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Opinião

Na Síria, toda justiça seletiva é uma justiça emasculada!
Por
Youssef Mouawad
Publicado
mai 16, 2026 - 12:23

A marcha rumo ao suplício havia sido filmada: não é todo dia que se massacram 288 civis, entre eles 12 crianças! A cena ocorreu em 2013, no bairro de Tadamon, na periferia sul de Damasco, e “dentro das regras”. Mais de 24 vídeos registraram espetáculos de horror arrepiantes, entre eles o seguinte: milicianos pró-governo conduzem civis vendados e com as mãos amarradas para trás até a borda de uma vala; ali os empurram antes de abrir fogo indiscriminadamente para executá-los. Os corpos, segundo relatos, são então queimados e enterrados com a ajuda de um trator para não deixar vestígios. Como cúmulo da abominação, essas “façanhas” da dinastia Assad foram filmadas em detalhes pelos próprios carrascos. Porém, por uma sucessão de circunstâncias, esse vídeo incriminador passou a circular nas redes sociais a partir de 2022 e tornou-se emblemático da ferocidade do regime. Uma prova contundente que mostra o chamado Amjad Youssef, protagonista principal desse filme de horror, distribuindo a morte com total tranquilidade! Justiça seletiva não é justiça para todos! Esse subalterno sírio, um simples executor sem patente, havia sido capturado no fim de abril passado pelas autoridades sírias, e é fácil imaginar a euforia que tomou os familiares das vítimas e a população em geral ao anúncio de sua prisão. Mas eis que, ao reaparecer diante das câmeras, durante um programa transmitido pelo Ministério do Interior sírio, ele fez confissões no mínimo surpreendentes: assumiu toda a responsabilidade e afirmou ter agido sozinho, quando todos esperavam que incriminasse seus superiores hierárquicos para tentar salvar a própria pele. Ficou então claro, aos olhos de todos, que se tratava de uma confissão forçada destinada a proteger e absolver certos caciques do regime deposto que teriam mudado de lado. E a opinião pública passou a se perguntar se o governo atual não teria firmado acordos inconfessáveis com esses renegados, cujos nomes já circulam discretamente. Deixou-se entender que isso teria ocorrido provavelmente por razões de segurança e para garantir estabilidade e apaziguamento em certas regiões do país. Mas isso não é tudo. Línguas maldosas chegaram a insinuar que propinas teriam sido pagas a responsáveis do aparelho de segurança (1). O que levou um pesquisador do “Centro de Estudos sobre Conflitos” da Universidade de Utrecht a declarar: “Passamos de uma justiça transicional para uma justiça seletiva e de fachada” (2). De fato, concentrar a justiça em certos culpados, em vez de outros, não contribui para assegurar sua transparência. Por iniciativa própria? No início deste mês de maio, outro personagem sinistro — desta vez um general — foi preso: Khardal Dayoub esteve envolvido, em agosto de 2013, no ataque com armas químicas contra Ghouta Oriental. O saldo da operação: cerca de 1.500 vítimas, entre elas mais de 400 crianças. Quem não se lembra da visão daqueles cadáveres com espuma saindo pela boca? Agora, mais do que nunca, uma prestação de contas se impõe: o povo sírio tem direito à verdade. E que não venham nos dizer, na televisão nacional, que esse general, mal orientado, agiu por conta própria! 1- Michael Safi & Melvyn Ingleby, “Syria arrests suspected leader of Tadamon massacre”, The Guardian , 24 de abril de 2026. 2- Melvyn Ingleby & William Christou, “Security or justice? Syria faces post-Assad reckoning after string of arrests”, The Guardian , 4 de maio de 2026.

Os exilados em Israel: entre a ferida identitária e a ausência de justiça de transição

