
Definitivamente, é o mundo de cabeça para baixo (ou quase) nesse braço de ferro entre os Estados Unidos e a República Islâmica, tendo como foco a realização ou não de uma segunda rodada de negociações em Islamabad, nesta terça-feira. À primeira vista, o regime iraniano, mais precisamente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (os Pasdaran), parece satisfeito em alimentar a percepção de que é ele quem impõe suas condições a Washington para uma retomada das negociações entre as duas partes. Seria assim, seguindo essa lógica, o derrotado ditando sua vontade ao vencedor. Porque em determinado momento é preciso chamar as coisas pelo nome e “dizer a verdade, por mais dura que seja” (para retomar a expressão do presidente Béchir Gemayel): nesta guerra, foi o Irã que sofreu perdas colossais em suas infraestruturas militares, nucleares e econômicas, e foi o alto comando político, militar e de segurança iraniano que foi decapitado em larga escala. Ao mesmo tempo, é a armada americana que praticamente cerca o Irã e impõe há alguns dias um bloqueio marítimo que sufoca a economia iraniana, e foram as aviações americanas e israelenses que, durante 40 dias, dominaram sozinhas os céus, bombardeando dia e noite centros nevrálgicos no Irã. Apesar dessas realidades, o regime iraniano, por meio de sua ala radical, exigia até a noite de segunda-feira, para “aceitar” (!) ir a Islamabad, que os Estados Unidos suspendessem o bloqueio marítimo na região do estreito de Ormuz. Paralelamente, a agência oficial iraniana Irna e fontes da Guarda Revolucionária repetiam ao longo de segunda-feira, e já desde domingo, que o Irã se recusava a participar de uma segunda rodada de negociações com os americanos e que, em qualquer hipótese, o dossiê dos mísseis balísticos não é negociável e, além disso, persistem profundas divergências sobre a questão nuclear e o destino do urânio enriquecido. E acrescentavam que “a parte americana não é séria nesse processo de negociação”. Resumindo a situação, o regime iraniano se comporta, assim, como uma criança mimada que faz escândalo e grita frases sem sentido quando uma autoridade firme lhe impõe uma linha de conduta contrária a seus caprichos infantis. Só que, para seu azar, a ala radical do poder em Teerã enfrenta um presidente americano que reafirmou na noite de segunda-feira que não suspenderá o bloqueio marítimo, apesar de um pedido nesse sentido feito pelo mediador paquistanês. De maneira mais ampla, o presidente Donald Trump não parece disposto a abandonar suas linhas vermelhas justamente sobre o programa nuclear e o programa de mísseis balísticos. A União Europeia alinhou-se na noite de segunda-feira à posição americana nesse ponto, ao destacar sem rodeios que as negociações com o regime iraniano devem tratar da questão dos mísseis balísticos, que podem potencialmente atingir algumas capitais europeias. Dentro desse contexto, o chefe da Casa Branca coloca Teerã diante de uma alternativa “simples”: assinar o acordo apresentado pelos Estados Unidos ou... o porrete, que seria usado sem qualquer contenção. Tanto que, no fim da noite de segunda-feira, a mais completa incerteza ainda pairava sobre o destino da segunda rodada de negociações em Islamabad. Nova reunião libanesa-israelense na quinta-feira A tensão, que crescia progressivamente até tarde da noite de segunda-feira, não impediu o governo Trump de seguir adiante no processo de negociações diretas entre o Líbano e Israel. O presidente Joseph Aoun parece determinado a continuar por esse caminho, sob a tutela dos Estados Unidos, sem se deter excessivamente nas ameaças diretas, inclusive ameaças de morte, feitas por altos dirigentes do Hezbollah, que não conseguem conceber que o Estado recuperou sua autonomia de decisão e rompeu um velho tabu ao se engajar em um diálogo cara a cara com Israel. “Entre a guerra e a negociação, eu escolho a negociação”, afirmou na segunda-feira o chefe de Estado. Essa opção estará, sem dúvida, no centro do encontro que o primeiro-ministro Nawaf Salam deverá ter nesta terça-feira com o presidente Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu. É nesse contexto que uma segunda reunião entre negociadores libaneses e israelenses deverá ocorrer na próxima quinta-feira em Washington. Questões concretas deverão ser discutidas durante essa nova rodada de negociações, mais especificamente a solução da disputa sobre o traçado das fronteiras entre os dois países. A delegação libanesa nessa segunda reunião seria presidida pelo ex-embaixador libanês em Washington, Simon Karam, que poderá estar acompanhado de um delegado militar e de um representante civil. Apesar dos protestos dos polos de poder iranianos, que insistem em querer controlar a carta libanesa, o Executivo fez assim a escolha de se opor aos “impulsos suicidas”, como ressaltou, de forma bastante pertinente, o presidente, em uma alusão mal disfarçada às aventuras guerreiras estéreis e destrutivas do Hezbollah. Que esse poder se mantenha firme para ir até o fim nessa audaciosa iniciativa de negociação com o Estado hebreu.









