
As constantes polemológicas do poder persa ao longo dos séculos

NOTA DA REDACCÇÃO: O estudo que se segue, dedicado a uma análise pormenorizada da lógica da guerra no espírito e na prática perso-iraniana à luz do conflito actual com os Estados Unidos, não deve ser lido de uma só vez, mas por segmentos, e o suporte digital não se presta sem dúvida à extensão do texto. É mais recomendável imprimir o artigo e lê-lo em papel. O autor pede de antemão desculpa ao leitor por este inconveniente, mas o método académico seguido não tolera uma divisão em vários artigos nem um resumo que enfraqueceria a sua substância e os seus matizes. Mea maxima culpa, portanto.
Na noite de terça-feira, 21 de abril de 2026, Teerã informou que não participaria das negociações previstas para o dia seguinte em Islamabad com Washington, alegando “condições impeditivas” impostas pelos americanos. O cessar-fogo, concluído em 8 de abril após cinquenta dias de guerra aberta, acabara de expirar, e Donald Trump viu-se obrigado a prorrogá-lo para dar mais tempo à República Islâmica para chegar a um acordo. O estreito de Ormuz havia sido declarado totalmente aberto ao tráfego comercial na sexta-feira, fazendo o preço do petróleo cair mais de 10%, antes que o Irã o fechasse novamente já no sábado, depois que Washington se recusou a suspender seu bloqueio naval. Donald Trump havia classificado o cessar-fogo como caduco “na quarta-feira à noite, no horário de Washington”, ao mesmo tempo em que enviava dois negociadores ao Paquistão. Teerã havia descrito, segundo a agência oficial IRNA, as declarações americanas como um “jogo midiático” destinado a exercer pressão por meio de um “jogo da culpa”, mantendo ao mesmo tempo o canal paquistanês aberto até a noite de terça-feira, hora da reviravolta. E a reviravolta é esta: Teerã rejeitou o cessar-fogo de Trump, declarou caduco o acordo de 8 de abril e reabriu formalmente o caminho para a retomada das hostilidades.
Toda essa confusão diplomática que se desenrola diante do mundo inteiro, como uma perigosa comédia sentimental de baixo nível difícil de entender, na realidade não é nada disso. Teerã aplica uma doutrina. Trata-se, reencenado com os instrumentos do século XXI, mísseis balísticos, drones FPV, bloqueio petrolífero, comunicados de agências oficiosas, do mesmo padrão estratégico que um observador atento poderia ter descrito após Maratona, Salamina ou a paz de Cálias, cuja existência real ainda é discutida pelos historiadores. Há vinte e cinco séculos, as constantes do poder persa em situação de pressão máxima não mudaram. Entre elas figura uma arte sutil e dominada de alternar calor e frio, negar o que se faz enquanto se faz, ou ainda manter a linha entre guerra e paz em um estado deliberadamente indeterminado.
O Irã contemporâneo, envolvido desde 28 de fevereiro de 2026 no conflito mais existencialmente perigoso da história da República Islâmica, revive assim modelos de confronto que nem a conquista de Alexandre, nem o islã árabe, nem a revolução khomeinista conseguiram apagar. Essa recorrência decorre de fatores geopolíticos e, portanto, invariáveis ao longo dos séculos: geografia interna do poder, lógica do planalto diante do mar, mas também do centro diante da periferia. Esses fatores estruturam boa parte da história militar dessa civilização.
Sete invariantes polemológicos atravessam esse continuum.
A primeira dessas constantes é provavelmente a menos evidente para um observador não familiarizado com os hábitos da Pérsia e de sua história. No entanto, ela constitui o elemento mais profundo e, paradoxalmente, menos visível da estratégia medo-persa: a doutrina da temporalidade como arma. O que se costuma chamar de “duplicidade” iraniana nas negociações não é a astúcia diplomática comum, no sentido de uma mentira pontual destinada a enganar o adversário sobre um ponto específico. Não é o cavalo de Troia de Ulisses. Trata-se de uma duplicidade estrutural, constitutiva da própria doutrina, que consiste na capacidade de manter simultaneamente dois discursos contraditórios sem que a contradição seja vivida como incoerência interna… porque ela é percebida como a gestão normal de uma temporalidade que não é a do adversário ocidental.
