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Opinião

Curare e o Estado
Por
Jawad Pakradouni
Publicado
abr 29, 2026 - 10:26

A questão filosófica sobre o que veio primeiro, o ovo ou a galinha, parece quase simples diante do problema que o país enfrenta hoje: um acordo (de paz) cuja assinatura está condicionada ao desarmamento do Hezbollah. Essa condição, estabelecida por nosso governo, imposta por Israel e desejada por uma maioria crescente da população libanesa, não pode, no entanto, ser cumprida dentro de um prazo determinado. Além disso, seja por meio do exército libanês ou por ataques contra posições do Hezbollah, o arsenal da milícia continua operacional. O problema não é apenas a presença de armas, mas também a infiltração da milícia em certos segmentos do aparelho estatal. A milícia paralisa qualquer medida tomada contra ela e, pior ainda, provoca agitação interna, ao mesmo tempo em que levanta o espectro de motim a bordo de uma embarcação à deriva que já começou a afundar. Seja um ex-promotor sabotando uma investigação, um juiz aplicando apenas uma multa simbólica por graves irregularidades, oficiais de alta patente infiltrados no exército atuando como informantes, ou um general de um serviço de segurança mobilizando grupos contra civis, os exemplos são numerosos e demonstram que o Hezbollah se espalhou por vários níveis do sistema. Quando o curare é injetado em um corpo, todos os membros e músculos relaxam, inclusive o sistema respiratório, levando à asfixia. Ou se administra um antídoto ao paciente, ou o veneno é extraído por meio de uma depuração. Depuração. Um termo de forte conotação negativa, que remete à era soviética. Ainda assim, diante de problemas graves, talvez apenas medidas igualmente decisivas sejam suficientes. Apenas uma depuração do Estado, mesmo que limitada a certos cargos-chave, representaria um primeiro esboço de solução viável, interna e não imposta de fora, ao contrário do recurso ao Capítulo VII da Carta das Nações Unidas. O afastamento de altos funcionários, tanto militares quanto civis, e até processos contra aqueles que obstruíram o curso da Justiça ou usaram instituições públicas para inflamar tensões internas, alimentando assim a ameaça de guerra civil, parece necessário. Isso provavelmente constituiria o primeiro passo, se não o único, capaz de restaurar a credibilidade do Estado diante das instituições internacionais. Essa credibilidade, por sua vez, serviria de alavanca para obter apoio destinado a fortalecer a soberania da autoridade pública legítima sobre todo o território. Os aliados e dependentes do Hezbollah argumentarão que o diálogo deve ser priorizado como única solução para o problema. No entanto, no passado, os “diálogos nacionais” se sucederam uns aos outros, servindo apenas para consolidar ainda mais o controle do Hezbollah sobre o Estado. “Você pode ir muito mais longe com uma palavra gentil e uma arma do que apenas com uma palavra gentil.” O autor dessa frase sabia do que falava e fez dela seu credo. Era Al Capone. Aposentadorias antecipadas, suspensões imediatas, demissões, qualquer que seja o termo usado, o que se exige é uma verdadeira reformulação do aparelho estatal, em qualquer nível ou patente. Pois somente quando o veneno é extraído do corpo, seus órgãos e membros podem começar a se mover novamente. A tarefa certamente não é fácil. Se o presidente Aoun e o primeiro-ministro Salam realmente desejam impedir que o navio libanês vire e trazê-lo de volta ao porto, sem recorrer a corsários ou ajuda externa, essa provavelmente será a única opção. É certo que atores políticos poderosos colocarão minas em seu caminho para bloquear qualquer possibilidade de desarmamento e, claro, qualquer acordo com Israel. Mas chega um momento em que a escolha entre preservar uma nação e proteger interesses privados deixa de ser uma escolha real. Uma espécie de estábulos de Áugias em versão política moderna, muito mais árdua do que o trabalho de Hércules, mas necessária para que a fênix libanesa reúna suas cinzas e renasça.