O caso dos libaneses exilados em Israel está entre os mais complexos e sensíveis de toda a problemática libanesa, justamente porque se encontra na interseção de três dimensões profundamente entrelaçadas: as consequências das ocupações síria e israelense, os legados da guerra civil e a profunda fratura que atravessa as próprias concepções de Estado, soberania e justiça. O Estado esteve ausente do sul do Líbano durante décadas, deixando as populações à mercê das tensões entre a ocupação e as armas das milícias. Quando retornou após a libertação, o fez com uma lógica estritamente securitária e judicial, distante de qualquer verdadeiro espírito de reconciliação nacional. É por isso que este caso permaneceu como uma ferida aberta: o Líbano jamais viveu uma verdadeira experiência de justiça de transição à altura do pós-guerra e das múltiplas ocupações que devastaram o país. No plano humano, seria impensável negar a tragédia vivida por milhares de pessoas e suas famílias, tragédia que se manifesta em: · O desenraizamento forçado de seu meio natural. · A dolorosa separação de seus familiares e de suas aldeias. · Uma crise de identidade e pertencimento que os condenou a viver suspensos entre dois países. Quanto às crianças nascidas ou criadas lá, elas enfrentam uma crise ainda mais profunda: nunca se integraram plenamente à sociedade que as acolheu, enquanto alguns, em seu próprio país, o Líbano, as observam com desconfiança e hostilidade. É nesse ponto que surge a questão moral fundamental: é legítimo estender a responsabilidade jurídica e política às esposas, aos filhos e aos netos? Famílias inteiras pagam hoje o preço de escolhas impostas por circunstâncias esmagadoras a alguns de seus membros, enquanto a grande maioria jamais pegou em armas nem participou de qualquer atividade de segurança. Para esclarecer melhor o quadro, é importante estabelecer algumas verdades incontestáveis. A autenticidade da identidade: essas pessoas são libanesas de origem, não estrangeiras nem recém-chegadas a esta terra. A escolha pela sobrevivência: elas não partiram para Israel por vontade própria, mas sob a imposição de um exílio forçado. Diante de duas opções igualmente amargas, enfrentar ameaças de eliminação física feitas por seus adversários da época, com o Sayyed Hassan Nasrallah declarando: “Nós vamos degolá-los em suas camas”, ou viver uma dura errância longe da pátria e dos entes queridos, escolheram permanecer vivas. A ausência do Estado: elas não conspiraram contra o Estado; foi o Estado que as abandonou, entregando-as às ocupações e às tutelas estrangeiras. O histórico pacífico: elas não estiveram envolvidas em assassinatos de primeiros-ministros, na eliminação de deputados soberanistas, nem explodiram mesquitas ou infraestruturas públicas. Entre justiça e vingança A diferença essencial reside na distinção entre uma justiça baseada na responsabilidade individual e uma vingança coletiva acompanhada de ostracismo permanente. A justiça pressupõe que as responsabilidades sejam estabelecidas com precisão, caso por caso, que os julgamentos ocorram em condições justas e que seja rejeitado o princípio segundo o qual a culpa seria transmitida de geração em geração. Conclusão política e humanitária Este caso não será resolvido com slogans acusatórios; ele exige a abordagem de um “Estado verdadeiro”, baseada no reconhecimento das especificidades do período de ocupação e das circunstâncias opressivas que o acompanharam, na distinção clara entre aqueles que cometeram crimes comprovados e aqueles que foram vítimas dos acontecimentos, no respeito a um Judiciário libanês independente e à primazia do Estado de Direito e, por fim, no tratamento da dimensão humana das famílias e das crianças, longe de qualquer lógica de represália e ódio. O caso dos expulsos para Israel não pode, e não deve, ser confundido com qualquer outro caso, porque o verdadeiro adversário nesta questão é o próprio Estado libanês, e não qualquer outra parte. É por isso que a responsabilidade nacional e moral recai antes de tudo sobre o Presidente da República, em sua condição de chefe de Estado e principal garantidor da segurança e da integridade do país, bem como do destino de todos os seus cidadãos sem exceção. Aquele que um dia escolheu enfrentar Israel em nome da dignidade e da soberania não pode se mostrar hoje incapaz de encontrar um caminho que permita trazer de volta seus filhos dos exílios forçados e reintegrá-los à sua pátria sob a proteção da lei, da justiça e da reconciliação nacional. Em última instância, o desafio fundamental que se coloca diante do Líbano continua sendo o mesmo: realizar a transição da memória da guerra e da divisão para o espaço de um Estado capaz de conciliar justiça e reconciliação, sem jamais sacrificar nem a soberania nem a dignidade humana de seus cidadãos.

