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Opinião

Xeque Naim…  O monopólio das armas começa em Ali al-Taher
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Najib Zwein
Published
ago 5, 2026 - 18:24

Antes de mais nada, xeque Naim, o senhor precisa compreender que todos os libaneses estão pagando hoje o preço de sua irresponsabilidade política, de sua submissão cega ao Irã e de suas decisões unilaterais, que arrastaram o Líbano para guerras que nem seu povo nem seu Estado escolheram nem decidiram. Quem levou o país a essa realidade trágica e permitiu o retorno da ocupação israelense a partes do sul do Líbano não foi quem hoje procura salvar o país. Foram aqueles que se submeteram às ordens do Irã e decidiram declarar guerra por conta própria, à margem das instituições do Estado e de sua autoridade soberana. Quem lançou o sul do Líbano em um confronto aberto e expôs os libaneses à destruição e ao deslocamento foi quem arrastou o país para uma guerra a serviço do projeto iraniano, e não quem hoje trabalha para tirar o Líbano da crise e restaurar suas instituições. Quem hoje procura salvar o que resta da pátria é o presidente da República, general Joseph Aoun, e o primeiro-ministro, que trabalham para devolver ao Estado o pleno controle de suas decisões soberanas e retirar o Líbano do ciclo das guerras. Um exemplo claro disso é a proposta do presidente da República de entregar a instalação de Tallat Ali al-Taher para o controle do Exército libanês, proposta que os senhores rejeitaram, embora tenha sido aceita pelo lado israelense. A questão que hoje se impõe não é a importância estratégica dessa colina, pois isso está fora de discussão. A verdadeira pergunta é por que os senhores se recusam a entregá-la à instituição militar libanesa. Será porque ela constitui o ponto de observação mais elevado sobre amplas áreas do sul do Líbano, dando a quem a controla uma vantagem decisiva em vigilância e no controle do fogo? Ou porque suas instalações militares, fortificações e rede de túneis representam um investimento militar construído ao longo de muitos anos, de modo que entregá-las ao Exército libanês significaria perder um dos principais elementos de força no terreno? Ou a verdadeira razão é que entregá-la ao Exército libanês significaria, na prática, reconhecer o princípio do monopólio das armas pelo Estado e transferir a decisão militar para as autoridades legítimas? Seja qual for a resposta, o paradoxo continua sendo chocante. Se a escolha se resume a entregar essa posição ao Exército libanês ou vê-la destruída por Israel, como a opção israelense pode ser considerada mais grave do que a primeira opção? E como se pode preferir que uma posição libanesa seja destruída pelo inimigo em vez de passar para a autoridade do Exército libanês? O senhor não deve perder de vista, xeque Naim, que lidera uma milícia armada fora da legalidade libanesa. Nem os discursos nem as campanhas de deslegitimação e de acusações de traição mudarão essa realidade. O monopólio das armas pelo Estado não é um simples slogan político, mas um princípio de soberania e um imperativo constitucional do qual não há retorno. Mais cedo ou mais tarde, ele será posto em prática. Por fim, as negociações diretas decididas pelo Estado libanês, em conformidade com sua soberania e com seu interesse nacional, não constituem uma concessão. Elas são um instrumento para recuperar os direitos e o caminho menos custoso para libertar o território, garantir a libertação dos prisioneiros e reconstruir o que as guerras impostas ao Líbano, a serviço de projetos alheios ao interesse nacional, destruíram.

Vitória russa ou ucraniana, quais as consequências no Oriente Médio? (5/5)
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Jean-Patrick Dayras
Published
ago 2, 2026 - 21:12

