
Naïm Kassem reaparece, qualificando de «traidores» aqueles que reprovam o Hezb por ter desencadeado uma nova guerra!


Esta é a primeira consequência direta do fracasso das negociações de Islamabad, no último fim de semana, entre os Estados Unidos e a República Islâmica Iraniana. As forças navais do exército americano implementaram, na segunda-feira, às 17 horas (hora de Beirute), um bloqueio total de todos os portos iranianos e do Estreito de Ormuz.
Vários navios de guerra foram destacados para aplicar este bloqueio a todos os navios que se supõe que utilizem, à partida ou à chegada, os portos iranianos. Apenas os navios que transportam ajuda humanitária serão autorizados a atracar nos portos, mas depois de terem sido minuciosamente revistados. Quanto aos navios que não estão envolvidos no tráfego marítimo com o Irão, estes poderão atravessar o Estreito de Ormuz sem problemas.
Este cerco marítimo reveste-se de uma importância estratégica fundamental em dois níveis. Se for aplicado de forma rigorosa, perturbará em grande medida a ajuda em armas e munições que o regime dos mulás concede aos seus proxies no Líbano e no Iémen, em particular.
O aviso do presidente iraniano
Mas, mais importante ainda, o bloqueio não deixará de desferir um (novo) golpe particularmente duro (fatal?) na economia iraniana, já fortemente abalada pela política de «sanções máximas» imposta pelo presidente Trump. Os bombardeamentos aéreos massivos que marcaram as operações militares desde 28 de fevereiro destruíram de facto as indústrias petroquímicas e siderúrgicas da República Islâmica, que até então contava com as suas exportações de petróleo, das quais beneficiava principalmente a China.
Ao impor este bloqueio marítimo, o presidente Trump priva praticamente o regime iraniano dos seus últimos rendimentos petrolíferos, sem ter de lançar uma ofensiva terrestre para tomar o controlo, por exemplo, da ilha estratégica de Kharg (amplamente fortificada) por onde passam 90 por cento das exportações petrolíferas iranianas. Ao paralisar assim toda a atividade económica nesta ilha recorrendo ao «método suave», sem recorrer à força militar, o presidente Trump empenha-se concretamente em asfixiar perigosamente a economia iraniana a curto prazo. Segundo diversas fontes de informação no Irão, o presidente iraniano teria, aliás, alertado os Guardiões da Revolução contra o risco de um colapso da economia iraniana no prazo máximo de três semanas, se nenhuma saída para a crise for encontrada a curto prazo.
O cerco de Bint Jbeil
Na frente do Líbano, o exército israelita afirmou na segunda-feira à tarde ter concluído o cerco à cidade estratégica de Bint Jbeil, onde estão barricados várias dezenas de milicianos do Hezbollah. Paralelamente, o partido pró-iraniano informava, ao fim da tarde, de «combates corpo a corpo» em Bint Jbeil com as unidades das Forças de Defesa de Israel, o que indica implicitamente que as forças israelitas efetuaram avanços em alguns setores da localidade. De facto, o Estado hebraico especificou ao fim do dia que o assalto à cidade tinha começado.
Esta escalada ocorre na véspera do lançamento, terça-feira, 14 de abril, das negociações diretas entre o Líbano e Israel, em Washington, no gabinete do Secretário de Estado Marco Rubio, com a participação dos embaixadores do Líbano e de Israel na capital federal.
Joseph Aoun e Joe Raggi recordam…
O verdadeiro alcance desta reunião diplomática, que deverá dar o pontapé de saída para uma série de sessões de trabalho entre os dois países, foi realçado no sábado pelo chefe da diplomacia libanesa, Joe Raggi, que sublinhou, a título de lembrete (para quem o quiser ouvir...), que a negociação direta entre o Líbano e Israel consagra de facto a dissociação entre o dossiê libanês e a vertente iraniana do conflito atual – uma dissociação que reveste, evidentemente, uma alta importância estratégica e simbólica para o Líbano.
O presidente Joseph Aoun fez questão de recordar neste contexto que «as negociações com Israel são da exclusiva responsabilidade do Estado libanês, e de nenhuma outra parte, pois trata-se de uma questão de caráter soberanista que diz respeito apenas ao Líbano». E o chefe de Estado realçou que as autoridades libanesas adotaram «uma série de medidas de segurança para impedir o contrabando de armas ou a entrada ilegal de fundos no país».
Em todo o caso, no terreno, o exército israelita teria recebido instruções para consolidar e desenvolver os seus avanços no Sul, nomeadamente em Bint Jbeil, antes da reunião bilateral de terça-feira devido ao facto de Beirute poder reclamar com insistência, como indicou o Sr. Raggi na segunda-feira, a entrada em vigor de um cessar-fogo, tal conquista podendo permitir ao governo libanês, segundo vários observadores, legitimar e consolidar o diálogo direto com Telavive.
Naïm Kassem regressou…
Note-se, neste contexto, que, após um longo eclipse da cena mediática audiovisual, o secretário-geral do Hezbollah, xeque Naïm Kassem, reapareceu ontem à noite para estigmatizar, num discurso televisivo, aqueles que reprovam o Hezbollah por ter arrastado o país para uma nova guerra (!). Ele reconheceu implicitamente, a este respeito, que o seu partido pró-iraniano utilizava o Líbano para servir interesses exclusivamente estrangeiros, afirmando que «a guerra no Líbano tem como objetivo diminuir a pressão sobre outras frentes» (!). E de chamar de «traidores» todos aqueles que se opõem à guerra desencadeada pelo partido iraniano.
O xeque Kassem condenou, evidentemente, as negociações diretas entre o Líbano e Israel, pedindo ao Estado que anule essas conversações bilaterais. Dirigindo-se ao presidente Joseph Aoun, ele lançou: «Vamos construir o Líbano juntos»! No entanto, não especificou como tal empreendimento conjunto de recuperação poderia ser possível quando o partido pró-iraniano percebe a entidade libanesa como um mero instrumento de manobra nas mãos de uma potência regional com aspirações hegemónicas largamente desestabilizadoras e belicosas.