O Líbano entre as armas e as negociações
Por
Jad Akhawi
Publicado
mai 10, 2026 - 16:02

Em um momento regional de extrema complexidade, o Líbano se vê diante de uma questão existencial que vai muito além dos cálculos políticos cotidianos e das divisões tradicionais: o que pretende alcançar em eventuais negociações com Israel, o que pode oferecer e, sobretudo, possui internamente a capacidade necessária para cumprir os compromissos que delas possam surgir? Essas perguntas deixaram de ser teóricas. Hoje, estão diretamente ligadas ao destino do Estado libanês, à possibilidade de centenas de milhares de cidadãos retornarem às suas aldeias e à capacidade do país de sair de sua condição de “arena de confronto aberta” para finalmente se tornar um Estado normal, soberano sobre suas fronteiras e suas decisões. O problema fundamental do Líbano hoje não está apenas na guerra ou na ameaça de guerra, mas na ausência de um Estado capaz de impor uma visão nacional coerente. Há muitos anos, o país vive sob o peso de uma dualidade destrutiva: de um lado, um Estado formal, com suas instituições, sua Constituição e sua legitimidade internacional; de outro, uma realidade militar e de segurança que possui capacidade autônoma para tomar decisões soberanas relacionadas à guerra e à paz. É precisamente essa dualidade que torna qualquer negociação futura tão delicada, porque a comunidade internacional não pergunta apenas o que o Líbano quer, mas também: quem realmente representa o poder de decisão libanês? No contexto de negociações sérias, não se exigiriam do Líbano “concessões gratuitas”, como alguns tentam apresentar, mas sim uma visão clara de um Estado que deseja recuperar sua soberania e seu equilíbrio. Isso começa pela afirmação de um princípio fundamental: o monopólio do poder de guerra e paz exclusivamente nas mãos do Estado libanês. Um Estado não pode negociar de forma legítima quando suas decisões de segurança estão divididas entre instituições oficiais e forças militares paralelas. Nesse sentido, qualquer processo de negociação autêntico estará inevitavelmente ligado à questão das armas fora do controle estatal, não apenas porque Israel ou a comunidade internacional levantam esse tema, mas porque o surgimento de um Estado normal no Líbano tornou-se impossível sem enfrentar essa disfunção estrutural. É aí que surge o grande dilema. O Exército libanês pode, sozinho, resolver essa equação? A resposta realista é que essa questão vai muito além de suas capacidades. O tema das armas no Líbano não é simplesmente um assunto de segurança que possa ser resolvido por uma decisão operacional ou por um confronto interno. Ele está profundamente entrelaçado com os equilíbrios confessionais, os conflitos regionais, a relação entre o Hezbollah e o Irã e o conflito aberto com Israel. Qualquer tentativa de impor uma solução pela força interna corre o risco de lançar o país em uma explosão generalizada, ameaçando inclusive a unidade do próprio Exército e reproduzindo cenas de uma guerra civil cujas cicatrizes os libaneses ainda carregam. Isso não significa, de forma alguma, que o Exército libanês não tenha um papel a desempenhar. Pelo contrário. A instituição militar continua sendo a única entidade nacional capaz de atuar como garantidora da estabilidade, desde que receba cobertura política e os meios necessários. Mas ela não pode se transformar em instrumento de confronto interno sem uma decisão política unificadora e um apoio interno suficientemente amplo. Qualquer abordagem séria sobre a questão das armas exige, portanto, uma estratégia nacional gradual: uma estratégia que comece pelo fortalecimento do próprio Estado, pelo fortalecimento do Exército e que subordine qualquer transição de segurança a um amplo consenso interno e a um acordo regional mais abrangente. Porque a realidade obriga a reconhecer que o poder do Hezbollah não vem apenas do interior do Líbano, mas também de sua inserção em um eixo regional liderado pelo Irã. Dessa forma, qualquer mudança radical nessa questão dependerá do futuro das relações entre Irã e Israel e da natureza dos acordos internacionais na região. Por isso, reduzir o problema ao slogan do “desarmamento pela força” carece de realismo, assim como a manutenção do status quo, que já não é sustentável para o Estado libanês. Há ainda outro tema de urgência equivalente, talvez o mais imediato para os libaneses hoje: o sul do Líbano, os deslocados e as aldeias devastadas. Milhares de famílias libanesas vivem um deslocamento contínuo como consequência da guerra e das tensões na fronteira. A pergunta que se impõe é a seguinte: o Líbano pode, em eventuais negociações, obter de Israel garantias de retirada e de retorno dos deslocados? Teoricamente, sim. É legítimo que o Líbano exija o fim das operações militares, a retirada israelense de todos os pontos ocupados e garantias para o retorno seguro dos habitantes às suas aldeias. Mas a experiência histórica da região demonstrou amplamente que promessas, por si sós, não bastam. O Oriente Médio está repleto de acordos frágeis e entendimentos que desmoronaram diante da primeira mudança política ou militar no terreno. Garantias reais exigem muito mais do que simples declarações políticas ou compromissos verbais. Se o Líbano entrar em um processo de negociação, precisará de um acordo explícito e por escrito, acompanhado de cronogramas precisos e de mecanismos de monitoramento e implementação. Também precisará de patrocínio e garantias internacionais efetivas por parte de atores capazes de exercer pressão real, como os Estados Unidos, a França e as Nações Unidas. O fortalecimento do papel da FINUL, ou de qualquer outro mecanismo internacional de supervisão, também será necessário para garantir o respeito mútuo ao cessar-fogo e evitar o colapso rápido de qualquer acordo. Mas, mesmo que as garantias de segurança se concretizem, outra batalha igualmente decisiva surgirá: a da reconstrução. Retornar não significa apenas reabrir a estrada até a aldeia. Significa reconstruir casas, infraestrutura, escolas e hospitais, além de garantir as condições mínimas para uma vida normal. Toda negociação séria deverá, portanto, vincular obrigatoriamente a dimensão da segurança a um plano de apoio econômico e reconstrução do sul do Líbano. Caso contrário, o retorno permanecerá ilusório e precário. Grande parte da dificuldade no Líbano reside no fato de que o debate interno é conduzido com uma mentalidade de slogans absolutos. Alguns enxergam qualquer negociação como uma capitulação; outros acreditam que a solução virá de um rápido confronto interno que resolverá tudo de uma vez. A realidade é infinitamente mais complexa. O Líbano hoje não está em posição de se permitir grandes aventuras, nem militares nem políticas. O país atravessa um colapso econômico, suas instituições estão esgotadas e a própria sociedade libanesa encontra-se dividida, amedrontada e exausta após longos anos de crises acumuladas. Qualquer abordagem realista deve, portanto, partir de um objetivo fundamental: reconstruir o próprio Estado libanês. O verdadeiro problema não está apenas na existência de uma ameaça israelense ou de uma influência iraniana, mas na fragilidade do Estado, que permitiu que o Líbano se transformasse em um espaço aberto para conflitos regionais. Quando o Estado é fraco, todos os acordos externos são provisórios e todas as tréguas estão destinadas a ruir. O maior desafio para o Líbano não é simplesmente saber como negociar com Israel, mas antes de tudo recuperar sua capacidade de decisão nacional. Porque a verdadeira negociação não começa em torno de uma mesa, mas quando o Estado exerce autoridade real sobre seu território, suas fronteiras e suas instituições. Somente então um acordo poderá deixar de ser uma trégua frágil para se transformar em estabilidade duradoura. O Líbano não precisa de slogans de vitória ilusória, nem de discursos de rendição. O que realmente necessita é de um projeto de Estado: um Estado que proteja suas fronteiras com seu Exército, que impeça que seu território seja transformado em plataforma para as guerras dos outros e que garanta ao seu povo o direito natural à segurança, à estabilidade e à vida. Toda negociação futura deverá ser medida por um único critério: ela aproxima o Líbano do Estado ou o reconduz à lógica das arenas de confronto, dos eixos regionais e das guerras sem fim?

As negociações de Washington: Conseguirá o Líbano quebrar os grilhões?