Esse pensamento esotérico pré-socrático, que o Ocidente não compreende quando se trata de lidar e negociar com Teerã, assemelha-se à tese monista dinâmica defendida por Heráclito de Éfeso, e mais tarde por Ibn Arabi, antes do surgimento do dualismo ontológico platônico. Segundo Heráclito, a oposição não é contradição, mas uma tensão entre duas extremidades do mesmo princípio que puxam em sentidos contrários. No sentido persa, essa não dualidade existe entre o zâhir, o manifesto, o exotérico, e o bâtin, o oculto, o esotérico. Os dois registros coexistem porque pertencem a planos diferentes da realidade. O Uno contém os dois polos, dos quais é dupla manifestação. A dissimulação, a taqiyya, não é portanto uma mentira no sentido ocidental do termo, mas o reconhecimento desses dois estados, ordens separadas que existem simultaneamente sem se contradizer. Manter uma linguagem dupla, considerar que todo conhecimento não se define em si mesmo, mas em virtude da falta de conhecimento ainda por conquistar, isto é, pela negação do ente, decorre então de um processo saudável e legítimo, sinal de sabedoria ontológica. A oscilação iraniana entre guerra e paz é, portanto, a posição buscada pelo Irã. Não há outra. Os opostos coexistem e, por isso, são coerentes. Algo capaz de enlouquecer os ocidentais, que procuram a verdade por trás da máscara, quando não há máscara alguma. Apenas duas “posições variáveis” de uma mesma postura que jamais buscou uma unidade “lógica”.
O testemunho de Heródoto
É Heródoto quem documenta involuntariamente a primeira tradução mecânica mais antiga dessa ideia na história. Após a batalha de Maratona (490 a.C.), Dario não capitula, não negocia, não faz nada de legível que possa ser compreendido racionalmente. Como Sauron em O Senhor dos Anéis, ele espera e se prepara em silêncio, acumulando durante dez anos a máquina da segunda invasão. Após a batalha de Salamina (480 a.C.), Xerxes se retira, mas deixa Mardônio com um exército inteiro na Tessália. Nem paz nem guerra, portanto, mas um estado suspenso de indeterminação estratégica que esgota as cidades gregas políticamente e economicamente, de forma muito mais eficaz do que uma nova batalha poderia fazê-lo.
A paz de Cálias (449 a.C., cuja existência real ainda é discutida pelos historiadores, o que por si só é revelador) teria encerrado formalmente as Guerras Médicas. Mas os persas continuaram simultaneamente a financiar Esparta contra Atenas, depois Atenas contra Esparta, transformando a Guerra do Peloponeso em instrumento de sua política sem jamais aparecer oficialmente nela. Aí estão as origens da guerra iraniana atual por procuração financeira, corrupção de elites e manutenção deliberada do caos no campo adversário. Tudo isso sem linha de frente, por meio de um jogo invisível sobre as contradições alheias.
O que os gregos não compreendiam era que os persas simplesmente não tinham a mesma relação ontológica com o tempo. Enquanto a cidade grega pensava em termos de agôn, choque decisivo, batalha regulada, desfecho claro, o império iraniano pensava em termos de duração, paciência, acumulação lenta e reversão adiada. Esse padrão encontra tradução na própria jurisprudência islâmica, por meio do conceito de hudna, a trégua temporária que não é paz. Um contrato suspenso que permite uma pausa para rearmar-se e reposicionar-se antes que a batalha recomece. Longe de ser percebida como rendição, a hudna é um parêntese tático em uma guerra cujo horizonte permanece estrategicamente intacto. Ciro e seus sucessores estavam, evidentemente, longe de possuir esse conceito teológico-jurídico… mas já haviam desenvolvido sua prática intuitiva absoluta…
A ambiguidade como postura estratégica
A estratégia nuclear iraniana desde 2003 — mas também a do Hezbollah no Líbano, que grita vitória no meio dos escombros mal o canhão inimigo cessa de troar — constitui o caso de escola moderno desta doutrina. Mais de vinte anos de negociações, concessões parciais, violações calculadas, regresso à mesa, limiares de enriquecimento ultrapassados e depois congelados, assinaturas de acordos cuja tinta mal secara quando as suas ambiguidades de aplicação já eram instrumentalizadas… Para Teerão, o JCPOA de 2015 não foi um acto de desarme, mas um acto de gestão temporal. Através do acordo, Teerão comprava tempo sob pressão máxima, mantendo ao mesmo tempo o limiar disponível para uma rápida reconversão. E é a mesma lógica que opera actualmente: negar as conversáções enquanto se enviam delegados, abrir o estreito na sexta-feira para o fechar no sábado, chamar «jogo mediático» ao diálogo americano enquanto se mantém activo o canal paquistanês…
O Irão nunca age na ambiguidade por acidente. Age assim porque a ambiguidade é a sua posição estratégica natural, o meio em que respira há vinte e cinco séculos — e que, bem o sabe, extenua os seus adversários, ancorados no tempo histórico diacrónico hegeliano.
