


É um dilúvio de ferro, fogo e sangue, sem precedentes nos últimos anos (com exceção da explosão de 4 de agosto no porto de Beirute), que caiu na quarta-feira sobre Beirute, seus subúrbios ao sul e inúmeras cidades e localidades libanesas. Mais de 180 pessoas foram mortas e cerca de 800 ficaram feridas, segundo um balanço preliminar do Ministério da Saúde do Líbano, em uma série de ataques israelenses simultâneos, que atingiram cerca de uma centena de alvos em todo o país em apenas 10 minutos, enquanto, no plano regional, uma trégua de duas semanas havia sido anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, junto com o início de negociações entre Washington e Teerã sobre um acordo global voltado para uma cessação duradoura das hostilidades.
Israel atacou sem aviso prévio Beirute e cerca de cinquenta localidades, do sul até Hermel, passando por Aley, Chouf e o Vale do Bekaa, poucas horas após o aviso habitual do porta-voz arabófono de seu exército, Avichaï Adraee, aos moradores dos subúrbios ao sul e das aldeias ao sul do Zahrani, ordenando que evacuassem a área. “Alvos do Hezb continuam na linha de mira israelense”, havia ameaçado pela manhã.
No início da tarde, o exército israelense atacou “em um intervalo de dez minutos e de forma simultânea” cerca de cem alvos do Hezbollah em todo o Líbano, afirmou seu porta-voz, acrescentando que se tratava do “maior ataque coordenado” contra esse grupo desde o início da guerra contra o Irã.
Segundo ele, “cerca de cem postos de comando e infraestruturas militares” do Hezb foram atingidos, enquanto numerosos civis foram mortos ou feridos durante essa ofensiva cega de dez minutos, batizada por Tel Aviv de “Trevas Eternas”, um nome sombrio que levanta temores sobre o início de uma nova operação militar contra o Hezb, acusado por Israel de “se esconder entre civis ao norte do Litani”.
Tel Aviv havia especificado que o cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos, ao qual aderiu, “não se aplicava” ao Líbano e que continuaria suas operações militares contra esse grupo, em um cenário que, à luz dos ataques de quarta-feira, se assemelha a uma guerra indiscriminada. Essa ofensiva foi condenada pelo presidente Joseph Aoun, que denunciou com veemência “um ato de barbárie”, enquanto o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, celebrava “a maior operação contra o Hezbollah desde a dos pagers”. No entanto, ao contrário do ataque com pagers, os bombardeios de quarta-feira atingiram tanto membros ou simpatizantes do Hezb quanto libaneses sem qualquer ligação com o grupo pró-iraniano, que morreram por estarem no lugar errado, na hora errada. No início da noite, um novo ataque israelense atingiu o bairro de Tallet el-Khayat, na parte oeste de Beirute, onde, segundo o exército israelense, um alto responsável do Hezb foi alvo.
A violência e a amplitude dos ataques israelenses de quarta-feira ilustram até que ponto as negociações entre Washington e Teerã permanecem sob a ameaça constante de uma retomada das hostilidades.
Revelam, sobretudo, uma disposição israelense de escalada no Líbano, justificada em Tel Aviv pela incapacidade do Estado libanês de desarmar o Hezb. Vários responsáveis israelenses haviam indicado, em diferentes momentos, que as operações militares contra esse grupo poderiam se estender até o norte do Litani, com o objetivo de eliminar de vez a ameaça que ele representa para os habitantes do norte de Israel, além de criticar o governo libanês por sua incapacidade de desarmá-lo. Críticas nesse sentido foram dirigidas na quarta-feira pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel às autoridades libanesas.
Os próximos dias deverão, no entanto, confirmar ou desmentir essa tendência de escalada.
Ameaças iranianas
Teerã reagiu aos ataques de quarta-feira ameaçando se retirar do acordo de cessar-fogo e responder às ações israelenses persistentes contra o Hezb. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, discutiu o tema com o comandante das forças armadas do Paquistão em uma conversa telefônica, enquanto Donald Trump afirmava ao canal PBS que a questão do Líbano e do Hezbollah seria “tratada”, ao contrário do que deseja o Irã, fora do marco das negociações previstas para as próximas duas semanas. O presidente americano declarou que isso se deve ao Hezbollah, que classificou como uma “organização terrorista libanesa”.