A guerra na Ucrânia continua a ser o centro de um amplo debate alimentado, entre outros fatores, por bombardeamentos quase diários que visam, de ambos os lados, centros nevrálgicos e, mais especificamente, as capitais russa e ucraniana. Para melhor compreender as diferentes dimensões deste antigo conflito, é necessário revisitar os prólogos e a génese do que culminou nesta guerra (fratricida?), expondo as motivações e as aspirações das diferentes partes envolvidas, nomeadamente o Ocidente (Estados Unidos e Europa, alargada a todos os países da NATO, à exceção da Turquia), e recordando também o início da ofensiva russa e o fracasso das tentativas de alcançar a paz, ou pelo menos negociações, sabendo que as responsabilidades neste contexto são múltiplas. Para compreender bem os meandros dos diversos aspetos da guerra na Ucrânia, algumas questões fundamentais devem ser colocadas desde o início. O que representam, afinal, a Rússia e a Ucrânia para o Ocidente? Quais poderiam ser as consequências concretas de uma eventual vitória clara de um dos dois protagonistas? E, por conseguinte, quais seriam as repercussões para o Ocidente e para o Médio Oriente? Numa série de cinco artigos, Jean-Patrick Dayras , contra-almirante da marinha francesa, expõe a sua visão e análise da questão. As consequências da guerra na Ucrânia para o Médio Oriente dependem em grande medida do desfecho do conflito, mais especificamente da forma como este terminaria (acordo negociado, cessar-fogo, vitória militar clara). Se a Ucrânia vencer Para o Irão O Irão, que forneceu drones à Rússia e reforçou a sua cooperação militar com Moscovo desde 2022, veria o seu parceiro regional enfraquecido. Isso poderia limitar certas cooperações tecnológicas ou militares, mas o Irão manteria outros parceiros e as suas próprias capacidades. Para Israel Israel poderia considerar que um enfraquecimento da Rússia reduziria a influência russa na Síria, mas isso poderia gerar novas incertezas caso outros atores procurem preencher esse vazio. Para a Síria Uma Rússia com menor capacidade de projeção de forças poderia reduzir o seu envolvimento militar ou financeiro na Síria, o que poderia alterar os equilíbrios entre o governo sírio, o Irão e a Turquia. Para os países do Golfo Estados como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos procurariam provavelmente manter relações com todas as grandes potências. No entanto, uma Rússia enfraquecida poderia ter menos influência em determinados dossiês energéticos ou diplomáticos. Se a Rússia vencer Reforço do eixo Moscovo-Teerão Uma vitória russa reforçará a cooperação entre a Rússia e o Irão nos domínios militar, energético e diplomático. Síria A Rússia poderia ser capaz de manter, ou mesmo reforçar, o seu papel de apoio ao governo sírio, consoante os recursos disponíveis após o conflito. Israel Israel terá de continuar a lidar com a presença militar russa na Síria. Procurará preservar os seus mecanismos de coordenação com Moscovo, mantendo ao mesmo tempo a sua parceria estratégica com os Estados Unidos. Turquia A Turquia prosseguirá, muito provavelmente, a sua política de equilíbrio entre a Rússia e os países ocidentais. Ao longo de vários anos, demonstrou a sua capacidade de cooperar com Moscovo em determinados dossiês, permanecendo simultaneamente membro da NATO. Outras consequências Energia Independentemente do vencedor, as consequências nos mercados de petróleo e gás dependerão essencialmente: Da evolução das sanções ou dos custos e da responsabilidade em matéria de reparações. Das capacidades de produção e exportação. Das decisões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus parceiros (OPEP+), onde a Rússia desempenha um papel importante. Os países produtores do Médio Oriente continuarão a adaptar a sua estratégia em função dos preços mundiais e da procura. Influência dos Estados Unidos Uma vitória ucraniana poderia reforçar a credibilidade dos Estados Unidos junto de alguns aliados regionais, enquanto uma vitória russa poderia alimentar questões sobre a capacidade ou vontade dos Estados Unidos de apoiar os seus aliados de forma duradoura. No entanto, estas perceções dependerão também de outros fatores, nomeadamente da política americana (pós-Trump) na região. Note-se que uma vitória russa associada a um acordo favorável ao Irão remodelaria certamente de forma profunda os acordos e parcerias no Médio Oriente, em particular para todos os países do golfo árabo-pérsico. É ainda cedo para listar todas as eventualidades, mas já se podem vislumbrar receios em vários países do Golfo que os levariam a reexaminar as suas parcerias e a sua sensação de proteção. Uma grande reviravolta em perspetiva! Uma região marcada pelas suas próprias dinâmicas É importante sublinhar que o Médio Oriente é influenciado por inúmeros fatores que não dependem diretamente da guerra na Ucrânia: as relações entre o Irão e os Estados árabes; o conflito israelo-palestiniano; a situação na Síria; as rivalidades entre potências regionais; ou ainda os mercados energéticos. Uma vitória russa ou ucraniana teria repercussões nos equilíbrios diplomáticos e militares no Médio Oriente, mas não determinaria por si só a evolução da região. Os efeitos mais prováveis diriam respeito ao papel da Rússia na Síria, às relações com o Irão, aos cálculos estratégicos da Turquia e dos Estados do Golfo, bem como às perceções sobre o papel dos Estados Unidos. Estas consequências seriam significativas, mas inscrever-se-iam num conjunto mais amplo de dinâmicas regionais já em curso. A reviravolta continua! E África? Esquecida? Toda a África será afetada por uma ou outra das hipóteses de vitória. As influências da China, da Índia, dos Emirados e da Turquia, principalmente, serão alteradas de forma mais ou menos significativa, sobretudo em caso de derrota russa. Mais uma reviravolta em perspetiva… O vencedor A China, que por ora apoia cada vez mais a Rússia. Enquanto esta guerra se prolonga, o olhar ocidental desvia-se da Ásia. Entretanto, os Estados Unidos dão o triste espetáculo de uma negociação já falhada com o Irão. As suas armas, que seriam as mais utilizadas face à China para defender Taiwan, estão esgotadas e serão necessários pelo menos três anos para reconstituir os stocks. O perdedor Se a China ganhar, os Estados Unidos só podem perder. Receemos que um dia se diga: «O que mudou a partir de 2022 foram os Estados Unidos. Deixaram de contar». Recuar no tempo O primeiro recuo situar-se-ia no período pós-Maidan. Dialogar com a Rússia, deixá-la perceber as possibilidades para a Ucrânia e, por que não, para ela própria, de se tornar um ou dois Estados associados à Europa; com a NATO a manter-se bem afastada das negociações. Isso teria certamente demorado algum tempo, mas o tempo não faltou entre 2014 e 2022. Para isso, seria necessário debater a questão entre todos os países da União Europeia e com os Britânicos, definir um ponto de vista comum e adotar uma postura geral credível. Nada de negociações secretas com os Estados Unidos, cujo passado é demasiado obscuro e pouco perspicaz: o abandono da Força de Interposição em Beirute em 1982 sem chegar a qualquer solução, seguido pelos italianos, com os franceses ficando sozinhos; o abandono do Afeganistão sem aviso prévio e sem uma saída da crise. Não podemos deixar de questionar a geopolítica americana, repleta de fracassos, erros e até faltas graves. Este país é guiado apenas pelos seus interesses económicos, hoje mais do que nunca; em todos os tempos, não fizeram mais do que errar, exceto na época de Kissinger, um período único. É, claro está, ilusório acreditar que isso poderia ter acontecido. Não devemos esquecer que os países da ex-URSS aderiram à UE primeiro para entrar na NATO e depois para beneficiar dos subsídios oferecidos pela Europa (os contribuintes europeus). Teria sido necessário que os países da Europa Ocidental (França, Benelux, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal) e os britânicos fossem capazes de decidir, de uma vez por todas, não se comportar como vassalos dos EUA (o que, evidentemente, diz menos respeito à França). Teria sido, portanto, necessário que a França fosse forte e determinada para suscitar a adesão de todos esses países. Não é esse o caso. Esta ucronía só poderia ter sido uma realidade com um de Gaulle, talvez um Pompidou, um Mitterrand ou um Chirac. Não com os outros. Teria exigido uma visão estratégica e geopolítica a longo, muito longo prazo, por parte dos chefes de Estado dos países acima mencionados. Não tinha, portanto, qualquer hipótese de se concretizar. Era boa, ou mesmo excelente, para a paz, para o poder económico e militar da União Europeia, preservando a soberania de cada um dos seus membros, com uma garantia verdadeira. A segunda ucronía poderia ter ocorrido se os chefes de Estado e de governo da União Europeia e os britânicos tivessem assumido um papel de cooperação e de facilitadores, permitindo à Turquia alcançar a aceitação de uma paz que garantisse aos dois países beligerantes os seus interesses comuns. Os europeus não tiveram essa coragem, nem a lucidez exigida pela situação, e permitiram que Boris Johnson — provavelmente em missão comandada pelos Estados Unidos — fizesse fracassar os primeiros passos de um acordo de paz. Todos esses chefes de Estado e de governo carregam a responsabilidade pelos milhões de mortos, feridos, desaparecidos, famílias enlutadas e vidas destruídas. Quem o dirá aos povos antes de votarem num candidato? O futuro da Europa com países soberanos estava com a Rússia e, claro, com a Ucrânia, mas certamente não com a Ucrânia sem a Rússia. Por fim, esta guerra era a nossa? Há tantas guerras ignoradas. Tantas guerras que não são a nossa. Esta era mais nossa do que as outras? Em nome de quê? Porque alguns «pensadores» não gostam de Putin? Há tantos chefes de Estado que merecem não ser queridos. Deveríamos, por isso, entrar em guerra com todos eles? Esses brilhantes «pensadores» deveriam lembrar-se da nossa tomada de posição relativamente ao Kosovo e do que se seguiu. Essa história não está terminada. Nem a que diz respeito ao conflito Rússia-Ucrânia.