O que o Ocidente se obstina a não querer compreender é que o sentido da História, para os neo-persas, opera pois também em sentido contrário… mas também em transcendência, nesse zaman el-latif definido por Sohravardi, esse tempo entre os tempos que nada tem a ver com as contingências do tempo histórico diacrónico (veja-se a este respeito o artigo publicado neste sítio a 7 de Março de 2026 sob o título «O fim de uma utopia»).
O segundo padrão estrutural é o que os estratégicos aqueménidas praticavam sem o nomear e que a República Islâmica teorizou sob o vocablo defa' pishgin, a defesa avançada. Os aqueménidas tinham compreendido que a vulnerabilidade do império residia na sua superfície. Demasiado vasto para ser defendido a partir do interior, era pois necessário multiplicar os glacis periféricos e transformar as satrapia em zonas-tampão militarizadas, a fim de combater o mais longe possível do coração persa. Assim, não foi por desejo de conquista gratíita que Dário I lançou os seus exércitos na Trácia e na Macedónia. O seu objectivo era manter as ameaças à distância do planalto iraniano. E foi a mesma razão que levou Xerxes a atravessar o Helesponto (o actual estreito dos Dardanelos), para se defrontar depois com os 300 espartanos de Leónidas nas Termópilas.
O Irão dos mulás reproduziu exactamente a mesma lógica. Desde 1982, os Guardiões da Revolução Islâmica tinham destacado os seus conselheiros — entre eles os famosos quatro «diplomatas» mais tarde raptados pelas Forças Libanesas de Elie Hobeika — no vale da Bekaa para organizar o que se tornaria o Hezbollah, a primeira experimentação bem sucedida da defesa avançada moderna, a primeira exportação da chamada «revolução islâmica». Como os sátrapas aqueménidas que levantavam os seus próprios exércitos em nome do Rei dos Reis, as milícias do eixo de resistência — o Hezbollah, o Hamas, os Huthis e as Facções da Mobilização Popular iraquiana — constituíam outras tantas satrápias militarizadas, vassalas de Teerão sem serem formalmente o seu braço. O princípio avançado por Teerão: que as guerras devem decorrer fora das fronteiras iranianas sem que o solo persa seja alguma vez o teatro…
Mas este princípio teve sempre o seu reverso interior, que tanto a história aqueménida como a islâmica confirmam regularmente: quanto mais o império projecta o seu poder em direcção à periferia, mais deve comprimir e blindar o seu próprio centro. As revoltas satrápicas que jalonam a história aqueménida (Egipto, Lídia, Babilónia, etc.) são o equivalente simétrico interno de cada grande campanha exterior. Não é uma coincidência de calendário que a República Islâmica estivesse a massacrar os seus próprios manifestantes em Janeiro de 2026, poucas semanas antes de lançar a guerra em Fevereiro. É a mesma lógica de compressão em acção, o mesmo reflexo imperial que exige que o interior seja esmagado para que o exterior possa ser atacado. Neste sentido, a defesa avançada é sempre, em oco, uma tirania interior.