O Líbano e a triplo influência
Por
Jad Akhawi
Publicado
abr 27, 2026 - 20:34

Os libaneses repetem com frequência uma fórmula que se tornou quase axiomática na descrição da sua crise: o Líbano estaria preso entre uma tríade «extremista» a nível doutrinário e religioso, corporizada por Israel, pelo Irão e pelos Estados Unidos da América. Esta expressão condensa um profundo sentimento de cerco e pressão, e traduz uma consciência popular segundo a qual o destino do país já não se forja apenas no seu interior. A força desta narrativa reside, porém, na sua simplicidade, ao passo que a sua fraqueza está no risco de ocultar a complexidade do real e a multiplicidade dos seus planos. Na prática, estas três potências não podem ser colocadas na mesma categoria sob o rótulo do «extremismo religioso» sem incorrer numa simplificação. É certo que a religião desempenha um papel variável nas políticas destes actores, mas não constitui o único factor, nem sequer o principal em certos casos. O mais adequado é compreender cada parte dentro da sua própria estrutura e ler depois de que forma essas estruturas se cruzam no palco libanês. No caso de Israel, a dimensão religiosa manifesta-se claramente na ascensão das correntes nacionalistas religiosas que imprimem ao conflito um carácter doutrinal, sobretudo no que respeita à terra e à identidade. Porém, apesar desta presença, o establishment israelita mantém-se na sua essência regido por uma doutrina de segurança rigorosa. O Líbano, nesta visão, não é um terreno religioso, mas uma fonte de ameaça potencial, especialmente dada a existência do Hezbollah enquanto força militar fora da alçada do Estado. O comportamento de Israel em relação ao Líbano entende-se assim mais pelo ângulo da dissuasão e da gestão do risco do que pelo de um projecto estritamente religioso. O Irão, por sua vez, oferece um modelo diferente, no qual o religioso e o político se entrelaçam de forma estrutural. O regime assenta na referência da wilayat al-faqih , o que torna a ideologia religiosa uma componente inseparável do processo de tomada de decisão. Neste contexto, o apoio ao Hezbollah torna-se o prolongamento de uma visão mais ampla que considera o conflito na região não como uma simples rivalidade entre Estados, mas como uma confrontação com dimensões doutrinais e políticas. Reduzir o papel iraniano a este único enquadramento, todavia, seria ignorar uma dimensão essencial: Teerão actua também segundo uma lógica de interesses, servindo-se desta ideologia como instrumento para consolidar a sua influência regional. Os Estados Unidos, pelo contrário, parecem relativamente afastados desta classificação religiosa. Trata-se de um Estado fundado num sistema laico que não recorre à religião como referência oficial da sua política externa. Isso não significa que a influência religiosa esteja totalmente ausente; certas correntes, como a dos conservadores evangélicos, desempenham um papel na orientação de determinadas posições, sobretudo no que diz respeito a Israel. O determinante fundamental da política americana continua, porém, a ser o pragmatismo: proteger interesses, garantir a estabilidade dos aliados e equilibrar a influência dos adversários, com o Irão à cabeça. Torna-se assim evidente que o «extremismo religioso» não é um denominador comum equivalente entre estas potências, mas sim um elemento presente em graus variáveis, por vezes instrumentalizado como ferramenta de mobilização ou de justificação. A formulação mais exacta seria dizer que o Líbano se encontra no cruzamento de três grandes projectos: um projecto de segurança liderado por Israel, um projecto ideológico liderado pelo Irão e um projecto de influência mundial liderado pelos Estados Unidos. Estes projectos não funcionam de forma isolada, mas cruzam-se e colidem, deixando o palco libanês exposto a tensões permanentes. Concentrar-se nestes projectos externos, por mais importante que seja, ficaria incompleto sem se deter no factor interno. O Líbano não se transformou num palco aberto apenas por força da potência dos actores externos, mas também pela fraqueza do interior. O Estado libanês sofre há décadas de uma crise estrutural que se manifesta na ausência do monopólio sobre as armas, na fragmentação da decisão política e na persistência de um sistema confessional que aprofunda as divisões em vez de as tratar. As comunidades confessionais tornaram-se, em muitos casos, canais de ligação com o exterior, a ponto de cada eixo regional dispor hoje dos seus prolongamentos dentro do Líbano. Esta realidade não foi inteiramente imposta do exterior: forças internas contribuíram para ela, vendo na aliança com essas potências um meio de reforçar a sua posição no interior. Foi assim que o local e o regional se entrelaçaram e que o Estado perdeu a sua capacidade de arbitrar entre as suas próprias componentes. Neste quadro, a fórmula «o Líbano está preso entre uma tríade extremista» passa a ser a expressão de uma consequência mais do que a explicação de uma causa. Descreve um estado de cerco, mas não explica por que razão o Líbano se tornou susceptível a esse cerco em primeiro lugar. A razão mais profunda reside na ausência de um projecto nacional aglutinador, capaz de redefinir a relação entre o Estado e os seus cidadãos, e entre o Líbano e o seu ambiente. A saída desta realidade não passa apenas por uma mudança no comportamento das potências externas (o que escapa à capacidade do Líbano), mas começa pela reconstrução do interior. Isso exige passos fundamentais: restabelecer o conceito de soberania circunscrevendo as armas às mãos do Estado, de modo a reunificar a decisão em matéria de segurança; reformar o sistema político no sentido da redução do confessionalismo e do reforço da cidadania, diminuindo assim a permeabilidade às polarizações externas; construir instituições sólidas e transparentes que restaurem a confiança dos cidadãos e limitem a dependência das redes de lealdades tradicionais; adoptar uma política externa equilibrada que procure reduzir o envolvimento nos conflitos de eixos em vez de se alinhar totalmente com qualquer um deles. Em última análise, o Líbano não pode isolar-se do seu ambiente regional e internacional, mas pode limitar o peso desse ambiente sobre si. A diferença entre «palco» e «Estado» não reside na posição geográfica, mas na capacidade de gerir essa posição. E quando o Líbano possuir essa capacidade, as narrativas simplificadoras, incluindo a narrativa da «tríade extremista», perderão grande parte da sua força, porque deixarão de reflectir uma realidade imposta, para passarem a representar uma etapa ultrapassada.

Irã e Líbano: dois teatros, uma mesma guerra?
Por
Jean-Patrick Dayras
Publicado
abr 27, 2026 - 11:21

