Logotipo da Levant Time
Voltar ao artigo
Opinião

O Líbano entre as armas e as negociações

Reconquistará o seu Estado ou permanecerá palco de guerras?

Imagem de notícia
Retrato do autor
Por Jad Akhawi
Publicado mai 10, 2026 - 16:02

Em um momento regional de extrema complexidade, o Líbano se vê diante de uma questão existencial que vai muito além dos cálculos políticos cotidianos e das divisões tradicionais: o que pretende alcançar em eventuais negociações com Israel, o que pode oferecer e, sobretudo, possui internamente a capacidade necessária para cumprir os compromissos que delas possam surgir?

Essas perguntas deixaram de ser teóricas. Hoje, estão diretamente ligadas ao destino do Estado libanês, à possibilidade de centenas de milhares de cidadãos retornarem às suas aldeias e à capacidade do país de sair de sua condição de “arena de confronto aberta” para finalmente se tornar um Estado normal, soberano sobre suas fronteiras e suas decisões.

O problema fundamental do Líbano hoje não está apenas na guerra ou na ameaça de guerra, mas na ausência de um Estado capaz de impor uma visão nacional coerente. Há muitos anos, o país vive sob o peso de uma dualidade destrutiva: de um lado, um Estado formal, com suas instituições, sua Constituição e sua legitimidade internacional; de outro, uma realidade militar e de segurança que possui capacidade autônoma para tomar decisões soberanas relacionadas à guerra e à paz. É precisamente essa dualidade que torna qualquer negociação futura tão delicada, porque a comunidade internacional não pergunta apenas o que o Líbano quer, mas também: quem realmente representa o poder de decisão libanês?

No contexto de negociações sérias, não se exigiriam do Líbano “concessões gratuitas”, como alguns tentam apresentar, mas sim uma visão clara de um Estado que deseja recuperar sua soberania e seu equilíbrio. Isso começa pela afirmação de um princípio fundamental: o monopólio do poder de guerra e paz exclusivamente nas mãos do Estado libanês. Um Estado não pode negociar de forma legítima quando suas decisões de segurança estão divididas entre instituições oficiais e forças militares paralelas. Nesse sentido, qualquer processo de negociação autêntico estará inevitavelmente ligado à questão das armas fora do controle estatal, não apenas porque Israel ou a comunidade internacional levantam esse tema, mas porque o surgimento de um Estado normal no Líbano tornou-se impossível sem enfrentar essa disfunção estrutural.

É aí que surge o grande dilema. O Exército libanês pode, sozinho, resolver essa equação? A resposta realista é que essa questão vai muito além de suas capacidades. O tema das armas no Líbano não é simplesmente um assunto de segurança que possa ser resolvido por uma decisão operacional ou por um confronto interno. Ele está profundamente entrelaçado com os equilíbrios confessionais, os conflitos regionais, a relação entre o Hezbollah e o Irã e o conflito aberto com Israel. Qualquer tentativa de impor uma solução pela força interna corre o risco de lançar o país em uma explosão generalizada, ameaçando inclusive a unidade do próprio Exército e reproduzindo cenas de uma guerra civil cujas cicatrizes os libaneses ainda carregam.

Isso não significa, de forma alguma, que o Exército libanês não tenha um papel a desempenhar. Pelo contrário. A instituição militar continua sendo a única entidade nacional capaz de atuar como garantidora da estabilidade, desde que receba cobertura política e os meios necessários. Mas ela não pode se transformar em instrumento de confronto interno sem uma decisão política unificadora e um apoio interno suficientemente amplo. Qualquer abordagem séria sobre a questão das armas exige, portanto, uma estratégia nacional gradual: uma estratégia que comece pelo fortalecimento do próprio Estado, pelo fortalecimento do Exército e que subordine qualquer transição de segurança a um amplo consenso interno e a um acordo regional mais abrangente.

Porque a realidade obriga a reconhecer que o poder do Hezbollah não vem apenas do interior do Líbano, mas também de sua inserção em um eixo regional liderado pelo Irã. Dessa forma, qualquer mudança radical nessa questão dependerá do futuro das relações entre Irã e Israel e da natureza dos acordos internacionais na região. Por isso, reduzir o problema ao slogan do “desarmamento pela força” carece de realismo, assim como a manutenção do status quo, que já não é sustentável para o Estado libanês.