O exército aqueménida era um mosaico étnico constitutivo, composto ao acaso de medos, bactrianos, lídios, índios, etíopes, egípcios, etc. Cada satrápia fornecia os seus contingentes segundo um sistema de tributo militar graduado, pagando os povos mais próximos da Pérsia menos impostos mas servindo mais sob as armas. Heródoto, nas suas listas dos exércitos de Xerxes, traça involuntariamente o retrato de um poder que nunca combate sozinho e guerreia sempre através dos seus intermediários. O Irão contemporâneo reproduziu exactamente esta arquitectura. O Hezbollah, o Hamas, as milícias iraquianas e os Huthis constituíam uma rede regional capaz de operar abaixo do limiar nuclear potencial, impondo custos difusos aos seus adversários sem desencadear uma resposta massiva contra o próprio território iraniano. Encontra-se mesmo um vínculo de comando semelhante entre persas e mulás. Os sátrapas eram governadores nomeados e controlados, os «olhos e ouvidos do rei» que supervisionavam a sua lealdade. As mílcias do eixo de resistência dependem igualmente do controlo financeiro e da supervisão militar de Teerão, sob o comando político e religioso do wali el-faqih, cuja doutrina chiíta transnacional une o corpo imperial apesar das particularidades de cada força paramilitar e do seu meio. Note-se, além disso, que a adesão à wilayat el-faqih acabou por ultrapassar o quadro chiíta, tendo segmentos de outras comunidades — no Líbano, por exemplo — sido «convertidos», doutrinados subtil e subversivamente ao serviço do projecto, sob o pátio de uma esquerda universalista antiamericana e anti-israelita — a luta dos oprimidos contra «o Grande Satã imperialista e o seu satélite regional, o projecto sionista» —, de uma causa palestiniana abandonada pelos países árabes, ou ainda da ideologia da aliança das minorias e da sua protecção…
Xerxes não se contentou com atravessar o Helesponto em 480 a. C. Empenhou-se em dominá-lo, mandando construir uma ponte de barcos para significar, simbólica e materialmente, o seu domínio sobre a passagem entre dois mundos. A marinha aqueménida era fundamentalmente um instrumento de controlo das vias de passagem (costas jónias, Mediterrâneo oriental e Golfo Pérsico). Ora, em geopolítica, quem detém o gargalo detém o mundo. Este é o axioma mais antigo e mais constante do pensamento estratégico iraniano.
Em 2026, o Irão visou as infra-estruturas petrolíferas da região, nomeadamente os navios no estreito de Ormuz por onde passa 20% do petróleo mundial. A ameaça de fecho total, proferida com insistência crescente, reactiva esta doutrina plurimilenar. O êxito táctico da saturação marítima com drones FPV em Março de 2026 — que reproduziu o cenário do Millennium Challenge 2002 com consideráveis melhorias tecnológicas — obrigou a frota americana a uma crise de atrição em munições de intercepção. Os iranianos demonstraram assim que a guerra de enxames é a reencarnação tecnológica da guerra de assaédio naval que os persas já praticavam contra as trirremes gregas. O que se passou no sábado, 19 de Abril, no estreito — a abertura, o fecho e os navios apanhados sob fogo a meio da travessia — constituía a mesma sequência coreografada… com dois milénios e meio de intervalo…
Desde a batalha de Maratóna, os persas apostaram na saturação por tiro de flechas — a arma à distância, a que degrada antes do confronto — em vez do choque falângico. A cavalaria aqueménida era uma força de assédio, envolvimento e ruptura de flancos, evitando a todo o custo o choque central. Não há que ver cobardia nesta recusa do corpo a corpo, apenas uma doutrina visando a vitória por desgaste. Onde o guerreiro grego procurava ser decisivo, o estratégico persa procurava a duração… O que demonstra que o pensamento filosófico marca irremediavelmente os meios de fazer a guerra…
A estratégia iraniana a longo prazo consistiu sempre em evitar a confrontação directa com forças militarmente superiores, estendendo a influência por meios indirectos. Em 2026, Teerão adoptou uma postura deliberadamente assimétrica: centenas de drones e mísseis balísticos para saturar as defesas adversárias, ataques às infra-estruturas energéticas para encarecer politicamente o custo da guerra para Washington e Telavive, e uma recusa obstinada do empenhamento terrestre que exporia a vulnerabilidade convencional do exército iraniano. A distância como arma — outrora o arco, hoje o míssil balístico e o drone FPV — permanece a assinatura polemológica invariante do guerreiro iraniano.