As diferentes declarações e mudanças de posição do presidente Donald Trump vão modificar as relações com os europeus, a OTAN e os aliados dos Estados Unidos. Também provocarão reações por parte dos países do Pacífico e do Oriente Médio. Os ocidentais apostam na moderação e querem assumir um papel na segurança do estreito de Ormuz após o cessar das hostilidades. Os Estados Unidos ficarão fora do jogo na região? Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar contra o Irã sem informar previamente os chefes de Estado e de governo dos países ocidentais e membros da OTAN. Em seguida, porém, o presidente americano Donald Trump solicitou seu apoio, especialmente para a segurança do estreito de Ormuz, mas também para fornecer apoio direto às operações americanas. Em sua grande maioria, os chefes de Estado e de governo rejeitaram esse pedido. A reação do presidente Trump foi clara, embora por vezes incoerente. Denunciando um “erro grosseiro” e uma “covardia”, afirmou não precisar deles e que agiria sozinho por ser “o mais forte do mundo”. Chegou inclusive a mencionar um possível afastamento da OTAN, brandindo assim a ameaça de se libertar de seus deveres como membro, como previsto no artigo 5 do tratado da organização. Também mencionou a possibilidade de retirar parcialmente as tropas americanas estacionadas na Europa. Para ele, privada dos Estados Unidos, a Europa seria um “tigre de papel”. Para deixar claro o sentido de suas declarações, disse reprovar os aliados por não apoiarem os Estados Unidos em caso de crise e por se beneficiarem de uma aliança de mão única. Em consequência, por que razão garantiria automaticamente sua defesa? Todas essas críticas não o impediram, mais tarde, de solicitar a participação dos europeus no bloqueio naval que impôs aos portos iranianos. Depois de expressarem sua recusa, alguns países proibiram sucessivamente seu espaço aéreo às aeronaves americanas que participavam das operações militares contra o Irã. Uma ação defensiva e não agressiva Em suas declarações, o presidente Trump carece, portanto, de coerência. A uma necessidade de apoio, ou mesmo de participação ativa, sucedem-se um desinteresse desprezível e a afirmação de que os Estados Unidos estão em condições de vencer essa guerra sozinhos. A própria noção de guerra se torna objeto de debate. Segundo Donald Trump, os membros da OTAN deveriam respeitar suas obrigações conforme o tratado fundador. O problema é que ele próprio desencadeou essa guerra, incentivado por Israel, que assim se torna cobeligerante. Portanto, ele é o agressor. Ora, a organização transatlântica é “defensiva”. Nesse caso específico, o artigo 5 não se aplica. O texto em questão estabelece que um ataque armado contra um ou mais membros na Europa ou na América do Norte é considerado uma agressão contra todos, o que justifica uma intervenção militar ou uma ação defensiva coletiva. E, quando a OTAN interveio no passado, foi apenas com base em mandato da ONU. Na realidade, o presidente dos Estados Unidos esperava de seus aliados um apoio ativo, sem contudo enquadrá-lo formalmente no marco da Aliança Atlântica. Essa situação, porém, teve como efeito levantar dúvidas sobre a confiabilidade das garantias americanas declaradas e oficializadas onde os Estados Unidos exercem o papel de protetor. Os países da OTAN e os europeus não são os únicos a expressar essas dúvidas. Outros países do Pacífico, em primeiro lugar Japão, Austrália e Coreia do Sul, agora só podem duvidar do apoio americano garantido em caso de intervenção chinesa. A esses países somam-se Taiwan, Indonésia, Filipinas e os Estados ribeirinhos do Golfo Arábico-Pérsico, especialmente Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e o Sultanato de Omã. Quando um chefe de Estado, primus inter pares dentro da OTAN, desencadeia um conflito que pode levar a uma guerra mundial, ele não pode pedir aos membros da organização que o apoiem e participem ativamente, de olhos fechados, das operações militares. De tudo isso resulta que os membros da Aliança, apesar da ausência de unanimidade e de alguns desacordos, convergem em torno de uma mesma posição à qual aderem vários países do Pacífico. O projeto de garantir a segurança do estreito de Ormuz após o cessar das hostilidades reúne assim muitos deles. Em todo o mundo, inclusive no Oriente Próximo e no Oriente Médio, portanto também no Líbano, a contenção da Rússia e da China é apreciada. Seria, contudo, ingênuo acreditar que elas não atuam nos bastidores de acordo com seus próprios interesses. Mas sua posição, semelhante à dos europeus e dos aliados dos Estados Unidos, marcada pela não participação nas operações militares, afasta o risco de uma escalada para um confronto de dimensão mundial. A linha geral adotada pelos governos europeus, pelos países da OTAN e pelos principais países envolvidos do Pacífico merece aprovação, sem esquecer, no entanto, seu compromisso de princípio a favor da segurança do estreito de Ormuz. Esta, contudo, deveria ser estendida ao mar de Omã, ao Golfo Arábico-Pérsico e depois ao mar Vermelho. Se assim ocorrer, haverá motivo para elogiar sua prudência. Resta uma pergunta: é ilusório, ou até utópico, pensar que essa atitude comum poderia ser levada em consideração pelos iranianos em eventuais negociações de paz? Poder-se-ia ser tentado a ver, no Líbano, o prolongamento de um mesmo conflito: os protagonistas parecem, à primeira vista, idênticos. De um lado, o Hezbollah controlado pelo Irã; Israel como senhor do jogo; e, ao fundo, os Estados Unidos que, por enquanto, se posicionam como moderadores. Do outro, o Irã, ator central, digam o que disserem; os Estados Unidos, outros senhores do jogo; e Israel, que, de instigador inicial, depois contido, tornou-se seguidor. As perspectivas divergem, contudo, sensivelmente quanto à evolução desses dois teatros. Um permanece em um quadro estritamente regional, enquanto o outro assume dimensão mundial. Um exclui a Europa e sobretudo a França. O outro marginaliza por enquanto a Europa e a coalizão prevista de cerca de quarenta países, entre eles vários do Pacífico. O problema iraniano parece insolúvel enquanto as exigências, justificadas, dos Estados Unidos forem contrárias às defendidas firmemente pelos Guardiões da Revolução, hoje senhores do país. Além dessas exigências, por ora inconciliáveis, o comportamento de Donald Trump em matéria de análise, diplomacia e condução de negociações dessa natureza parece muito distante do que esse tipo de situação exigiria. Por enquanto, parece limitar-se ao recurso à violência. Se mantiver essa postura, não se pode excluir uma intervenção russa e chinesa. O desfecho dependerá amplamente das escolhas que ele fizer: no nível da evolução da crise, da condução dos assuntos internacionais ou ainda da resolução de disputas entre países. É bastante possível que Donald Trump vença. Mas ao preço de quais renúncias? Quem e o que sacrificará antes de novembro? No longo prazo, o Irã poderia aparecer como o verdadeiro vencedor. Na escala dos riscos, o provável pesa mais que o possível. Uma profunda revisão da confiança na proteção americana por parte dos países do Golfo poderia traduzir-se na substituição das bases americanas? Mas por qual protetor? China e Rússia tirariam proveito disso. Se a França decidir apoiar o Líbano com a firmeza demonstrada por seu presidente, deverá fazê-lo com convicção e determinação. Meias medidas já não têm lugar em tal contexto. Trata-se, portanto, de duas guerras diferentes cujas resoluções devem ser coordenadas. Uma poderia ser tratada isoladamente, a outra não. O presidente Trump levará isso em conta na rodada final das negociações com os Guardiões da Revolução? “O que mais mudou ali não foi a China, não foi a Rússia, foi a Europa: ela deixou de contar ali” (A. Malraux). Em vez de ter olhos de Chimène para a Ucrânia e abordar o Oriente Médio apenas sob o ângulo do preço do petróleo, os europeus, especialmente a França, deveriam ambicionar promover uma “paz firme” no Líbano.

Entre as negociações e o terreno: há espaço para conciliação?
Por
Rami Rayess
Publicado
abr 25, 2026 - 23:50

