


Parece necessário fazer uma pausa para examinar o jogo insidioso conduzido por Israel, atuando como um verdadeiro mestre de marionetes, no contexto das ambições geoestratégicas da República Islâmica do Irã. Durante meio século, Tel Aviv encontrou na chamada “aliança das minorias” (alauítas, cristãos, drusos, xiitas libaneses e curdos) um amortecedor geopolítico contra o entorno sunita. A doutrina israelense da “periferia”, vigente entre as décadas de 1950 e 1970, baseava-se em um único axioma: aliar-se às minorias para romper o cerco sunita.
Nesse contexto, os regimes alauítas de Damasco, primeiro sob Hafez e depois sob Bashar al-Assad, eram declarados inimigos, mas inimigos previsíveis, ideologicamente estáveis, obcecados com sua própria sobrevivência interna e perfeitamente dissuasíveis. Israel preferia um Assad cínico e racional a uma Síria sunita nacionalista ou islamista. O mundo ocidental, tanto os Estados Unidos quanto os países europeus, seguiu essa lógica por puro utilitarismo.
Os capangas do regime Assad prestaram, ao longo de quatro décadas, inúmeros e leais serviços às agências de inteligência europeias. Por que se desfazer de um inimigo tão conveniente? Para completar o absurdo, décadas após os massacres de Homs e Hama, é apenas agora que esses países celebram a queda de um regime desumano que eles próprios legitimaram continuamente, inclusive quando massacrou civis em 2011 e entregou o país ao Daesh ao anistiar jihadistas, para depois denunciar o perigo com ainda mais veemência.
No Líbano, o Hezbollah eliminou, a partir dos anos 1980, todos os quadros da Frente de Resistência Nacional contra Israel, formada por grupos de esquerda. O que o Estado hebraico não fez, o partido pró-Irã completou. Até tornar-se um guarda de fronteira exemplar, impedindo qualquer enraizamento palestino no sul do Líbano. Em troca, Israel fez vista grossa à ocupação síria do Líbano em 1990 e à conquista do Estado libanês pelo Hezbollah a partir de 2006. Da mesma forma, aproveitou-se da disputa entre Hamas e Fatah para enfraquecer a frente interna palestina.
Manter a Rivalidade Mimética
Com a queda de Assad e a chegada de Ahmed al-Chareh, Israel se vê diante de um paradoxo geoestratégico. No curto prazo, o Irã, cuja embriaguez imperial excessiva era hora de conter segundo a lógica sionista, perde sua ponte levantina. No médio prazo, uma Síria sunita recomposta reaparece, trazendo consigo inúmeras incógnitas doutrinárias, tribais, militares e regionais.
É preciso compreender que Israel sempre buscou sustentar a rivalidade mimética existente entre as comunidades do Levante, em um contexto marcado por angústias existenciais. Assim, coloca cristãos contra sunitas, sunitas contra xiitas, alauítas contra sunitas, seguindo uma lógica puramente maquiavélica, enquanto restaura equilíbrios sempre que estes ameaçam ruir.
A função dessa estratégia é evidente: garantir a sobrevivência do Estado hebraico explorando as fraquezas, os medos e as contradições alheias, assim como a fragilidade do pluralismo nas sociedades levantinas. E, consequentemente, eliminar qualquer possibilidade de surgimento de uma resistência palestina crível e do nascimento de um Estado palestino viável, soberano e dotado de legitimidade internacional.
Sem dúvida, o regime de Chareh rompe completamente a influência iraniana, fecha as rotas de armas para o Hezbollah, aproxima-se de Riad e Washington, tenta uma “normalização conservadora” para exorcizar seu passado jihadista e representa uma oportunidade para estender os Acordos de Abraão à Síria com legitimidade sunita. Ainda assim, para Israel, essa recomposição permanece ambígua. Um antigo grupo jihadista transformado em poder estatal é menos legível do que uma ditadura alauíta estável, e uma autoridade sunita pode servir de apoio à causa palestina.
Embora o diálogo seja necessário para empurrar esse novo poder em direção à paz, a pressão sobre o regime deve ser mantida para conservá-lo em um estado de fragilidade e dependência, seja neutralizando suas capacidades militares, estimulando divisões nas comunidades minoritárias ou criando uma zona tampão dentro do território sírio.
Para Israel, todo o dilema está aí. O Império Iraniano está ruindo, mas com ele desaparece também a lógica confortável da “aliança das minorias”. Tel Aviv perde um “inimigo íntimo”, cuja queda adiou o máximo possível, personificado em Bashar, descrito por um oficial israelense em 2011 como “um velho par de meias”, em troca de um vizinho imprevisível, mas que poderia garantir uma paz duradoura, desde que mantido sob rigoroso controle político e econômico ocidental e sob supervisão militar israelense.
O Império em Fragmentos
O que resta ao Irã, no fim de 2025, já não é um eixo, mas os pedaços de uma estrela implodida: Bab el-Mandeb e os houthis; Gaza em ruínas e o Hamas; um Hezbollah isolado, lutando para se recompor; um Iraque sob controle, mas dilacerado por tensões internas; e uma Síria definitivamente perdida. Até mesmo o coração do império hoje geme sob o peso das sanções e da escassez.
A estratégia imperial de Teerã não desapareceu, foi estilhaçada, em parte vítima de sua própria hybris imperial ao tentar superar potências mais fortes do que ela. Como Saddam após a invasão do Kuwait.
“Se ele se humilha, eu o exalto; se se exalta, eu o humilho”, aconselhava Maquiavel. O sapo que quis ser tão grande quanto o boi, escreveu La Fontaine. Dario III foi assassinado por seu próprio povo após a derrota para Alexandre e a queda do império. Terá o atual diretório iraniano o mesmo destino? Talvez. Com uma diferença: Alexandre chorou por Dario III. Ninguém, absolutamente ninguém, derramará lágrimas sobre as ruínas do vilayat-e faqih.
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