A isto acresce a vontade de criar várias frentes de batalha simultâneas, o que propugnava o Che Guevara ao querer gerar «vários Vietnames» para esgotar o «imperialismo ianque». A Pérsia aqueménida utilizava o mesmo estratagema para extenuar os seus adversários e opô-los uns contra os outros.
O sexto invariante é talvez o mais trágico. A vulnerabilidade absoluta do centro de comando, quando a estratégia de defesa avançada entra em colapso e a guerra regressa ao planalto, representa o calcanhar de Aquiles de todo o império deste tipo. Alexandre compreendeu em 330 a. C. que o Império Aqueménida, apesar da sua imensidão, assentava estruturalmente na pessoa do Grande Rei. Forçar Dário III a fugir em Gaugaméla era decapitar simultaneamente a legitimidade política e o comando militar de toda a máquina imperial. Por isso, os generais macedónios nunca procuraram reter cada satrápia uma a uma. Visaram o nó simbólico e prático do império.
A abertura da operação Epic Fury, a 28 de Fevereiro de 2026, eliminou o coração e a cabeça do regime iraniano ao visar Ali Khamenei, mergulhando simultaneamente a direcção iraniana numa profunda desorientção decisional. Mojtaba Khamenei foi eleito a 8 de Março para substituir o seu pai, mas a eleição precipitada de um sucessor — ele próprio vítima de um ataque militar e cujo destino permanece incerto — não reconstituiu a legitimidade acumulada ao longo de quarenta e cinco anos de poder simbólico. O New York Times descreveu, no final de Março, uma direcção paralisada, com o seu processo decisional gravemente perturbado. Vinte e cinco séculos separam certamente a tenda de Dário III em fuga de Gaugaméla dos bunkérs do CGRI após o Epic Fury, mas a lógica estrutural é rigorosamente idêntica. Um império construído sobre a vontade de um soberano único — seja rei dos reis ou guia da revolução islâmica — pode ser fulminado pela supressão desse nó central. A diferença, sem dúvida, é que Alexandre teve a nobreza de chorar sobre o corpo do seu inimigo e de adoptar a sua mãe como a sua. Trump, por sua vez… Alguns argutirão sem dúvida que Dário III merecia um tratamento nobre na lógica política cavalheiresca do respeito entre o amigo e o inimigo e o código moral que o acompanha, ao passo que Khamenei…
Esta parálisia do centro iraniano produziu uma outra consequência, menos visível mas estruturalmente pesada. O apagamento do Guia Supremo abriu um espaço de rivalidade entre os Pasdaran — guardas da revolução armada cuja lógica é a da guerra total e da recusa de qualquer concessão — e a opção política encarnada pelos negociadores e parte do governo Pezeshkian, mais sensíveis aos custos económicos e humanos do conflito. Esta clivagem não é nova. Atravessava já surdamente a República Islâmica há anos, mas o assassinato de Khamenei tornou-a flagrante. Onde o wali arbitrava, reabsorvia as contradições no Uno da sua pessoa divina e podia manipular a cena à vontade — elevando e rebaixando (o maquiavelismo obriga) falcões e pombas segundo as oportunidades políticas —, o vazio arbitra agora por defeito em favor dos mais duros. E com razão: num regime cuja legitimidade assenta na resistência e na lógica revolucionária, nenhum actor político se pode permitir aparecer como aquele que capitula. É precisamente este mecanismo — o da decapitação que radicaliza o corpo decapitado — com que os macedónios não tiveram de se confrontar depois de Gaugaméla, por falta de um corpo ideológico suficientemente estruturado para sobreviver à fuga e ao assassinato do rei.
Longe de ser unicamente um conflito de exércitos, a guerra iraniana foi sempre simultaneamente uma batalha para definir quem tem o direito de fazer a guerra e em nome de quê. A legitimidade ideológica e a guerra psicológica formam as duas faces de um mesmo padrão: a narrativa como prolongamento da violência militar, e a violência militar como confirmação da narrativa. Encontra-se aqui novamente esta ausência ontológica do dualismo persa — o zâhir e o bâtin como registos simultaneamente verdadeiros de uma mesma realidade.