Há ainda outro tema de urgência equivalente, talvez o mais imediato para os libaneses hoje: o sul do Líbano, os deslocados e as aldeias devastadas. Milhares de famílias libanesas vivem um deslocamento contínuo como consequência da guerra e das tensões na fronteira. A pergunta que se impõe é a seguinte: o Líbano pode, em eventuais negociações, obter de Israel garantias de retirada e de retorno dos deslocados?

Teoricamente, sim. É legítimo que o Líbano exija o fim das operações militares, a retirada israelense de todos os pontos ocupados e garantias para o retorno seguro dos habitantes às suas aldeias. Mas a experiência histórica da região demonstrou amplamente que promessas, por si sós, não bastam. O Oriente Médio está repleto de acordos frágeis e entendimentos que desmoronaram diante da primeira mudança política ou militar no terreno. Garantias reais exigem muito mais do que simples declarações políticas ou compromissos verbais.

Se o Líbano entrar em um processo de negociação, precisará de um acordo explícito e por escrito, acompanhado de cronogramas precisos e de mecanismos de monitoramento e implementação. Também precisará de patrocínio e garantias internacionais efetivas por parte de atores capazes de exercer pressão real, como os Estados Unidos, a França e as Nações Unidas. O fortalecimento do papel da FINUL, ou de qualquer outro mecanismo internacional de supervisão, também será necessário para garantir o respeito mútuo ao cessar-fogo e evitar o colapso rápido de qualquer acordo.

Mas, mesmo que as garantias de segurança se concretizem, outra batalha igualmente decisiva surgirá: a da reconstrução. Retornar não significa apenas reabrir a estrada até a aldeia. Significa reconstruir casas, infraestrutura, escolas e hospitais, além de garantir as condições mínimas para uma vida normal. Toda negociação séria deverá, portanto, vincular obrigatoriamente a dimensão da segurança a um plano de apoio econômico e reconstrução do sul do Líbano. Caso contrário, o retorno permanecerá ilusório e precário.

Grande parte da dificuldade no Líbano reside no fato de que o debate interno é conduzido com uma mentalidade de slogans absolutos. Alguns enxergam qualquer negociação como uma capitulação; outros acreditam que a solução virá de um rápido confronto interno que resolverá tudo de uma vez. A realidade é infinitamente mais complexa. O Líbano hoje não está em posição de se permitir grandes aventuras, nem militares nem políticas. O país atravessa um colapso econômico, suas instituições estão esgotadas e a própria sociedade libanesa encontra-se dividida, amedrontada e exausta após longos anos de crises acumuladas.

Qualquer abordagem realista deve, portanto, partir de um objetivo fundamental: reconstruir o próprio Estado libanês. O verdadeiro problema não está apenas na existência de uma ameaça israelense ou de uma influência iraniana, mas na fragilidade do Estado, que permitiu que o Líbano se transformasse em um espaço aberto para conflitos regionais. Quando o Estado é fraco, todos os acordos externos são provisórios e todas as tréguas estão destinadas a ruir.

O maior desafio para o Líbano não é simplesmente saber como negociar com Israel, mas antes de tudo recuperar sua capacidade de decisão nacional. Porque a verdadeira negociação não começa em torno de uma mesa, mas quando o Estado exerce autoridade real sobre seu território, suas fronteiras e suas instituições. Somente então um acordo poderá deixar de ser uma trégua frágil para se transformar em estabilidade duradoura.

O Líbano não precisa de slogans de vitória ilusória, nem de discursos de rendição. O que realmente necessita é de um projeto de Estado: um Estado que proteja suas fronteiras com seu Exército, que impeça que seu território seja transformado em plataforma para as guerras dos outros e que garanta ao seu povo o direito natural à segurança, à estabilidade e à vida. Toda negociação futura deverá ser medida por um único critério: ela aproxima o Líbano do Estado ou o reconduz à lógica das arenas de confronto, dos eixos regionais e das guerras sem fim?

Artigos relacionados
Ver tudo
Vídeos relacionados
Ver tudo
Podcasts relacionados
Ver tudo