O Líbano e os Libaneses não podem enfrentar os desafios que se apresentam diante do país com este grau de divisão quanto às grandes opções estratégicas, nomeadamente a questão de como abordar a ocupação israelita e resolver o problema do monopólio das armas por parte do Estado, exigência legítima, evidente e consagrada em todos os países do mundo, pois não existe nenhum Estado que aceite a presença de uma facção armada fora do seu controlo, capaz de desencadear uma grande guerra não apenas sem o seu consentimento, mas sem sequer o ter consultado. As linhas de fractura vertical no Líbano continuam a alargar-se, e a cisão entre os Libaneses aprofunda-se cada vez mais, ao ponto de a literatura política libanesa se ver encerrada entre dois pólos: o que corre em direcção a uma paz cujas condições não amadureceram ainda, e o que se retrai para o terreno sem ler as transformações excepcionais que a região conheceu ao longo dos últimos três anos, desde a supremacia israelita sem contestação até à queda do regime de Bachar al-Assad na Síria, passando pela guerra americano-israelita-iraniana. Quanto ao argumento de que quem negocia não é quem resiste no terreno, trata-se de um argumento fundado que entrava as negociações actualmente em curso em Washington, ainda que estas se encontrem nos seus primórdios, tanto mais que Israel, em todas as experiências de negociação anteriores com outras partes, nunca foi daqueles que concedem concessão alguma, e muito menos concessões gratuitas. Perante esta perigosa fractura política entre os Libaneses, é necessário evocar certas realidades que nenhum dos campos nem nenhuma das partes em confronto pode ignorar ou de que pode desviar os olhos. Em primeiro lugar, figura o reconhecimento de que existem agressões israelitas históricas no Líbano, e de que as guerras sucessivas que Israel desencadeou contra os Libaneses não tinham por único propósito a consecução dos objectivos declarados, fosse outrora a expulsão dos Palestinianos fosse hoje o aniquilamento do Hezbollah. Existe uma vingança israelita manifesta contra o Líbano: contra os seus civis (e as imagens da quarta-feira negra de 8 de Abril de 2026 permanecem vivas na memória), contra as suas aldeias e cidades, contra as suas infra-estruturas, contra os seus hospitais, e sobretudo contra a sua experiência pluralista, que contradiz a uniformidade israelita e reflecte a riqueza de uma sociedade libanesa que, apesar de todas as suas dificuldades, se orgulha da sua diversidade, ao contrário da sociedade israelita, que proclama a superioridade de uma única das suas componentes e trata as demais com extrema arrogância e desprezo. Entre as outras realidades que importa reconhecer figura o regresso da ocupação às terras do Sul e a invenção do que foi chamado de "linha amarela", por referência à Faixa de Gaza e às outras cores que Israel utiliza para retalhar a Cisjordânia e nela implantar colónias. Cinquenta e cinco aldeias encontram-se agora, na prática, sob ocupação, o que constitui um recuo grave se medido face à grande conquista nacional do ano 2000, a saber, a retirada completa sem condições, sem tratado de paz nem sequer um acordo de disposições de segurança. O problema não reside, porém, apenas no reconhecimento destas realidades, mas também na procura séria dos meios de as enfrentar, seja pela resistência armada ou pela negociação política. O dilema consiste igualmente no facto de não ser admissível que a negociação política não retire qualquer proveito do trunfo do terreno, assim como seria ilógico que o terreno permanecesse totalmente desligado da negociação política. No domínio das negociações, é útil prosseguir o esforço de separar a via libanesa de qualquer outra via. O Líbano já sofreu o suficiente com a vinculação das suas trajectórias e do seu destino aos de outros países, e a experiência do "geminamento" das vias libanesa e síria na época da tutela permanece na memória, tendo amplamente demonstrado que nunca serviu os interesses do Líbano, nem de perto nem de longe. Dito isto, o negociador libanês pode tirar partido do trunfo do terreno de uma forma ou de outra, em vez de ir a Washington de mãos vazias e com uma abordagem que encerre algo de súplica e de busca de compaixão. Se a conjuntura política actual se caracteriza por uma atenção americana dirigida ao Líbano, manifestada em pressões sobre o governo israelita para um cessar-fogo, importa ter presente que a rede de interesses americano-israelitas é bem mais profunda e enraizada do que os modestos cálculos libaneses. O Líbano não conseguirá competir com Israel no amor de Washington, e a questão é muito mais complexa do que isso. Mas tirar partido do "trunfo do terreno" exige igualmente um reconhecimento da parte do Hezbollah, e dos que se encontram por detrás dele, de que a era da desvinculação completa do Estado libanês já não é aceitável a nível libanês, árabe nem internacional, e de que uma das suas manifestações mais nefastas foi o arrastamento do Líbano para guerras intermináveis e infrutíferas, e de que existe uma necessidade séria de trabalhar, segundo uma fórmula a definir, sob a égide do Estado. E acima de tudo, este passo não apenas reforçaria a posição negocial do Líbano, mas contribuiria igualmente para colmatar a brecha interna, aliviar a tensão e afastar o risco de uma explosão de segurança ou social cujos elementos se vão acumulando lenta mas inexoravelmente. Se as fórmulas rudimentares de diálogo através das mesas de diálogo nacional deixaram de produzir frutos, importa inventar novas fórmulas que tenham em conta as mutações, reforcem a imunidade do Líbano e cortem o caminho à guerra civil num momento em que Israel espreita a ocasião de atiçar as comunidades umas contra as outras, um jogo que praticou inúmeras vezes no passado. Neste quadro, impõe-se igualmente que o "campo da paz" freie um pouco o seu ímpeto, seja na precipitação para a normalização "mediática", seja no levantamento de questões inteiramente prematuras que não passam de presentes gratuitos a Israel, entre as quais a proposta apressada de revogar a lei de boicote a Israel adoptada em 1955, que criminaliza qualquer relação com o mesmo. O Líbano encontra-se ainda em estado de beligerância até ao momento presente, e Israel demonstra-o diariamente, pelos mais de dois mil mártires que caíram na última guerra. Tal como se espera que o "campo da resistência" renuncie a ameaçar com a fitna, a guerra interna e a subjugação de todos os Libaneses com o objectivo de os "disciplinar", agitando o espectro de um novo 7 de Maio, que permanece uma mancha injustificável para quem cometeu esse acto em 2008. Espera-se igualmente dele que se abstenha de colar os rótulos de colaboracionismo, traição e sionismo a todos os que divergem da sua opinião. O Líbano encontra-se talvez perante uma oportunidade histórica, e isso é verdade. Mas a questão exige discernimento e lucidez na forma como é gerida, antes da precipitação e da imprudência, para que a oportunidade não se transforme em maldição que reacenda o rastilho da guerra civil. Sem diálogo, de uma forma ou de outra, as tensões agravar-se-ão, e a missão de libertar os territórios ocupados e pôr termo definitivo à guerra tornar-se-á cada vez mais árdua.

O Hezb, um braço armado de um corpo decapitado
Por
Jean Feghali
Publicado
abr 25, 2026 - 22:36