No Líbano, uma dominação substitui a outra!
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Youssef Mouawad
Published
ago 1, 2026 - 15:16

É como se o Líbano tivesse vivido sempre ao sabor das capitais estrangeiras: houve a era egípcia sob Gamal Abdel Nasser, a era palestina sob a OLP, a era síria sob a dinastia republicana dos Assad e, naturalmente, a era iraniana, quando o Hezbollah assumiu o controle do país por meio de intermediários. O que torna a realidade libanesa ainda mais singular é que, sempre que a influência de um regime árabe ou estrangeiro começava a enfraquecer ou desaparecer, outra vinha imediatamente ocupar o seu lugar. Como se isso fosse algo natural: a natureza detesta o vazio, e nossos políticos jamais quiseram renunciar à submissão. Uma fatalidade e uma maldição! De uma fase para outra, o grau de imposição podia variar, pois existe uma diferença não apenas de intensidade, mas também de natureza, entre uma ocupação militar ou uma submissão política, de um lado, e uma simples coordenação diplomática, de outro. O pêndulo pode oscilar para mais ou para menos, dependendo do contexto, dos acontecimentos inesperados e das circunstâncias. Mas, para além dessas mudanças, há um fato incontestável: nosso pequeno país teve — e infelizmente continuará tendo — de se adaptar a situações desconfortáveis e se curvar aos interesses de Estados maiores e mais poderosos. "Finlandizado" pela força da história e da geografia, poderia o Líbano aspirar a um destino mais ambicioso do que o de um Estado cliente ou de um Estado satélite? Dito isso, imaginemos por um instante que o tempo suspendesse seu curso e nos libertasse, ainda que brevemente, dessa interferência estrangeira tão pouco "fraterna". Suponhamos que Abdel Halim Khaddam tivesse perdido o interesse pelo nosso destino e nos concedido um momento de trégua. O que teria sido de nós, pobres desgraçados? O que teríamos feito? Nossas elites políticas teriam corrido, por um reflexo quase atávico, para outra capital árabe ou ocidental, implorando por uma intervenção imediata, ajuda financeira ou até apoio militar. Teriam aceitado qualquer forma de subordinação que lhes permitisse enfrentar seus adversários locais — ou até mesmo municipais. Nesse jogo, ninguém foi inocente: nem quem pediu ajuda, nem quem a concedeu; nem o provedor, nem o beneficiário. Abdel Hamid Ghaleb, para lembrar A soberania de um país mede-se pela coragem de expulsar um embaixador. Em 21 de julho de 1958, o The New York Times informou que Abdel Hamid Ghaleb, embaixador da República Árabe Unida credenciado em Beirute, havia sido declarado persona non grata e obrigado a deixar o Líbano. Ele era acusado de incentivar a revolta e de fornecer apoio armado à oposição ao governo do presidente Camille Chamoun.(1) De fato, Ghaleb havia incitado à insurreição e à desobediência civil em várias regiões do país. A situação só voltou ao normal após o desembarque dos fuzileiros navais norte-americanos e a eleição do general Fouad Chehab, em 31 de julho. O controverso embaixador só retomou suas funções no início de novembro daquele mesmo ano,(2) quando o novo governo inaugurou uma política de cooperação sincera com um Nasser no auge de seu poder. Abdel Hamid Ghaleb normalizou as relações entre Beirute e Cairo e ampliou a influência egípcia sobre a vida política libanesa, alimentando novas acusações de ingerência direta nos assuntos internos do país. Embora permanecesse na órbita ocidental, Beirute procurava preservar os interesses regionais de Nasser. Após a derrota de Nasser em 1967 e seu desaparecimento da cena política em 1970, o Líbano passou da dificuldade à calamidade. Os anos seguintes foram marcados pela dor e pelo sofrimento, durante os quais a resistência armada palestina, a ocupação síria e, posteriormente, o domínio iraniano violaram sucessivamente a soberania libanesa no dia a dia. Assim, durante muito tempo e em termos absolutos, o Líbano não foi livre, nem independente, nem verdadeiramente soberano, embora viver em Beirute continuasse sendo preferível a viver em Damasco ou Bagdá, onde o Partido Baath governava em todo o seu esplendor, ou em Teerã e Isfahan, onde os aiatolás podiam desfrutar tranquilamente da proteção da Wilayat al-Faqih. Um sírio para substituir o iraniano? É consenso que um país só é soberano quando é capaz de fechar a porta na cara de um embaixador estrangeiro. Sob essa ótica, pode-se dizer que a dupla Aoun-Salam afirmou sua autoridade ao "defenestrar" o enviado da República Islâmica, isto é, ao retirar a credencial diplomática de Mohammad Reza Shibani, chefe da missão iraniana. Mas alguém já se perguntou quem ocupará o seu lugar? Afastar-se da República Islâmica é, sem dúvida, uma atitude louvável. Mas por quem ela será substituída? A recepção oferecida ao ministro sírio das Relações Exteriores na cidade de Trípoli pode suscitar dúvidas. Teria a comunidade sunita encontrado, depois de tantos anos de incerteza, um novo padrinho político? Alguns acreditam que sim. Entretanto, Ahmad al-Sharaa tem outras prioridades, sobretudo consolidar seu poder em Damasco e no restante de uma Síria profundamente fragmentada. Seria um erro ceder à tentação de abrir uma nova frente libanesa. Mesmo com o apoio de Ancara, ele não dispõe dos meios necessários para conduzir uma política regional ambiciosa. É preciso encontrar outra alternativa! (1) Sam Pope, "Envoy from Cairo ousted by Beirut; Lebanese say he had been plotting with rebels", The New York Times, 21 de julho de 1958. (2) Le Monde, "O embaixador da República Árabe Unida no Líbano retoma suas funções", 6 de novembro de 1958.

O não pronunciamento de Riad Salamé: a primazia do direito face aos rumores
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Antoine Menassa
Published
jul 23, 2026 - 17:58

Por Antoine Menassa * A Câmara de Acusação de Beirute decidiu, há alguns dias, arquivar o processo contra o ex-governador do Banco do Líbano, Riad Salamé, no caso aberto após a denúncia apresentada, em junho de 2021, pelo empresário Talal Abou-Ghazaleh. Ele o acusava de emitir circulares que modificavam o sistema econômico liberal, de ocultar a real situação dos bancos e de participar, em conluio com essas instituições, da apropriação dos recursos dos depositantes. Em sua decisão de 14 de julho de 2026, a Câmara de Acusação concluiu que não estavam reunidos os elementos constitutivos da infração alegada. Aplicando os princípios do direito penal com imparcialidade e independência, recolocou o caso em seu estrito âmbito jurídico e encerrou a ação movida contra o ex-governador. A decisão foi saudada como uma demonstração do papel da Justiça, que não deve ser guiada por impressões nem pela pressão da opinião pública, mas exclusivamente pela lei e pelas provas. A decisão também demonstra a capacidade da Justiça libanesa de, apesar das crises enfrentadas pelo país, fazer prevalecer o Estado de Direito e os princípios fundamentais da justiça. Para além do caso específico, ela afasta o risco de um precedente jurídico que poderia levar à equiparação de crimes contra o patrimônio, como furto, abuso de confiança, desvio de recursos ou fraude, a violações da Constituição, sem fundamento legal e em contradição com os princípios essenciais do direito penal. No direito, o arquivamento de um processo por falta de elementos não representa uma reabilitação emocional nem uma tomada de posição política. Trata-se de uma decisão judicial que põe fim ao processo quando as provas são insuficientes ou quando os elementos legais da infração não estão comprovados. Essa decisão constitui uma das garantias fundamentais de uma justiça moderna. A cobertura da imprensa sobre esse caso, no entanto, levanta questionamentos. Em 2021, quando as acusações vieram a público, elas receberam ampla repercussão na mídia. Emissoras de televisão, jornais e sites de notícias deram grande destaque ao caso, multiplicando manchetes e alimentando um debate que frequentemente levou a uma condenação prematura de Riad Salamé. Muitos se esqueceram, na época, de que a presunção de inocência é um princípio fundamental, que só pode ser afastada por uma decisão judicial definitiva. Agora, quando a Justiça concluiu pelo arquivamento do caso por inexistência dos elementos constitutivos da infração, a repercussão na mídia parece muito mais limitada. Como se decisões que restabelecem os fatos despertassem menos interesse do que as próprias acusações. Esse contraste levanta dúvidas sobre o papel dos meios de comunicação. Alguns deram ampla divulgação às acusações, mas concederam muito menos visibilidade à decisão judicial que as rejeitou. Como se uma informação só adquirisse valor por meio do escândalo, enquanto decisões judiciais que restabelecem direitos fossem relegadas a segundo plano. A justiça, no entanto, não se mede pela intensidade das acusações, mas pela força das provas e pelo respeito às normas do direito. A decisão da Câmara de Acusação de Beirute recorda que a primazia do direito deve sempre prevalecer sobre os rumores e que a dignidade de uma pessoa não pode ser sacrificada por julgamentos midiáticos proferidos antes daqueles dos tribunais. Por fim, permanece uma questão: até que ponto uma pessoa consegue recuperar sua reputação depois de ser inocentada, quando a condenação midiática já deixou uma marca duradoura na opinião pública? A justiça só cumpre plenamente seu papel quando decisões de arquivamento ou absolvição recebem uma visibilidade comparável à concedida às acusações. Afinal, a verdade merece tanta repercussão quanto as suspeitas, e a equidade merece tanta atenção quanto o escândalo. * Presidente-fundador da Associação de Empresários Libaneses na França (HALFA)