Desde o surgimento do conflito árabe-israelita, o Líbano procurou tenazmente preservar-se de uma queda total na fornalha das guerras abertas, adoptando uma política articulada em torno de dois pilares: ser o último Estado árabe a assinar um acordo de paz com Israel, e manter-se como «Estado de apoio» à causa palestiniana em vez de se tornar um «Estado de confrontação» que suportasse sozinho o peso da guerra. Esta abordagem decorria da natureza singular do Líbano, dos seus equilíbrios subtis e da sua composição política e social, que não poderia absorver conflitos prolongados que ultrapassassem as suas capacidades e os seus recursos. Este equilíbrio começou, todavia, a fragilizar-se gradualmente com a ascensão da acção dos fedayin palestinianos armados, quando vastas regiões do Sul se transformaram no que ficou conhecido como «Fatahland», sob o amparo de forças islámicas e de esquerda. O Líbano entrou então numa nova fase de divisão, mormente quando o regime de Assad soube explorar esta realidade e colocá-la ao serviço dos seus projectos regionais, fazendo do país um palco aberto às guerras e aos entendimentos exteriores. Com o passar dos anos, os nomes e os rostos foram mudando sem que o quadro de fundo se alterasse; as organizações palestinianas saíram de cena, substituídas pela influência iraniana exercida através do Hezbollah, e o papel sírio foi-se eclipsando em benefício de Teerão, que tomou as rédeas das decisões política e militar. A diferença fundamental reside, contudo, na natureza do vínculo entre o Irão e o Partido: já não se tratava de uma mera aliança de interesses, mas havia-se tornado uma ligação doutrinária e orgânica profunda, o que tornou o desacoplamento entre a decisão libanesa e o projecto iraniano uma tarefa de uma complexidade extraordinária. A região vive hoje grandes transformações que estão a redesenhar os seus equilíbrios; com o regresso do presidente Donald Trump à Casa Branca, as equações internacionais mudaram. No plano interno, a eleição do general Joseph Aoun para a presidência da República e a designação do doutor Nawaf Salam para formar governo suscitaram a esperança de uma recuperação da soberania estatal, depois de anos de colapso e de hegemonia armada. Foi neste contexto que o projecto de diálogo com Israel foi colocado sobre a mesa, depois de Teerão ter fechado as portas a qualquer solução e conduzido o país à beira da implosão total. Tornou-se manifesto que a perpetuação do statu quo significaria o isolamento definitivo e devastador do Líbano; por conseguinte, a nova autoridade considera que a salvação passa pela consolidação do poder do Estado, pela concentração da decisão sobre a guerra e a paz nas mãos das instituições legítimas, e pela retirada do país do jogo dos eixos regionais. Esta orientação depara-se, porém, com obstáculos internos; as relações entre o presidente do Parlamento, Nabih Berri, e a presidência da República atravessam uma tensão crescente, com Ain el-Tiné a sentir que o processo negocial ultrapassa os entendimentos tradicionais. A posição do Hezbollah afigura-se, por seu turno, ainda mais complexa desde que o seu poder de decisão soberana migrou para os Guardiões da Revolução iranianos, o que subordina qualquer diálogo interno aos cálculos de Teerão e às suas negociações com Washington. A nova autoridade libanesa afirma hoje a sua recusa em atar o futuro do país ao comboio da negociação irano-americana, convicta de que o Líbano não pode continuar a servir de «carta de pressão» exterior. Naquilo que poderá lançar os alicerces de uma nova trajectória política, aguarda-se em Washington um encontro entre delegações libanesa e israelita, numa tentativa séria de recuperar o estatuto de «Estado normal». O Líbano encontra-se hoje numa encruzilhada histórica: ou o regresso à lógica do Estado, da soberania e das instituições, ou a permanência como refém das armas e dos eixos exteriores que não legaram aos libaneses senão destruição e colapso. Conseguirá o Líbano quebrar os grilhões do «terreno» para entrar na era do «Estado»?

Sírios, façam justiça - mas que seja justiça!
Por
Youssef Mouawad
Publicado
mai 9, 2026 - 02:09

Uma forca foi erguida por manifestantes em frente ao tribunal de Damasco. Era domingo, 27 de abril, na capital síria: uma multidão densa comparecia à primeira audiência dos julgamentos destinados a determinar o destino dos criminosos do regime deposto de Bashar al-Assad. Os manifestantes gritavam por vingança: não hesitariam em fazer justiça com as próprias mãos! Isso dá uma ideia da atmosfera tensa que poderia lançar dúvidas sobre o rumo dos acontecimentos futuros. Um tribunal especial para a Síria, nos moldes do estabelecido para a antiga Iugoslávia, teria suscitado menos apreensão. Tudo isso é um mau presságio para a comunidade alauíta, que deteve as rédeas do poder por mais de 50 anos e é responsabilizada pela repressão que devastou a população. Situação atual Era, portanto, de se esperar que o atual sistema judiciário sírio refletisse a luta contínua do país para curar as feridas da guerra civil. A guerra permanece sempre presente na mente dos sobreviventes, e suas consequências continuarão a assombrar indivíduos e diversos grupos por muito tempo. Outro fator que não favorece a justiça ou a reconciliação é que o sistema judiciário sírio, em sua totalidade, não era verdadeiramente "soberano" desde que o Partido Baath assumiu o poder. De fato, desde a década de 1960, os juízes eram subservientes ao regime, e isso diz tudo! Cinco décadas de subserviência ao regime de Assad, pai e filho, não produziriam uma classe de juízes honestos, profissionalmente qualificados para julgar e ferozmente independentes. A isso, devemos acrescentar, como observou um analista, que a máquina judicial, neste exato momento, foi construída em torno de uma "constelação heterogênea de mecanismos: processos nacionais de justiça de transição sem precedentes, iniciativas locais, muitas vezes informais, de busca da verdade que são reativas e frágeis, promessas de julgamentos futuros e uma diversificação sem precedentes da atividade judicial internacional". Um Sistema de Justiça de Duas Classes De fato, não se deve esquecer que os julgamentos de criminosos do regime deposto já haviam começado na Europa antes mesmo da primeira audiência em Damasco, no mês passado. Isso porque, em virtude da “jurisdição universal”, certos países europeus puderam processar crimes que não foram cometidos em seus territórios. Enquanto a França emitiu mandados de prisão contra Bashar al-Assad, seu irmão Maher e outros, tribunais alemães em Koblenz, Stuttgart e Frankfurt não hesitaram em condenar autoridades sírias a penas de prisão, incluindo duas sentenças de prisão perpétua. Que sorte tiveram esses fugitivos de comparecerem perante tribunais europeus: não enfrentaram a pena de morte e suas condições prisionais permanecem muito mais aceitáveis ​​do que as que prevalecem nas prisões de Damasco. Olho por olho? Com mais razão ainda se teme a aplicação da lei de olho por olho durante o que agora deve ser chamado de “julgamentos de Damasco”, julgamentos que detalharão os horrores do regime deposto. A próxima audiência será realizada em 10 de maio: ela decidirá o destino do major-general Atef Najib, primo do presidente Bashar al-Assad e ex-chefe da segurança política em Daraa, berço da revolta de 2011. Então, como manter a serenidade nos tribunais depois que os crimes desse abusador de crianças forem totalmente revelados? E até que ponto o regime de Ahmad al-Sharaa conseguirá conter a crescente pressão popular, de Aleppo a Homs e Hama, que exige a imediata construção de uma forca na Praça Marjeh?* *Esta mesma praça onde nacionalistas árabes foram enforcados em 1916 e onde o espião Elie Cohen foi enforcado em 1965.