Qualquer pessoa que examine o logotipo do Hezbollah e a imagem que ele representa constatará que, desde a sua criação, este partido é um braço armado da República Islâmica do Irã. Não se trata mais de uma simples representação simbólica, mas de uma realidade apoiada pelos fatos: o Hezbollah apoiou o Irã porque é o seu braço armado, e o Irã frequentemente se vangloriou de controlar quatro capitais árabes, incluindo Beirute. O vínculo orgânico entre a «cabeça» e o «braço armado» foi confirmado pelos cessar-fogos no Irã e no Líbano. Os dois acordos estavam intrinsecamente ligados; quando um acordo vacilava em Teerã, o outro vacilava em Beirute. A tal ponto que alguns centros de pesquisa e estudos afirmam que o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), assim como controla os centros de decisão no Irã, também controla os do Hezbollah em Beirute. Há pelo menos duas evidências que comprovam isso: Primeiro, o assassinato de um comandante da Guarda que estava ao lado de Hassan Nasrallah na mesma sala. Segundo, o ex-embaixador iraniano em Beirute foi alvo de um ataque por pager, porque usava um dispositivo distribuído aos responsáveis militares e de segurança do partido e da Guarda Revolucionária. A bandeira ou emblema, como aparece na imagem, representa um braço segurando um fuzil, com a inscrição «O Hezbollah é vitorioso» acima. A bandeira do Hezbollah se apresenta assim: um braço iraniano segurando um fuzil. Descrever o Hezbollah como um «braço iraniano» não é mais um simples slogan político entoado por seus adversários. Com o tempo, esta afirmação transformou-se numa interpretação sustentada por uma série de fatos históricos e de campo que revelam o vínculo profundo e orgânico entre o partido e a Guarda Revolucionária. A relação entre os dois não se baseia em uma aliança efêmera ou em uma convergência passageira de interesses, mas sim em uma colaboração direta, um financiamento contínuo e um apoio estratégico claramente manifesto tanto em tempos de guerra como em tempos de paz. O ex-secretário-geral do Hezbollah, sayyed Hassan Nasrallah, não estava blefando quando afirmou: «Nossas armas e nosso dinheiro vêm do Irã», chegando mesmo a declarar: «Tenho orgulho de ser um soldado do exército da vilayat el fakih.» Desde a sua criação no final de 1982, o Hezbollah nunca foi um projeto libanês, mas sim um prolongamento concreto da Revolução Islâmica no Irã. O Corpo de Guardas supervisionou o treinamento de seus primeiros combatentes em Baalbek e estabeleceu seu arcabouço ideológico com base na “Vilayat-e fakih”. O Hezb reporta-se, portanto, unicamente ao Líder Supremo iraniano. Esse único ponto é suficiente para desacreditar qualquer noção de independência, pois uma organização que extrai sua legitimidade ideológica de uma liderança externa não pode ser considerada um ator libanês plenamente soberano. Passando da teoria à prática, o quadro torna-se mais claro. Durante a guerra de julho de 2006, o confronto não foi uma simples operação local, mas inseria-se em um contexto regional complexo. Esta operação fazia parte da estratégia de dissuasão iraniana contra Israel e os Estados Unidos. O sequestro dos dois soldados israelenses foi perpetrado a pedido do Irã, conforme revelaram documentos vazados posteriormente. O apoio militar e logístico fornecido ao Hezbollah durante este conflito constituiu um elemento crucial da sua capacidade de resistir, reforçando a hipótese de que a decisão militar se inseria em cálculos iranianos mais amplos. Este mesmo padrão repetiu-se nas fases seguintes. O envolvimento do Hezbollah na guerra da Síria não foi motivado por preocupações internas libanesas, mas constituiu uma resposta direta à vontade de proteger a influência do Irã em Damasco, o seu aliado mais importante no seio do «eixo da resistência». Neste caso, o Hezbollah já não era um simples beneficiário de apoio, mas um instrumento de campo a serviço da implementação das políticas regionais conduzidas por Teerã, consolidando assim o seu estatuto de força militar projetada no estrangeiro. Nos últimos anos, esses indicadores tornaram-se ainda mais marcados. Os acontecimentos que se seguiram a 8 de outubro de 2023, e o que foi descrito como uma «guerra de apoio e assédio», revelaram uma série de operações coordenadas que ultrapassam o quadro puramente libanês. Além disso, os repetidos disparos de foguetes, incluindo os seis de 2 de março, testemunham o envolvimento em um conflito regional mais vasto, onde as frentes, de Gaza ao Líbano, passando pelo Iêmen, convergem dentro de um quadro estratégico único liderado pelo Irã. Alguns poderiam argumentar que o Hezbollah mantém uma certa autonomia de decisão e tem em conta o contexto libanês e as suas complexidades sectárias e políticas. No entanto, este argumento esbarra na realidade do financiamento, do armamento e do treinamento, já que o partido depende quase inteiramente do Irã para estes aspectos essenciais. Em ciência política, aquele que detém os instrumentos do poder tem a maior capacidade de influenciar a tomada de decisões. Portanto, falar em independência é mais uma questão de teoria do que de prática. Mesmo o simbolismo visual do partido veicula conotações que ultrapassam o quadro local. Seu logotipo emblemático, que representa uma mão brandindo um fuzil e o slogan «O Hezbollah é vitorioso», não é apenas uma simples ferramenta de propaganda, mas o reflexo da cultura da Revolução Islâmica, que glorifica a «resistência armada» como instrumento ideológico. Se a interpretação da mão como o «braço da Guarda Revolucionária» permanece simbólica, ela se insere na relação estrutural que une as duas entidades, o símbolo tornando-se a expressão visual de uma função política e militar existente. Mais importante ainda, o comportamento regional do partido é quase inteiramente coerente com as prioridades estratégicas do Irã. Ele combate onde o Irã combate, ameniza as tensões quando o Irã ameniza as tensões e as intensifica quando a dissuasão é necessária. Essa sincronização não pode ser explicada pelo acaso ou por uma simples convergência de interesses; ela testemunha, pelo contrário, uma coordenação avançada, ou mesmo uma direção direta em certos casos. Em última análise, qualificar o Hezbollah de «braço armado iraniano» não significa que seja um simples instrumento sem vontade própria, mas sim que a sua vontade está limitada por um quadro estratégico definido por Teerã. Os fatos, desde a sua fundação até ao seu financiamento, passando pelas suas ações militares, indicam claramente que o Hezbollah opera no seio de um sistema liderado pelo Irã e constitui um dos seus principais proxies na região. Por conseguinte, o debate já não incide sobre a existência de um vínculo entre o Hezbollah e o Irã, mas sim sobre a extensão e os limites desse vínculo. O que permanece certo, por outro lado, é que esta conexão é tão profunda que é extremamente difícil, senão impossível, dissociar os processos de tomada de decisão libaneses e iranianos em relação ao Hezbollah durante grandes conflitos.

Uma amnistia geral xiita... para entrar no século
Por
Élie Hajj
Publicado
abr 24, 2026 - 03:45

Acompanhei uma vez um longo discurso do falecido secretário-geral do Hezbollah, o Sayed Hassan Nasrallah, no qual relatou com minuciosa precisão o que se passara «no dia em que as mulheres da familia do Profeta foram levadas em cativeiro». Estava profundamente comovido. Recordo-me de ter ficado muito surpreendido ao ver esse doloroso acontecimento evocado como se tivesse ocorrido dois ou três dias antes, exposto de um modo que não admitia qualquer dúvida quanto à sua veracidade, como se houvesse sido transmitido por testemunhas oculares cujos depoimentos fossem insusceptíveis de contestação. Vieram-me naturalmente à mente imagens de mulheres aldeiãs a chorar nas igrejas na Sexta-feira Santa, ao escutarem o cântico «Wa habibi» ou «Sou a Mãe Aflita». Mas esses ritos permanecem ligados à sua dimensão espiritual, e não à cronologia precisa do acontecimento, ao seu lugar e às suas circunstâncias, ao contrário das comemorações da Ashura e dos dias a ela associados, entre os quais figura «o cativeiro das mulheres do Profeta». Digo hoje que talvez este seja o maior paradoxo inscrito na memória colectiva da maioria xiita: permanecer prisioneira do instante de «sal-Taff», como se o tempo se houvesse detido ali, em Karbala, no ano 61 da hégira. E há bem pouco, nos inícios de 2024, Bagdade foi palco de uma cena de surrealismo consumado: o julgamento de Yazid ibn Muawiya, como se a justiça contemporânea pudesse dirimir um conflito com catorze séculos de existência através de uma sentença judicial. A verdade é que esta questão de extrema sensibilidade não encontrará o seu desfecho nos corredores dos tribunais, mas nos labirintos da psique e de uma mentalidade que recusa, ainda hoje, sair do «luto eterno». Chegou o momento de dar um passo corajoso, talvez «desconcertante» para alguns, mas necessário para os que desejam verdadeiramente atravessar a ponte da história em direcção ao futuro. Precisamos de uma «amnistia xiita geral», não para esquecer o crime, mas para reconhecer que o que aconteceu foi uma luta pelo poder, à semelhança de milhares de conflitos por que passaram povos e estados ao longo dos séculos, do Egipto faraónico aos impérios persa e mesopotâmico, de Atenas e Roma até Paris e às Américas. Esta amnistia deve abranger toda a gente, incluindo o acusado Shimr ibn Dhi al-Jawshan, com base no princípio de que «eles não sabem o que fazem». Todos eram instrumentos de uma máquina de poder sem piedade, combustível para um conflicto puramente humano em torno do trono e da influência. E se a preocupação é a da «justiça», al-Mukhtar al-Thaqafi encarregou-se dessa tarefa a seu tempo, passando a espada pelos pescoços dos assassinos e de todos, ou da sua grande maioria, os que haviam participado naquela tragédia, fechando a conta sangrenta com sangue. Quanto à perpetuação quotidiana da evocação psíquica da vingança, essa é uma receita infalível para desgraças, catástrofes e calamidades sem fim, pelos séculos dos séculos. Abrir uma página nova não é um luxo, é uma urgência. Entrar na era moderna é impossível com uma memória carregada de sangue, de remorsos, de hostilidades históricas e de apelos ao restabelecimento de uma dignidade ferida. Nós, os seres humanos, precisamos do perdão para encontrar o repouso, da «amnistia» para avançar. A história lemo-la para aprender com ela, não para viver nela. Virai a página. Acreditai em mim, nada é mais belo do que nascer de novo a cada manhã.