Teríamos traído o nosso país no passado dia 26 de junho? *
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Youssef Mouawad
Published
jul 18, 2026 - 13:57

Quando recuamos diante do fogo inimigo, quando o adversário atacou nossas cidades, arrasou tantas localidades e expulsou nossos compatriotas de seus lares, quando provou ser capaz de avançar repetidamente até cercar nossa capital e, sobretudo, quando, esgotados pela guerra, os instigadores do conflito imploraram por um cessar-fogo, é óbvio que à mesa de negociações não se pode fazer exigências e que é preciso ceder em certos princípios, como a soberania nacional e a integridade territorial! A França derrotada foi obrigada a ceder a Alsácia-Lorena ao império do Kaiser em 1871; da mesma forma, a Alemanha foi forçada, com a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919, a aceitar, entre outras medidas humilhantes, a desmilitarização da Renânia e a redução de seu exército a cem mil homens! O Hezbollah obteve uma vitória retumbante sobre Israel? Pelo que sei... Não adianta nada pavonear-se para ganhar um fôlego momentâneo, nem sacrificar-se numa batalha de retaguarda para melhorar a posição do Irã nas suas negociações com Washington. Basta que mais de quatro mil libaneses tenham dado a vida para garantir a Teerã uma margem de manobra diplomática. Com efeito, somos obrigados a reconhecer que sofremos uma pesada derrota no campo de batalha, e os libaneses, independentemente do lado a que pertençam, devem admiti-lo e tirar as devidas conclusões. Se nossas tropas tivessem tomado Metula, Nahariyya ou Haifa, se tivessem avançado até ameaçar Dimona, aí sim poderíamos acreditar que teríamos conseguido impor nossas condições a Israel. O que seria absolutamente natural: afinal, se o inimigo quisesse recuperar sua integridade territorial, teria de ceder em certos atributos de sua soberania. Mas não é esse o caso — pelo contrário, é exatamente o inverso! Portanto, reprovar a delegação libanesa por querer libertar o território libanês ao preço do desarmamento do Hezbollah pró-iraniano* é um exagero inadmissível! Exagero que rende frutos… mas tão pernicioso A paixão pode extraviar as mentes mais esclarecidas. Daí as reações de certos 'pesquisadores associados' e observadores políticos — esses histriões da integridade territorial — ao anúncio do acordo-quadro em 26 de junho passado, em Washington! Esses soberanistas de última hora acusam o Estado libanês de capitulação: indignam-se como Caifás na Semana Santa, rasgam as vestes e gritam traição. Mas essa onda de protestos esconde um jogo sujo que não honra em nada os patriotas. Se a dupla xiita e sua nebulosa querem torpedear o acordo trilateral, é para entregar o dossiê libanês aos cuidados de Teerã e incluí-lo numa negociação mais ampla, aquela que os beligerantes do Golfo Pérsico conduziriam em Islamabad ou algures na Suíça. E, para cúmulo do cinismo, os detratores da convenção de 26 de junho alegam não ter outra preocupação senão a soberania nacional e seus princípios intangíveis! Sigamos o exemplo de Abu Ammar Para Hafez al-Assad, já desde os anos setenta, o alvo a abater não era o cristão libanês, rebelde à sua lei, mas o palestiniano. A OLP era o primeiro inimigo a eliminar, muito antes da Frente Libanesa ou das Forças Libanesas. Na grande reconfiguração do espaço do Levante, e caso uma conferência internacional viesse a realizar-se para resolver o conflito israelo-árabe, o tirano de Damasco recusava que o 'trunfo' palestiniano lhe escapasse das mãos. Aos seus olhos, os palestinianos não eram mais do que sírios do Sul, e cabia a ele decidir o seu destino. Mas Yasser Arafat queria permanecer o único senhor a bordo e jogaria de gato e rato com a Síria e o autocrata instalado às margens do Barada. Jogado de um país a outro, da Jordânia ao Líbano, depois à Tunísia, Abu Ammar recusou abdicar das suas prerrogativas. Acabou por assinar em nome do seu povo em Oslo! Não ia deixar um oficial golpista de Qardaha, de legitimidade duvidosa, representar a sua nação de deslocados. Vamos ceder a "carta libanesa"? Nós, libaneses, encontramo-nos na mesma situação. Vamos conceder a carta libanesa ao Irão para reforçar o seu poder à mesa das negociações com Donald Trump? O que é mais soberano: enfrentar o adversário israelense em Washington ou Roma, ou confiar graciosamente essa carta ao império dos mulás, que, segundo alguns, saberia defender melhor os nossos interesses nacionais? Lembremo-nos de que, com a queda do regime dos Assad, pai e filho, o destino nos sorriu e o Líbano conseguiu arrancar sorrateiramente a sua carta, que havia sido confiscada por Damasco. Mas eis que uma milícia às ordens do Irão quer, com a mais declarada impudência, entregar-nos a Teerão e incluir-nos como um item na ordem do dia de negociações conduzidas exclusivamente entre iranianos e americanos! A carta libanesa não está à venda nem pode ser endossada por ordem de um patrocinador do golfo aquemênida. E, para ser completamente franco, a carta libanesa nunca trouxe sorte aos piratas! *Recordemos que o acordo-quadro assinado a 26 de junho passado pelo Líbano, Israel e os Estados Unidos tem como objetivo último libertar o território nacional de toda e qualquer ocupação, seja ela israelense ou iraniana! Seria criticado por proceder por etapas? Aguardemos para ver o que resultará das conversações em Roma, onde se reúnem as delegações.