A doença cultural
Por
Khalil Helou
Publicado
mai 5, 2026 - 17:02

A doença da qual o país sofre não é apenas a milícia do Hezbollah, embora constitua o desafio mais importante, nem as outras milícias, nem os grupos armados nos campos palestinos, nem a ausência de soberania, nem a corrupção sem fim desde a época da Mutasarrifiyah (1862–1915). Essa doença, que é o desenraizamento da cultura do Estado e do Estado soberano, contamina as mentalidades e nelas prolifera desde a ocupação baathista síria. Ela se agravou posteriormente e se tornou cancerosa sob a hegemonia do Hezbollah. Há 21 anos, este, em todos os níveis de sua hierarquia e onde quer que esteja nas instituições, empenha-se em moldar as mentalidades e torná-las submissas, utilizando essas instituições como escudo sociopolítico e de segurança em seu próprio benefício. O Estado e suas instituições acabam, assim, desfigurados, e todo funcionário que não adote o discurso da “resistência” é rotulado de “traidor” e “agente sionista”; da mesma forma, os países amigos onde vivem centenas de milhares de libaneses, naturalizados ou não, passam a ser classificados como inimigos, e seus representantes devem ser evitados ou boicotados sob pena de acusações de conivência com o imperialismo. O Líbano deveria, segundo essa cultura difundida, isolar-se do mundo árabe e do mundo ocidental. Para os não admiradores do Hezbollah, instala-se e se banaliza a Síndrome de Estocolmo; diante disso, os campeões do fato consumado não encontram nada melhor a fazer do que recorrer a um “pragmatismo” insípido. Em contrapartida, a corrente que se opõe drasticamente ao partido armado responsabiliza o “Estado profundo” pela nossa situação. Este é, por definição, classicamente orientado a negócios, quando na realidade o que nos aflige é o “Estado carapaça” ou o “Estado máscara do Hezbollah”. Atribuir o que está acontecendo ao “Estado profundo” é, portanto, simplista. Além disso, isentar os níveis mais altos da hierarquia do Estado, bem como as posições intermediárias entre essa hierarquia e os abismos profundos, é equivocado. A cultura de Estado desejada pelos pais fundadores do Líbano moderno, ao longo de um século, foi sendo instaurada pouco a pouco por uma classe elitista, primeiro sob o mandato francês, depois sob os presidentes e governos sucessivos até 1975. É possível constatá-la relendo os jornais da época e recapitulando como era o cotidiano antes da guerra. Havia, certamente, um Estado e instituições que funcionavam, apesar de suas lacunas, fragilidades e defeitos. Elas alcançaram sua real dimensão durante os quatro primeiros mandatos presidenciais após a independência, mas o tempo foi insuficiente para atingir a maturidade sociopolítica necessária em todos os cidadãos, sobretudo após quatro séculos de cultura sectária sob o regime dos “millet” do Império Otomano. Desde 1975, os libaneses anseiam por um Estado de direito soberano, continuam a buscá-lo, mas uma grande maioria já não sabe o que isso significa. As instituições do Estado, em vez de estarem a serviço dos cidadãos, tornaram-se instrumentos de poder, de hegemonia e de enriquecimento. Muitos consideram isso rotineiro e vivem “normalmente” com essa realidade. Além disso, o concubinato do Estado com a milícia pró-iraniana tornou-se uma obrigação aos olhos dos apoiadores do Hezbollah e algo banal para os demais. Para reverter essa situação e recolocar as coisas em seus devidos lugares, faltam homens de Estado, de verdade, e não simples representantes de confissões, frequentemente oriundos do populismo. A diversidade confessional é uma realidade, mas sua gestão não pode ficar nas mãos de medíocres. Elites em cada confissão ou em cada partido são uma necessidade nessas circunstâncias. O presidente do nosso parlamento não o é no sentido clássico do termo. Ele exerce um veto sobre o poder executivo e uma hegemonia sobre a administração do Estado para facilitar os negócios de seus próximos e aliados. Administra o parlamento muito mais como uma “Loya Jirga” ou conselho tribal, e muito menos como uma equipe que legisla e debate visões e planos de ação diante dos desafios estratégicos, prova disso é a ausência estrondosa do parlamento em relação à guerra Hezbollah-Israel desde 2023. O primeiro-ministro, por sua vez, é quase alheio às decisões de segurança e militares. Nosso governo, embora seus ministros sejam qualificados, pouco se assemelha a uma equipe de trabalho que formula problemas coletivamente e elabora soluções. Uma política externa clara não é visível, assim como uma estratégia de negociações com o Estado hebreu, rejeitada por parte do poder executivo e legislativo. O presidente da República multiplica suas posições, mas não consegue desempenhar o papel de maestro constitucional. Os ataques e difamações que ele sofre não são enfrentados por medidas institucionais de peso. Além disso, políticos, chefes de clãs e milícias e caixas de ressonância disputam telas e colunas para afirmar se são a favor ou contra negociações com Israel, e isso se limita ao nível das declarações. As críticas ao “Estado carapaça” são justificadas, mas insuficientes. O que falta são ações por parte de verdadeiros homens de Estado. Os países da região, sejam amigos, inimigos ou adversários, aceleram seus esforços para garantir os interesses de seus povos e sair com o menor dano possível da crise regional. Entre nós, se os assuntos continuarem a ser geridos dessa forma, as soluções virão de fora; caso contrário, estaremos condenados a nos limitar à gestão do cotidiano. Para concluir, o que foi dito sobre o Estado de direito e o Estado soberano pode parecer utópico, mas, se não mirarmos muito alto, corremos não apenas o risco de permanecer estagnados, mas de afundar ainda mais.