Tandem xiita e pensamento único
Por
Youssef Mouawad
Publicado
abr 23, 2026 - 15:19

É uma ressaca que a comunidade xiita está vivendo, uma verdadeira dor de cabeça! A dupla Hezbollah-Amal a havia levado bem ao ápice do seu poder: tendo investido no Estado profundo, esta comunidade havia se entrincheirado ali como havia se posicionado como interlocutora regional após séculos de marginalização e discriminação. E então, a partir de setembro de 2024, o castelo de cartas começou a desmoronar sob os golpes dos israelenses. E para terminar, milhares de famílias deslocadas! Parte o coração ver esses carros em fila indiana que, tendo ido para o Sul com o anúncio do cessar-fogo de 17 de abril, deram meia-volta imediatamente. Uma tragédia humana que continua há semanas e da qual sofre um grupo confessional e seus membros por vezes estigmatizados por seus concidadãos libaneses. Um pouco de história Nada predispunha os duodecimanos a esse destino cruel, eles que se dizia comprazerem-se no quietismo. Em 1967, o historiador Kamal Salibi pôde escrever: «Entre os xiitas, uma longa história de perseguições e de repressão refletiu-se na timidez política característica da comunidade e na sua organização aparentemente pouco estruturada». Esse quadro está amplamente obsoleto, e a millet libanesa em questão, tendo ascendido desde os anos oitenta ao primeiro lugar, pôde reivindicar uma posição de destaque no cenário político libanês e regional. Mas, além dos slogans e propósitos ora inflamados, ora apaziguadores do Hezb e do Harakat Amal, havia uma aspiração única, um pensamento supremo, que mobilizava todos os seus seguidores: criar uma entidade xiita nas margens do Mediterrâneo, como que para reatar, ainda que apenas simbolicamente, com a glória do califado fatímida de mil anos atrás. Uma revanche sobre a história se impunha. As ambições legítimas Quem não ouviu o xiita comum dizer ao cristão qualquer: «sai daí, cede-me o teu lugar, ele me pertence por direito». Quem não se sobressaltou ao ouvir um hezbollahi ou um partidário de Nabih Berri declarar: «nós só deporemos as armas se nos concederem os cargos que tradicionalmente cabem aos maronitas, como a Presidência da República, o comando-em-chefe do exército e o cargo de governador do Banco Central». Estes desejos e ambições podem ser legítimos e poderiam se concretizar sob a pressão demográfica, financeira e militar de que a dupla está amplamente provida. No entanto… Há um porém, no entanto! O Grande Líbano não teve, desde as suas origens, razão de existir senão para servir de bastião ou de refúgio aos cristãos. Se estes viessem a perder os seus poderes à frente do Estado ou a ceder as suas prerrogativas a outras comunidades, este país não teria mais razão de existir como entidade independente da Síria. Admitindo que, numa configuração particular, o regime no poder em Damasco nos invadisse e declarasse um Anschluss, acham que o Ocidente cristão se moveria se os seus correligionários já não estivessem lá para desempenhar um papel preponderante ou se estivessem reduzidos a peixe miúdo? Em tal cenário, as coisas aconteceriam como quando Putin anexou a Crimeia, isto é, sem suscitar senão reprovações verbais. Outro cenário: se esses mesmos cristãos já não estivessem à frente do Líbano e se a Síria e Israel decidissem dividir o nosso país, como fizeram Hitler e Stalin em 1939 com a Polônia, que capital do mundo ocidental reagiria e interviria para restabelecer o status quo ante? Dito isto, quando é que se vai compreender que as prerrogativas dos cristãos a nível do Estado são, não apenas garantias para as suas comunidades, mas também e sobretudo um escudo para a «nação libanesa», se é que ela existe. Por que errar de inimigo? Entende-se que a dupla Hezbollah-Amal deva manter-se em guarda, mas para se precaver contra um parceiro regional, é antes da Síria, onde horrores foram cometidos, que ela deveria desconfiar, e não dos seus concidadãos libaneses, sejam eles cristãos, sunitas ou drusos! Não é com estes que ela deveria procurar confusão! Mas como falar com a razão quando a arrogância fez com que uma comunidade perdesse o sentido da medida e quando ela sente um prazer gratuito em criar inimigos? Comungando da embriaguez de vitórias supostamente divinas, a dupla xiita conseguiu virar contra si, não apenas os judeus de Israel, mas também os sunitas da Síria e os cristãos do Líbano, sem esquecer os drusos. Quem dá mais?

Líbano: quando o ódio se torna sistema
Por
Mona Fayad
Publicado
abr 21, 2026 - 21:39