Do excesso de poder ao poder do Estado
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Samir Abdelmalak
Published
jul 9, 2026 - 22:36

O Oriente Médio atravessa transformações sem precedentes que estão redesenhando o equilíbrio regional de poder e de segurança. Após anos de guerras abertas e conflitos por procuração, a região avança gradualmente para uma nova abordagem baseada no fortalecimento do Estado nacional, na redução da influência de organizações armadas não estatais e na reconstrução das instituições militares e de segurança como a única garantia de estabilidade. Nesse contexto, o Líbano tem uma oportunidade rara de repensar sua arquitetura de defesa em sintonia com as mudanças regionais, preservando ao mesmo tempo seus interesses nacionais. Ao longo das últimas décadas, o Hezbollah acumulou capacidades militares e tecnológicas avançadas nas áreas de comando, inteligência, drones, guerra eletrônica, comunicações e logística. Esse conjunto de conhecimentos constitui um valioso capital humano que não deve ser desperdiçado. Pelo contrário, dentro do marco da autoridade legítima do Estado, ele deveria ser incorporado às Forças Armadas Libanesas e às instituições de segurança do país, fortalecendo assim a soberania estatal, em vez de perpetuar a dualidade da autoridade na área da segurança. A experiência internacional, da África do Sul à Colômbia, demonstra que o fim dos conflitos não se alcança pela exclusão dos combatentes nem pelo desperdício da experiência que adquiriram, mas por sua reintegração às instituições do Estado, de acordo com critérios profissionais e jurídicos claramente definidos. O êxito de qualquer processo de transição depende, em última instância, da capacidade do Estado de incorporar essas competências, ao mesmo tempo em que afirma seu monopólio absoluto sobre o uso da força e sobre a decisão de fazer a guerra ou firmar a paz. As transformações que hoje remodelam a região, juntamente com as novas prioridades econômicas e de segurança que elas impõem, tornam indispensável que o Líbano inicie um diálogo nacional sobre uma estratégia abrangente de defesa. Esse processo deve ser acompanhado por um plano de modernização das Forças Armadas Libanesas, pela criação de um Centro Nacional de Inovação em Defesa e Cibersegurança e pelo aproveitamento da experiência libanesa nas áreas de tecnologias e de indústrias de defesa de ponta. A nova equação já não se baseia na existência de múltiplos centros de poder, mas em um Estado fortalecido por suas instituições, capaz de proteger suas fronteiras, conquistar a confiança da comunidade internacional e atrair investimentos. O momento atual não é de acerto de contas, mas de construir um novo pacto nacional que coloque todas as capacidades e todos os conhecimentos a serviço da República. Os Estados não se reerguem porque um lado derrota o outro, mas quando o próprio Estado se torna o único vencedor e quando as armas, a decisão soberana e a própria soberania passam integralmente para a autoridade das instituições constitucionais. Somente assim o Líbano poderá abrir caminho para a estabilidade e a prosperidade em um Oriente Médio que se transforma rapidamente.

Quando a sociologia branqueia o Hezbollah
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Makram Rabah
Published
jul 9, 2026 - 16:22