A Pérsia inventou um instrumento singular de conquista suave muito antes da estratégia trotskista do «entrismo»: o Cilindro de Ciro — uma guerra narrativa destinada a fazer entrar a Babilónia sem combater, apresentando-se como libertador mais do que como invasor, como restaurador dos deuses locais mais do que como iconoclasta imperial.
O Cilindro de Ciro
Redigido em acádico cuneiforme, provavelmente em 539 a. C., imediatamente após a tomada da Babilónia, o Cilindro é um texto ditado por Ciro — ou em seu nome — no qual se apresenta como um «libertador» mandatado por Marduk, o deus supremo babilónio, para restabelecer a ordem que o rei anterior Nabónido tinha perturbado. Anuncia o regresso dos povos deportados às suas terras, o restauro dos templos e a liberdade dos cultos locais. É neste texto que assenta a tradição — popularizada no século XX sobretudo pela ONU, que mandou reproduzir o cilindro em 1971 — segundo a qual Ciro teria proclamado a primeira carta dos direitos do homem.
No plano polemológico, o Cilindro constitui uma operação de guerra psicológica de uma sofisticação que o século XX não superou. Através deste processo mefistófelico, Ciro revira a legitimidade do inimigo contra si próprio, apresentando-se em nome de Marduk, o deus babilónio, de quem afirma ser o servo eleito, em vez de o fazer em nome dos deuses persas. Uma colonização simbólica prévia à colonização territorial. Antes de o exército persa entrar na Babilónia, a narrativa persa já ocupa o panteão babilónio. Nabónido é deslegitimado pelo próprio deus da Babilónia. Ciro não é mais do que a sua expressão… Ao fazê-lo, Ciro também torna a conquista indistinguível da libertação. A Babilónia é «devolvida a si própria». Não cai. Esta manipulação semântica neutraliza toda a resistência legítima: resistir a Ciro equivale a resistir a Marduk e à própria ordem restaurada. É o zâhir da tolerância como arma do bâtin da anexação…
O Hezbollah liberta o território ou conquista em seu nome o poder em Beirute…?
A ambiguidade do gesto de Ciro não é acidental. Os historiadores ainda debatem se o Cilindro reflecte as suas convicções reais ou uma pura estratégia de manipulação. Mas mais uma vez, a questão está simplesmente mal colocada. Na doutrina das «posições variáveis», não há verdade oculta por detrás do texto. O zâhir é política, e o bâtin também é política, em dois registos simultaneamente verdadeiros. Ciro acreditava em Marduk? A questão não tem resposta binária onde o próprio binário não existe. Agia como se acreditasse, e a sua actuação era simultaneamente sincera e estratégica… exactamente como a República Islâmica age como se a sua missão regional estivesse teologicamente mandatada e fosse justa, sem que isso exclua o cálculo de poder mais frio… e o sacrifício do lar revolucionário, territórios e seres humanos.
Os aqueménidas praticavam assim a soft coercion antes de a categoria sequer existir. Embaixadas intimidatórias, ofertas de rendicção honoráveis, encenação da clemência real… outras tantas modalidades de uma guerra psicológica que procurava desmoralizar o adversário antes do primeiro choque. Onde Ciro descentralizava a legitimidade respeitando os cultos locais, a República Islâmica centralizou-a na figura única do Guia, fragilizando por isso mesmo todo o dispositivo no momento em que esse nó viesse a ser suprimido.
