo ou ao seu discurso cultural, mas ao fracasso do modelo económico e à erosão da confiança ética no seu partido. A experiência revela que os regimes que dependem do controlo da informação não são impenetráveis, e que colapsam quando perdem credibilidade perante as crises económicas e políticas.
O sucesso de Magyar reflecte, por sua vez, a inclinação dos eleitores para uma alternativa centrista mais competente e moderada, que congrega tanto o centro como a esquerda liberal, embora ele próprio seja conservador e partilhe algumas políticas do Fidesz. Magyar não representa, portanto, uma viragem radical nas políticas públicas, mas antes a declaração do esgotamento da era Orbán. O desafio que se lhe coloca consiste em realizar reformas genuínas capazes de reconstruir a confiança popular, sem perder o apoio dos eleitores que eram originalmente parte da base do Fidesz.