Ele assegurou que “isso também será resolvido” e que os combates em curso entre Israel e o Hezbollah constituem “escaramuças distintas” da guerra conduzida pelos Estados Unidos contra o Irã. Declarações que reforçam informações divulgadas por meios de comunicação americanos, segundo as quais Washington deu a Tel Aviv sinal verde para continuar suas operações no Líbano.
Além disso, Trump revelou que o documento mencionado por Teerã difere daquele que será efetivamente discutido em Islamabad.
Desde o anúncio da trégua com os Estados Unidos, a República Islâmica suspendeu seus ataques contra Israel e teria pedido a seus aliados que fizessem o mesmo. De fato, desde então, nenhum foguete foi lançado pelo Hezb contra o norte de Israel ou contra posições israelenses em território libanês. O grupo sequer reagiu aos ataques do dia, ilustrando, mais uma vez, seu alinhamento com as decisões de Teerã.
O Irã, no entanto, continuou seus disparos de mísseis contra países do Golfo, especialmente Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Os Emirados anunciaram ter sido alvo de 17 mísseis e 35 drones iranianos, todos “neutralizados com sucesso pelas defesas aéreas”.
Abertura das negociações
As negociações entre Teerã e Washington devem começar no sábado em Islamabad. O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, liderará a delegação americana, sob a mediação do primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif. Ele será acompanhado pelos enviados Steve Witkoff e Jared Kushner. Teerã ainda deve anunciar a composição de sua delegação.
As duas partes dispõem, portanto, de um prazo de duas semanas, fixado pelo presidente Trump, para alcançar um acordo definitivo sobre os pontos centrais já abordados em um entendimento preliminar. Isso significa que a diplomacia prevaleceu? A resposta, de imediato, é não. As divergências entre Teerã e Washington permanecem profundas, e os interesses ligados a essa guerra, que durou pouco mais de cinco semanas, são tão elevados que soluções intermediárias parecem difíceis, senão improváveis.
Em termos simples, o Irã dos aiatolás joga sua sobrevivência, enquanto os Estados Unidos colocam em jogo sua credibilidade. Sob essa perspectiva, o acordo anunciado na terça-feira oferece, antes de tudo, um respiro para ambos os lados. A trégua se assemelha menos a um avanço diplomático e mais a uma pausa imposta por vários fatores. Entre eles, o desgaste dos atores, especialmente do Irã, praticamente devastado por Israel e pelos Estados Unidos; a pressão interna e internacional sobre Donald Trump, visível em protestos significativos contra a guerra no Irã e, no plano global, na queda das bolsas e na alta dos preços do petróleo.
De fato, os efeitos do anúncio de Trump foram quase imediatos: os preços do petróleo caíram, impulsionando uma recuperação dos mercados financeiros. Outro sinal de distensão foi o anúncio do Iraque sobre a reabertura de seu espaço aéreo, fechado desde o início do conflito.
Os Estados Unidos, no entanto, continuam inflexíveis em suas condições para um acordo duradouro. Conseguiram um compromisso iraniano de reabrir o estreito de Ormuz, mas seguem exigindo concessões significativas sobre o programa nuclear e as atividades regionais do Irã. Donald Trump, que celebrou uma “vitória total”, afirmou que a questão nuclear iraniana poderia ser “resolvida” nas próximas duas semanas.
Teerã, que exige o levantamento completo das sanções e garantias internacionais vinculantes, parece tentar ganhar margem de manobra. A agência Associated Press relata uma diferença entre as versões persa e inglesa do documento com as condições iranianas para as negociações. A versão em inglês aparentemente não menciona a manutenção do programa nuclear, que aparece na versão persa, algo que o presidente americano indicou de forma indireta à PBS.
Seja como for, as próximas duas semanas dirão se esse acordo preliminar pode se tornar duradouro ou se será apenas um intervalo nesta guerra.