

O caso dos libaneses exilados em Israel está entre os mais complexos e sensíveis de toda a problemática libanesa, justamente porque se encontra na interseção de três dimensões profundamente entrelaçadas: as consequências das ocupações síria e israelense, os legados da guerra civil e a profunda fratura que atravessa as próprias concepções de Estado, soberania e justiça.
O Estado esteve ausente do sul do Líbano durante décadas, deixando as populações à mercê das tensões entre a ocupação e as armas das milícias. Quando retornou após a libertação, o fez com uma lógica estritamente securitária e judicial, distante de qualquer verdadeiro espírito de reconciliação nacional. É por isso que este caso permaneceu como uma ferida aberta: o Líbano jamais viveu uma verdadeira experiência de justiça de transição à altura do pós-guerra e das múltiplas ocupações que devastaram o país.
No plano humano, seria impensável negar a tragédia vivida por milhares de pessoas e suas famílias, tragédia que se manifesta em:
· O desenraizamento forçado de seu meio natural.
· A dolorosa separação de seus familiares e de suas aldeias.
· Uma crise de identidade e pertencimento que os condenou a viver suspensos entre dois países.
Quanto às crianças nascidas ou criadas lá, elas enfrentam uma crise ainda mais profunda: nunca se integraram plenamente à sociedade que as acolheu, enquanto alguns, em seu próprio país, o Líbano, as observam com desconfiança e hostilidade. É nesse ponto que surge a questão moral fundamental: é legítimo estender a responsabilidade jurídica e política às esposas, aos filhos e aos netos? Famílias inteiras pagam hoje o preço de escolhas impostas por circunstâncias esmagadoras a alguns de seus membros, enquanto a grande maioria jamais pegou em armas nem participou de qualquer atividade de segurança.
Para esclarecer melhor o quadro, é importante estabelecer algumas verdades incontestáveis.
A autenticidade da identidade: essas pessoas são libanesas de origem, não estrangeiras nem recém-chegadas a esta terra.
A escolha pela sobrevivência: elas não partiram para Israel por vontade própria, mas sob a imposição de um exílio forçado. Diante de duas opções igualmente amargas, enfrentar ameaças de eliminação física feitas por seus adversários da época, com o Sayyed Hassan Nasrallah declarando: “Nós vamos degolá-los em suas camas”, ou viver uma dura errância longe da pátria e dos entes queridos, escolheram permanecer vivas.
A ausência do Estado: elas não conspiraram contra o Estado; foi o Estado que as abandonou, entregando-as às ocupações e às tutelas estrangeiras.
O histórico pacífico: elas não estiveram envolvidas em assassinatos de primeiros-ministros, na eliminação de deputados soberanistas, nem explodiram mesquitas ou infraestruturas públicas.
Entre justiça e vingança
A diferença essencial reside na distinção entre uma justiça baseada na responsabilidade individual e uma vingança coletiva acompanhada de ostracismo permanente. A justiça pressupõe que as responsabilidades sejam estabelecidas com precisão, caso por caso, que os julgamentos ocorram em condições justas e que seja rejeitado o princípio segundo o qual a culpa seria transmitida de geração em geração.
Conclusão política e humanitária
Este caso não será resolvido com slogans acusatórios; ele exige a abordagem de um “Estado verdadeiro”, baseada no reconhecimento das especificidades do período de ocupação e das circunstâncias opressivas que o acompanharam, na distinção clara entre aqueles que cometeram crimes comprovados e aqueles que foram vítimas dos acontecimentos, no respeito a um Judiciário libanês independente e à primazia do Estado de Direito e, por fim, no tratamento da dimensão humana das famílias e das crianças, longe de qualquer lógica de represália e ódio.
O caso dos expulsos para Israel não pode, e não deve, ser confundido com qualquer outro caso, porque o verdadeiro adversário nesta questão é o próprio Estado libanês, e não qualquer outra parte. É por isso que a responsabilidade nacional e moral recai antes de tudo sobre o Presidente da República, em sua condição de chefe de Estado e principal garantidor da segurança e da integridade do país, bem como do destino de todos os seus cidadãos sem exceção. Aquele que um dia escolheu enfrentar Israel em nome da dignidade e da soberania não pode se mostrar hoje incapaz de encontrar um caminho que permita trazer de volta seus filhos dos exílios forçados e reintegrá-los à sua pátria sob a proteção da lei, da justiça e da reconciliação nacional.
Em última instância, o desafio fundamental que se coloca diante do Líbano continua sendo o mesmo: realizar a transição da memória da guerra e da divisão para o espaço de um Estado capaz de conciliar justiça e reconciliação, sem jamais sacrificar nem a soberania nem a dignidade humana de seus cidadãos.