O paralelo com a wilayat el-faqih
O imão Khomeini não inventou a guerra de legitimidade pela narrativa. Apenas a islamizou e a teologizou. Onde Ciro tinha tomado emprestado o deus do inimigo para se legitimar, Khomeini construiu, utilizando o chiísmo, uma doutrina jurídico-teológica — o vicariato do teólogo-jurista — que transforma cada mílicia, cada proxy e cada intervenção regional num acto de devoção. Na lógica neo-persa, o Hezbollah é mais do que o braço armado de Teerão. É o zâher da narrativa, uma comunidade de fé na resistência. E pouco importa que esta actuação narrativa seja «verdadeira». O essencial é que a daawa — a retórica — seja operacionalmente eficaz no plano estratégico. Aqui, o fim justifica os meios, e não há tempo a perder entre o «verdadeiro» e o «falso», a «mentira» e a «verdade», a «realidade» e o «fantasma». Tudo isso existe em pares unitários, em nome de uma «coerência» chamada «sabedoria» e justificada pelo princípio último da vitória…
A wilayat el-faqih desempenha, pois, exactamente o mesmo papel estrutural que a propaganda aqueménida da tolerância. Transforma a expansão regional iraniana numa missão de tutela divina, num mandato teológico sobre a comunidade oprimida. Mas onde Ciro apostava na clemência, a doutrina iraniana contemporânea desenvolveu o que se pode denominar martiropatia — o sacrifício como doutrina operacional que transforma a morte em vitória narrativa, torna toda a derrota militar legível como elevação espiritual, e solda os combatentes face à superioridade convencional adversária… ao mesmo tempo que torna o regime estruturalmente incapaz de negociar a derrota sem se autodestruir simbolicamente. É uma guerra psicológica virada contra si própria tanto quanto contra o inimigo: a sua força última é também o seu limite absoluto.
Que solucção?
Como tratar com semelhante adversário?
Esta é a questão que Temístoces, Alexandre, Henry Kissinger e Mike Pompeo se colocaram todos, com respostas radicalmente diferentes e êxitos desiguais. É também a que Trump volta a colocar nesta primavera de 2026, sem ter ainda encontrado uma resposta coerente.
O primeiro erro, e o mais constante, é tentar fixar o adversário de posições variáveis, constrangê-lo a um estado definido por um ultimato. Cada prazo anunciado («abram o estreito ou atacamos», «última hipótese de negociar») oferece-lhe precisamente uma nova ocasião de produzir uma resposta que é simultaneamente as duas coisas, de tal modo que extenua o interrogante e revela a sua rigidez mental. A pressão máxima, fundada na hipótese de que a um certo nível de dor o adversário deve escolher entre capitular ou combater, esbarra no mesmo obstáculo. O adversário de posições variáveis não tem estruturalmente de escolher, porque sofrer, negociar, resistir e esperar não são para ele estados exclusivos, mas registos que pode habitar simultaneamente. Mais uma vez, o que a doutrina americana lê como irracionalidade é na realidade uma racionalidade de uma ordem diferente, a operar num eixo temporal que as democracias eleitorais — condenadas ao tempo curto do ciclo político — são constitucionalmente incapazes de manter.
O que funciona, parcial e imperfeitamente, mas documentado pela história, é adoptar por si próprio uma parte desta temporalidade, sem a tornar um absoluto. Se Alexandre venceu os persas, não foi obrigando-os a combater segundo as regras gregas. Combateu com a sua velocidade e a sua mobilidade, mantendo ao mesmo tempo a superioridade de choque no momento decisivo que só ele escolhia. Kissinger, face a Hanói — outro adversário de posições variáveis e outra civilização «do limiar» —, acabou por compreender que era preciso negociar em dois registos: a mesa oficial para o zâhir, e os canais secretos para o bâtin, sem nunca exigir que os dois coincidam.
Transcender o dualismo
Concretamente, isso implica nunca colocar questões às quais se exija uma resposta binária, mas questões processuais: «qual é o próximo passo?» em vez de «está de acordo?», porque um passo se cumpre onde um acordo pode permanecer simultaneamente aceite e recusado. É pois preciso manter o próprio limiar sem o anunciar. Neste sentido, a dissuasão eficaz contra este actor é a dissuasão opaca, aquela cuja existência o adversário sabe que existe sem conhecer o seu gatilho. É, aliás, o que Israel, apesar de tudo, compreendeu melhor do que Washington neste conflito. Mas a verdade mais difícil de formular é talvez que não haverá um tratado definitivo com o Irão, mas uma sucessão de hudna, de equilíbrios instáveis mantidos e de «posições variáveis» geridas na duração. A paz com semelhante adversário é uma prática contínua. Não se conquista de um só golpe, a não ser através de meios verdadeiramente devastadores como os que tinham prostrado o Japão e posto fim à Segunda Guerra Mundial. A única vitória total sobre este tipo de adversário — e Alexandre tinha-o compreendido ao proclamar-se herdeiro de Ciro, ou seja, jogando o zâher persa melhor do que os próprios persas — pressupõe uma profundidade cultural e uma paciência estratégica que nenhum actor contemporâneo está em condições de desdobrar. O que deixa os outros na única posição realista: aprender a coabitar com a oscilação, a gerir o limiar mais do que a suprimi-lo… e nunca confundir um cessar-fogo assinado com o fim da guerra.