A divisão no Líbano já não é consequência da guerra; tornou-se um dos seus instrumentos. O que hoje presenciamos poderia definir-se como uma economia da divisão: o ódio convertido em matéria-prima, produzido quotidianamente, fabricado, distribuído e consumido, ao serviço de várias partes em simultâneo, ainda que essas partes se encontrem em aparente inimizade declarada. O conflito migrou da violência militar para a violência simbólica. Quando um ancião se levanta para insultar o chefe do governo numa linguagem abjecta, quando outro se volta contra o presidente da República evocando o destino de Sadat, quando se adestram crianças no insulto e se glorifica a militarização mesmo através de um sapato, a questão já não diz respeito às pessoas visadas, mas ao que elas representam: um contorno da angústia e do medo sentidos, uma vontade deliberada de arraigar na consciência popular a imagem de um Estado em decomposição, de normalizar o insulto como modo de expressão política, deslocando o conflito da crítica do poder para a sua degradação e acusação de traição. Tudo isto vai muito além de um declínio moral ou de uma ira descontrolada; é, no fundo, o sinal de uma mutação muito mais grave: golpear a imagem do Estado na consciência colectiva e substituir a deliberação pública pela difamação. Quando o poder deixa de ser objecto de responsabilização para se tornar alvo de humilhação, fica esvaziado de toda a legitimidade simbólica. É precisamente o que Pierre Bourdieu designava por «violência simbólica»: o momento em que a própria linguagem se torna um instrumento de desconstrução ao serviço da dominação, muito além da sua simples função comunicativa. O que vemos hoje não pode reduzir-se a uma divergência de posições ou a leituras políticas diferentes; é um processo sistemático que recompõe a sociedade por dentro, através da linguagem, da imagem e da educação, tornando-a mais frágil e menos capaz de produzir um sentido comum ou uma posição nacional agregadora. O Líbano não enfrenta hoje apenas o perigo da guerra, mas o de uma sociedade em vias de ser refundada sobre o alicerce da humilhação. E o que se semeia nas novas gerações é ainda mais inquietante. Crianças adestradas no insulto, filmadas e celebradas como se realizassem um acto heróico, integradas numa encenação de mobilização colectiva — isto não é um detalhe anedótico, mas um mecanismo de reprodução da divisão através da educação. A criança que aprende que o ódio é uma expressão legítima e que o insulto é um modo de presença não será, amanhã, um cidadão, mas um instrumento num conflito cujas dimensões não consegue perceber. Nesse momento, a criança deixa de ser uma vítima para se transformar numa ferramenta: vector precoce do ódio, futuro cidadão amputado de toda a capacidade de pensar para além do que lhe foi inculcado. É um lento modelar das consciências, em que as fracturas se instilam na linguagem antes de aflorarem nas posições. Uma espécie de «lavagem cerebral suave», que não se impõe pela força mas se constrói através da repetição, da banalização e do encorajamento social. Os símbolos, por sua vez, foram igualmente arrastados por esta trajectória. Essas imagens que glorificam o sapato militar ou o convertem num acessório festivo não são meras expressões de vulgaridade; assinalam uma redefinição dos valores: da dignidade à submissão, da cidadania à obediência, e um regresso à era dos ídolos da Jâhiliyya. Neste quadro, as partes em confronto não coordenam necessariamente as suas acções, mas convergem nos seus efeitos. E a contradição é flagrante: enquanto Israel persiste na agressão, na destruição e na ocupação, apresenta-se como respeitador das sacralidades libanesas, ao ponto de Saar se desculpar pelo gesto do soldado israelita que destruiu uma estátua de Cristo, quando as mesmas forças atacam igrejas e mesquitas em Jerusalém e em Belém e impedem os fiéis de as frequentar. O Hezbollah, pelo contrário, dissimula a sua impotência golpeando tudo o que o cidadão libanês preza. Israel retira proveito da erosão do tecido social e da transformação de cada ataque militar — como em Ain Saadeh e Beirute — em matéria de discórdia interna, neutralizando qualquer possibilidade de uma resposta nacional unificada. O Hezbollah, por seu lado, trabalha para aprofundar o medo recíproco entre os libaneses e para minar a ideia de um Estado agregador, reforçando assim a lógica de «protecção» fora das suas instituições. Paradoxalmente, ambas as partes alimentam-se do mesmo processo: quanto mais a fragmentação interior se intensifica, mais as suas respectivas justificações se consolidam. A responsabilidade não termina aqui. As restantes forças políticas participam, em graus variáveis, na perpetuação desta realidade: através de um discurso sectário, de silêncios selectivos ou da exploração do medo ao serviço das lideranças. O espaço público transforma-se então numa arena aberta aos instintos mais do que ao debate, à mobilização mais do que à prestação de contas. A consequência mais grave não reside na divisão em si, mas na perda dos referenciais: a sociedade perde a sua capacidade de distinguir entre o aceitável e o inaceitável. O problema já não reside, então, num acontecimento preciso, mas na estrutura que o acolhe e o reproduz. Tudo isto ocorre num momento delicado, em que se supõe que o Líbano se encontra no limiar de um novo processo negocial. Mas em vez de esse processo representar uma oportunidade de convergência de visões e de construção de um apoio comum, é a fragmentação das narrativas que prevalece, aprofundando a fissura interior, enfraquecendo o Estado em vez de o consolidar, e erodindo o seu peso simbólico ao ponto de ameaçar esvaziar de substância qualquer negociação. Pois os Estados não negoceiam apenas com as suas fronteiras, mas com a coesão das suas sociedades e com a sua capacidade de produzir uma posição comum, ou pelo menos uma narrativa partilhada. O Líbano não enfrenta hoje apenas o perigo dos ataques militares, mas o de uma sociedade deslocada por dentro, reduzida a mero palco de gestão de conflitos. Esta é a fase mais perigosa: quando a desintegração deixa de ser um efeito da guerra para se tornar condição da sua continuação. Encontramo-nos então perante uma sociedade que se reconstitui sobre bases anteriores ao Estado. Perante isto, não basta registar posições ou denunciar, rejeitar este ataque ou condenar aquele insulto. O que é necessário é recuperar um mínimo de sentido: que as vítimas não são confissões mas cidadãos, que o Estado não é um beligerante mas um enquadramento, que a dignidade não é um detalhe a que se possa renunciar. Sem isso, cada ataque militar não será mais do que um passo adicional num processo de desintegração que começou por dentro… Esta é a fase mais perigosa: quando a desintegração deixa de ser um efeito do conflito para se tornar cultura. A batalha já não se trava apenas no terreno, mas sobre o próprio sentido do ser humano. O que é necessário agora é reconquistar o sentido. Reabilitar a ideia do cidadão, e não do súbdito submetido. Reabilitar o Estado, não o símbolo; a dignidade, não a força. Porque uma sociedade que se reconcilia com a humilhação não precisa de ser derrotada por ninguém… basta-lhe continuar assim.