Há uma lógica que reaparece toda vez que a questão das armas do Hezbollah vem à tona. Ela procura apresentar o partido não como uma autoridade armada que confiscou a decisão de uma comunidade e de um país, mas como a extensão natural da comunidade xiita libanesa, como se questionar o Hezbollah fosse questionar os próprios xiitas e como se desarmá-lo significasse arrancar toda uma comunidade de sua história, de sua memória e de seus meios de proteção. Essa lógica não é apenas equivocada. É ofensiva. Ela reduz os xiitas ao seu medo. Transforma sua longa história no simples prelúdio de um fuzil. Trata toda uma comunidade como se ela só pudesse existir dentro da estrutura de um partido armado, como se Jabal Amel, Najaf, a jurisprudência islâmica, o reformismo, os ulemás, os intelectuais, os agricultores, os estudantes, os comerciantes e toda a experiência nacional dos xiitas libaneses não tivessem sido mais do que uma preparação para a Wilayat al-Faqih. A verdade é simples: os xiitas não começaram com o Hezbollah e tampouco terminarão com ele. Antes do partido já existia uma longa história de conhecimento, de vida política, de organização social, de moderação, de representação e de luta por justiça. Existiam o Sayyed Mohsen al Amin, o imã Musa al Sadr, o Sayyed Mohammad Mahdi Shamseddine e o Sayyed Hani Fahs. Existia um discurso xiita libanês que compreendia o significado do Estado, o sentido da convivência nacional e o valor da dignidade, uma dignidade que não pode ser reduzida a armas fora das instituições, que não se mede pelo número de foguetes e que não se vende no mercado dos eixos regionais. O Hezbollah se beneficiou do medo, da ocupação israelense, da ausência do Estado, de uma marginalização histórica e das feridas muito reais infligidas ao sul do Líbano, ao Vale do Bekaa e aos subúrbios do sul de Beirute. Mas tirar proveito de uma ferida não dá a ninguém o direito de se apropriar do corpo que a carrega. O que pode ter começado, em determinado momento, como uma resposta ao medo acabou se transformando, pouco a pouco, em um sistema permanente de fabricação do medo. O partido diz às pessoas: eu as protejo do perigo. Em seguida, faz de sua própria existência uma razão permanente para convocar esse perigo. Diz que protege o sul do Líbano, mas transforma a região em um campo de batalha permanente. Diz que protege os xiitas, mas faz com que eles paguem o preço de suas guerras, de suas sanções, de suas alianças e de decisões sobre as quais não têm qualquer voz. Quanto ao discurso sobre hospitais, escolas, empréstimos, salários e serviços, ele não demonstra a legitimidade das armas. Ele revela a dimensão da catástrofe. Quando um cidadão precisa de um partido para nascer, estudar, receber atendimento médico, conseguir um empréstimo, trabalhar e enterrar seu mártir, já não se trata de um simples ambiente de apoio, mas de uma estrutura de cativeiro social. Os serviços não conferem o direito de declarar guerra. A assistência não justifica o confisco do poder de decisão. Um salário mensal não transforma uma família em falsa testemunha da legitimidade das armas. As máfias também oferecem proteção. Os regimes totalitários também distribuem pão. As organizações criminosas também sabem tornar as pessoas dependentes delas. Mas a questão não é o que um poder como esse oferece. A questão é o que ele toma. E o Hezbollah tomou muito mais do que deu. Tomou a decisão sobre a guerra e a paz. Tomou o direito à dissidência dentro da comunidade xiita. Tomou a imagem dos xiitas no Líbano e no mundo árabe. Apropriou-se da religião para transformá-la em uma máquina de mobilização. Apropriou-se do martírio para convertê-lo em capital político. Apropriou-se do medo para transformá-lo em um contrato de submissão de longo prazo. A coisa mais perigosa que o Hezbollah fez foi atrelar o destino dos xiitas ao seu próprio destino. Fez com que toda pressão exercida contra o partido parecesse uma pressão contra eles, toda crítica ao partido parecesse uma ofensa dirigida a eles e toda tentativa de desarmá-lo fosse apresentada como uma ameaça à sua própria existência. Isso não é genialidade social. É chantagem política cuidadosamente calculada. Quando um partido coloca, na mesma corrente, um hospital, uma escola, um empréstimo, um salário, um mártir e um foguete, ele não está construindo uma sociedade normal. Está construindo uma grande jaula, uma jaula com muitas portas de serviço, mas da qual não existe uma saída política livre. Os xiitas têm todo o direito de perguntar: quem vai nos proteger? Essa é uma pergunta legítima. Ela não pode ser descartada, porque o Estado libanês falhou com eles, assim como falhou com outros, e porque o sul do Líbano pagou um preço altíssimo em ocupações, guerras e destruição. Mas uma pergunta legítima não pode ser transformada em uma resposta eterna em favor de uma milícia. “Quem vai nos proteger?” não significa que as armas devam permanecer para sempre fora do Estado. Não significa que a decisão de uma comunidade e de um país deva continuar nas mãos de uma organização vinculada a um projeto regional. Tampouco significa que as pessoas devam ser obrigadas a escolher entre o partido e o extermínio, entre o Estado e o massacre, entre o Líbano e o Irã. A proteção não se alcança tornando o medo permanente. Ela se constrói por meio de um Estado capaz, de um único Exército, de uma única autoridade para decidir, de fronteiras que não estejam sob o controle de uma organização e de uma política externa que não seja conduzida nem pelos subúrbios do sul de Beirute nem de Teerã. Proteger os xiitas significa reintegrá-los ao Estado, e não convencê-los de que o Estado é impossível e de que o partido constitui o seu único destino. Os que afirmam que o fracasso do Estado justifica a sobrevivência da milícia se parecem com aqueles que dizem que o fracasso de um médico justifica entregar o paciente, para sempre, aos cuidados de um charlatão. A memória utilizada para justificar as armas também é uma memória incompleta. Sim, existem 1978, 1982, a ocupação israelense e o abandono oficial. Mas existe também uma outra memória: a das guerras travadas dentro do próprio país, da repressão às vozes xiitas independentes, das acusações de traição lançadas contra os dissidentes, do arrastamento do Líbano para a guerra de 2006, do envio de jovens para a Síria, o Iraque e o Iêmen, da transformação do sul do Líbano em uma plataforma de um conflito que seus habitantes não decidem e da obrigação imposta às pessoas de chamar derrota de vitória e ruína de firmeza. Ninguém tem o direito de falar em nome da memória xiita enquanto apaga dessa memória tudo o que o partido fez aos próprios xiitas. Ninguém tem o direito de invocar as imagens da ocupação israelense para impedir que se levantem perguntas sobre a ocupação da decisão política pelo partido. E ninguém tem o direito de transformar um medo antigo em uma escritura de propriedade sobre o futuro. Os xiitas são maiores do que o Hezbollah. O sul do Líbano e suas aldeias não são um depósito para os mísseis do Irã. Os subúrbios do sul de Beirute não são um quartel. O Vale do Bekaa não é um corredor militar. O martírio não é um cheque em branco nas mãos de um partido. A religião não é uma carteira partidária. A privação não é uma licença perpétua para confiscar o Estado. A memória não é uma prisão. O medo não é uma identidade. O que se exige não é deixar os xiitas sem proteção, mas libertá-los de uma falsa equação que lhes diz que sua segurança só pode vir da força que confiscou sua capacidade de decidir. O que se exige não é ignorar suas feridas, mas impedir que essas feridas sejam transformadas em objeto de comércio. O que se exige não é negar que o Estado fracassou, mas rejeitar que esse fracasso se transforme em um mandato permanente para um partido armado. Um Estado se constrói quando é retomado das mãos das milícias, e não quando o que dele resta lhes é entregue. A pior maneira de dizer que se está defendendo os xiitas é apresentá-los como uma comunidade aprisionada a um único destino, sem outro futuro além das armas, sem outra segurança além do partido e sem outra dignidade além de um projeto cujas decisões ela não controla. Essa defesa pode parecer, à primeira vista, um gesto de solidariedade. Na essência, porém, ela representa um apagamento. Ela não enxerga o xiita como um cidadão livre, mas como alguém dependente, aprisionado pelo medo, que precisa de um tutor armado para lhe explicar o significado da própria sobrevivência. A verdade é mais simples do que toda essa retórica: o Hezbollah já não protege os xiitas do perigo. Tornou-se o próprio perigo do qual lhes pede que temam tudo, menos ele mesmo. E quando a proteção se transforma em cativeiro, quando a condição de vítima se transforma em moeda de troca e quando as armas se transformam em destino, o dever da palavra já não é perguntar como preservar esse sistema, mas como libertar as pessoas dele. Uma comunidade que deu ao mundo estudiosos, reformadores, figuras da resistência, pensadores e cidadãos não pode ser reduzida a uma organização, sobretudo a uma organização que fracassou moralmente antes mesmo de fracassar politicamente. Pessoas que pagaram o preço da ocupação, das guerras e do abandono não podem ser obrigadas a pagar um novo preço para que o partido continue acima do Estado. Quem realmente deseja fazer justiça aos xiitas deve começar reconhecendo que eles não pertencem a ninguém: nem a um partido, nem a um eixo, nem a um Líder Supremo. Os xiitas são cidadãos libaneses. Sua proteção está em um Estado que os proteja, e não em uma milícia que instrumentaliza o seu medo. E o seu futuro está no Líbano, não na espera de uma nova guerra decidida por outros e paga por eles.

Terra em troca da paz
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Fady Noun
Published
jul 6, 2026 - 13:17