O último veneno
Por
Akram Nehmé
Publicado
mai 4, 2026 - 07:57

O Hezbollah, que durante anos fez tremer o país inteiro com as suas armas, os seus homens e as suas ameaças, vê-se hoje reduzido a difamar o Patriarca maronita Béchara Raï através de exércitos de contas anónimas, de falsa coragem e de insultos escritos por detrás de um ecrã. Até a sua maneira de cair se tornou pequena. Por que esta fúria? Porque o Patriarca se limitou a recordar-lhes algo que se tornou insuportável para eles: o Líbano pertence aos libaneses. Uma frase simples. Uma frase normal. E no entanto já não conseguem silenciá-la. Então golpeiam o vazio, como alguém que sente o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Não é um sinal de força. É exactamente o contrário. Os movimentos seguros de si próprios não precisam de enviar anónimos para atacar um homem de Igreja. Quando se substituem os argumentos pela lama, é porque no fundo já se sabe que parte da batalha está perdida. Existe um momento na vida das organizações em que estas compreendem que o medo que inspiravam começa a dissipar-se. E quando o medo parte, pouco resta. É aí que surgem as reacções nervosas, os insultos, os excessos, os golpes inúteis. Como um escorpião encurralado que pica uma última vez, não porque ainda domine, mas porque já não sabe morrer de outro modo. Na história do Líbano, quando um movimento começa a atacar com histeria uma autoridade religiosa, é frequentemente o sinal de que esgotou os seus outros recursos. O argumento político já não convence. O argumento militar já não chega. Resta então a lama. Mas a lama lançada contra um patriarca não suja aquele que visa. Revela, sobretudo, quem a lança. O que se passa hoje ultrapassa em muito uma polémica contra o Patriarca Raï. É o espectáculo de um sistema que sente o tempo mudar à sua volta. E um sistema que pressente o seu fim torna-se frequentemente agressivo, desordenado e ruidoso. O mais difícil para eles é esse momento muito preciso em que o medo muda de campo. Um morto não sabe que está morto. Mas um moribundo, esse sabe.

Finalmente, os julgamentos de Damasco!
Por
Youssef Mouawad
Publicado
mai 2, 2026 - 09:58

Houve julgamentos em Nuremberg (1945-46) e em Tóquio (1946-48), e até mesmo em Istambul, forcas foram erguidas em julho de 1919 para executar os Jovens Turcos responsáveis pelo genocídio armênio. Dito isto, questionou-se legitimamente por que o poder de Ahmed al-Chareh demorou a colocar em marcha a máquina judicial. Estaria este último hesitando em punir os abusos cometidos contra todo um povo pela dinastia de tiranos Al-Assad e por suas camarilhas? A questão era ainda mais premente pelo fato de que mais de duas dezenas de responsáveis – figuras de primeiro e segundo escalões, se me perdoam a expressão – haviam sido detidos e apodreciam nas prisões à espera de julgamento. Mas eis que, em 26 de abril passado, foi aberta em Damasco a primeira audiência pública com esta declaração do juiz Fakhr al-Din al-Aryane: «Hoje, iniciamos os primeiros julgamentos no âmbito da justiça de transição na Síria». Breve comparação Quem não desejaria à nossa vizinha Síria a realização de julgamentos públicos que, ao condenar os criminosos do regime baathista, fizessem não vingança, mas justiça? E para isso, não se deveria evitar tomar como exemplo o modelo iraquiano ou o modelo libanês? Lembremos que no Iraque, ocorreu em 2006 um simulacro de julgamento, o famoso 'kangaroo trial' de Saddam Hussein. Este foi executado às pressas após sua condenação no caso de Dujail e antes que fosse concluído o julgamento relativo ao caso de Halabja de 1988, no qual armas químicas foram utilizadas contra a população civil. Assim, os curdos, como tantos outros familiares das vítimas, foram privados de uma administração justa da justiça, o que certamente teria atenuado o sentimento de iniquidade absoluta que experimentavam: um julgamento com as devidas regras só poderia contribuir para o processo de luto. Quanto ao Líbano, país de exceção que havia vivido quinze anos de conflito civil latente e de ocupações estrangeiras, revelou-se mais expedito e muito mais lacônico: a lei de anistia de 1991 apagou com uma canetada as atrocidades cometidas. À espera de Bashar, Maher e os outros Devemos acreditar que as coisas serão diferentes na Síria? Em todo caso, os tribunais sírios não descansam aos domingos, já que foi num dia assim que se realizou em Damasco a primeira audiência de um processo que, decididamente, vai expor as atrocidades do poder deposto. Contudo, faltavam à chamada dois convidados de destaque: o presidente deposto Bashar al-Assad e o seu irmão Maher. Eles desapareceram sem deixar rasto, tal como tantos outros assassinos em massa que levam uma vida tranquila seja na Rússia, no Líbano, no Iraque ou no Irã, ou até mesmo na Alemanha, na Suécia e na Bélgica, dizem-nos! Os criminosos do regime que escaparão à justiça de seu país contam-se aos milhares. Os «bodes expiatórios» pagarão no lugar daqueles que planejaram e ordenaram massacres e torturas sistemáticas, esta marca registrada do sistema penitenciário sírio. Justiça de transição e Estado de direito? Um julgamento é necessário, nem que seja por seus efeitos catárticos. Mas não uma vingança ditada pela lei de talião! A «justiça de transição», que o juiz Al-Aryane fez questão de sublinhar, não deve assumir a aparência de um acerto de contas; ela deve estabelecer a verdade dos fatos, compensar as vítimas e preparar o caminho para uma reconciliação nacional. Mas, será isso algo mais que um mero desejo irrealizável? Quando jovens, nossos mestres nos alertavam contra as ilusões e o idealismo. Pois, assim como a caridade, a justiça só poderia ser, em sua aplicação, «parcial e tendenciosa». *Certos crimes, como os cometidos contra personalidades políticas, religiosas ou diplomáticas, não estavam, no entanto, cobertos pela lei de anistia.