E agora, Hezbollah, estão satisfeitos?
Por
Youssef Mouawad
Publicado
abr 18, 2026 - 07:37

Este país, afinal nosso, merece mais do que a sua resistência! Mas que maldição paira sobre nós, neste Oriente entregue aos caprichos de incendiários e aspirantes a mártires? Cada vez que os líderes árabes se entregaram a uma retórica inflamada e foram arrastados para guerras, estivemos à beira do desastre. Assim, na véspera de Junho de 1967, as provocações do Partido Baath sírio, no poder em Damasco, arrastaram o Egipto e a Jordânia para uma guerra de seis dias. Por um lado, o Egito perdeu a Península do Sinai, o controlo da Faixa de Gaza e o controlo do Canal do Suez; do outro, a Síria perdeu as Colinas de Golã, enquanto o Reino Hachemita da Jordânia teve a Cisjordânia e a Cidade Velha de Jerusalém tomadas (1). Nem Damasco nem Amã recuperaram deste erro até hoje; os territórios que Israel lhes tinha "roubado" nunca seriam recuperados. Só o Líbano, que se manteve à margem, escapou ao desastre e conseguiu preservar todos os seus 10.452 km² de território. Mas nem os palestinianos, nem a Haraqa al-Wataniya, nem os iranianos, que chegaram em último lugar, viam as coisas desta forma. Precisavam de nos envolver a todo o custo num conflito que estava perdido desde o início, para demonstrar a solidariedade árabe e islâmica. Esta mesma Haraqa al-Wataniya, apoiando-se na OLP, acreditava que poderia alcançar os seus objectivos em 1975 atacando os bastiões "libaneses" e pró-libaneses. Enganada pela sua própria retórica insurrecional, rejeitou a política "isolacionista" do regime no poder, uma política que, no entanto, tinha protegido o Sul do Líbano de uma invasão israelita. Mas o que podíamos fazer? Estava escrito que seríamos ocupados mais cedo ou mais tarde por forças estrangeiras. A diferença é que, neste momento, estamos num estado de beligerância não por solidariedade árabe, mas para vingar o martírio do Líder Supremo iraniano. Muito bem, "vinte anos depois"! Estando no olho do furacão, que os números falem por si e admitam que o Hezbollah ultrapassou o seu recorde de 2006. Durante os 33 dias de guerra, foram registadas 1.200 mortes, enquanto hoje, no mesmo período, já se registam 1.400 vítimas (2). Muito bem, Hezb! Continuemos: enquanto há vinte anos mais de 100.000 casas foram destruídas, desta vez a destruição sistemática pulverizou bairros inteiros e aldeias fronteiriças foram apagadas do mapa (3). E para concluir a comparação, observemos que, enquanto o milhão de deslocados em 2006 pôde regressar a casa imediatamente após o fim dos combates, tal não será possível na situação actual: a deslocação de 1.200.000 pessoas desde o mês passado corre o risco de ser irreversível. Devemos agora esperar, como disse um observador, uma transformação duradoura do território e uma reconfiguração espacial. Uma reconfiguração geográfica do Sul que consiste em "desarticular as áreas xiitas" cortando as rotas de comunicação. A ideia é estabelecer uma zona tampão, talvez um prelúdio para uma anexação gradual. Muito bem, Hezbollah! O Ocidente, o nosso mihrab! Desde o momento da independência, o Líbano optou por se distinguir e diferenciar dos seus vizinhos, que estavam atolados em anacronismos e retórica nacionalista. Sem renegar as nossas origens orientais, e muito menos a fraternidade árabe, mas com considerável autoconfiança, olhávamos para o Ocidente, que tínhamos tomado como modelo e mihrab. O nosso Estado desconfiava de ideólogos disruptivos, demagogos fanáticos e belicistas. Era esta diferença entre nós e os nossos vizinhos árabes que nos definiria e garantiria o florescimento das liberdades formais e da livre iniciativa no nosso território — algo estritamente proibido sob Nasser, sob os Assad (pai e filho) e sob Saddam Hussein. Mas esta particularidade libanesa constituía uma elevada traição aos olhos de certos partidos políticos e de grande parte da nossa população. Em 1956, o Presidente Chamoun pôde recusar-se a romper as relações diplomáticas com o Reino Unido e a França, que se tinham deteriorado na Crise do Suez. Mas a partir de 1990, não tínhamos mais meios de resistir: iríamos aliar-nos definitivamente a Damasco… E desde então, apesar da queda do regime Baathista, temos lutado para sair deste impasse. E, para dizer a verdade, ainda não terminámos com o Hezbollah. De um confronto para o outro, superam-se: passam de uma catástrofe para outra! 1- Além disso, Golda Meir não deixou de dizer ao Rei Hussein: tudo isto seria ainda seu se o senhor não tivesse intervido no dia 6 de Junho! 2- E até hoje, já ultrapassámos os dois mil mortos, sem contar com os feridos e os que ficaram incapacitados para a vida. 3- Teremos muito tempo para fazer a contagem decrescente.

A vitória dos "convencidos"
Por
Jawad Pakradouni
Publicado
abr 17, 2026 - 21:46

Um jovem adolescente regressa orgulhoso a casa e anuncia aos pais que passou no exame, entregando-lhes a prova com a nota 3/20. Uma nota reprovativa, certamente, mas para o aluno, é uma vitória! E porque não, afinal? O Hezbollah proclamou a sua própria vitória, num momento de grande tensão psicológica, esta sexta-feira, 17 de abril, num ambiente festivo, onde os seus apoiantes deixaram transbordar de alegria, juntamente com os disparos de bombas B7 e RPGs; rajadas de tiros das suas metralhadoras com balas traçadoras iluminaram o céu durante mais de quarenta minutos. Um verdadeiro espetáculo de som e luz sobre a capital, declarada zona desmilitarizada poucas horas antes numa conferência… Uma vitória divina (repetidamente) que de forma alguma será manchada por considerações como o custo humano e material, por mais pesado que seja. Não importam as mortes, os feridos, a destruição, a terra queimada e a ocupação do Sul, as consequências económicas, etc., desde que os dirigentes da milícia, apesar de instruídos e bem informados, defendam e proclamem tais absurdos, e pior, acreditem neles. A presença de um cérebro não implica necessariamente a sua utilização. É precisamente por isso que fazer lavagem cerebral aos outros é tão fácil. O Hezbollah não só toma decisões por todos os libaneses, como também pensa pelos seus próprios apoiantes. Enquanto o exército israelita cortou as ligações de comunicação entre o sul e o norte (através do rio Litani), os líderes do Hezbollah conseguiram cortar as ligações neuronais dos seus capangas, a tal ponto que, na sua lógica (se é que têm alguma), duvidar da sua vitória equivale a aliar-se ao inimigo. Mais de 2.200 mortos, e então? Há guerras com números significativamente maiores, logo, vitória! Mais de 40 aldeias literalmente arrasadas, e então? É só pedra, pode ser reconstruída, logo, vitória! Mais de dez quilómetros do país ocupados, e então? No dia 25 de maio, vamos celebrar o dia da "libertação", e será feriado nacional, logo, vitória! É humanamente impossível, portanto, convencer um vencido de que foi realmente vencido. E já que parece que a realidade se tornou uma variável a ajustar, porquê parar já? Bastará alterar as palavras e os seus significados para transformar os factos. A este ritmo, cada recuo tornar-se-á um avanço estratégico, cada perda prova de ganho, cada derrota uma vitória mal compreendida, a soberania um conceito flexível, a destruição uma forma de investimento, a morte uma nova vida e, acima de tudo, pensar por si próprio é traição. Afinal, quando uma mentira é repetida em voz alta e durante o tempo suficiente, acaba por se tornar verdade para aqueles que deixaram de verificar. No entanto, o mais preocupante não é que algumas pessoas estejam a tentar reescrever a realidade, mas sim que muitas pessoas pareçam prontas a acreditar nela sem sequer a relerem.