O boomerang como lei estrutural
Para além de tudo o que precede, existe todavia uma lei mais profunda do que a simples recorrência dos padrões. Esta lei — que nem Ciro nem Khomeini souberam conjurar — diz que cada estratégia iraniana leva em si, estruturalmente, o mecanismo da sua própria inversão. A defesa avançada cria, na periferia que procura controlar, as condições de uma coligação adversária que acaba por golpear o centro. A guerra composta engendra proxies cuja autonomia parcial escapa ao comando central no momento decisivo. O domínio do gargalo transforma o estreito em alvo de bloqueio assim que o adversário decide não tolerar mais a chantagem. A doutrina do limiar e do entre-dois, por fim, provoca a prazo o ataque preventivo que precisamente devia prevenir — porque um adversário suficientemente paciente acaba sempre por decidir que a ambiguidade mantida é mais perigosa do que a guerra aberta. O Império Aqueménida fez a experiência com Alexandre. A República Islâmica acaba de a repetir em 2026. Este boomerang constitui a consequência trágica e necessária, inscrita na própria lógica deste império desde o primeiro dia. Leva em si, em algum lugar, os seus próprios limites, mesmo os germes da sua própria perdição.
A tragédia da continuidade
O que choca, no termo desta travessia polemológica através de vinte e cinco séculos de história militar iraniana, é certamente a semelhança das formas guerreiras, mas sobretudo a persistência de uma mesma contradição fundamental. A estratégia de projecção iraniana criou sempre, na periferia que pretendia controlar, as condições da sua própria reversão. A defesa avançada produziu o boomerang estratégico. A guerra composta engendrou a coligação adversária. O domínio do gargalo transformou o estreito em alvo de bloqueio. A doutrina do entre-dois, esta soberania «sobre o limiar» que é o invariante mais profundo do poder iraniano, não pode funcionar indefinidamente. Pressupõe um adversário incapaz de suportar a ambiguidade na duração, e Washington, ao atacar a 28 de Fevereiro de 2026, significou que essa paciência tinha um limite.
Neste 21 de Abril, o cessar-fogo acabou de expirar. Teerão bateu com a porta de Islamabade invocando condições proibitivas. O Irão nega enviar delegados enquanto os enviou até esta mesma noite. Reabriu o estreito na sexta-feira para o fechar no sábado. Declarou as negociações mortas enquanto mantinha vivo o canal paquistanês — até ao golpe de teatro desta noite. Ciro havia dito, segundo Heródoto, que os povos moles vêm de terras moles. Acreditava que o planalto iraniano forjava homens duros. O que a longa história do poder persa ensina é antes que o planalto iraniano forja impérios cuja grandeza é inseparável da sua fragilidade. Impérios da periferia dominada, do limiar mantido, que se desmoronam quando a periferia se volta contra o centro, quando o tempo do adversário alcança por fim o deles, e quando o entre-dois em que tinham durante tanto tempo prosperado se fecha brutalmente, como uma tenaça.
Onde alguns continuam a ver na postura iraniana uma «vitória» qualquer, será preciso evitar o perigoso deslizamento que iniciam em direcção ao mundo aistórico, que se assemelha ao das seitas desligadas da realidade. Teerão não pode continuar a morder-se indefinidamente a cauda face ao poderio de fogo americano e a um adversário tão brutal como aquele que enfrenta actualmente — pela primeira vez desde Saddam Hussein —, e que ele próprio não liga nem ao tempo histórico nem aos princípios democráticos, e face ao qual dualismo, pensamento esotérico e outros soft powers chocam inevitavelmente com uma mistura bruta de realpolitik nihilista, de paciência astuciosa do homem de negócios, de cesarismo sangrento e populista, de messianismo providencialista que se crê ele próprio mandatado por Deus e pela América, e de belicismo vatenguerrista, todos levados ao seu paroxismo…
Puxar demasiado tempo o bigode do tigre acaba inevitavelmente por ser devorado.