O Líbano não é Gaza
Por
Makram Rabah
Publicado
mai 1, 2026 - 03:43

Quando responsáveis israelitas ameaçam tratar o sul do Líbano como Gaza, a declaração não é apenas imprudente mas politicamente reveladora, na medida em que expõe até que ponto a escalada regional se entrelaçou com os cálculos de política interna em Israel, reflectindo simultaneamente a própria paralisia estrutural do Líbano. Semelhante retórica merece ser dispensada pelo que é, a saber, uma postura eleitoral travestida de doutrina estratégica, embora não possa separar-se de uma realidade bastante mais carregada de consequências: o Líbano foi arrastado, mais uma vez, para uma guerra que não escolheu, por um actor que não responde perante o Estado e que não suporta de modo responsável o custo das suas decisões. Não existe comparação válida entre Gaza e o sul do Líbano, não porque a escala da destruição difira, mas porque a arquitectura política que subjaz a cada caso é fundamentalmente distinta. Gaza é governada por uma autoridade que reivindica abertamente a titularidade da sua postura militar, ao passo que o Líbano permanece preso numa inversão perigosa em que o Estado suporta o peso da guerra sem exercer um controlo soberano sobre os instrumentos que a produzem. O confronto em curso ao longo da fronteira sul não é, portanto, um simples conflito bilateral entre Israel e o Hezbollah, mas a manifestação de uma crise mais profunda na governação libanesa, onde a ausência de uma autoridade decisória unificada transformou o país numa arena em vez de num actor. A conduta militar de Israel no sul, nomeadamente a visação sistemática de infra-estruturas e redes de túneis, é frequentemente apresentada como uma necessidade de segurança, embora na prática se assemelhe à aplicação forçada, mediante um poder de fogo avassalador, de resoluções internacionais que o Estado libanês falhou ou recusou implementar. A referência persistente à Resolução 1701 do Conselho de Segurança das Nações Unidas não é acidental; sublinha até que ponto Israel pretende agora fazer cumprir, por vias unilaterais, obrigações de que o Líbano se furtou. Esta dinâmica não apenas corrói uma soberania libanesa já frágil, mas também coloca o Estado na posição insustentável de ser simultaneamente julgado e contornado por actores externos que já não distinguem entre as instituições estatais e o grupo armado que opera a seu lado. O que torna este momento particularmente perigoso é o fosso crescente entre os discursos oficiais e as realidades vividas no terreno. O exército libanês sinalizou repetidamente a sua conformidade com o quadro destinado a desmilitarizar a zona a sul do rio Litani, porém os desenvolvimentos em curso sugerem ou uma falha de aplicação ou uma falta de vontade política para enfrentar as violações. Esta ambiguidade criou um vácuo no qual proliferam as reivindicações concorrentes, permitindo a Israel justificar a continuação das suas operações e deixando ao mesmo tempo ao Hezbollah a margem para sustentar o seu próprio discurso de dissuasão e resistência. Em tal ambiente, a verdade torna-se secundária relativamente à utilidade, e os factos são mobilizados de forma selectiva para servir agendas preestabelecidas em vez de informar a política. As consequências desta dissonância não se confinam ao campo de batalha; estendem-se ao tecido social e político do próprio Líbano. O deslocamento das populações do sul expôs a magnitude do colapso infra-estrutural e a impossibilidade de manter uma vida civil digna nas condições actuais, ao passo que as repetidas evacuações de habitantes, muitas vezes instadas pelos próprios actores que afirmam defendê-los, revelam um padrão inquietante em que as populações são tratadas como variáveis sacrificáveis num cálculo estratégico mais vasto. A dimensão humanitária deste conflito, embora frequentemente invocada, permanece subordinada aos imperativos de manter um teatro de confrontação que serve interesses além das fronteiras do Líbano. No coração desta crise reside uma verdade mais incómoda, que os responsáveis libaneses têm sido relutantes em articular com clareza: a erosão da soberania não é já uma preocupação abstracta mas uma condição vivida, moldada pelo enraizamento de um poder militar não estatal e pela sua integração num eixo regional liderado pelo Irão. A presença de decisores que operam fora do quadro dos mecanismos de responsabilização libaneses, e cujas prioridades se alinham com objectivos estratégicos externos, transformou efectivamente partes do país em prolongamentos de uma contenda geopolítica mais ampla. Esta realidade complica qualquer tentativa de negociar um cessar-fogo ou uma desescalada, na medida em que coloca a questão fundamental de saber quem, exactamente, detém a autoridade para comprometer o Líbano com a paz. É neste contexto que deve ser compreendido o debate sobre as negociações. A insistência de alguns em que enveredar por conversações constitui uma traição reflecte uma cultura política que há muito confundiu a diplomacia com a fraqueza e valorizou o confronto perpétuo como marca de dignidade nacional. No entanto, a alternativa — continuar uma guerra sem objectivo claro, sem consentimento do Estado e sem uma via viável para a resolução — não oferece mais do que a promessa de uma destruição crescente. As negociações, neste sentido, não são uma concessão mas uma necessidade, desde que estejam ancoradas numa visão coerente da autoridade estatal e sustentadas pela vontade de abordar a causa profunda do actual impasse: a existência de uma entidade armada que opera independentemente do comando nacional. Os actores internacionais e regionais, nomeadamente os do Golfo árabe, tornaram a sua posição cada vez mais explícita. A ajuda financeira e o apoio à reconstrucção não afluirão a um sistema percebido como subordinado ao controlo das milícias, nem o apoio político será estendido a um Estado incapaz de afirmar a sua própria primazia em matéria de guerra e paz. Esta condicionalidade, frequentemente criticada como pressão externa, é na realidade o reflexo de um consenso mais amplo segundo o qual a estabilidade não pode ser construída sobre a ambiguidade e a soberania não pode ser aplicada de forma selectiva. O Líbano encontra-se hoje numa encruzilhada que já abordou por diversas vezes sem nunca a ter plenamente enfrentado. A escolha não é entre guerra e paz no sentido convencional, mas entre continuar a existir como uma arena fragmentada para potências rivais ou reconstituir-se como um Estado capaz de tomar as suas próprias decisões e de as fazer cumprir. Enquanto o monopólio da violência permanecer contestado, cada cessar-fogo será temporário, cada esforço de reconstrução provisório e cada afirmação de soberania incompleta. O caminho a seguir não é nem fácil nem imediato, mas começa por um reconhecimento simples, frequentemente evitado: um país que não controla as suas armas não controla o seu futuro.