“Terra em troca da paz.” Em apenas quatro palavras, com uma formulação antiga e ainda atual, resume-se o acordo israelo-libanês firmado em Washington (23 a 26 de junho), desde que se coloque o interesse da população das aldeias destruídas acima de qualquer outra consideração. O restante é detalhe. Sim, terra em troca da paz, mas não de qualquer paz. Uma paz baseada na concentração das armas nas mãos do Estado libanês tal como ele existe hoje: uma democracia parlamentar, terra de liberdade e de pluralismo. Também se poderia dizer assim: a terra em troca das armas do Hezbollah. Porque, ao contrário do que muitos pensam, o Acordo de Washington é um acordo de paz, não um acordo de guerra. Ele poderia ser aplicado sem que um único tiro fosse disparado. O Hezbollah falou em “guerra civil”. Mas quem deseja uma guerra civil? O acordo de Washington permitiria substituir as forças do Hezbollah, profundamente desgastadas, por forças estatais legais e pluriconfessionais, cuja única função seria defensiva, e não ofensiva. De fato, o Líbano não tem qualquer ambição territorial sobre Israel. Tudo o que deseja e reivindica é o respeito às suas fronteiras, algo que está claramente previsto no Acordo de Washington. E apenas isso. O Irã conseguiu obter um cessar-fogo, ainda que bastante relativo, no Líbano ao lançar uma salva de mísseis balísticos contra Israel. Mas, diante da correlação de forças existente, é irrealista acreditar que Teerã também conseguirá, por meio da ameaça, obter uma retirada israelense total do território libanês. Tudo o que essa dinâmica poderia produzir seria um aumento do número de mortos e da destruição, acompanhado do risco de anexação. Em outras palavras, uma guerra de mil anos. Trata-se de um acordo de capitulação? Sim, em um sentido estrito da palavra. Porque o acordo de paz que ele impõe corresponde, em sua essência, tanto a uma demanda libanesa quanto israelense, já que o episódio de guerra ao qual põe fim ocorreu contra a vontade do Estado libanês, em decorrência de uma decisão iraniana à qual Beirute era profundamente contrária. Afinal, que restrições desnecessárias ele imporia ao Líbano? A de não possuir capacidade nuclear? Ou não dispõe de uma força aérea militar? Os idealizadores do Acordo de Washington não apenas não desejavam a guerra, como eram profundamente contrários à ideologia belicista que move o Hezbollah. Essa ideologia deu ao grupo a ilusão de travar uma jihad heroica a serviço de Deus. Mas todos puderam ver como esse combate levou a um massacre e a destruições que talvez sejam irreversíveis. Além disso, como o Hezbollah pôde imaginar, por um único instante, que sua ideologia político-religiosa seria capaz de conquistar a adesão dos cristãos, sem falar das demais comunidades que compõem o Líbano? O Líbano faz parte da comunidade árabe, não da comunidade islâmica. Embora a paz com Israel seja estranha à ideologia iraniana, ela não é estranha ao mundo árabe. Parte dele já assinou acordos de paz com Israel, enquanto outra parte, liderada pela Arábia Saudita, condiciona esse passo ao surgimento de um Estado palestino. A comunidade cristã está ainda mais distante desse horizonte de pensamento porque ela própria pagou o preço desse tipo de aventureirismo durante as Cruzadas. Sem dúvida, pode-se afirmar sem hesitação que o direito à autodefesa continua sendo sagrado. No entanto, a Igreja Católica passou a questionar o conceito de “guerra justa”, que no passado chegou a apoiar, diante da impossibilidade de que suas condições sejam hoje atendidas na era dos algoritmos, das máquinas autônomas e da dissuasão nuclear. Hoje já não existem armas “convencionais”. Todos conhecem a célebre frase atribuída a Einstein sobre a guerra atômica. Defensor do desarmamento nuclear, ele teria afirmado que, caso uma Terceira Guerra Mundial acontecesse, “a quarta seria travada com paus e pedras”. Ao contrário, as comunidades cristãs do Oriente, que pagaram um preço muito alto pelo episódio da espoliação da Palestina, aspiram agora a exercer plenamente seu direito de acesso aos seus lugares santos: Jerusalém, Nazaré e Belém, lugares onde viveu seu Salvador e onde ressuscitou, vencedor da morte e da violência. É nesse sentido que podem esperar acreditar na promessa deixada por Cristo: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” A terra não pertence aos violentos, diz o Senhor. Ela pertence a homens que, como Joseph Aoun, aprenderam com a guerra a “odiar a guerra”. Foi isso que o ouvimos dizer durante sua entrevista à Christiane Amanpour, da CNN. O chefe de Estado faria bem em reservar um espaço na televisão para explicar o acordo de Washington à população libanesa.

Nabih Berri.. Basta de chantagem!
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Jad Akhawi
Published
jul 4, 2026 - 15:48

Em cada momento decisivo atravessado pelo Líbano, o mesmo discurso ressurge: a ameaça de derrubar o governo, os alertas para um novo colapso e a escalada da tensão política. No entanto, a pergunta já não é se Nabih Berri é capaz de derrubar o governo. A verdadeira questão passou a ser outra: o que acontecerá depois? Qual é a alternativa? Que visão ele propõe para o Líbano? E como o país sairá da crise se voltar a mergulhar no círculo vicioso do vazio político e institucional? Se a oposição ao Acordo-Quadro decorre realmente do desejo de defender a soberania do Líbano, aqueles que o rejeitam deveriam apresentar uma alternativa clara, realista e viável. Limitar-se a exigir a queda do governo sem oferecer o menor roteiro apenas condena os libaneses a uma incerteza ainda maior. Mas a questão central é outra: o problema se resume realmente ao governo? Se, segundo essa lógica, o governo perdeu sua legitimidade política, o que dizer então do Parlamento do qual ela deriva? Se a solução é derrubar o Poder Executivo, por que os defensores dessa tese não levam seu raciocínio até as últimas consequências e também defendem a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições legislativas antecipadas? A questão torna-se então ainda mais incômoda. Nabih Berri pode garantir que será reconduzido à presidência do Parlamento caso sejam realizadas novas eleições? A dupla xiita pode assegurar que o atual equilíbrio de forças dentro do Parlamento permanecerá intacto? Se a resposta está longe de ser certa, os libaneses têm o direito de perguntar se o verdadeiro objetivo é salvar o Líbano ou simplesmente preservar um equilíbrio político que perdura há anos. A democracia não pode ser praticada de forma seletiva. Quem exige a mudança de governo também deve estar disposto a aceitar uma recomposição completa do poder e submetê-la ao julgamento das urnas, em vez de decidir quais instituições devem mudar e quais devem permanecer imunes a qualquer forma de responsabilização política. A experiência demonstrou que a política do bloqueio jamais construiu um Estado. Pelo contrário, contribuiu para enfraquecê-lo. Sempre que o Líbano vislumbra uma oportunidade de reconstruir suas instituições, a linguagem das ameaças e da escalada reaparece, como se o objetivo fosse manter o país à mercê dos equilíbrios de poder, em vez de colocá-lo sob a autoridade da Constituição. O aspecto mais preocupante desse discurso é que ele coloca os libaneses diante de uma única alternativa: submeter-se às condições políticas impostas pela dupla xiita ou ver o governo cair e o país mergulhar em uma nova crise. Isso já não pode ser visto como uma oposição política normal. Transformou-se em um instrumento permanente de pressão sobre o Estado e suas instituições, cujo preço é pago exclusivamente pelos libaneses. Nas democracias, os governos são contestados dentro das instituições e só caem quando existe uma maioria constitucional respaldada por um programa alternativo claro. Não caem porque o bloqueio tenha se transformado em uma forma de governar, nem porque o vazio institucional tenha passado a ser utilizado como instrumento de negociação. Se o presidente do Parlamento, Nabih Berri, rejeita o Acordo-Quadro, esse é um direito político que lhe assiste. Se pretende derrubar o governo, esse também é um direito assegurado pela Constituição, desde que estejam reunidas as condições exigidas. Mas os libaneses também têm o direito de lhe fazer uma pergunta simples: o que virá depois? Quem formará o próximo governo? Com que maioria parlamentar governará? Qual será seu programa? Como recuperará a economia? Como conduzirá a reconstrução do sul do país? E como restabelecerá a confiança do mundo árabe e da comunidade internacional? Si el verdadero objetivo no es más que conseguir un nuevo instrumento de presión para imponer determinadas condiciones políticas, los libaneses ya no pueden seguir soportando esa lógica. Han pagado un precio exorbitante por la parálisis de las instituciones, el colapso de la economía y el aislamiento del Líbano de su entorno árabe e internacional. Ya no es aceptable que su futuro siga siendo rehén de los cálculos de las fuerzas políticas. Ha llegado la hora de abandonar la lógica del “o se hace lo que queremos o no hay Estado”. El Estado no pertenece a nadie. El Gobierno no es un botín. El Parlamento no es patrimonio exclusivo de ninguna fuerza política. Y la legitimidad solo se renueva mediante la voluntad del pueblo. Si quienes invocan la democracia realmente creen en ella, deben aceptarla en toda su dimensión y no solo cuando les conviene. Deben aceptar que sea el pueblo quien decida quién gobierna, quién preside el Parlamento, quién permanece en el poder y quién debe abandonarlo. En cambio, la amenaza de hacer caer al Gobierno cada vez que cambian las circunstancias, mientras se rechaza siquiera abrir un debate sobre una recomposición integral del poder, ya no convence a los libaneses. Están cansados del chantaje político, de la parálisis del Estado y de que su futuro siga convirtiéndose en una moneda de cambio dentro de un conflicto que parece no tener fin. Hoy el Líbano necesita hombres de Estado que construyan instituciones, no políticos que amenacen con derribarlas cada vez que sus decisiones entren en conflicto con sus propios intereses.

