
As negociações teriam lugar já na próxima semana em Washington


Em uma decisão surpresa no fim da quinta-feira, 9 de abril, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou, após uma reunião do gabinete de segurança do país, que instruiu seu governo a iniciar negociações diretas com o Líbano sem demora. Ele também aproveitou a ocasião para acolher publicamente uma decisão de seu homólogo libanês, o primeiro-ministro Nawaf Salam, cujo gabinete, reunido na quinta-feira no Palácio de Baabda, aprovou uma resolução que determina ao Exército libanês e às forças de segurança proibir qualquer presença armada ilegal no governo de Beirute. A medida busca, na prática, impor o princípio do monopólio estatal das armas.
Essa decisão inesperada de Netanyahu ocorre na esteira de vários desdobramentos significativos nas últimas vinte e quatro horas. Ela foi anunciada um dia após uma ligação telefônica, na noite de quarta-feira, entre o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro israelense. Informações provenientes de Tel Aviv na tarde de quinta-feira indicavam que a Casa Branca havia instado Netanyahu a “reduzir em certa medida” a intensidade e o alcance dos ataques no Líbano. É bastante provável, no entanto, que a perspectiva de negociações diretas com o Líbano tenha sido um elemento central da conversa.
Outro desenvolvimento relevante em 9 de abril ocorreu nas declarações feitas na abertura de uma reunião de gabinete pelo presidente Joseph Aoun, que enfatizou que “apenas o Líbano pode negociar em nome do Líbano, e é inconcebível que qualquer terceiro tente fazê-lo”. O Ministério das Relações Exteriores libanês já havia adotado posição semelhante dias antes, gerando fortes críticas de círculos próximos ao Hezbollah.
De todo modo, durante a reunião de gabinete de quinta-feira, o primeiro-ministro buscou aprovação para uma decisão que encarrega o Exército e as forças de segurança de aplicar concretamente, no governo de Beirute, o princípio do monopólio exclusivo do Estado sobre as armas. Ministros do dueto xiita Hezbollah-Amal se opuseram firmemente ao pedido de Salam, e trocas acaloradas foram registradas entre os dois lados. Ainda assim, a posição do primeiro-ministro prevaleceu, com o apoio de ministros das Forças Libanesas, do Partido Kataeb e de outras figuras alinhadas à soberania. Ao final da sessão, Salam anunciou pessoalmente e solenemente a decisão de desmilitarizar o governo de Beirute, especificando que a resolução está em conformidade com as disposições do Acordo de Taif e com decisões anteriores já adotadas por seu governo nesse sentido.
Vale lembrar, nesse contexto, que o presidente Joseph Aoun tem defendido reiteradamente, nas últimas semanas, negociações diretas com Israel, para desagrado do Hezbollah e do Movimento Amal. A iniciativa do chefe de Estado libanês havia sido anteriormente rejeitada pelo primeiro-ministro israelense. No entanto, os desdobramentos do conflito envolvendo o Irã, e provavelmente os intensos bombardeios de quarta-feira contra dirigentes e posições do Hezbollah no coração de Beirute, bem como em Saida, no Vale do Bekaa e em Hermel — cerca de cem ataques em dez minutos — parecem ter tido o efeito indireto de levar Netanyahu a dar sinal verde para conversas diretas com o Líbano.
No Departamento de Estado, com Washington como garantidor
Na prática, informações disponíveis na noite de quinta-feira indicavam que negociações diretas entre israelenses e libaneses devem ocorrer nos próximos dias — possivelmente já na próxima semana — no Departamento de Estado, com Washington atuando como garantidor do bom andamento das conversas. A delegação israelense será liderada pelo embaixador de Israel em Washington. Quanto à delegação libanesa, algumas fontes indicaram na noite de quinta-feira que ela seria chefiada pelo ex-embaixador Simon Karam, enquanto outras apontaram que a embaixadora em Washington, Nada Hamadé Moawad, lideraria a equipe negociadora.
Quanto à agenda das negociações, Netanyahu indicou que ela se concentrará no “desarmamento do Hezbollah e na paz entre o Líbano e Israel”. Por ora, Beirute exige que ao menos um cessar-fogo provisório sirva como prelúdio dessas negociações — algo que os israelenses não parecem dispostos a aceitar.
A grande incógnita, diante dessa decisão inesperada, é a reação do campo iraniano — em especial da Guarda Revolucionária Islâmica e de seu braço armado no Líbano.
Cabe destacar que, antes do anúncio das futuras negociações diretas com Israel, a força aérea israelense continuou seus ataques na quinta-feira contra várias localidades no sul do Líbano, tendo como principal objetivo aparente o controle da cidade estrategicamente importante de Bint Jbeil.