Quando o roubo se torna um “buraco financeiro”
Por
Mona Fayad
Publicado
abr 30, 2026 - 20:43

O Líbano não afundou por causa de um mau funcionamento nos números, mas porque os significados e os valores entraram em colapso. De repente, o dinheiro das pessoas, que foi espoliado, deixou de ser chamado de roubo e passou a ser descrito como “buraco financeiro”. Já não há responsáveis, apenas “perdas”. E já não há vítimas, mas “depositantes”, a quem se pede que compreendam a situação e participem da absorção dos custos. Não se trata apenas de uma questão de linguagem. Esse é o próprio cerne da disputa. Quando um crime é reduzido a um termo contábil, o debate se torna técnico em vez de ético e jurídico. A questão é retirada do campo da justiça e deslocada para o da gestão, do “quem roubou?” para o “como distribuir a perda?”. É aí que começa o grande deslizamento: as vítimas se transformam progressivamente em agentes da solução, e não em detentoras de direitos. O que aconteceu no Líbano não foi uma tempestade financeira passageira. Foi o resultado de um complô arquitetado por um sistema integral: um Estado que se endividou sem limites, um banco central que orquestrou ilusões e bancos que acumularam lucros faraônicos antes de fechar suas portas na cara de seus depositantes. Ainda assim, as soluções propostas hoje começam pelos bolsos dos cidadãos e não pelos focos do disfuncionamento. Planos são apresentados sob títulos “realistas” ou “salvadores”, quando, na essência, não passam de uma redistribuição das perdas e não de um tratamento de suas causas. Pede-se aos depositantes que aceitem o apagamento de parte de seus ativos ou sua conversão em ações de entidades cujo valor permanece indefinido. Mesmo as propostas que parecem menos severas, como a ideia de um fundo soberano no qual seriam alocados os ativos do Estado, não estão isentas de risco, não por causa do conceito em si, mas por causa de quem o administraria. Por isso, essa ideia permanece ambígua e perigosa enquanto não vier acompanhada de uma condição elementar: quem garante a transparência e quem presta contas? A contradição fundamental está no fato de que quem exige transparência e reforma judicial propõe, ao mesmo tempo, confiar os ativos do Estado a um sistema que até agora não demonstrou qualquer capacidade de transparência nem de responsabilização. Na minha opinião, o problema não reside apenas nas soluções, mas na ordem das prioridades: começamos pela responsabilização ou a ignoramos? Como se pode falar em “governança” e “gestão esclarecida” dos ativos do Estado em um país que ainda não conseguiu realizar uma única auditoria séria nem responsabilizar alguém pelo colapso? Como acreditar que o que não pôde ser preservado nos bancos o será em um fundo? Não seria isso transferir a perda dos balanços bancários para o próprio corpo do Estado, isto é, para toda a sociedade? Mais grave ainda é ignorar um princípio fundamental: nenhuma solução duradoura pode ser construída sobre a ignorância das responsabilidades. A partir daí, o debate deixa de ser apenas econômico e passa também a ser jurídico. O Líbano não está fora do mundo; ele está comprometido com convenções internacionais de combate à corrupção, especialmente a CNUCC, que coloca, sem ambiguidade, a questão da recuperação de ativos desviados e da responsabilização no centro de qualquer processo de reforma. Se houve corrupção, não basta administrar suas consequências; é preciso revelá-la, responsabilizar seus autores e recuperar os recursos desviados. Os Estados são obrigados a envidar esforços para recuperar ativos roubados ou transferidos por meios ilícitos, sem que seja possível ignorar a determinação das responsabilidades: quem tomou as decisões? Quem se beneficiou? Quem acobertou tudo? O que se exige é transparência: qualquer reforma deve passar por uma auditoria efetiva, uma justiça independente e clareza nos números. Não sou especialista em finanças, mas sei que há uma diferença entre tratar as perdas e tratar suas causas. Em outras palavras: antes de pedir às pessoas que suportem as perdas, é necessário um esforço sério para recuperar o que foi transferido ou apropriado por meios ilegais. E antes de qualquer reestruturação do sistema bancário, é preciso identificar aqueles que abusaram dele. Mas o mais grave talvez não esteja no conteúdo dessas propostas, e sim no seu timing. Em um momento de guerra, de angústia existencial e de negociações cruciais abertas a longas incertezas, a questão dos depósitos é reaberta. Não porque o momento seja oportuno, mas porque pode ser conveniente para aqueles que desejam fazer passar o que não resistiria a um debate mais amplo. Em momentos de atenção dispersa, a capacidade de resistência enfraquece, as discussões se encurtam e o que antes era inadmissível torna-se aceitável sob o pretexto da “necessidade”. Questões existenciais exigem uma consciência coletiva, e não um esgotamento coletivo. Exigem um debate aberto e não a pressão do tempo e do medo. Porque soluções impostas em momentos de fraqueza raramente são justas. Isso não significa que essa questão possa ser adiada indefinidamente. Mas há uma grande diferença entre submeter um tema fundamental a um debate nacional aberto e introduzi-lo no tumulto do medo e do cansaço, onde os cidadãos se tornam receptores passivos. Grandes questões não exigem apenas soluções, mas condições justas para serem colocadas. Elas exigem uma consciência coletiva e não um esgotamento coletivo. Caso contrário, qualquer solução, por mais técnica e equilibrada que pareça, carregará em si a distorção do momento em que surgiu. O problema não está na busca por soluções, mas na sua natureza e na ordem das prioridades. Quando um plano começa apagando direitos em vez de consolidá-los e protegendo o sistema em vez de questioná-lo, ele não resolve a crise: ele a reproduz sob outra forma. O que se exige hoje não é um milagre financeiro, mas um mínimo de justiça. Que as coisas sejam chamadas pelo seu nome. Que as responsabilidades sejam determinadas. Que seja feita uma tentativa séria de recuperar os recursos. Caso contrário, estaremos diante de um espetáculo familiar: Uma nova linguagem, novos termos, uma nova fórmula, mas o mesmo resultado. Não um “buraco financeiro”, mas uma história clara: recursos espoliados e um sistema que tenta convencer seus proprietários a aceitar a perda como destino.