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Opinião

Na Síria, toda justiça seletiva é uma justiça emasculada!

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Por Youssef Mouawad
Publicado mai 16, 2026 - 12:23

A marcha rumo ao suplício havia sido filmada: não é todo dia que se massacram 288 civis, entre eles 12 crianças! A cena ocorreu em 2013, no bairro de Tadamon, na periferia sul de Damasco, e “dentro das regras”. Mais de 24 vídeos registraram espetáculos de horror arrepiantes, entre eles o seguinte: milicianos pró-governo conduzem civis vendados e com as mãos amarradas para trás até a borda de uma vala; ali os empurram antes de abrir fogo indiscriminadamente para executá-los. Os corpos, segundo relatos, são então queimados e enterrados com a ajuda de um trator para não deixar vestígios. Como cúmulo da abominação, essas “façanhas” da dinastia Assad foram filmadas em detalhes pelos próprios carrascos. Porém, por uma sucessão de circunstâncias, esse vídeo incriminador passou a circular nas redes sociais a partir de 2022 e tornou-se emblemático da ferocidade do regime. Uma prova contundente que mostra o chamado Amjad Youssef, protagonista principal desse filme de horror, distribuindo a morte com total tranquilidade!

Justiça seletiva não é justiça para todos!

Esse subalterno sírio, um simples executor sem patente, havia sido capturado no fim de abril passado pelas autoridades sírias, e é fácil imaginar a euforia que tomou os familiares das vítimas e a população em geral ao anúncio de sua prisão. Mas eis que, ao reaparecer diante das câmeras, durante um programa transmitido pelo Ministério do Interior sírio, ele fez confissões no mínimo surpreendentes: assumiu toda a responsabilidade e afirmou ter agido sozinho, quando todos esperavam que incriminasse seus superiores hierárquicos para tentar salvar a própria pele.

Ficou então claro, aos olhos de todos, que se tratava de uma confissão forçada destinada a proteger e absolver certos caciques do regime deposto que teriam mudado de lado. E a opinião pública passou a se perguntar se o governo atual não teria firmado acordos inconfessáveis com esses renegados, cujos nomes já circulam discretamente. Deixou-se entender que isso teria ocorrido provavelmente por razões de segurança e para garantir estabilidade e apaziguamento em certas regiões do país. Mas isso não é tudo. Línguas maldosas chegaram a insinuar que propinas teriam sido pagas a responsáveis do aparelho de segurança (1). O que levou um pesquisador do “Centro de Estudos sobre Conflitos” da Universidade de Utrecht a declarar: “Passamos de uma justiça transicional para uma justiça seletiva e de fachada” (2). De fato, concentrar a justiça em certos culpados, em vez de outros, não contribui para assegurar sua transparência.

Por iniciativa própria?

No início deste mês de maio, outro personagem sinistro — desta vez um general — foi preso: Khardal Dayoub esteve envolvido, em agosto de 2013, no ataque com armas químicas contra Ghouta Oriental. O saldo da operação: cerca de 1.500 vítimas, entre elas mais de 400 crianças. Quem não se lembra da visão daqueles cadáveres com espuma saindo pela boca?

Agora, mais do que nunca, uma prestação de contas se impõe: o povo sírio tem direito à verdade. E que não venham nos dizer, na televisão nacional, que esse general, mal orientado, agiu por conta própria!

1- Michael Safi & Melvyn Ingleby, “Syria arrests suspected leader of Tadamon massacre”, The Guardian, 24 de abril de 2026.
2- Melvyn Ingleby & William Christou, “Security or justice? Syria faces post-Assad reckoning after string of arrests”, The Guardian, 4 de maio de 2026.

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