Acordo-quadro: a vitória do Estado contra o caos
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Jad Akhawi
Published
jun 27, 2026 - 21:07

Cada vez que o Líbano se aproxima de uma tentativa séria de reorganizar sua relação com o ambiente ao redor e consigo mesmo, um discurso já pronto ressurge, reduzindo todo processo de negociação a uma «rendição». Essa qualificação não é mais uma simples divergência política: tornou-se um instrumento de bloqueio sistemático de qualquer processo capaz de reabilitar a própria noção de Estado. Mais grave ainda, serve para privar o Estado de sua própria legitimidade sempre que ele exerce seu papel natural: negociar e tomar decisões. O acordo-quadro proposto não é uma rendição. Pelo contrário: constitui uma tentativa avançada de reintegrar o Líbano ao círculo dos Estados que detêm sozinhos sua decisão soberana por meio de suas instituições, e não por meio de centros de poder paralelos ou externos ao Estado. Primeiro: negociar não é ceder, é exercer a soberania Os Estados não se medem por seus slogans, mas pela capacidade de gerir conflitos com as ferramentas da política, em vez de deslizar para a explosão. A negociação, em sua essência, não é sinal de fraqueza, mas uma das formas mais elevadas do uso do poder político quando colocada a serviço da estabilidade e da prevenção da guerra. O acordo-quadro parte de um princípio fundamental: encerrar o estado de conflito por meio de um processo de negociação direta, sob auspícios internacionais. Não se trata de um «ditado externo», como alguns tentam fazer crer, mas do reconhecimento de que crises complexas não podem ser resolvidas apenas internamente, sobretudo quando os equilíbrios estão profundamente desestabilizados. Aqueles que afirmam que o simples fato de sentar à mesa de negociação constitui uma rendição rejeitam, na verdade, o próprio princípio da política, e reduzem o Estado a um slogan em vez de uma ação concreta. Segundo: o Estado recupera seu papel… não abre mão dele Um dos principais pilares do acordo consiste em fortalecer a capacidade do Estado libanês de exercer plenamente sua autoridade em matéria de segurança. Isso não é tanto uma exigência externa quanto a própria essência de qualquer Estado normal. O monopólio das armas pelo Estado não é uma cláusula de negociação: é uma regra constitucional. O que se requer nesse âmbito é: unificar a decisão em matéria de segurança dentro das instituições legítimas; pôr fim à dualidade do poder armado; consagrar o princípio de que somente o Estado é a fonte de decisão em matéria de guerra e paz. Como podem aqueles que reivindicam um Estado forte considerar o fortalecimento do Estado uma «rendição»? Trata-se de uma contradição política que não resiste a nenhuma lógica institucional. Terceiro: o discurso da «rendição» esconde a recusa do Estado, não a recusa do acordo O discurso que qualifica o acordo de rendição não debate suas cláusulas. Rejeita o próprio princípio da existência de um Estado capaz de tomar sua decisão soberana. O problema não está no acordo, mas na recusa da ideia de que: o Estado é a única referência em matéria de armas; o Estado é quem negocia em nome de todos; o Estado é quem define o quadro de segurança e político. Assim, qualificar o acordo de rendição torna-se um mero revestimento retórico destinado a impedir a passagem do Líbano da lógica das forças paralelas para a do Estado único. Quarto: a lógica da «resistência absoluta» não constrói um Estado O Líbano pagou o preço de décadas de uma lógica segundo a qual todo entendimento é uma concessão, toda negociação uma derrota e toda abertura uma traição. O resultado é claro: um Estado enfraquecido, uma economia esgotada, uma sociedade dividida. Os Estados não se constroem sobre a recusa permanente, mas sobre a capacidade de: gerir os equilíbrios; reduzir os riscos; obter os ganhos possíveis em vez de perder tudo. O acordo-quadro, por mais complexo que seja, insere-se nessa lógica: transformar um conflito aberto num processo que possa ser gerido e enquadrado. Quinto ponto: onde está a capitulação? Na perpetuação do caos ou no seu enquadramento? A verdadeira questão não é saber se o acordo constitui ou não uma concessão, mas sim: o Líbano deve permanecer num estado de conflito permanente e descontrolado, ou enveredar por um processo gradual de organização política e securitária? A verdadeira capitulação não está na negociação, mas sim: no bloqueio do Estado; na consagração da dualidade de poder decisório; na manutenção do país como refém dos riscos de uma guerra aberta. Quanto ao acordo, constitui uma tentativa de romper esse círculo vicioso, e não de o perpetuar. Sexto ponto: o argumento do «desequilíbrio» não elimina a necessidade do Estado Afirma-se que o acordo não é equilibrado. Mas mesmo perante desequilíbrios, a alternativa não é a recusa, mas a negociação para melhorar as condições. O Estado não se constrói pelo isolamento, mas pelo envolvimento. A soberania não se restaura abandonando a mesa, mas impondo a sua presença nela. O que importa, no final, não é apenas a forma do acordo, mas saber se ele reforça ou enfraquece a capacidade do Estado. Ora, todas as cláusulas que remetem para o monopólio das armas pelo Estado, a unificação da decisão securitária e a reconstrução das instituições apontam numa única direção: fortalecer o Estado, não desmontá-lo. Em definitivo, o Estado não é uma capitulação… é precisamente o seu oposto O mais perigoso no discurso que ataca o acordo rotulando-o de «capitulação» é que inverte os conceitos: transforma o Estado num adversário e o caos numa postura soberanista. A verdade, porém, é clara e simples: a capitulação é quando o Estado é incapaz de ser um Estado. Quando começa a recuperar o seu poder de decisão, as suas instituições e a sua autoridade, isso não é uma capitulação… é o início da saída da capitulação. O Líbano encontra-se hoje perante duas escolhas, sem uma terceira via: ou um Estado que negocia, decide e constrói o seu futuro, ou um estado permanente de negação que só produz colapso. O acordo-quadro, independentemente das divergências em torno dos seus detalhes, constitui um passo em direção ao Estado. E aqueles que a ele se opõem rotulando-o de «capitulação» não estão apenas a opor-se a um acordo… estão a opor-se à própria ideia de Estado.